Petróleo e energia: Governo de joelhos – João Camargo

As recentes relações do Governo português com as empresas petrolíferas e de energia revelam-nos um quadro coerente de bullying e submissão.

Recordemos casos apenas dos últimos meses: durante a discussão do Orçamento do Estado para 2018, o Parlamento aprovou uma contribuição extraordinária sobre as energias renováveis (com o voto a favor do PS), que recairia principalmente sobre a EDP Renováveis. No mesmo dia, o PS anunciou que iria repetir a votação e, dois ou três dias depois, votou contra, devolvendo centenas de milhões de euros às energéticas, apesar do investimento nas renováveis já estar hoje mais do que amortizado. Durante a discussão no Parlamento, os deputados do PS não tiveram problema nenhum em afirmar a bondade da reviravolta na tomada de posição: era preciso continuar a apostar nas renováveis e este era o Governo que ia baixar o preço da electricidade em 2018. António Costa e a Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos repetiram o anúncio: pela primeira vez em 18 anos, a electricidade cairia 0,2%. Surpresa das surpresas, a EDP anunciou no fim do ano um aumento da electricidade em 2,5%. No início de 2018, a empresa anunciou mesmo que iria deixar de pagar a contribuição extraordinária sobre a energia, no valor de mais de 300 milhões de euros. António Costa reagiu, com um temperamento que raramente se lhe vê: “Lamento a atitude hostil que a EDP tem mantido e que representa, aliás, uma alteração da política que tinha com o anterior governo.” A EDP juntou-se à Galp e à REN na recusa de pagar impostos.

A política pública deste Governo sobre temáticas ambientais e civilizacionais como as alterações climáticas ocorre na fronteira entre a cosmética e propaganda. Ainda no final do ano passado, na cimeira “One Planet” de Emmanuel Macron, António Costa anunciou as linhas mestras da acção climática em Portugal — estender o funcionamento das centrais a carvão de 2020 para 2030, tornar o país “carbono neutro” até 2050 e organizar uma cimeira sobre transporte sustentável em Janeiro. Chegámos à tal “cimeira sobre transporte sustentável”, a MobiSummit.

Em Portugal, os transportes são a segunda fonte de emissões de gases com efeito de estufa, depois da energia. Para começar a resolver o problema, anunciou o primeiro-ministro, uma cimeira. Os organizadores da cimeira? EDP, o maior emissor de gases com efeito de estufa em Portugal, Via Verde como pseudónimo da Brisa, proprietária de auto-estradas onde passam anualmente um acumulado de 28 milhões de veículos a gasolina e a diesel e, para compor, a Volkswagen, mundialmente famosa pelo Dieselgate, escândalo em que a fabricante de automóveis criou um software fraudulento para esconder as emissões de gases com efeito de estufa e os pôs em oito a 11 milhões de carros (a Comissão Europeia também exigiu à Volkswagen que indemnizasse os proprietários burlados, mas a Volkswagen recusou-se). Dando uma vista de olhos pelo programa da cimeira que vai “resolver” o nosso problema de transportes, percebe-se que é proibida a entrada a transportes públicos e a única “solução” será substituir os nossos mais de seis milhões de veículos a combustíveis fósseis por outros mais de seis milhões de veículos eléctricos. Tudo o que for preciso para manter os negócios dos organizadores. O Governo empresta um ministro e um secretário de Estado para legitimar a estratégia.mobi_flier_verso

À grande agressividade e até à “atitude hostil” por parte das empresas energéticas privadas, o Governo de António Costa e do secretário de Estado da Energia Jorge Seguro Sanches responde com anúncios grátis, almoços grátis, legitimação e genuflexão. De joelhos, o Governo tomou a decisão, a 8 de Janeiro e sem qualquer anúncio público, de prolongar, pela terceira vez, a autorização para a Galp e a italiana Eni furarem o mar de Aljezur à procura de petróleo e gás. Esta decisão ignora dezenas de milhares de objecções de cidadãos, organizações e a oposição de todos os municípios que foram consultados no final do ano passado acerca de um eventual prolongamento desta licença. Aliás, a decisão é mesmo uma reviravolta da decisão anterior do secretário de Estado da Energia, que em 2016 recusara uma nova autorização de prolongamento por dois anos para a perfuração por parte da Eni/Galp.

Como entretanto foi aprovada legislação que implica uma avaliação de impacto ambiental na fase de prospecção petrolífera, esta avaliação foi anunciada numa reportagem no Expresso. Para não destoar dos casos anteriores, a Eni anunciou que não fará nenhuma avaliação de impacto ambiental. Perante a submissão, mais bullying. Nos inúmeros processos judiciais em que a Eni responde por corrupção por esse mundo fora, a acusação costuma ser de comprar governantes e não de não cumprir os processos ambientais legais, mas como se viu há sempre a possibilidade de se encontrar governos ainda mais submissos.

A justificação dada pelo secretário de Estado para esta decisão, arrastando-se na miserabilidade argumentativa, inclui o “investimento” feito pelas empresas até agora: 76 milhões de euros, invoca. Quando perdoou uma contribuição de 400 milhões de euros às renováveis, não era preciso contas. Quando a Galp se recusou a pagar 240 milhões de euros relativos à Contribuição Extraordinária do Sector Energético de 2014, 2015, 2016 e 2017, não era preciso fazer contas. Há uma decisão política, não técnica. A decisão é ficar de joelhos.

Neste momento já é de esperar que, como faz com as energéticas, o Governo estenda uma passadeira vermelha às petrolíferas, o que deixa nas mãos da população local, no Algarve e Alentejo (mas não só), e dos movimentos sociais resolver este problema nas ruas, e de vez. Se eles se ajoelham, nós teremos de nos levantar.

* Artigo originalmente publicado no Público a dia 26 de janeiro.

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Qual é a resposta para a crise do clima? – Sinan Eden

1. Limites e fronteiras

§1. Limites planetários: Talvez o mais importante dos desenvolvimentos recentes na ciência ecológica seja o conceito de “limites planetários”.1 Os cientistas apontaram nove limites/fronteiras críticas relativamente às condições ambientais que existiram durante os últimos doze mil anos (o período do Holoceno). Estes limites dizem respeito a: (1) alterações climáticas; (2) acidificação dos oceanos; (3) depleção do ozono estratoesférico; (4) limite dos fluxos biogeoquímicos (ciclos do fósforo e do nitrogénio; (5) utilização global de água doce; (6) mudança dos sistemas de utilização do solo; (7) perda de biodiversidade; (8) acumulação de aerossóis na atmosfera; (9) poluição química.2

O sistema da Terra que mantivesse as condições físicas necessárias para o desenvolvimento da civilização humana seria essencialmente alterado para lá destes limites.

Um estudo recente mostra que quatro dos nove limites planetários foram já ultrapassados graças à acção humana: alterações climáticas, perda de integridade da biosfera, mudança dos sistemas de utilização do solo, e os ciclos do fósforo e do nitrogénio.3

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Como foi explicado num artigo anterior, a crise climática é especialmente perigosa por causa da sua natureza irreversível.4 Focaremos, portanto, a nossa atenção nas alterações climáticas, ainda que a maior parte da argumentação possa ser aplicada à crise ecológica no geral.

A ultrapassagem dos limites planetários põe toda a civilização humana em risco de colapso. No entanto, para perceber a razão pela qual estes limites estão a ser ultrapassados hoje e não noutro momento qualquer (e, consequentemente, perceber como prevenir o possível colapso), temos de fazer uma análise do ponto de vista histórico e não do ponto de vista moral.

§2. Limites históricos a empurrar as fronteiras planetárias: Do ponto de vista teórico, a ultrapassagem das fronteiras planetárias é apenas mais uma manifestação de que o capitalismo atinge os seus limites históricos. A estagnação secular que se começou a manifestar nos anos 70 coincide (e não por acaso) com a pegada ecológica global a ultrapassar o limiar de um-planeta.5 6

Depois de a “idade do ouro” que se seguiu à II Guerra Mundial, a lei da queda tendencial da taxa de lucro tornara-se o factor dominante nas economias mundiais, e nem mesmo a dissolução da União Soviética (e a consequente “transição” das suas economias para o capitalismo global) foi suficiente para aliviar a ânsia neoliberal pela apropriação imediata de valor.

A forma como o capitalismo e os capitalistas responderam aos limites históricos forçou e empurrou os limites planetários de várias maneiras, que analisaremos mais adiante. Mas primeiro vamos deter-nos sobre a razão pela qual o modo de produção capitalista intrinsecamente ignora, causa e intensifica os desastres ecológicos.

2. Antagonismos do Capitalismo

§3. Valor de uso vs valor de troca:7 Todas as mercadorias têm um valor de uso e um valor de troca. O valor de uso é uma forma de valor qualitativo, que depende das necessidades e das prioridades de cada pessoa. O valor de troca, por outro lado, é calculado através do tempo de trabalho socialmente necessário para a produção dessa mercadoria. No que diz respeito à circulação de mercadorias, o valor de troca é a forma de valor mais relevante.8

O dinheiro é a mercadoria cujo valor de uso é ser a medida de todos os valores de troca. Enquanto outras mercadorias são compradas para uso pessoal, o dinheiro é adquirido porque oferece o acesso universal a todas as mercadorias. O dinheiro representa, portanto, o poder universal.

