Prometeu, o estúpido – João Camargo

[Artigo publicado em sabado.pt no dia 18 de julho de 2016]

Segundo a mitologia grega é no Cáucaso, entre a Ásia e a Europa, que Zeus prendeu Prometeu, o titã que enganou o rei do Deuses e entregou aos homens o domínio sobre o fogo. Prometeu ficou ali durante anos, com uma águia a comer o seu fígado todos os dias como punição eterna. O mito de Prometeu, da procura incessante pelo conhecimento (e pela energia), desafiando os deuses para favorecer os humanos, é pai de uma crença inabalável no progresso linear e na inexistência de limites para o que a espécie humana pode fazer.nuclear-waste

Presunção e água benta cada um toma quanta quer. O problema é que a visão do crescimento infinito e linear e a crença na resposta tecnológica para todos os problemas criados tem servido uma narrativa de irresponsabilidade absoluta que tem como ponto máximo a desregulamentação das atividades económicas, energéticas, industriais e agrícolas.

Onkalo, na Finlândia, é o primeiro depósito final de resíduos nucleares alguma vez criado. Apesar de haver 444 centrais nucleares em todo o mundo, de estarem em construção mais 63, de já haver 250 mil toneladas de resíduos nucleares em todo o mundo sem nenhum tratamento disponível, que contaminam e contaminarão o planeta durante centenas de milhares de anos, só agora está em construção o primeiro depósito final de resíduos nucleares.

Este depósito destina-se aos resíduos das duas centrais nucleares existentes na Finlândia, com dois reatores cada. Está a ser construído para durar 100 mil anos, isto é, será a obra humana com maior longevidade que a atual civilização já criou. Por comparação, as pirâmides mais antigas que conhecemos têm cerca de 4600 anos de idade. Para sobreviver 100 mil anos, o depósito está a ser construído no subsolo, a 500m de profundidade, pela razão simples de que as condições à superfície mudam, enquanto no subsolo mudarão muito menos, pelo menos teoricamente. Uma vez que a região onde o depósito está a ser construído tem pouca atividade sísmica e vulcânica, este será um dos ambientes mais estáveis do planeta Terra.

O túnel na rocha maciça terá 6km de comprimento e a sua construção só terminará perto do ano 2100. O objetivo é que este depósito nuclear seja totalmente independente da ação humana, isto é, que não necessite guardiães permanentes (se é que se pode sequer contemplar garantir algo mais do uma mão cheia de anos). Quando o depósito estiver terminado, serão aí colocados os últimos resíduos nucleares das últimas centrais nucleares da Finlândia, depois os túneis serão preenchidos com cimento, a entrada lacrada, a zona aterrada e o depósito esquecido. Espera-se que nos próximos 60 mil anos ocorra uma nova Idade do Gelo (se as alterações climáticas não precipitarem alterações repentinas muito mais cedo). A cobertura de dezenas de metros de gelo e neve poderá contribuir para que a zona deixe de ser habitada e para que a memória de Finlândia, quanto mais de um depósito de lixo nuclear, desapareça.

Fica em aberto como fazer para que outras pessoas, outras civilizações, não vão até ao local e não escavem o lixo nuclear altamente destrutivo e cuja radiação altera o próprio código genético das pessoas. Uma questão muito relevante no documentário de 2010 “Into Eternity” de Michael Madsen, e que aflige os responsáveis pela construção do depósito de Onkalo é como deixar um sinal compreensível para não abrir, não escavar, não repetir o erro do nuclear? Talvez o melhor seja mesmo não deixar qualquer sinal, porque a curiosidade humana, espelhada noutro mito, o da Caixa de Pandora que trouxe todos os males ao mundo, poderá levar à abertura do depósito. Os egípcios e muitas outras civilizações ancestrais não conseguiram convencer os arqueólogos a não abrir os seus túmulos, apesar dos muitos avisos deixados, e inclusivamente das múltiplas armadilhas mortais colocadas.

