Petróleo e Gás: a Partex quer colinho – João Camargo

O presidente da Partex Oil & Gas, petrolífera da Fundação Calouste Gulbenkian, aproveitou a conferência dos 30 anos do Instituto de Engenharia Mecânica e Gestão Industrial para desabafar acerca dos processos de petróleo e gás em Portugal. Começou forte: vivemos num “país de esquizofrénicos” que não são “mais do que a continuação de Donald Trump”. O presidente da Partex, que como Donald Trump defende um mundo de energias fósseis, ignorando as alterações climáticas e as consequências que estas têm para a Humanidade, fez as seguintes afirmações por causa da suspensão das prospeções de petróleo e gás natural no Alentejo e no Algarve. Fica fácil de ver o que é que a Partex quer: colinho.PARTEX

A Partex da Gulbenkian tem duas concessões em Portugal, na costa Oeste e no Algarve, onde o seu presidente sonha com plataformas para exploração de gás e/ou petróleo no fundo do mar, uma ameaça permanente para uma costa que depende e muito de pesca e de turismo. Pelas concessões em Peniche, para 60 anos em Peniche, a Partex (em conjunto com a Repsol, a Kosmos e a GALP), pagará ao Estado em rendas 200 mil €/mês por uma área de 12 mil quilómetros quadrados, mais ou menos o tamanho do Qatar. Se descobrir petróleo ou gás, e depois de ver amortizados todos os investimentos da prospeção e custos operacionais de produção, isto é, só a partir do momento em que tiver resultados líquidos positivos, a Partex pagará 2% dos primeiros 5 milhões de barris, 5% dos 5 milhões seguintes e 7% a partir daí. Pelas concessões no Algarve, para 58 anos, a Partex (em conjunto com a Repsol) pagará ao Estado 211 mil €/mês por uma área um bocadinho menor do que as ilhas Falkland. Se descobrir petróleo ou gás, o valor a pagar será, uma vez mais depois de retirados todos os investimentos de prospeção e custos operacionais, será similar ao de Peniche. Sobre os proveitos dessa operação, sabe-se da predileção da Partex pela sua colocação em offshores nas Ilhas Caimão, no Panamá e no Liechtenstein.

O presidente, num discurso certamente inspirado nos do Presidente-Eleito americano, afirmou que “Podíamos ser uma plataforma giratória para a Europa [do gás proveniente dos EUA] se a Península Ibérica deixasse de ser uma ilha energética”, mas “temos um problema de inteligência”, diz. Seguramente que a Partex preferiria uma opinião pública ignorante ou enclausurada, como ocorre nos principais países onde já opera, como o Omam, os Emirados Árabes Unidos, o Cazaquistão, a Argélia ou Angola. Parece claro que o problema de inteligência em Portugal foi a concessão, a preço de saque, dos seus mares e terra, para uma actividade destrutiva local e globalmente. Sobre “ilhas energéticas”, Portugal tem condições para não estar isolado sem precisar de ser um agente activo na destruição do seu território e mar, e da atmosfera do planeta – o seu nível de insolação é de 2200 a 3000 horas de insolação por ano, um potencial gigantesco a nível mundial. Indústria solar, não tem. Será quem em vez de importar o destrutivo gás de xisto de fracking dos EUA, Canadá ou Austrália, ou furar o seus mares à procura de um eldorado destruidor, não faria muito mais sentido passar a ter uma indústria desse tipo?gulbenkian

O presidente da Partex lamentou vivermos num “país de esquizofrénicos”, em que “[os políticos] são inimigos das empresas” e “tomam decisões baseadas em populismos das redes sociais”, seguindo para dizer que “asfixiar [a exploração de petróleo e gás em Portugal] é, no fundo, asfixiar a questão do mar em Portugal no futuro“. Acerta quando diz que vivemos num país esquizofrénico, pois Portugal afirma-se como liderança no combate às alterações climáticas e ainda não cancelou as concessões de petróleo e gás, que são exactamente o contrário do que tem de fazer. Compreende-se que o presidente da Partex sinta a necessidade de defender os seus activos financeiros e no terreno, de defender os interesses dos seus acionistas. Não o fará asfixiando o mar com a exploração de petróleo e de gás, com os gigantescos riscos que traz a exploração em deep offshore, a mais de 1000 metros de profundidade no mar. O que propõe a Partex é asfixiar, literalmente, os oceanos, privando-nos dos recursos naturais não geológicos e privando os ecossistemas marinhos de capacidade de sobreviver. Que não o compreenda só se explica pela necessidade de defender os interesses dos seus acionistas. E às claríssimas indicações científicas que nos dizem exactamente isso, apelida-as de “populismos das redes sociais”. Trump dá a linha, a Partex usa-a.