O que existe para mim através do dinheiro – aquilo que posso pagar (ou seja, que o dinheiro pode comprar) – tudo isso sou eu, o possuidor do meu dinheiro. O alcance do poder do dinheiro é o alcance do meu poder. As propriedades do dinheiro são as minhas propriedades e faculdades essenciais – as propriedades e faculdades do seu possuidor. Assim, aquilo que sou e que de que sou capaz não é, de maneira nenhuma, determinado pela minha individualidade. Sou feio, mas posso comprar para mim a mais bela das mulheres. Não sou feio, portanto, porque o efeito da fealdade – o seu poder de dissuasão – é anulado pelo dinheiro.9

De modo geral, observamos a simples circulação de mercadorias, representada assim:

Mercadoria – Dinheiro – Mercadoria,

M – D – M.

O padeiro vende o pão e compra leite com o dinheiro que ganha; o leiteiro usa esse dinheiro para comprar sapatos. O trabalhador vende a sua força de trabalho e paga a conta da electricidade com o seu salário. Isto significa que, de modo geral, vendemos para podermos comprar. Assim, para o cidadão comum, um mecanismo mais racional do que o capitalismo parece inconcebível.

O que os capitalistas vêem, no entanto, é um versão iterada desta circulação. Nós vemos

… M – D – M – D – M …

(pão) (leite) (sapatos)

enquanto eles vêem

… D – M – D – M – D …

Isto é a circulação do capital. Esta é a base de todas as bolsas de valores e mesmo de toda a economia dos dias de hoje. Começa com o dinheiro e acaba com o dinheiro. Ao contrário do nosso senso comum, aqui a motivação maior é comprar para poder vender.

Um padeiro não compra trinta litros de leite só para si; a circulação M – D – M tem limites naturais; o ciclo D – M – D, pelo contrário, é infinito, tendo como motivação principal gerar mais dinheiro.

A simples circulação de mercadorias – vender para comprar – é um meio para atingir um objectivo situado fora dela, isto é, a apropriação de valores de uso, a satisfação de necessidades. A circulação do dinheiro como capital constitui, pelo contrário, o objectivo em si mesma, porque é só por este movimento constantemente renovado que o valor continua a fazer-se valer. A circulação do capital não tem, portanto, limite.10

Até certo ponto, há uma relação entre necessidades humanas reais e o ciclo M – D – M (o padeiro precisa mesmo de leite). No ciclo D – M – D, esta necessidade não existe. A única necessidade existente aqui é obter mais valor de troca. É a isto que normalmente se chama o movito da “maximização do lucro”. A lógica do capital é, portanto, a do crescimento pelo crescimento.11

§4. O valor de troca domina: A integração capitalista é a integração do valor de troca em todas as esferas da vida, e a desintegração de todos os outros valores da vida. O sistema financeiro, onde a “sustentabilidade” das formas monetárias (em vez de objectos reais) é o objectivo principal, é a subordinação final do valor de uso ao valor de troca.

§5. Alienação: O capital não vê nada senão mercadorias. O capital tende a ver mercadorias para onde quer que olhe. O capital reduz as mercadorias a valores de troca. Isso tem dois tipos de impactos.

Primeiro, o capitalismo gera a sua cultura à sua imagem, em que as pessoas têm dificuldade em separar as suas necessidades das necessidades do capital. Isto dá origem a uma alienação dos humanos em relação aos outros humanos, uma vez que vêem os outros apenas como proprietários de mercadorias.

Em segundo lugar, todas as coisas são subjugadas à circulação do capital. Disto resulta a comercialização da natureza, onde os sistemas naturais são reduzidos ao valor de troca que deles pode ser extraído.

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§6. O capital vs. A Natureza: As características do capital e as da natureza são intrinsecamente antagónicas. O capital caracteriza-se pela divisibilidade (a forma monetária pode ser dividida em peças tão pequenas quanto se quiser), pela equivalência (os valores de todos os objectos são comparáveis nos seus preços), e por ser ilimitado (ver §3.). Por outro lado, a natureza compreende-se melhor em temos holísticos, sendo diversa e limitada. Este antagonismo torna o capital incompatível com os sistemas terrestres.

§7. Socialização e individualização: Através da socialização do processo laboral, o capitalismo emancipou os seres humanos dos seus constrangimentos naturais. Criou um metabolismo social onde a interdependência é a característica fundamental, ao mesmo tempo que cada indivíduo está ao abrigo de condições externas: quando estamos doentes, vamos ao hospital; quando precisamos de electricidade, basta acender a luz. Quando precisamos de água, abrimos a torneira. Quando um desastre acontece numa qualquer parte do mundo, acreditamos que cabe aos outros países ajudar. Ninguém no mundo de hoje utiliza apenas os materiais produzidos na sua própria comunidade, etc.

Esta integração criou uma sociedade mundial onde nenhum indivíduo depende de nenhum outro indivíduo em particular para sobreviver, ao mesmo tempo que a sociedade num todo depende de si própria para a sua manutenção.

Entretanto, a sociedade foi desintegrada do seu ambiente natural. A cidade foi separada do campo. A produção e o consumo foram dramaticamente separados em tempo e espaço. Deu-se uma ruptura metabólica entre seres humanos e natureza.12

§8. Alienação da Natureza:

A natureza é o corpo inorgânico do homem; quer isso dizer a natureza excluindo o próprio corpo humano. Dizer que o homem vive da natureza significa que a natureza é o corpo dele, com o qual deve se manter em contínuo intercâmbio a fim de não morrer. A afirmação de que a vida física e mental do homem e a natureza são interdependentes, simplesmente significa ser a natureza interdependente consigo mesma, pois o homem é parte dela.13

A natureza extractivista do capitalismo (ver §3.) está em conflito directo com uma relação natural dos seres humanos com a natureza. A lógica linear do capitalismo e a sua redução de tudo à acumulação de valor é incompatível com os ciclos e sistemas complexos da natureza.

A resposta capitalista à crise climática é, consequentemente, também ela reducionista, conduzindo necessariamente a falsas soluções.

3. A resposta capitalista

§9. Voltemos agora aos limites históricos e às fronteiras planetárias, tendo em conta os antagonismos do capitalismo.

§10. A resposta capitalista aos seus limites históricos: A atitude geral do capitalismo face aos seus limites históricos foi condicionada pela sua mono-dimensionalidade: fazer mais do mesmo, exactamente da mesma maneira, e esperar que o problema se resolva.

Para começar, inventaram-se necessidades desnecessárias, como carros cada vez maiores (para andar em média a 15km/h nas grandes cidades), ou todo o tipo de materiais descartáveis. Depois, inventaram-se empregos desnecessários, como a protecção de copyright14 e a publicidade em massa. Depois, a obsolescência programada promoveu o “descartável” a “tem-de-ser-descartado”.15 Na frente ideológica, isto é acompanhado pela mercantilização de tudo, pela redução dos ecosistemas aos “bens e serviços ambientais” (assim quantificados em termos de valor do mercado, e assim inseridos numa análise de custo-benefício16), e pelas privatizações.

A maioria destas medidas funcionou com sucesso para gerar lucro, e nada mais do que isso.

§11. A resposta capitalista aos problemas ambientais: A resposta imediata das corporações à crise climática foi encontrar, fundar e/ou financiar ONGs que serviriam para “sensibilizar” em relação à crise criada pelas próprias corporações, concentrando-se em soluções individuais e desviando a atenção dos problemas sistémicos de fundo. As respostas mais sofisticadas incluíram ainda mais financeirização, como mercados de carbono, mecanismos de REDD+ e as compensações do carbono. Esta última resposta foi muito além das distopias, onde alguém é alegremente convidado a comprar para ser boa pessoa, pagando um valor consideravelmente mais alto por um produto para que uma percentagem minúscula do lucro financie a compensação de alguns dos efeitos negativos desse mesmo produto.

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§12. A resposta capitalista aos grupos de justiça ambiental: Quando as preocupações em relação à sustentabilidade entraram em conflito directo com a maximização do lucro, a resposta imediata foi oprimir globalmente os grupos da advocacia. Alguns exemplos dos países menos anti-democráticos são as reacções do estado às lutas contra o gasoduto no Dakota do Norte, à ZAD de Notre-Dame-des-Landes, ao movimento “No New Runways” em Heathrow, entre muitos outros, dos quais dispomos geralmente de pouca documentação.17

Quando a opressão falha, o passo seguinte é a negociação, para deixar o status quo inabalado. A dimensão enorme da crise climática exigiu um processo de negociação e de sofisticação mais complexo. Cimeiras atrás de conferências atrás de cimeiras. Mais e mais relatórios optimistas foram aparecendo.18 Fez-se muito barulho. Muitas “vitórias” foram declaradas (sendo as mais emblemáticas Quito e, recentemente, Paris). Contudo, as emissões de gases com efeito de estufa continuaram a aumentar e o aquecimento global continuou a acelerar, ultrapassando limiares sucessivos.

4. As respostas socialistas até agora

§13. As experiências socialistas até agora reivindicaram a abolição dos antagonismos do socialismo, enquanto a destruição ecológica continuou. Por outras palavras, uma condição necessária para um futuro sustentável (confrontar o sistema capitalista) não resulta numa condição suficiente para ele. As experiências anteriores merecem, portanto, um olhar crítico no nosso contexto.19

§14. A experiência Soviética: A União Soviética, a primeira experiência socialista na história mundial, nasceu com dois constrangimentos estruturais para a construção de uma nova civilização. O primeiro foi o falhanço da revolução europeia que se esperava a seguir, o que isolou a revolução de uma sociedade maioritariamente camponesa com baixo nível de industrialização. O segundo constrangimento foi ver-se entalada entre a necessidade imediata de uma reconstrução massiva depois da desastrosa 1.ª Guerra Mundial e a necessidade urgente de preparar a indústria e a sociedade para confrontar o exército Nazi na 2.ª Guerra Mundial. Estes dois constrangimentos levantaram o problema premente da rápida industrialização e expansão da economia Soviética.