Se esta questão do lixo não chegasse para travar a energia nuclear, o perigo das centrais deveria fazê-lo. Em 40 anos de energia nuclear explorada comercialmente, houve 3 acidentes de escala global: Three Mile Island nos Estados Unidos em 79, Chernobyl em 86 e Fukushima em 2011. Cada uma das três teve impactos em toda a Terra para a saúde humana e de todos os seres vivos. Fukushima continua, 5 anos depois, a perder água para o Pacífico, visto que nem os robots conseguem resistir ao nível de radiação ainda existente nos núcleos e travar o processo.

Como é possível que o Japão, o único país que foi bombardeado com duas bombas atómicas em 1945 em Hiroshima e Nagasaki, se tenha tornado uma potência nuclear? Se em 1954 barcos inteiros de pescadores japoneses foram vítimas de ensaios com bombas de hidrogénio no atol de Bikini? Se a comoção contra o nuclear criou no Japão um poderoso movimento popular ainda nos anos 50? Uma gigantesca e incessante campanha mediática promovida por um ex-criminoso de Guerra japonês tornado tubarão da imprensa, Shoriki Matsutaro, culminou com uma cimeira para a promoção da utilização da energia nuclear… Em Hiroshima. Poucos anos depois o Japão inaugurava a sua primeira central nuclear.

Mesmo com os olhos do mundo sobre Fukushima, só 3 meses após o acidente é que a empresa privada dona da empresa, a Tepco, assumiu ter havido a fusão dos núcleos. Mais: as ordens da empresa em Tóquio foram para todo o pessoal abandonar a central, o que teria originado explosões termonucleares ainda mais descontroladas do que as que aconteceram. 50 funcionários voluntários, os “heróis de Fukushima“, ficaram para trás na evacuação e restabeleceram sistemas de refrigeração, de electricidade e puderam fazer contenção de mais danos. A fase de descontaminação posterior foi, no entanto, assegurada maioritariamente por trabalhadores precários, expostos a níveis elevadíssimos de radiação, por 300 a 400 € por dia. Foi mais tarde que se descobriu o corolário da ironia: apenas uma falha numa porta de segurança evitou uma fusão ao ar livre, o que atingiria todo o Japão.

Para as 444 centrais nucleares existentes no mundo são precisos centenas de depósitos de lixo nuclear como Onkalo – centenas. Além disso, o perigo de mais acidentes nucleares de grande escala existe todos os dias em que estas centrais funcionam. Sobre as centrais já existentes pesa ainda a tecnologia velha e enferrujada e a tentativa de expandir o tempo de vida de centrais que já deviam ter sido fechadas, como Almaraz. Em Espanha já se fala da possibilidade de Mariano Rajoy expandir o tempo de vida de Almaraz de 40 para 60 anos (quando o seu tempo útil de vida foi já ultrapassado há seis anos). Os autarcas de Almaraz apoiam esta extensão de tempo e a criação de um cemitério nuclear para os resíduos, não igual a Onkalo, pensada para a dimensão criminosa do que é o lixo nuclear, mas uma solução improvisada, porque os custos reais do nuclear nunca são levados em conta. Se os mitos prometeicos advogam que não há limite para a capacidade inventiva, há que disputá-lo: aquilo que parece não ter limite é a estupidez humana.

A ciência e a técnica por trás das centrais nucleares é rudimentar, apesar das pomposas fábulas à volta da sua sofisticação. Os responsáveis pelos projetos nucleares produziram o maior crime que a espécie humana já congeminou, embora seguramente mais por ignorância que por conhecimento real das magnitude das consequências de atos considerados legais e normais. Prometeu, o estúpido, substituiu Prometeu, o emancipador.

Com a energia nuclear abrimos a caixa de Pandora (cunhada de Prometeu), seduzidos pelas promessas de todas as qualidades dos animais e da natureza, mas que não passam de armadilhas. No fundo da caixa de Pandora ficou apenas a esperança, para compensar os males e doenças libertados. A esperança do esquecimento é a única solução que existe hoje para os resíduos nucleares. E não nos enganemos: não há energia nuclear sem lixo nuclear. E o lixo nuclear, ao contrário de todos os outros lixos, é, para a escala da vida das civilizações humanas, infinito, divino, mítico. A única economia verdadeiramente de longo-prazo que o capitalismo conseguiu até hoje produzir é isso: lixo infinito e perigo de morte milenar.

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