Nuclear, o monstro que legamos ao futuro – João Camargo

[Artigo originalmente publicado em sabado.pt a 10 de junho de 2016]

Se com o agravamento das alterações climáticas e necessidade do fim da utilização dos combustíveis fósseis se exploram todas as possibilidades, a ameaça nuclear volta a estar na ordem do dia. E quando se diz energia nuclear devia dizer-se mesmo ameaça nuclear, porque são uma e a mesma coisa. A irresponsabilidade histórica de construir centrais nucleares teve como motivação a construção de armas atómicas de destruição em massa e continuou pelo desprezo pelas consequências que esta tecnologia tem na humanidade e no planeta.greenpeace-almaraz

A central de Almaraz, como já foi amplamente divulgado, é uma central nuclear fora do prazo (devia ter sido fechada em 2011), perigosa (54 acidentes graves e 32 paralisações de emergência desde a sua inauguração em 1981), desleixada (teve 4.000 modificações desde a sua fundação e 55 dos seus seguranças já foram detidos por terem cadastro e não terem formação para as funções desempenhadas) e inútil (tem uma potência de 2.083 MW num sistema energético espanhol com um excedente de 60.000 MW). A mobilização ibérica revela também como o posicionamento de Almaraz no Tejo e a 100 km de Portugal torna os problemas de Almaraz em problemas internacionais e sem fronteiras. Um acidente nuclear em Almaraz colocaria em causa direta a existência de Portugal enquanto país, com o país a ser cortado ao meio (de Madrid a Lisboa a devastação seria garantida e o Tejo tornar-se-ia um rio morto e venenoso). Apesar disso, como rende 161 milhões de euros anuais à Iberdrola e à Endesa em rendas energéticas garantidas, continua a funcionar e, pasme-se, falam de uma nova extensão, 20 anos fora do prazo, e cada vez mais perigosa, com materiais mais velhos e sistemas de segurança mais frouxos.

Esta tecnologia que se tentou domesticar sem nunca se conseguir, está amplamente fora do controlo humano: os acidentes nucleares de Three Mile Island, nos Estados Unidos, Chernobyl na União Soviética e Fukushima no Japão são apenas o corolário desse descontrolo

A indústria e a tecnologia nuclear são lideradas pela arrogância da ignorância, a irresponsabilidade organizada de quem não presta contas perante ninguém e que lava as mãos das consequências diretas da produção elétrica a partir da cisão de átomos de urânio. Esta tecnologia que se tentou domesticar sem nunca se conseguir, está amplamente fora do controlo humano: os acidentes nucleares de Three Mile Island, nos Estados Unidos, Chernobyl na União Soviética e Fukushima no Japão são apenas o corolário desse descontrolo. Tentar controlar o processo nuclear implica ter um sistema de segurança além da atual capacidade humana. A extração de calor a elevadíssima temperatura e pressão tem todas as condições de falhar. Se uma falha pontual pode ser remediada e sistemas de segurança altamente redundantes podem reduzir o risco de acidentes de grande magnitude, a verdade é que a extensão no tempo aumenta as falhas pontuais, as fugas de água e vapor radioativos e a possibilidade de eventos extremos que precipitam falhas sucessivas nos sistemas de segurança e a possibilidade sempre presente do aumento descontrolado da reação nuclear e da explosão nuclear. E isto é só o início.

Os resíduos de uma central nuclear, principalmente Urânio 238 (U-238), Urânio 235 (U-235) e Plutónio são, à escala da vida humana, imortais

Uma vez fechada uma central nuclear, não há um botão de desligar, o que se vai fazendo é reduzindo a reação nuclear. Mas os resíduos de uma central nuclear, principalmente Urânio 238 (U-238), Urânio 235 (U-235) e Plutónio são, à escala da vida humana, imortais. A meia-vida, isto é, o tempo para que os resíduos percam metade da sua radioatividade, do U-238 é de 4 mil milhões de anos, a do U-235 é de 700 milhões de anos e a do Plutónio é de 24 mil anos. O perigo destes materiais continua durante milhões de anos e tem de ser isolado da biosfera para que não contamine e irradie as pessoas e a natureza durante esse tempo. É impossível garanti-lo. Impossível. Todas as experiências até hoje, desde a deposição em antigas minas a largas centenas de profundidade até ao criminoso afundamento de navios com material radioativo nas costas Leste e Oeste do continente africano, provaram apenas como não existe nenhuma solução para o que sobra da produção da energia nuclear.