§15. Dognat’ i Peregnat’: A solução política que os líderes Soviéticos encontraram foi “alcançar e superar” as economias capitalistas. Os modelos Tayloristas foram implementados nas fábricas, as experiências de auto-gestão foram descartadas. A curto prazo, esta fórmula política parecia funcionar: a produção aumentou, a economia Soviética “saltou por cima”, literalmente, da Grande Depressão (deixando perplexos os líderes políticos do mundo inteiro e tornando mainstream a economia planificada até nos centros capitalistas), e a URSS conseguiu resistir e expulsar a tentativa de ocupação Nazi que se seguiu poucas décadas depois.

§16. A longo prazo, no entanto, estas escolhas reproduziram a alienação dos trabalhadores tanto em relação aos seus produtos como ao seu acto de produção. Como não havia questionamento posterior destas escolhas, o modo de produção da União Soviética tornou-se capitalista na forma (reproduzindo a alienação), com conteúdo socialista (a mais-valia colectivizada). Esta abordagem anti-dialética resolveu-se a si própria gradualmente, com a forma a ditar o conteúdo. A forma e o conteúdo foram reconciliadas com Glasnost e Perestroika.

A alienação capitalista reproduzida tinha ainda implicado a alienação da natureza, cujos exemplos mais drásticos são patentes no colapso completo do lago Aral, no desastre nuclear de Chernobyl, e na pesada militarização da economia e da sociedade Soviética.

§17. Outras experiências socialistas: Algumas destas políticas Soviéticas foram depois postas em causa em Cuba (após a dissolução da União Soviética e da crise do petróleo que se seguiu), mas continuaram praticamente intactas noutros exemplos até bem recentemente (particularmente na China). Mais recentemente, os governos da Bolívia e do Equador desenvolveram abordagens radicalmente diferentes, ao incluir os direitos da natureza na Constituição dos seus países. Estas últimas experiências têm as suas próprias contradições latentes, especialmente ao terem lugar em economias completamente inseridas no sistema capitalista.

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5. Marxismo e Ecologia

§18. Críticas anti-comunistas: As críticas ecológicas anti-comunistas às experiências socialistas incidem essencialmente na reprodução da lógica de produção capitalista. No entanto, estas críticas omitem, muito convenientemente, este lado das suas análises, lavando na verdade a imagem da ideologia capitalista.

Se quisermos resolver a crise climática, continuará a ser necessário atacar os antagonismos internos do capitalismo. A experiência Soviética mostra que este “ataque” tem de ser muito mais profundo do que se pensava ao princípio.

§19. Críticas anti-Marxistas: Um pré-requisito universal para qualquer discurso anti-Marxista é nunca ter lido Marx. O mesmo se aplica na área da ecologia. No pior dos casos, os críticos anti-Marxistas desconhecem conceitos-chave da análise de Marx, tais como o da “ruptura metabólica”20, o da “alienação dos trabalhadores, a “eliminação gradual da diferença entre cidade e campo, por uma distribuição mais justa da população pelo país”21, etc, e lêem Marx com os seus próprios olhos positivistas e mecânicos. No melhor dos casos, parecem culpar Marx e Engels pelo seu optimismo revolucionário: de facto, estes revolucionários julgavam que o capitalismo seria derrotado muito antes de os problemas ecológicos se agudizarem desta forma.

§20. Em qualquer dos casos, abandonar a análise marxista da História deu lugar a um entendimento estático da crise climática. Um subproduto importante desta confusão ideológica da política ecológica é que, uma vez removida da análise a luta de classes como motor da História, o movimento pela justiça ambiental acaba com um problema de agência. Isto levou a abordagens moralistas e muitas vezes despolitizadas.

§21. Marxismo e Ecologia: Ao longo das últimas décadas, surgiram dentro do Marxismo duas correntes que integraram a perspectiva ecológica nas suas análises. Uma é a escola de Ecologia Marxista (encabeçada pela revista Monthly Review) e a outra é a Rede Eco-socialista (por exemplo, na coligação System Change Not Climate Change).22 Estas correntes dão ênfase à unidade orgânica dos seres humanos com a natureza (contra a dicotomia natureza versus seres humanos), politizando o discurso das “necessidades”,23 questionando a produção industrial enquanto única forma de criar valor (isso seria capitalismo), e reintroduzindo ferramentas políticas essenciais como o tempo livre e a racionalização e planificação da economia. Do ponto de vista teórico, identificam também os elementos da super-estrutura que reproduzem as relações de produção capitalistas.

6. Ecologia revolucionária ou barbárie

§22. O caldeirão das lutas ambientalistas e anti-capitalistas: A crise climática, com a sua componente de urgência, torna visível duas limitações com que se depararam os ambientalistas até agora.

Em primeiro lugar, a transformação radical necessária, do ponto de vista social, económico e ecológico, para travar o aquecimento global exclui automaticamente qualquer solução “dentro do sistema”. Os únicos caminhos realistas apontam para $1,1 biliões de activos abandonados na próxima década e é tecnicamente impossível fazer isto de uma forma economicamente suave.24 Em segundo lugar, é cada vez mais evidente que não se pode ganhar a luta climática sem ganhar “tudo”. As soluções passam por transformações profundas dos métodos de produção, de distribuição e de consumo, a todos os níveis. Por seu lado, isto implica confrontar as maiores empresas do mundo (a maior parte das quais está directamente ligada aos combustíveis fósseis). Por outras palavras, ou transformamos nós próprios as nossas sociedades em todos os seus aspectos (energia, transporte, alimentação, etc), ou as alterações climáticas transformarão tudo por nós (secas, tempestades, falhas de infraestrutura, refugiados climáticos, etc).25 Em resumo, começa a ser impossível ser-se ambientalista sem se ser também anti-capitalista.

Do outro lado do espelho, aparece uma imagem simétrica, com duas limitações com que se deparam os anti-capitalistas. Primeiro, a potencial irreversibilidade das alterações climáticas serve de alerta para todos os revolucionários, estabelecendo um prazo máximo para ganhar a luta. Em segundo lugar, a revolução não pode ser uma revolução qualquer – tem de responder directamente à crise climática. Os anti-capitalistas têm de ter propostas concretas (e urgentes) que respondam simultaneamente às injustiças climáticas e sociais.

Resumindo, a crise climática serve como caldeirão onde se devem misturar os ambientalistas e os anti-capitalistas, fazendo de todos revolucionários – exactamente o que precisamos nestes tempos.

§23. Soluções verdadeiras e soluções falsas: As soluções verdadeiras para a crise climática têm de, pelo menos, confrontar as tendências capitalistas de comercialização e maximização do lucro. Na verdade, isto pode ser usado como teste decisivo para distinguir as soluções reais das soluções fáceis. Seguem-se alguns exemplos que apontam direcções ideológicas opostas.

A campanha “Keep It In the Ground” exige o abandono imediato de todos os novos projectos de combustíveis fósseis, enquanto o discurso do crescimento verde se concentra num “aumento da parte dos renováveis”, ignorando o argumento físico que mostra que, para reduzir emissões, temos de substituir as infraestruturas dos combustíveis fósseis e não apenas acrescentar mais recursos renováveis à oferta energética.

Muitas campanhas de não-produção sublinham outros valores que não os de mercado, como as lutas contra os mega-projectos, de que são exemplo a ZAD, Heathrow, a revolta de Gezi e a Defesa das Florestas do Norte de Istambul. Do lado contrário, as companhias de aviação vendem recibos de compensações do carbono para supostamente plantar árvores algures, continuando assim a emitir dióxido de carbono.

As campanhas pelos transportes públicos concentram-se na equidade e no acesso à cidade, reduzindo ao mesmo tempo o consumo e as emissões, enquanto outras campanhas confiam num boom na indústria dos carros eléctricos, que se baseia nas mesmas práticas extractivistas.

As campanhas pelos Empregos para o Clima exigem empregos decentes para centenas de milhares de pessoas, protegendo ao mesmo tempo os trabalhadores que perderiam os seus postos de trabalho com a transição energética. A abordagem da economia verde, no entanto, ainda não produziu senão alguns subsídios para alguns sectores, como incentivo para mais lucro, e não para uma transição energética.

Alguns sectores dentro do movimento de decrescimento viram a sua atenção às necessidades estruturais do capitalismo, tais como as guerras, a publicidade, e a obsolescência programada. (No melhor dos casos, estas indústrias não produzem nada para as pessoas; no pior dos casos, destroem o que foi produzido.) Pelo contrário, as propostas tecno-fixas vão desde a instalação de espelhos na atmosfera para relectir os raios de sol até tecnologias de geração de nuvens artificiais. Evidentemente, estas “soluções” raramente passam do papel, uma vez que não há procura no mercado para elas. Ainda assim, fizeram barulho suficiente para criar ilusões bastantes dento do movimento climático.

Mais em geral, a abordagem da transição justa exige justiça social e climática, enquanto uma grande parte das ONGs ambientalistas continua a propor uma espécie de “austeridade ambiental”, fazendo as pessoas pagar, uma vez mais, os custos criados pelos capitalistas.

§24. Temos de nos lembrar sempre de que a crise climática é uma crise social.

O planeta não precisa de seres humanos, nem é a biodiversidade um bem em si mesmo. Os seres humanos precisam de manter os sistemas da terra dentro das fronteiras planetárias, para a sua própria sobrevivência como seres naturais. A solução para a crise social é uma mudança de sociedade, e não umas quantas alterações sectoriais.

