Trump declara guerra à Humanidade, contra-atacamos? – João Camargo

Donald Trump cumpriu a sua promessa de campanha eleitoral e retirou os Estados Unidos do Acordo de Paris. A sua corte de bajuladores e sicofantas aplaudia enquanto o milionário anunciava a retirada do primeiro acordo de combate às alterações climáticas assinado pelos Estados Unidos, o país historicamente mais responsável pelo aquecimento do planeta.

Não podemos nem devemos criar nenhum fetiche à volta do Acordo de Paris: é um acordo insuficiente, fraco, não vinculativo e apesar de estar escrito no preâmbulo que quer manter o aumento da temperatura abaixo dos 1,5ºC até 2100, a verdade é que a soma das propostas individuais dos países faria essa temperatura escalar até aos 3,7ºC. Ele é um acordo fraco em grande medida por causa dos Estados Unidos e dos lobbys que estão e estiveram ilegitimamente presentes nas negociações climáticas desde 1995. A indústria petrolífera não deixa os seus créditos por mãos alheias: se promoveu guerras no Médio Oriente, em África e na América do Sul nos últimos 50 anos, não haveria de conseguir enrolar algumas centenas de cientistas e especialmente diplomatas e eleitos que precisam dinheiro para ser reeleitos? 

Barack Obama, presidente pelos democratas, jamais travou os poderosos petro-interesses nacionais mas ainda assim permitiu que fosse dado algum sinal económico ao mundo de que as coisas iriam mudar e que a acção climática tornar-se-ia uma realidade. Na verdade, só desde o anúncio do Acordo de Paris em 2015 que o investimento em energias renováveis explodiu, em detrimento do investimento em combustíveis fósseis. Pode-se aliás dizer com confiança que, se os países (não apenas os Estados Unidos, mas um pouco por todo o mundo) tivessem deixado de dar dinheiros públicos em apoio às energias fósseis (numa proporção de 4 para 1, quando comparadas com as energias renováveis), hoje já estaríamos numa mudança energética de alta escala e os fósseis estariam em muito maiores dificuldades.

Mas Donald Trump, envolvido até ao pescoço em ligações com interesses da oleogarquia russa, decidiu ontem avançar com a saída do Acordo de Paris. Esta saída é uma declaração de guerra à Humanidade, mas não tem apenas que ver com o acordo. Trump já tinha começado esta caminho antes, ao transferir Rex Tillerson directamente da presidência da Exxon-Mobil, a maior petrolífera do mundo, para a Secretaria de Estado, provavelmente o cargo “ministerial” mais alto da administração americana, e ao colocar na presidência da Agência de Protecção Ambiental Scott Pruitt, um negacionista das alterações climáticas que fez carreira a atacar quaisquer regulamentações relacionadas com emissões ou Saúde. Trump fez questão de, no dia da sua tomada de posse, fazer desaparecer a página das alterações climáticas do site da Casa Branca. Depois, paulatinamente, fez desaparecer dos vários sites do governo qualquer referência às alterações climáticas. Trump e as várias organizações que representa tentam fazer desaparecer a realidade à força, mesmo que essa realidade se manifeste por todo o mundo e já seja hoje responsável por mortes e refugiados em gigantesca escala. O cientista e filósofo norte-americano Noam Chomsky não usa meios termos, dizendo que “O Partido Republicano é organização mais perigosa da história da espécie humana“, e que o mundo nunca viu uma organização tão empenhada em destruir o planeta Terra. A base política desta organização representa uma mistura de algumas das piores características das civilizações humanas: preconceito, elogio da ignorância e da estratificação, egocentrismo, culto da violência e do armamento, fundamentalismo religioso e culto à personalidade. A sua base material compõe o ramalhete: em 2016 a indústria petrolífera deu 4,3 mil milhões de dólares em contribuições de campanha para o Partido Republicano nas últimas eleições presidenciais, para o Senado e para a Câmara dos Representantes. Desde 1990 as petrolíferas contribuíram “oficialmente” com 40 mil milhões de dólares para o Partido Republicano. É esta aliança que entrona Donald Trump e lhe pede: programa máximo, acaba com tudo, vamos furar até acabar!

Costuma-se dizer que aqueles que combatem as petrolíferas e outras indústrias extractivas estão a “salvar o planeta”. Ora, o planeta não precisa ser salvo, estava cá muito antes de nós e provavelmente excederá amplamente a vida da espécie humana. O que estamos a tentar fazer é salvar a Humanidade. Dos humanos, principalmente. Parar com a destruição, com a queima e as emissões que nos fazem correr desalmadamente para o caos climático e o precipício da Humanidade. Mas também humanizar os humanos, retirá-los à indigência intelectual e moral da ideia do Homo economicus, que apenas se guia pelo seu interesse próprio e imediato. Retirá-los ainda dessa aliança letal do Homo economicus com o conservadorismo bacoco e a ignorância orgulhosa. 

Donald Trump é hoje uma etapa doente do capitalismo, o capitalismo que já se quer comer a si mesmo e ao mundo inteiro. A declaração de guerra de ontem é diferente. Trump não fez menos do que exibir uma cabeça decapitada perante as câmaras no jardim da Casa Branca ao anunciar que vai atrasar ainda mais o fim da indústria petrolífera e pôr seriamente em risco a capacidade de garantirmos estabilidade climática ainda este século. Declarou guerra ao mundo inteiro.

Contra-ataquemos. Contra Trump e contra todos aqueles que nos tentam enganar ao dizer que temos tempo e que isto tem de ser feito devagar que é para não prejudicar os negócios. Contra as petrolíferas, americanas e outras, que sabem que o seu negócio é o negócio de destruir um ambiente em que possamos viver (e já o sabem há muito mais tempo do que o público em geral) e ainda assim continuam a querer expandir, a querer rebentar os subsolos e as águas subterrâneas com fracking para extrair um gás que polui ainda mais que o próprio petróleo, a levantar florestas milenares para tirar areais betuminosas, a querer furar os fundos dos nossos mares à procura de gás, de petróleo, de outros minérios. Contra a minas de carvão e a agro-pecuária intensiva que se recusa a mudar. Contra as línguas que se retorcem à nossa frente para dizer loucuras como “produção petrolífera sustentável”, “exploração limpa”, “carvão limpo” ou “gás, combustível de transição”. Contra os governos e os partidos políticos que continuam a apoiar projectos de carvão, de petróleo e de gás, apesar de se dizerem apoiantes do Acordo de Paris, apesar de se indignarem com as palavras e acções de Donald Trump. Contra a apatia que acha que isto há de ser resolvido em negociações internacionais, com tecnologias maravilha ou com a colonização de Marte. Contra-ataquemos.

Nos próprios Estados Unidos já houve 68 presidentes de câmara, incluindo algumas das maiores cidades do país – Los Angeles, Boston, Nova Iorque, Houston, Chicago, Seattle, Atlante, Denver, Miami Beach, Nova Orleães, Portland – que se comprometeram, enquanto municípios, a manter-se no Acordo de Paris, a combaterem as alterações climáticas já. Os Governadores dos Estados da Califórnia, de Nova Iorque e de Washington já declararam a sua intenção de aderirem formalmente ao acordo. 71% dos americanos acha que o país devia manter-se no Acordo de Paris. O tempo da delegação em outrem das acções concretas que podem salvar a Humanidade acabou, algo que devemos à violência de um Donald Trump. Foi a nós que calhou viver neste tempo. Não está na mão de outros resolver este assunto, está na nossa. Contra-atacamos.

Artigo originalmente publicado na Sábado.pt.

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