Quando fecharmos Almaraz, o que acontecerá é que reduziremos a intensidade da fissão nuclear e deixaremos de colocar a energia na rede elétrica, embora tenhamos de manter a refrigeração. Além disso, as novas estruturas de proteção da central serão diretamente afetadas pela radiação, o que significa que a cada 20-30 anos será necessário novas obras. Se o material for criminosamente colocado em algum sítio para “armazenamento” nas “melhores práticas”, isso significa que esse sítio terá de ser vigiado e protegido, no mínimo, durante 24 mil anos. 24 mil anos. Há 24 mil anos atrás não existia sequer Agricultura. Quem é que será responsável pela manutenção desses depósitos, quer em cemitérios nucleares, quer nas centrais fechadas? As empresas? Daqui a 24 mil anos? Os Estados? Os mais velhos têm na melhor das hipóteses 2 mil anos em áreas similares às atuais, em que já assumiram várias condições, desde impérios a colónias, com milhares de guerras, fomes e desastres naturais. A mirífica ideia de exportar resíduos nucleares para o espaço em naves espaciais só bate de facto quando confrontamos a realidade monumental de estarmos a construir estruturas que serão radioativas durante milhões de anos. Tão cedo podemos falar de mandá-las para o espaço como de teleportá-las para o sol, o núcleo da Terra ou outra galáxia. Tratar resíduos nucleares é ficção científica. E continuam a construir centrais.

A operação quotidiana de uma central nuclear é altamente poluidora: o rio Tejo tem um nível de poluição radiológica acima de qualquer outro rio português devido à central de Almaraz

Além disso, a operação quotidiana de uma central nuclear é altamente poluidora: o rio Tejo tem um nível de poluição radiológica acima de qualquer outro rio português devido à central de Almaraz. Quando mais perto estamos da central, maior a poluição radiológica. E se existe uma diretiva europeia para a qualidade da água, a Diretiva-Quadro da Água, que avalia as massas de água na Europa, as suas condições físicas, químicas e biológicas: temperatura, poluição bacteriológica, pH, matéria suspense, etc., a mesma não tem qualquer avaliação do estado radiológico das águas. Isto num continente que tem 185 centrais nucleares (contando com a Rússia e a Ucrânia). A irresponsabilidade organizada, sempre presente. A subida do nível de segurança de urânio na água, decidida pela Organização Mundial de Saúde, de 2μg por litro em 1998 para 15 μg/L em 2004 e para 30 μg/L em 2011, depois do acidente de Fukushima, mostra apenas como a força da indústria nuclear controla todos os processos e como a radiação sobe em todas as massas de água. E sobe de tal maneira que as margens de segurança têm de ser permanentemente elevadas, ou então seria necessário admitir que a contaminação por radiação derivada da energia nuclear é difusa e afeta todos os habitantes do planeta que bebem água e consomem alimentos.

O monstro nuclear é um dos piores que já foi libertado sobre a humanidade e sobre o planeta

O monstro nuclear é um dos piores que já foi libertado sobre a humanidade e sobre o planeta. Revela uma arrogância e uma prepotência própria de quem não consegue deixar de olhar para o seu umbigo, 24 horas por dia, 7 dias por semana, 365 dias por ano. É a arma dos idiotas, porque um plano bem pensado para prejudicar todo o futuro da Humanidade não conseguiria atingir o requinte que a produção de energia nuclear atingiu. E com o outro monumental monstro, as alterações climáticas, veremos com certeza os abutres, os oportunistas e os mentecaptos voltarem a cantar-nos lôas da energia nuclear como limpa, barata e segura. Não é nenhuma das três. É a mais suja que já alguma vez foi usada e é de duvidar que algum humano ainda veja a sua neutralização daqui a milhares milhões de gerações. É barata só se os seus efeitos não forem contabilizados, se a poluição de todo o planeta, o impacto na saúde e na vida das pessoas e a irresponsabilidade quando ocorrem acidentes graves continuar a vingar. Segura? Só se nos esquecermos de toda a sua história. E é o único plano que nos podem vender para defender o nuclear: esquecimento e ignorância.

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