COP22: Alterações Climáticas sem luvas na Batalha pela Humanidade – João Camargo

[Artigo publicado em sabado.pt a 11 de novembro de 2016]

inundacoes_luisianaO primeiro prognóstico é simples: arruinámos o clima. Arruinámo-lo para nós, seres humanos, e para a maior parte das espécies animais e vegetais que existem hoje no planeta. Mudámos fundamentalmente a composição da atmosfera e o que herdámos, simplesmente por nascer, como um planeta habitável, com uma temperatura adequada a nele vivermos, capaz de nos alimentar, de nos dar de beber, está certamente ameaçado.

Começámos há anos a falar de manter o aumento da temperatura em 2ºC até 2100 como sinónimo de “segurança climática”. É um exercício mais ou menos teórico. Ninguém sabe o que significa para a espécie humana viver com mais 2ºC. Mas sabe-se o que significa viver com mais 2ºC para os solos, para as plantas, para os animais, para os oceanos, para os ecossistemas: na maior parte dos casos significa morte. Significa seca e desertificação, significa cheia e afundamento, significa colheitas falhadas sucessivamente, significa extinções em massa, significa o fim de ciclos de reciclagem de água e de nutrientes. Daí podemos intuir o que pode significar também para a espécie humana: significa menos alimentos, significa menos água, significa alimentos menos nutritivos, significa muito mais calor, significará, em muitos casos, morte.

Falta também saber o que significa mais 2ºC em termos de atmosfera: significa mais dióxido de carbono e significa mais metano na atmosfera. O dióxido de carbono fica 120 anos na atmosfera, enquanto o metano fica apenas 12 anos, mas com um poder de captura de energia muito maior (72 vezes maior que o dióxido de carbono), o que significa uma atmosfera muito mais energética e mais quente. Isso significa mais fenómenos climáticos extremos: mais e mais longas ondas de calor, mais e maiores furacões, mais e mais fortes tufões, mais tempestades tropicais, mais e maiores tornados. Uma atmosfera em revolta total.

A nível do sistema global, mais 2ºC são considerados o limite máximo para evitar o total descontrolo climático. Isto porque o sistema planetário tem uma série de contrabalanços para manter o equilíbrio: o primeiro são os oceanos, que têm absorvido dióxido de carbono e principalmente a temperatura em excesso, funcionando como tampão do planeta. Ora, a temperatura dos oceanos tem aumentado ao longo da coluna de água, ameaçando todos os seres vivos que aí habitam e também as correntes marinhas que distribuem a energia ao longo dos vários oceanos do planeta; a partir de determinada temperatura, os oceanos perderão a sua capacidade tampão. Outro contrabalanço são as florestas, que capturam dióxido de carbono e emitem oxigénio, criando ecossistemas próprios. Com o aumento da temperatura reduz-se a captura de dióxido de carbono, aumentando também a sua libertação. Em último caso, os incêndios florestais tornam-se cada vez mais frequentes, libertando quantidades massivas de dióxido de carbono capturado nos troncos, raízes e folhas e, em vez de servirem de tampão, passam a ser um agente de desestabilização climática. Os pólos Norte e Sul e a Gronelândia, por serem gigantescas massas brancas de gelo, são um importante factor de reflexão da radiação solar para o espaço, evitando essa acumulação de energia no planeta. Com o aumento da temperatura e o derretimento do gelo, reduz-se a reflexão dessa radiação de volta para o espaço, sendo absorvida pela água do gelo derretido, aumentando a temperatura dos oceanos e contribuindo para a temperatura da atmosfera aumentar ainda mais e levar a um ainda maior derretimento do gelo: isto é o chamado feedback positivo ou retroacção positiva, e representa, a partir de determinado ponto, um total descontrolo que leva ao caos climático. É nesse caminho que estamos. Se ultrapassarmos os 2ºC (o que ameaça ocorrer muito antes de 2100), a atmosfera passa de um comportamento pré-caótico a um comportamento caótico.