O slogan “Muda o Sistema, Não o Clima” aponta o caminho para um planeta justo e habitável.

scncc


* Artigo originalmente publicado no Praxis a dia 10 de janeiro de 2018.


1 Fred Magdoff, John Bellamy Foster, What Every Environmentalist Needs to Know About Capitalism, Monthly Review, Volume 61, Número 10 (Março 2010).

2 Johan Rockström, et al., “A Safe Operating Space for Humanity,” Nature, 461 (24 de Septembro, 2009), 472-75.

3 Danger zone: Earth crosses four planetary boundaries, Climate & Capitalism, 15/01/2015.

5 Hans G. Despain, Secular Stagnation: Mainstream Versus Marxian Traditions, Monthly Review, Volume 67, Número 04 (Septembro 2015).

6 Fred Magdoff, John Bellamy Foster, Stagnation and Financialization: The Nature of the Contradiction. Monthly Review, Volume 66, Número 01 (Maio 2014).

7 Este parágrafo padece de erros teóricos e falhas devidas à simplificação excessiva e a omissões que escolhi fazer de forma a sublinhar alguns aspectos da teoria marxista relevantes para o nosso contexto.

8 A força de trabalho também é uma mercadoria. Um proletário é alguém que vende a sua força de trabalho para sobreviver. No entanto, o tempo de trabalho necessário para produzir os bens de necessidade diária de um trabalhador é menor do que o seu número de horas de trabalho diário. A diferença, ou seja, a mais-valia gerada pelo trabalhador, é apropriada pelo capitalista que comprou a sua força de trabalho.

9 Karl Marx, The Economic and Philosophic Manuscripts of 1844, Tradução inglesa de Martin Milligan, International Publishers, New York, 1964, p.167.

10 Karl Marx, Capital Volume 1, Marxist Internet Archive, http://www.marxists.org/archive/marx/works/download/pdf/Capital-Volume-I.pdf , p.104-105.

11 Uma nota fundamental: uma tendência comum é deduzir, desta análise, que “M – D – M é bom, D – M – D é mau” (este é também o principal argumento ético contra as políticas neoliberais). Esta dedução está errada. Não há aqui dois ciclos. A dinâmica do mundo das mercadorias é … M – D – M – D – M – D… . Esta dinâmica engloba a circulação de mercadorias e a circulação de capital. Os resultados deste parágrafo são, portanto, as consequências analíticas de uma estrutura sócio-económica em que as pessoas se relacionam umas com as outras enquanto proprietários de mercadorias.

12 John Bellamy Foster, Marxism and Ecology: Common Fonts of a Great Transition, Monthly Review, Volume 67, Número 7 (Dezembro 2015).

13 Karl Marx, The Economic and Philosophic Manuscripts of 1844, Translated by Martin Milligan, International Publishers, New York, 1964, p.112.

14 Isto tem uma importância particular. O famoso motivo da competição, que é suposto ajudar a produzir cada vez mais bens, causa o mair constrangimento possível ao acesso aos bens já produzidos.

15 Ver Story of Stuff. http://storyofstuff.org/

16 Ver: Robin Hahnel, Green Economics: Confronting the Ecological Crisis, Taylor & Francis, 2010, 288 páginas.

17 Sinan Eden, A huge case study of resistances and victories: Turkey, Climáximo blog, https://climaximo.wordpress.com/2015/11/01/a-huge-case-study-of-resistances-and-victories-turkey/

18 Sean Sweeney e John Treat, Energy Transition: Are We Winning?, Trade Unions for Energy Democracy Working Paper No. 9, Janeiro de 2017.

19 Para ser claro, não vou usar nenhuma definição categórica do socialismo neste capítulo. Vou brevemente rever algumas das experiências auto-declaradas como socialistas. Uma análise mais aprofundada, que inclui outros estudos de caso (particularmente os exemplos autênticos do Sul Global) exigiria um artigo separado.

20 John Bellamy Foster, Marx and the Rift in the Universal Metabolism of Nature, Monthly Review, Volume 65, Issue 07 (Dezembro 2013)

21 Karl Marx e Friedrich Engels, Communist Manifesto, tradução disponível online no Marxist Internet Archive, https://www.marxists.org/archive/marx/works/1848/communist-manifesto/

23 Ege M. Diren, Who Needs Our “Needs”, Out for Beyond, 23/10/2011. https://network23.org/outforbeyond/2011/10/23/who-needs-our-needs/

24 Jess Worth, Ending the Oil Age, The New Internationalist, Novembro 2014, Número 477.

25 Naomi Klein, This Changes Everything: Capitalism versus The Climate, Siman & Schuster, 2014.

Quem manda nesta democracia?

Em Bruxelas, um bairro de poucos quilómetros quadrados acomoda as instituições centrais da União Europeia (UE) — este bairro é também a capital europeia de lobbies. Em Bruxelas, lobbying — atividades para moldar decisões políticas de acordo com interesses privados — é já, e por si só, uma indústria milionária. … Hoje, estima-se que mais de 25.000 “lobistas” trabalhem em Bruxelas, a grande parte em favor das grandes multinacionais e associações empresariais. E esta é um actividade rentável, mexendo pelo menos com 1.5 mil milhões de euros por ano. (Para ler o resto da crónica da Margarida Silva da Corporate Europe Observatory na P3: Bruxelas, a capital europeia dos “lobbies”)eu

Nos dia 7-9 de Dezembro de 2017, o Climáximo co-organizou uma série de eventos com a Corporate Europe Observatory (CEO) e a Plataforma Não aos Tratados TTIP / CETA / TISA.

Na conversa “Quem manda nesta democracia?” no dia 7, falaram Lora Verheeke e Margarida Silva, ambas do CEO, expondo a maneira como a União Europeia (UE) funciona desde Bruxelas. Conversou-se sobre a maneira como o TTIP e CETA estão a ser negociados, a influência das grandes empresas e organizações de lobby na produção de legislação na UE, a falta de transparência dentro das instituições europeias e as portas giratórias que representantes das instituições europeias cruzam entre os cargos públicos e as grande empresas privadas. (Ouve aqui o episódio de É Apenas Fumaça, em que conversaram com a Lora, a Margarida e também com o João Vasco: Na Rua – Quem manda nesta democracia?) (Para ler o relato do dia: Debate “Quem manda nesta Democracia”)

No dia 9 de Dezembro, teve lugar a formação participativa sobre como investigar os lóbis das grandes empresas multinacionais, e o tipo de relações que estabelecem com os atores políticos. Foram apresentadas excelentes ferramentas de pesquisa, as quais permitem identificar conflitos de interesse e outras informações potencialmente relevantes para qualquer associação ou movimento que defronte estes poderosos interesses privados. (O relato do dia com as notas da formação, aqui.)

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Passos decididos na direcção do caos – João Camargo

Os sinais de que os passos rumo ao caos climático estão a ser dados foram sentidos de forma inequívoca em Portugal: os incêndios florestais de Junho e de Outubro, fruto de aberrações de temperatura e humidade, mostram-nos como o território nacional é vulnerável às alterações climáticas, em particular quando estas aberrações se sobrepuseram a uma longa seca que inviabilizou até o abastecimento de água às populações e à agricultura. Só a redução da massa de árvores é que limita a probabilidade de nos próximos dois a três anos termos incêndios desta mesma magnitude. Mas depois disso façam as vossas apostas, porque estruturalmente nada mudou no grande pinhal-eucaliptal que é a nossa área florestal. No balanço do ano de 2017, a dimensão dos incêndios florestais em Portugal é um gigante que só tem paralelo em outra monstruosidade: um novo aumento das emissões de gases com efeito de estufa à escala global.

Em 2017 bateu-se o recorde de furacões formados num ano sob o oceano Atlântico: Franklin, Gert, Harvey, Irma, Jose, Katia, Lee, Maria, Nate e Ophelia. Entre estes dez furacões, o Harvey no Texas, o Irma em Cuba, Florida e Barbuda e o Maria em Porto Rico foram autênticas armas de destruição maciça. Segundo a Organização Meteorológica Mundial, o Irma foi o furacão mais forte de sempre no Atlântico. Por outro lado, devido às temperaturas quentes aberrantes no Atlântico, o furacão Ophelia seguiu na direção da Europa, causando três mortos na Irlanda e na Grã-Bretanha, com os seus ventos quentes a contribuírem para o catastrófico dia de incêndios — 15 de Outubro — em Portugal e Espanha, que causou mais de 50 mortos. Entretanto, no Pacífico, o tufão Lan foi o segundo maior alguma vez registado e causou mortes e estragos no Japão. Cheias e aluimentos de terras na Colômbia, na Mauritânia, no Vietname e nas Filipinas provocaram centenas de mortes. Nos Estados Unidos, a época de incêndios, em particular na Califórnia, foi a pior de que há registos, devastando zonas urbanas e deixando centenas de milhares de pessoas sem casas.

Com o degelo-recorde na Gronelândia e na Antártida Ocidental, a subida do nível médio do mar em 2017 foi de 3,4 milímetros.

Politicamente, a saída anunciada do Acordo de Paris por parte dos Estados Unidos de Trump confirmou a entrada num novo capítulo da retórica americana acerca das alterações climáticas (embora não na prática, já que vem das administrações anteriores a colocação dos EUA no topo das emissões e da produção de combustíveis fósseis). Entretanto, o Presidente francês, Emmanuel Macron, descobriu nas alterações climáticas um filão de oportunidade política e organizou uma cimeira em Paris para discutir em abstrato o que fazer. O Banco Mundial anunciou mais dois anos de financiamento à indústria fóssil e o Governo francês aprovou no Parlamento a proibição da exploração de combustíveis fósseis… em 2040. A União Europeia, por outro lado, propôs ao Banco Europeu de Investimento que subsidie a construção de um sistema de infraestruturas de transporte e armazenamento de gás natural, mais de 90 projetos para resgatar a indústria petrolífera durante mais quatro ou cinco décadas e evitar a transição para as energias renováveis.

