Qual é a resposta para a crise do clima? – Sinan Eden

1. Limites e fronteiras

§1. Limites planetários: Talvez o mais importante dos desenvolvimentos recentes na ciência ecológica seja o conceito de “limites planetários”.1 Os cientistas apontaram nove limites/fronteiras críticas relativamente às condições ambientais que existiram durante os últimos doze mil anos (o período do Holoceno). Estes limites dizem respeito a: (1) alterações climáticas; (2) acidificação dos oceanos; (3) depleção do ozono estratoesférico; (4) limite dos fluxos biogeoquímicos (ciclos do fósforo e do nitrogénio; (5) utilização global de água doce; (6) mudança dos sistemas de utilização do solo; (7) perda de biodiversidade; (8) acumulação de aerossóis na atmosfera; (9) poluição química.2

O sistema da Terra que mantivesse as condições físicas necessárias para o desenvolvimento da civilização humana seria essencialmente alterado para lá destes limites.

Um estudo recente mostra que quatro dos nove limites planetários foram já ultrapassados graças à acção humana: alterações climáticas, perda de integridade da biosfera, mudança dos sistemas de utilização do solo, e os ciclos do fósforo e do nitrogénio.3

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Como foi explicado num artigo anterior, a crise climática é especialmente perigosa por causa da sua natureza irreversível.4 Focaremos, portanto, a nossa atenção nas alterações climáticas, ainda que a maior parte da argumentação possa ser aplicada à crise ecológica no geral.

A ultrapassagem dos limites planetários põe toda a civilização humana em risco de colapso. No entanto, para perceber a razão pela qual estes limites estão a ser ultrapassados hoje e não noutro momento qualquer (e, consequentemente, perceber como prevenir o possível colapso), temos de fazer uma análise do ponto de vista histórico e não do ponto de vista moral.

§2. Limites históricos a empurrar as fronteiras planetárias: Do ponto de vista teórico, a ultrapassagem das fronteiras planetárias é apenas mais uma manifestação de que o capitalismo atinge os seus limites históricos. A estagnação secular que se começou a manifestar nos anos 70 coincide (e não por acaso) com a pegada ecológica global a ultrapassar o limiar de um-planeta.5 6

Depois de a “idade do ouro” que se seguiu à II Guerra Mundial, a lei da queda tendencial da taxa de lucro tornara-se o factor dominante nas economias mundiais, e nem mesmo a dissolução da União Soviética (e a consequente “transição” das suas economias para o capitalismo global) foi suficiente para aliviar a ânsia neoliberal pela apropriação imediata de valor.

A forma como o capitalismo e os capitalistas responderam aos limites históricos forçou e empurrou os limites planetários de várias maneiras, que analisaremos mais adiante. Mas primeiro vamos deter-nos sobre a razão pela qual o modo de produção capitalista intrinsecamente ignora, causa e intensifica os desastres ecológicos.

2. Antagonismos do Capitalismo

§3. Valor de uso vs valor de troca:7 Todas as mercadorias têm um valor de uso e um valor de troca. O valor de uso é uma forma de valor qualitativo, que depende das necessidades e das prioridades de cada pessoa. O valor de troca, por outro lado, é calculado através do tempo de trabalho socialmente necessário para a produção dessa mercadoria. No que diz respeito à circulação de mercadorias, o valor de troca é a forma de valor mais relevante.8

O dinheiro é a mercadoria cujo valor de uso é ser a medida de todos os valores de troca. Enquanto outras mercadorias são compradas para uso pessoal, o dinheiro é adquirido porque oferece o acesso universal a todas as mercadorias. O dinheiro representa, portanto, o poder universal.

O que existe para mim através do dinheiro – aquilo que posso pagar (ou seja, que o dinheiro pode comprar) – tudo isso sou eu, o possuidor do meu dinheiro. O alcance do poder do dinheiro é o alcance do meu poder. As propriedades do dinheiro são as minhas propriedades e faculdades essenciais – as propriedades e faculdades do seu possuidor. Assim, aquilo que sou e que de que sou capaz não é, de maneira nenhuma, determinado pela minha individualidade. Sou feio, mas posso comprar para mim a mais bela das mulheres. Não sou feio, portanto, porque o efeito da fealdade – o seu poder de dissuasão – é anulado pelo dinheiro.9

De modo geral, observamos a simples circulação de mercadorias, representada assim:

Mercadoria – Dinheiro – Mercadoria,

M – D – M.