A Corrente do Atlântico Norte está a desacelerar. Esta corrente transporta a água quente do Golfo para o Norte do Atlântico, onde arrefecem nas águas profundas e voltam para o Sul. Esta corrente está ligada a outras correntes marinhas e a afecta-as. Esta corrente está ligada com as circulações atmosféricas e ventos sobre o Atlântico. Uma disrupção nesta corrente terá efeito global. Mudará as estações, os climas, mudará o mundo. Para pior, previsivelmente. Para muito pior, provavelmente.

A subida do nível médio do mar, fruto de tantas das consequências anteriormente descritas para as alterações climáticas, levará a que muitas das principais cidades do planeta, que vive no litoral, tenham de ser abandonadas.

O prognóstico é catastrófico. Estamos simplesmente a caminho da extinção nas próximas duas, três gerações de seres humanos, tão rápido quanto isso. E como é fácil hoje falar-se do fim do mundo, não é? Tantos filmes, tantas séries, zombies, vírus, guerras nucleares… Bem, sobre as alterações climáticas e o que elas produzirão sobre a espécie humana, é preciso apenas que se mantenha o business as usual mais 20 anos. O Acordo de Paris, cuja aplicação agora discutimos em Marraquexe na COP-22, é amplamente insuficiente para conseguir manter a temperatura abaixo dos 2ºC. Ainda assim, com a eleição de Donald Trump, até esse mais que magro acordo está ameaçado. É um sinal de alarme total, não porque Obama tenha tido uma magnífica performance a nível de combate às alterações climáticas – pelo contrário, foi sob o último presidente que os Estados Unidos catapultaram a exploração de combustíveis fósseis para o primeiro produtor mundial, principalmente através de fracking, e para segundo emissor mundial de gases com efeito de estufa (descontando obviamente as emissões do fracking), mas porque a ascensão impede uma acção radical contra as alterações climáticas. E é mesmo de acção radical que importa falar, e de nada mais. Mas custa, mesmo, sonhar outro mundo numa era de pesadelo.

É mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do sistema que nos está a matar. O sistema capitalista hoje vive como um parasita na cabeça da maioria da Humanidade, tanto aqueles (poucos) que se beneficiam dele como daqueles (muitos) que são estraçalhados diariamente por ele. As alterações climáticas são filhas do capitalismo global e são uma sentença de morte sobre a Humanidade, porque representam uma mudança absoluta de como a espécie se relaciona com o seu meio, tanto que o ambiente ameaça deixar de ter condições para suster a Humanidade. E como fica claro, caminhando também aqui nos pavilhões da COP-22, o capitalismo não tem nenhuma solução para as alterações climáticas. Pensa como sempre pensou, como foi ensinado a pensar: como é que eu vou fazer negócio com isto? Como é que eu transformo a catástrofe em oportunidade económica? Com carros eléctricos, com tecnologias inúteis de captura de carbono e patentes, com parcerias público-privadas, com novas linhas de financiamento “verde”, com especulação financeira? Com tudo isto e com mais qualquer coisinha que consiga inventar: gás fóssil para fazer uma “transição” energética com mais emissões, relançar o nuclear. O objectivo? Sempre fazer dinheiro. Que as acções e as medidas não sejam suficientes ou estejam sequer próximas de evitar a catástrofe climática é algo irrelevante, o que interessa é lucro o mais rapidamente possível. Se inclusivamente vão agravar a crise é algo que também interessa pouco, desde que dê dinheiro.

Sem luvas. Há muito tempo que me dizem que não se deve apresentar o cenário catastrófico que as alterações climáticas representam. Não vejo que seja possível não fazê-lo. A catástrofe não é o cenário mais longínquo, é o mais provável. Hoje estamos de costas contra a parede. Isso significa que não há outra alternativa que não seja recusar este modelo energético e este modelo social e económico, porque eles representam o fim da espécie humana. Nenhum novo projecto de exploração de hidrocarbonetos é aceitável e tem de ser interpretado como uma batalha contra a Humanidade. Keep it in the ground.

Advertisements