A ministra portuguesa do Mar assinou um acordo com um subsecretário de Estado dos EUA com a intenção de tornar o Porto de Sines uma porta de entrada para o gás de fracking americano. Na cimeira de Macron, António Costa aproveitou para repetir um anúncio que já tinha feito na Cimeira (oficial) do Clima em Bona: as duas maiores centrais a carvão do país fecharão até 2030. O cenário de referência para o Programa Nacional para as Alterações Climáticas, aprovado pelo Governo Passos Coelho, colocava a central térmica de Sines da EDP fora de funcionamento já em 2020. A ambição do Governo do PS é dar-lhe mais dez anos. Ao mesmo tempo, o Governo recusou-se pôr um ponto final nas concessões petrolíferas ao largo do Alentejo e em terra (Batalha e Pombal), apesar de várias propostas parlamentares nesse sentido. Se decidir prolongar pela terceira vez a autorização da ENI/Galp para furar em Aljezur, o Governo comprará uma grande batalha para 2018.

Tal como se fazem diariamente as contas dos orçamentos de municípios, regiões, países, espaços comunitários, também se fazem contas para o “orçamento de carbono”, com a atualização constante das emissões de gases com efeito de estufa que podem ser feitas até se atingirem aumentos de 1,5ºC, 2ºC, 3ºC e por aí fora. Segundo o Carbon Brief, site de académicos e jornalistas dedicado às alterações climáticas, estamos a menos de cinco anos de atingir um aumento de temperatura de 1,5ºC, e a menos de 20 anos de atingirmos um aumento de temperatura de 2ºC. Este aumento de temperatura é aquilo que o Acordo de Paris teoricamente queria evitar até 2100, mas que, mantendo este rumo, ocorrerá em 2036. Em 2017, depois de três anos de estagnação das emissões de gases com efeito de estufa, as emissões voltaram à trajetória ascendente, devendo aumentar 2% em relação ao ano anterior, naquele que é o sinal mais inequívoco de que entre o oportunismo político e a força da indústria petrolífera, estão longe de ser atingidas as ações necessárias devido à fraqueza e à cobardia das instituições nacionais e internacionais, que marcham alegremente na direção do caos.

Ativismo: é melhor do que falecer – Sinan Eden

§0. Quando falamos sobre alterações climáticas, muitas pessoas me perguntam: “Mas o que posso eu fazer no dia-a-dia?” A minha resposta é: torna-te um/a ativista polític@ no teu dia-a-dia. Organiza ação coletiva contra os criminosos do clima. Isto não só é mais divertido, mas também muito mais eficaz. E quando digo mais eficaz, quero dizer muuuuuuuuuuuito mais eficaz.

§1. As emissões de gases com efeito de estufa em Portugal são 7 toneladas per capita por ano. Ou seja, uma pessoa média em Portugal emite o equivalente a 7 toneladas de CO2 durante um ano.* Ora, os níveis sustentáveis que temos de atingir mundialmente são 2 toneladas per capita por ano.

Vamos ver então as nossas opções.

A) Podes consumir menos.

§2. Se calhar és um franciscano ecológico. Assim i) partilhas a tua casa com mais três pessoas, ii) nunca usas aquecimento, iii) usas eletricidade só para as necessidades básicas, iv) nunca viajas entre cidades, v) usas só transportes públicos e isso também só para ir ao trabalho, vi) nunca comes carne, vii) compras só alimentos locais, viii) nunca compras roupa, ix) evitas produtos com embalagens, e x) nunca vais ao cinema ou ao teatro.

bosch-hellEntão as tuas emissões são 3.4 toneladas por ano. **

§3. Vejamos. Produzes 7 toneladas de emissões. Tens de chegar a 2 toneladas. Mas se fizeres tudo tudo tudo o que podes fazer no teu dia-a-dia, nem sequer consegues descer até às 3 toneladas.

Isto porque vivemos num sistema socioeconómico em que as nossas escolhas como consumidores/as são predefinidas pela linha de produção.

§4. Então, austeridade ecológica não resultou.

B) Podes suicidar-te.

§5. Assim reduzirias as tuas emissões a zero.

§6. Mas as emissões do mundo continuariam. Portanto, se te suicidasses e te encontrasses com @(s) teu/tua(s) deus(e/as) ecológic@(s), ele/a(s) mandar-te-iam para o inferno ecológico (para seres queimado/a como biocombustível com zero emissões líquidas, para aquecer o paraíso ecológico) porque poderias ter convencido outras pessoas a suicidarem-se contigo e não o fizeste.

Portugal tem de cortar as suas emissões nacionais em 60-70% em 15 anos. Isto quer dizer que terias de convencer mais de metade de população a suicidar-se, e terias 15 anos para fazer isto.

§7. Na verdade, os países desenvolvidos como Portugal têm já um longo passado de emissões de gases com efeito de estufa, e estes têm vindo já a causar catástrofes noutros países, nomeadamente no Sul Global. Por isso, para uma distribuição justa das responsabilidades históricas, Portugal deveria cortar também as emissões de outros países, para além das suas emissões nacionais. (Por outras palavras, devemos cortar 60-70% das emissões nacionais. Depois, devemos cortar, em outros países, emissões equivalentes a 40-50% das nossas emissões.)

Ou seja, as emissões de um/a habitante de Portugal devem tornar-se negativas em 15 anos, algo que não podes atingir ao morrer. E nem seria suficiente matares outros/as portugueses/as. Terias de matar estrangeiro/as também, e especialmente crianças.

§8. Bolas! Se a única solução individual para um planeta habitável é matar pessoas em massa, porquê fazê-lo? Combatemos as alterações climáticas exatamente para isto não acontecer. Será que existe outra solução?

C) Podes participar em ativismo climático.

§9. Em maio de 2016, dentro da quinzena de ação global “Liberta-te dos combustíveis fósseis”, mais de 30 mil ativistas em 6 continentes participarem em 20 ações de desobediência civil em massa em sítios-chave, bloqueando minas, portos, centrais a carvão, zonas de fracking e mais.

§10. Na Lusitânia, Alemanha, ocorreu a ação Ende Gelände. 3500 ativistas ocuparam a maior mina de carvão na Europa durante uns dias, fisicamente bloqueando 24 547 toneladas de emissões de dióxido carbono.

Isto perfaz 7 toneladas por pessoa.

§11. Então, podes passar três dias do teu ano a participar numa ação direta contra a indústria dos combustíveis fósseis. E se és uma pessoa média e se participaste na Ende Gelände nesse ano, as tuas emissões anuais foram: ZERO!

E se prestaste um pouco de atenção às escolhas do teu estilo de vida, se calhar até tiveste emissões negativas!

§12. Claro que se curtiste estar do lado certo da história, se os sentimentos de solidariedade, unidade e justiça te fizeram mais feliz, então podes fazer mais do que uma ação por ano – se calhar menos confrontativa.

O que tudo isto significa

§13. Como é óbvio, o objetivo destas contas não é desvalorizar os esforços envolvidos na organização, preparação e divulgação duma ação deste género. Muitos autocarros foram organizados a partir de dezenas de cidades europeias. Houve treinos de ação. Houve um acampamento. Houve enorme trabalho para montar equipas médicas e apoio legal. Podes ajudar em cada uma destas tarefas e assim seremos mais fortes da próxima vez. Uma ação direta de 3 dias não acontece espontaneamente, ela precisa de trabalho de preparação que demora meses.

§14. O objetivo também não é sobrevalorizar as ações só por si. A quinzena “Liberta-te / Break Free” foi parte das campanhas locais já existentes e serviu para aeg3limentar estas lutas, que noutros momentos usam táticas diversas para parar estes projetos poluentes, como comunicação direta, sessões de esclarecimento, ações criativas e manifestações. Podes ajudar em tudo isto, e quem sabe, se calhar um dia destes uma campanha diversificada fa uma das maiores empresas privadas de carvão falhar. Espera, mas isto já aconteceu em abril de 2016! Em qualquer caso, as maiores empresas do mundo continuam a ser os maiores poluidores e temos um caminho longo pela frente.

§15. Para além disso, a justiça climática não pode ser reduzida às emissões. Justiça climática tem também a ver com pobreza energética, racismo, habitação, captura do poder pelas empresas via tratados de comércio livre, e – se calhar o mais importante – com paz. Tenho a certeza de que podes encontrar a área que mais te toca e envolver-te em ativismo nesta área. Todas estas lutas são lutas pela justiça climática.

§16. Finalmente, a luta entre as narrativas individuais e narrativas coletivas é uma luta ideológica.

Os neoliberais querem isolar-nos, querem tornar-nos meros “consumidores” atomizados, querem reduzir o nosso poder e a nossa capacidade financeira.Tokelau-canoe-launched-pacific

3500 pessoas separadas e isoladas não poderiam parar mina alguma. Juntas e organizadas, conseguiram fazê-lo. E é certamente este o pesadelo das elites económicas.

§17. As escolhas individuais consistentes com o mundo que queremos construir são eticamente relevantes, mas não são politicamente eficazes. Os números dizem-nos que, se queremos evitar um colapso civilizacional, temos de rapidamente nos organizar e mobilizar.

Junta-te à luta, ajuda nas campanhas existentes, traz novas ideias, faz parte desta oportunidade histórica para mudar tudo, antes que o clima o faça.