Ao ataque seguiu-se o muro das lamentações: “as empresas não vão fazer absolutamente nada sem o aval e o apoio das autoridades e também da opinião pública”, “se os países não querem acabou, vão para outro lado. Quando sentem que não são acarinhadas nem bem-vindas vão para outros lados”. Infelizmente as empresas como a Partex, enquanto continuarem a explorar combustíveis fósseis, estão na lista de fim de vida. Em Portugal como no resto do mundo. A sua era terminou, porque a opção é dicotómica: ou sobrevivem os negócios das petrolíferas ou sobrevivem os seres humanos. Que a Partex não o compreenda só se explica pela necessidade de defender os interesses dos seus acionistas.

Depois foi altura da propaganda: seria uma pena que Portugal não apostasse no desenvolvimento do gás natural que “é o mais limpo dos combustíveis fósseis e é uma parte fundamental da resolução do problema do clima”, “é parte da solução, não é o mau da fita”. Defendeu que é inevitável que a energia mundial evolua no sentido do gás, relembrando o fracking nos EUA como exemplo, e a “oportunidade” para as “pequenas e médias empresas, que podem trabalhar a vertente do consumo inteligente do consumidor”. Que os desejos da Partex sejam um mundo continuamente preso às energias fósseis é compreensível, pois esses são os interesses dos seus acionistas. Que aposte no gás é evidente, perante a impossibilidade de conseguir esse sonho de petróleo, porque embora muito mais lentamente do que é necessário, a Humanidade já assumiu a necessidade de abandonar os fósseis para travar as alterações climáticas. Um futuro de gás seria um conforto para a Partex e para as petrolíferas em geral, já que o gás não implica nenhuma alteração ao seu modelo de negócio, às tecnologias de extração, exceto a nível de transporte, pelo que fazem incessante lobby na União Europeia e com o Governo para que sejam os nossos impostos a pagar portos LNG e gasodutos. Que o gás não seja o mau da fita é negar as características dos hidrocarbonetos, em particular do metano, e dos processos industriais.offshore-rig Recentemente têm sido divulgados dados muito relevantes acerca da exploração de gás: não só a indústria subavalia cronicamente as perdas de metano directamente para atmosfera (e o metano é bastante pior do que o dióxido de carbono no que diz respeito ao efeito de estufa), como esconde a avaliação da libertação na produção, particularmente no que diz respeito ao fracking nos Estados Unidos, que revela perdas massivas gás, o que faz com que as emissões de metano disparem brutalmente no país. Ao contrário do que diz António Costa e Silva, é provável que o gás, além de ser um dos maus da fita, possa mesmo ser pior do que o carvão e o petróleo. Arremata com um golpe popular (não populista, que isso é para os que se opõe ao petróleo e ao gás), e uma exultação das PMEs e da criação de emprego. Obviamente é o mínimo que lhe exigiriam os interesses dos acionistas da Partex, que urge defender.

Mesmo a nível internacional, o chamado é claro: nem mais um projecto de exploração de fósseis. Que a Partex queira defender os interesses financeiros dos seus acionistas é normal. Que a população defenda os interesses do seu futuro, não só no país como no resto do planeta, é não só normal como o dever de quem quer viver um futuro não catastrófico. Felizmente cada vez mais essa população está informada, mobilizada e activa no combate aos interesses dos acionistas da Partex, assim como das outras petrolíferas que querem transformar o país e o planeta num esgoto a céu aberto. Felizmente não estão disponíveis para ceder às chantagens imorais dos Trumps desta vida nem dar colinho a uma indústria que só vive, cada vez mais, dos favores dos poderes públicos.

Artigo publicado na revista Sábado, 16/11/2016

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