***

Notas:

* Emitimos também metano, etc., por isso usamos a unidade CO2e, que é “equivalente de CO2”. Ou seja, nestas contas, todos os gases com efeito de estufa estão incluídos.

** Existem várias formas de calcular a tua pegada de carbono. Usei os números daqui porque chegam a um valor pequeno: http://www.carbonindependent.org/ . Depois, há também este calculador http://www.carbonfootprint.com/ e este outro: http://footprint.wwf.org.uk/home/calculator_complete . O último é só para o Reino Unido, e o resultado da mesma conta seria 6.7 toneladas. Ou seja, um franciscano ecológico inglês conseguiria chegar aos valores médios dum/a habitante normal de Portugal.

§18. Depois destas minhas contas, o Luís Fazendeiro fez outras contas para uma outra formação do Climáximo:

  • Ele assume que a média de emissões per capita em Portugal são 6 toneladas de CO2e por ano. (Na verdade, são 6.6 mas alguns anos são ligeiramente melhores e outros ligeiramente piores.)

  • Ele considera 1000 pessoas, ou seja todas as pessoas que nós podemos influenciar diretamente. Estas pessoas vivem uma média de 80 anos. Assim, emitem uma média de 480 mil toneladas de CO2e em toda a sua vida.

  • Ora, o Luís diz que se elas vivessem um estilo de vida “espartano”, eventualmente poderiam chegar a 1-2 toneladas de CO2e por ano. Isto quer dizer que com um estilo de vida “espartano” estas 1000 pessoas poderiam poupar um total de 400 mil toneladas de emissões em 80 anos. (Eu não vi os cálculos para chegar a este valor, mas confio nas contas dele. Imagino que ele assume uma pessoa desempregada que vive numa aldeia com os seus pais. Na cidade e com emprego, penso ser impossível chegar a estes valores.)

  • Contudo, a central termoelétrica de Sines emite ~6 milhões de toneladas de CO2e num só ano.

  • A conclusão do Luís é que se estas mil pessoas lutassem durante 80 anos com convicção e a única vitória delas fosse conseguirem fechar a central de Sines um ano antes do plano do governo, isto seria uma luta 15 vezes mais eficaz.

COP-23: Na estrada para lado nenhum – João Camargo

Concluída a COP-23, os resultados concretos não ultrapassaram a agenda: construir um documento que especificasse algumas regras para a implementação do Acordo de Paris, que será aprovado na próxima Cimeira do Clima, em 2018, na Polónia. As centenas de páginas do documento são o primeiro esboço para as regras de opções de redução de emissões, transferência de tecnologia e meios financeiros para os países mais pobres, assim como para padrões globais de contabilização das emissões, que durante o próximo ano estarão em discussão. O problema é que esta discussão começou em 1990.

As notícias que nos chegam do clima, ao contrário das notícias sobre a cimeira, não são banais: em 2017 as emissões de dióxido de carbono voltaram a subir, depois de três anos de estagnação, péssimo sinal em termos de viabilidade de travar o aumento da temperatura nos 2ºC. A Síria assinou o Acordo de Paris, o que faz com que os Estados Unidos da América se tornem oficialmente o único país do mundo que está fora do acordo para salvar a Humanidade do colapso. Esta é a posição histórica dos EUA: o país mais responsável pelas alterações climáticas da História, maior poluidor em termos cumulativos e maior produtor mundial de combustíveis fósseis, é o sabotador-mor de negociações sobre o clima. Trump, ainda assim, mandou uma comitiva a Bona, onde decorreu a cimeira, para promover a energia nuclear e o carvão como forma de “combater” as alterações climáticas.

Macron e Merkel aproveitaram o facto de a cimeira das ilhas Fiji ter sido deslocada para o seu território para afirmar “liderança climática”, substituindo os EUA no papel de líder de combate às alterações climáticas (o que deixa muitas dúvidas, considerando tudo o que fez a liderança americana). As contradições alemãs foram expostas em duas acções de desobediência civil: na véspera da COP-23, a invasão das minas de carvão do Reno, e na segunda semana da COP a invasão da central térmica a carvão de Weisweiler, da RWE. Em plenas negociações para a formação de um governo na Alemanha, as discussões entre o partido de Merkel, os Verdes e os Liberais têm como polémica o fim do carvão na Alemanha, com o qual Merkel não se compromete (neste momento, o Estado subsidia o carvão em 3,2 mil milhões de euros anuais).

A próxima cimeira verá novamente esta polémica presente, já que a Polónia é o principal promotor do carvão na Europa. Em sentido contrário, 25 países (incluindo Portugal, Reino Unido, França, Itália e Canadá) assinaram um compromisso para acabar com a utilização de carvão até 2030, selando o destino das centrais térmicas de Sines e do Pego (que importa encerrar o mais rápido possível).

No curto-prazo, foi revelado que os compromissos nacionais entregues em 2015 para o Acordo de Paris só conseguirão cerca de um terço dos cortes de emissões necessários até 2030 e que o compromisso de financiar a acção climática em 100 mil milhões de dólares por ano continua muito longe de se tornar realidade.

Mas a parte “bem-sucedida” da COP-23 foram os negócios à volta das “oportunidades” das alterações climáticas: as resseguradoras lançaram um esquema de micro-seguros para 400 milhões de pessoas pobres em zonas de risco, parcerias público-privadas em que os Estados assumem os riscos e as seguradoras ganham milhões de clientes. Anunciou-se a expansão do Comércio Europeu de Licenças de Emissões, que integrará a China e possivelmente a Califórnia. Este sistema de especulação com emissões rendeu 22 mil milhões de euros em 2016 e 26 mil milhões de euros em 2015. Entretanto, em termos de emissões fica por saber se esse dinheiro todo produziu uma só tonelada de dióxido de carbono não emitida, além de ter sido utilizado para reinvestir na indústria dos combustíveis fósseis. Anunciado como vitória pela UE, este sistema bloqueia a transição energética, entre outros, nos produtores de cimento e de aço. Foi ainda revelado que o Plano Juncker garantiu, com dinheiro do orçamento da União Europeia, pelo menos 1,85 mil milhões de euros em empréstimos arriscados à indústria fóssil.

Entre o que se promete cortar e o que realmente se corta, entre o que se declara emitir e o que realmente se emite, entre o tempo em que se diz que se vai cortar e o tempo em que se corta mesmo e entre o efeito de certas propostas e a realidade concreta das mesmas, os adiamentos, as omissões e as fraudes continuam a fazer a estrada para lado nenhum nas cimeiras do clima e apenas as acções concretas de movimentos e populações conseguem ser lombas no caminho.

Cimeira do Clima em Bona: o livro de regras do colapso? – João Camargo

A temperatura média do planeta está mais de 1ºC mais quente do que na era pré-industrial. Em 2017 viu-se a formação recorde de dez furacões no Atlântico. Em Portugal e na Califórnia, os incêndios florestais, coincidindo com as temperaturas recorde (altas) e humidades recorde (baixas), levaram a mais de 150 mortes, enquanto ainda na semana passada incêndios devastavam os vales italianos no sopé dos Alpes. No Pacífico, o supertufão Lan atingiu o Japão com prejuízos superiores a 20 mil milhões de euros. Em Portugal, mais de 90% do território é atingido por seca extrema ou severa, e mais de metade das albufeiras estão com níveis abaixo dos 40% em Novembro. E apesar de ser realidade há mais de um ano, voltou a ecoar com estrondo na imprensa o facto de a concentração de dióxido de carbono na atmosfera ter chegado às 400 partes por milhão, inédita nos últimos 800 mil anos (e só há seres humanos há 300 mil anos).

É nesta altura que, 23 anos depois do seu lançamento, a Cimeira das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas para as Alterações Climáticas (UNFCCC), a COP-23, reúne-se em Bona para “operacionalizar” o Acordo de Paris, saído da COP-21 em França. Esta cimeira estava agendada para as ilhas Fiji mas, como coincidia com a época de ciclones no Pacífico Sul, foi deslocada para a Alemanha. As ilhas do Pacífico são as mais ameaçadas no imediato, em particular pela subida do nível médio do mar, que está a tornar as cheias marítimas cada vez mais frequentes e o custo de reconstrução cada vez mais incomportável.EG2017_Aufkleber_Nov_2ndE_HQ_2

Dois anos depois de se ter chegado ao Acordo de Paris, a COP-23 tem como objectivo estabelecer o “livro de regras” para a sua implementação. Apesar de o acordo já estar em vigor, as “regras” têm agora de ser estabelecidas. E quando chegamos ao concreto, começam os problemas: há fortes discordâncias acerca do tratamento diferenciado entre países (desenvolvidos vs. em desenvolvimento, poluidores vs. mais afectados), acerca da informação exacta dada por cada país no seu esforço nacional de cortar emissões e de como a mesma pode ser ou não devidamente monitorizada, assim como acerca dos 100 mil milhões de euros de financiamento, que sempre pairam sob as negociações.

Entretanto, o fantasma dos Estados Unidos continua presente: o anúncio de Donald Trump este ano de que o país sairia do Acordo de Paris não faz com que a participação dos EUA no processo acabe. Os EUA são o maior produtor mundial de combustíveis fósseis e o segundo maior emissor de gases com efeito de estufa (primeiro emissor per capita). Tal como os EUA boicotaram activamente o Protocolo de Quioto (que depois abandonaram), estarão novamente nestas negociações, representados pelas petrolíferas e por negacionistas das alterações climáticas (o secretário de Estado Rex Tillerson é ex-presidente da ExxonMobil, a maior petrolífera do mundo, o secretário da Energia e o chefe da Agência de Protecção Ambiental negam a existência de alterações climáticas). Como o processo de saída do Acordo de Paris e da UNFCCC demora anos a concretizar-se, os EUA continuarão activamente a poder empatar negociações e bloquear ainda mais as acções concretas necessárias (quando não provendo loucuras como o nuclear ou o carvão “limpo”).

Vários relatórios saídos nas últimas semanas têm revelado a intensidade da pressão das petrolíferas sobre as negociações e sobre os governos nacionais: as maiores petrolíferas do mundo, assim como grandes empresas agrícolas e de energia, estarão presentes na COP-23, operando nos bastidores como se de nações se tratassem. É como negociar um acordo sobre o controlo do tabaco incluindo as tabaqueiras.

Desde a entrada em vigor do Acordo de Paris, os bancos de desenvolvimento multilaterais aumentaram o financiamento público a projectos de combustíveis fósseis: em 2016 estes projectos receberam 7,7 mil milhões de euros, a maior parte dos quais vieram do Banco Mundial, do Banco Europeu para a Reconstrução e Desenvolvimento e do Banco de Desenvolvimento Asiático. O financiamento directo para a exploração de petróleo e gás mais que duplicou entre 2015 e 2016, chegando aos 1,84 mil milhões de euros.

Na União Europeia, que se tem e que se vende como “campeã do clima”, a pressão das petrolíferas para o investimento massivo em gás fóssil (tão natural como o petróleo ou o carvão) é crescente: em 2016, mais de 1000 lobistas e 104 milhões de euros compraram o acesso aos corredores da Comissão Europeia e valeram 464 reuniões da indústria do gás com o comissário europeu do Clima e Energia, o espanhol Miguel Arias Cañete, e o responsável pela União Energética, o eslovaco Maroš Šefcovic. O investimento deverá vir a ter bom retorno, já que a UE prepara-se para dar perto de seis mil milhões de euros à Shell, à BP, à ExxonMobil, à Statoil e à General Electric, entre outras, para montar uma rede colossal de infra-estruturas que vai desde os portos LNG aos gigantescos gasodutos, como o que pretende ligar o Azerbaijão à Itália.

O livro de regras a sair de Bona será negociado em boa parte por sabotadores que prefeririam que o mesmo não existisse mas que, existindo, beneficiam da sua capacidade de suborno e cooptação para torná-lo inútil. Fica nas mãos das populações responder ao livro de regras que não é mais do que um mapa para o colapso. Na véspera da abertura, mais de 3000 activistas de toda a Europa — incluindo Portugal — invadiram a mina de Hambach, propriedade da RWE, e uma das maiores minas de lenhite (carvão castanho) do mundo. Travar todos os projectos de petróleo, gás e carvão é hoje um imperativo para poder haver futuro.

Artigo originalmente publicado no Público a dia 9 de novembro de 2017.

Floresta ou deserto: o dia depois de amanhã – João Camargo

No passado dia 15 a temperatura média do país chegou aos 24ºC, nove acima do que seria normal. A humidade relativa, que devia estar nos 60-70%, estava abaixo dos 25% em todo o país e “em certos locais perto dos 10%, como acontece nos desertos”, dizia Pedro Viterbo, do Instituto Português do Mar e da Atmosfera. Quatro meses depois de Pedrógão Grande, onde a temperatura também esteve 10ºC acima da média e com humidades relativas baixíssimas, voltou a catástrofe.

O combate aos incêndios vive dentro de uma caixa: de 1 de Julho a 30 de Setembro. Só que 15 dias antes e 15 dias depois dessa caixa morreram mais de 100 pessoas em catástrofes florestais com poucos paralelos a nível mundial. O combate vive numa caixa e as pessoas também: como a 15 de Outubro é tradicional fazer queimadas, muitas fizeram-se. Muitas deram origem a incêndios. Lançaram-se foguetes. As estatísticas dizem-nos ainda que, em média, 20% das ignições florestais em Portugal têm origem criminosa. Dentro de caixas vive ainda, separada do combate aos incêndios, a prevenção (pouca). A falta de comunicação significa que parte do combate é feito por quem tem poucos conhecimentos sobre floresta e território. Fora da caixa da época dos incêndios ainda piora esta comunicação.

O oportunismo político leva a que nesta altura a pressão se intensifique através de gestos teatrais. A mais que merecida demissão da ministra da Administração Interna por incompetência e inabilidade obscurece a competência e habilidade da ex-ministra da Agricultura que implementou a lei dos eucaliptos. Obscurece ainda a competência e habilidade que as empresas de celulose, os “Donos da Floresta”, tiveram ao conseguir, governo após governo, cor política após cor política, nas vacas gordas e nas recessões, pôr representantes seus à frente dos ministérios, das secretarias de Estado, dos serviços. Ouviremos os que defendem o fim do Estado ou o Estado mínimo insurgir-se contra as graves falhas do Estado. E ouviremos exigir prioridade à floresta e aos fogos, mas só se houver margem orçamental.fogo04

O relatório da Comissão Técnica Independente aponta grandes falhas nas áreas florestais em Portugal: monoculturas contínuas de eucalipto e de pinheiro, abandono, minifúndio, falta de gestão activa, descontrolo dos combustíveis e falhas nas estruturas de combate. Do princípio ao fim, as áreas florestais portuguesas têm falhas estruturais que incentivam o grande processo que pende sobre todo o território nacional: a desertificação. O aumento da temperatura, que é a face mais visível do aquecimento global, acelera todo esse processo. Assim estamos hoje.

O facto de terem morrido mais de 100 pessoas em Portugal devido a incêndios florestais em 2017 intensifica o abandono das zonas rurais e das propriedades florestais. O medo é um factor poderoso para aumentar o abandono, e muito terá de ser feito para responder com confiança a uma situação que criou tanto medo. Estão neste momento cerca de 300 mil hectares (que poderão chegar aos 500 mil) de área ardida em Portugal em 2017. Dos incêndios de Junho a Agosto, os pés de eucalipto já rebentaram e são o verde pálido que já se vê à volta de Pedrógão Grande. Estas áreas ardidas são prioritárias para o que se vai fazer no futuro e para decidir sobre a floresta futura.

Responder com fraqueza é deixar os proprietários tratar das suas terras (as que têm proprietário conhecido) sem regras ou com as regras da plantação liberalizada, o que levará a que daqui a cinco anos a massa combustível dos pés de eucalipto agora rebentados permita mais incêndios catastróficos. Os proprietários conhecidos têm de ser envolvidos na solução, mas não voltar ao business as usual. Num mundo em mutação acelerada temos de mudar rápido. Ou ganhará o abandono e, finalmente, o deserto. A caixa do homo economicus, que só defende o seu interesse próprio, é a receita da catástrofe.

A reforma florestal aprovada em Julho já está ultrapassada. É assim quando tudo acelera. Está presa numa caixa que não tem respostas suficientes. O fim das monoculturas é central, tal como o é a entrada de espécies que possam suster solos, água, desacelerar e travar fogos. A reforma de Julho não nos dá isso e continua a não fechar a porta à eucaliptização, aos incêndios e à desertificação. O dia depois de amanhã tem de chegar hoje à floresta.

Artigo originalmente publicado no Público a dia 19 de outubro de 2017.

Incêndios florestais, uma fraude de carbono e uma Ofélia ameaça – João Camargo

Há alturas em que se sobrepõem vários problemas num demasiado curto espaço de tempo. Depois de a Humanidade ter acelerado a velocidade da informação, acelera também agora a velocidade dos fenómenos climáticos extremos, como vem sendo previsto e concretizado de forma aguda nas últimas duas décadas. Ainda não acabou a nossa época de incêndios fora da época de incêndios, com rescaldos ainda fumegantes no Centro e Norte do país, e a ameaça de um furacão atlântico dirigindo-se para a Europa já está sobre nós. Tudo isto nos mesmos dias em que o Governo anuncia com pompa um roteiro para a neutralidade de carbono até 2050 e em que sai o relatório da Comissão Técnica Independente para os incêndios, entrelaçando vários temas que, apesar de aparentemente isolados, estão na verdade em estreito contacto.

florestasO relatório da Comissão Técnica Independente, criada pelo Parlamento para apurar causas e falhas dos incêndios do início do verão, principalmente em Pedrógão Grande, Castanheira de Pera, Figueiró dos Vinhos e zonas próximas, é peremptório em afirmar que estes incêndios são um “exemplo e um aviso de como os sistemas atuais de combate a incêndios não estão preparados para enfrentar um novo problema com raíz nas alterações climáticas”, e que o regime de incêndios extremos se irá gradualmente tornar no regime de fogo normal. As previsões de aumento de temperatura para 2050 e 2100 dão exatamente esse sinal: temperaturas muito mais elevadas, humidades muito menores, ondas de calor mais frequentes e mais prolongadas, noites muito quentes.

No dia 17 de Junho, Portugal Continental teve uma temperatura média de 29,4ºC, 10ºC acima da média para este dia entre 1971 e 2000. Na zona de Ansião-Pedrógão Grande, a temperatura esteve 13,9ºC acima da média 1971-2000. As humidades relativas mínimas estiveram entre os 15 e os 20%. Conjugando com outros fatores como a disponibilidade de combustível seco e abundante sob a forma de matos e biomassa morta, a inflamabilidade de combustíveis finos e regulares disponíveis no pinhal e eucaliptal, a projeção rápida de fragmentos queimados de pinheiro e eucalipto e a hipótese de combustão quase explosiva de compostos voláteis (α-pineno no pinheiro, cineol no eucalipto), podemos começar a perceber as características específicas deste incêndio e como poderá repetir-se. Acresce a isto a falha do alerta precoce à população, que poderia ter evitado a catástrofe humana. Mas a violência, a velocidade do incêndio e a dimensão do mesmo são consequência das alterações climáticas e da estrutura florestal de monoculturas de eucalipto e pinhal, do abandono e da falta de ações. A reforma da floresta de Julho só começou a tocar muito ao de leve no problema.

rnc2050Na véspera da apresentação do relatório dos incêndios florestais, o primeiro-ministro e o ministro do Ambiente juntaram-se na Culturgest para apresentar o Roteiro para a Neutralidade Carbónica 2050. Este objetivo foi anunciado por António Costa na última Cimeira do Clima em Marraquexe, e supostamente seria o cumprimento por parte de Portugal do Acordo de Paris, isto é, manter o aumento da temperatura abaixo dos 2ºC até 2100. O evento pretendia mostrar o compromisso do Governo na redução das emissões de gases com efeito de estufa, tendo Costa destacado a importante vulnerabilidade do país aos efeitos das alterações climáticas como um dos motivos centrais da sua proposta “ambiciosa”. O que ficou demonstrado foi que há a perceção do tema como potencial ganho político, mas que se mantém a inação como política de Estado. A habilidade contábil pautou o evento, especialmente quando o primeiro-ministro anunciou uma redução de emissões de 30 a 40% até 2030, quando comparado com os níveis de 2005. A escolha de 2005 como base para a redução é central: as emissões nesse ano, ainda antes da crise financeira, eram particularmente altas (86,3 Mt de CO2, segundo a Agência Portuguesa do Ambiente) e uma redução de 30 a 40% até 2030 significaria apenas atingir um valor entre 52 e 60 Mt. Em 2016, o nível de emissões foi de 66,5Mt de CO2, pelo que o corte anunciado por António Costa é na verdade entre 9 e 22%. Ora, para ambicionarmos sequer atingir os tais 2ºC do Acordo de Paris, devemos atingir um nível de emissões próximo das 24 Mt de CO2 em 2030. Isso significa um corte de 44 Mt. A proposta “ambiciosa” do Governo para cortes de emissões é cerca de um terço dos cortes em emissões necessários e assim, infelizmente, dirigimo-nos para o caos climático através, entre outros, de uma fraude contabilística de carbono. Para cumprir os seus objectivos, não foram elencadas quaisquer medidas concretas, baseando-se até ao momento o “Roteiro” em declarações vazias e evitando temas quentes como as concessões petrolíferas e a lei da prospeção, pesquisa e produção de petróleo (que aumentaria as emissões), o encerramento das centrais a carvão no Pego e em Sines (responsáveis por perto de 20% das emissões nacionais) e o facto de o maior sumidouro de carbono, a floresta, estar a perder uma área de dez mil hectares por ano há mais de duas décadas, além de ter recorrentemente a maior área ardida da Europa.

Entretanto, dos lados do Atlântico chegam-nos os efeitos de um oceano mais quente e energético. 2017 já produziu o maior número de furacões consecutivos no Atlântico desde o século XIX. Houve 16 depressões, 15 tempestades tropicais e dez furacões (cinco dos quais acima de categoria 3, muito destrutiva). No final deste fim-de-semana, o agora furacão Ophelia chegará às costas da Europa, seguindo caminho distinto dos restantes furacões atlânticos do ano. Embora o mais provável destino sejam as costas da Irlanda, existe a possibilidade real de o Ophelia se aproximar de Portugal e da Galiza, reproduzindo efeitos como os da tempestade Hércules em 2014. Mesmo que o trajeto vá para Norte, os efeitos do Ophelia não passarão ao largo e o fim do verão deverá chegar agora, com a possibilidade de chuvas intensas e o regresso imediato de outras ameaças como as cheias e inundações.

A época de incêndios termina a meio de Outubro, com a chegada de um furacão tropical e 90% do território, em seca extrema a severa, poderá estar imediatamente ameaçado de cheias. As alterações climáticas estão a materializar-se e a exceder em muitos casos a prudência dos modelos científicos. Caminhamos para bater os 2ºC de aumento de temperatura não em 2100, mas provavelmente perto de 2050. É decisivo ter uma política climática que corte emissões num período muito acelerado e, simultaneamente, prepare o território, cada vez mais ardido, seco e abandonado, para o futuro. Anúncios ambiciosos já não servem para nada.

Artigo originalmente publicado no Público a dia 14 de outubro de 2017.

O governo anunciou o seu plano de ação climática, e é ainda pior do que pensávamos. – Sinan Eden

No dia 11 de outubro, na Culturgest, o Primeiro-Ministro, o Ministro do Ambiente e o Presidente da Câmara de Lisboa convidaram centenas de empresários, jornalistas e representantes de ONGs para a apresentação do “Roteiro para a Neutralidade Carbónica 2050”, que pretende resumir toda a política do governo do PS em relação às alterações climáticas.

Ainda sabemos pouco sobre os detalhes, mas António Costa fez a seguinte declaração, a única informação concreta que saiu na comunicação social: “Estabelecemos metas para 2030 com ambição: reduzir as emissões entre 30%-40% em relação a 2005 …”

Vamos ver o que isto quer dizer.

Em 2005, as emissões foram de 86 Mt de CO2e (equivalente a 86 milhões de toneladas de CO2). Em 2015, foram de 68 Mt de CO2e. Esta informação é oficial e pública, no site da APA assim como nos ficheiros da UNFCCC.*

PT emissions timeline

Agora, o PS quer fazer reduções entre 30 e 40%. Por outras palavras, alcançar 60 a 70% das 86 Mt de CO2e. Ou seja, ou governo propõe emitirmos 52 a 60 Mt de CO2e em 2030.

Começando hoje, o governo quer cortar entre 8 e 16 Mt de emissões. Logo, o governo quer cortar as emissões atuais entre 11 e 24%.

Depois de esclarecermos esta manobra de contabilidade criativa, podemos voltar à realidade climática e ao realismo climático.

Há vários modelos que explicam o que deve ser feito para conseguirmos ficar abaixo de 2ºC de aquecimento global em relação a níveis pré-industriais. Usemos o modelo mais consensual, que toma em conta as responsabilidades históricas e a capacidade tecnológica de cada país. Na verdade, este modelo também inclui a dívida ecológica que o Norte Global contraiu aos países do Sul Global, mas vamos para já ignorar esta parte e focar-nos só nas emissões domésticas.

Para termos um planeta habitável e para evitar um ponto sem retorno na crise climática, Portugal deveria reduzir as suas emissões para 24 Mt de CO2e até 2030. Isto significa cortar as emissões atuais por 64% (e não entre 11 e 24% como o PS gostaria).

Figura 3

Queria sublinhar aqui que estes valores são linhas vermelhas para um planeta habitável, para uma probabilidade razoável de evitarmos a catástrofe climática irreversível. Ao mesmo tempo, são contas para ficar abaixo de 2ºC e não de 1.5ºC de aquecimento global. Contudo, a partir de 1.5ºC, vários países no Oceano Pacífico desaparecerão. Por outras palavras: reduzir as emissões em 64% em Portugal é cientificamente o mínimo que temos de fazer para garantirmos a existência de (qualquer) civilização humana no fim deste século. A física não faz negociações. Realismo climático implica compreender a realidade física em vez de fazer acrobacias contabilísticas para enganar o planeta.

Voltemos às contas:

O governo quer cortar 8 a 16 Mt das emissões atuais. Num mundo minimamente não-suicida, deveria cortar 44 Mt. O erro aqui é de 70%!

Imaginando: estão a conversar com uma criança e perguntam-lhe a idade; ela responde “20”, quando na verdade tem 6 anos. Ou pagam um engenheiro para construir um edifício de 10 apartamentos, mas ele acaba a obra com 3 apartamentos. O erro do PS em termos de ciência climática é de uma escala semelhante.

Infelizmente, temos de repetir isto muitas vezes: para mantermos o planeta habitável, Portugal para fazer a sua parte tem de cortar as emissões atuais em 64% até 2030. Ponto final.

Mas a situação é pior. O PS não só faz truques com as contas, como também nos dá uma informação muito importante. Sem rodeios, o governo comprometeu-se ontem a não fazer nada sobre as alterações climáticas durante o seu mandato. Isto porque a UE já tem metas estabelecidas sobre a eficiência energética, de acordo com as quais Portugal já tem planos para reduzir o consumo de energia primária em 25% até 2020 (ver PNAEE/metas). Reduzir o consumo de energia em 25% e reduzir as emissões em 11-24% são metas coerentes (já que 70% das emissões vêm do setor energético). O único senão é que para atingir isto, não é preciso fazer absolutamente nada de novo, porque estas políticas já estão bem encaminhadas.

cartaz_empregos_clima_a4 lightDito tudo isto, será possível cortar as emissões de uma forma compatível com a ciência climática? Sim. De acordo com o relatório da campanha Empregos para o Clima, o governo poderia (em vez de nos atirar areia para os olhos) criar 100 mil novos empregos dignos e seguros no setor público (nas áreas de energia, transportes públicos, eficiência energética, floresta e outras) para realmente atingir o que é necessário: cortes de emissões de 60 a 70% em 15 anos.

Este novo relatório vai ser apresentado no dia 19 de outubro (quinta-feira) às 19h00 no CES-Lisboa.


*Os dados mais atuais disponíveis são de 2015. Há dados provisórios para 2016 mas iremos usar aqui os de 2015 (ainda que os de 2016 tornem o nosso argumento abaixo ainda mais forte).