O padeiro vende o pão e compra leite com o dinheiro que ganha; o leiteiro usa esse dinheiro para comprar sapatos. O trabalhador vende a sua força de trabalho e paga a conta da electricidade com o seu salário. Isto significa que, de modo geral, vendemos para podermos comprar. Assim, para o cidadão comum, um mecanismo mais racional do que o capitalismo parece inconcebível.

O que os capitalistas vêem, no entanto, é um versão iterada desta circulação. Nós vemos

… M – D – M – D – M …

(pão) (leite) (sapatos)

enquanto eles vêem

… D – M – D – M – D …

Isto é a circulação do capital. Esta é a base de todas as bolsas de valores e mesmo de toda a economia dos dias de hoje. Começa com o dinheiro e acaba com o dinheiro. Ao contrário do nosso senso comum, aqui a motivação maior é comprar para poder vender.

Um padeiro não compra trinta litros de leite só para si; a circulação M – D – M tem limites naturais; o ciclo D – M – D, pelo contrário, é infinito, tendo como motivação principal gerar mais dinheiro.

A simples circulação de mercadorias – vender para comprar – é um meio para atingir um objectivo situado fora dela, isto é, a apropriação de valores de uso, a satisfação de necessidades. A circulação do dinheiro como capital constitui, pelo contrário, o objectivo em si mesma, porque é só por este movimento constantemente renovado que o valor continua a fazer-se valer. A circulação do capital não tem, portanto, limite.10

Até certo ponto, há uma relação entre necessidades humanas reais e o ciclo M – D – M (o padeiro precisa mesmo de leite). No ciclo D – M – D, esta necessidade não existe. A única necessidade existente aqui é obter mais valor de troca. É a isto que normalmente se chama o movito da “maximização do lucro”. A lógica do capital é, portanto, a do crescimento pelo crescimento.11

§4. O valor de troca domina: A integração capitalista é a integração do valor de troca em todas as esferas da vida, e a desintegração de todos os outros valores da vida. O sistema financeiro, onde a “sustentabilidade” das formas monetárias (em vez de objectos reais) é o objectivo principal, é a subordinação final do valor de uso ao valor de troca.

§5. Alienação: O capital não vê nada senão mercadorias. O capital tende a ver mercadorias para onde quer que olhe. O capital reduz as mercadorias a valores de troca. Isso tem dois tipos de impactos.

Primeiro, o capitalismo gera a sua cultura à sua imagem, em que as pessoas têm dificuldade em separar as suas necessidades das necessidades do capital. Isto dá origem a uma alienação dos humanos em relação aos outros humanos, uma vez que vêem os outros apenas como proprietários de mercadorias.

Em segundo lugar, todas as coisas são subjugadas à circulação do capital. Disto resulta a comercialização da natureza, onde os sistemas naturais são reduzidos ao valor de troca que deles pode ser extraído.

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§6. O capital vs. A Natureza: As características do capital e as da natureza são intrinsecamente antagónicas. O capital caracteriza-se pela divisibilidade (a forma monetária pode ser dividida em peças tão pequenas quanto se quiser), pela equivalência (os valores de todos os objectos são comparáveis nos seus preços), e por ser ilimitado (ver §3.). Por outro lado, a natureza compreende-se melhor em temos holísticos, sendo diversa e limitada. Este antagonismo torna o capital incompatível com os sistemas terrestres.

§7. Socialização e individualização: Através da socialização do processo laboral, o capitalismo emancipou os seres humanos dos seus constrangimentos naturais. Criou um metabolismo social onde a interdependência é a característica fundamental, ao mesmo tempo que cada indivíduo está ao abrigo de condições externas: quando estamos doentes, vamos ao hospital; quando precisamos de electricidade, basta acender a luz. Quando precisamos de água, abrimos a torneira. Quando um desastre acontece numa qualquer parte do mundo, acreditamos que cabe aos outros países ajudar. Ninguém no mundo de hoje utiliza apenas os materiais produzidos na sua própria comunidade, etc.

Esta integração criou uma sociedade mundial onde nenhum indivíduo depende de nenhum outro indivíduo em particular para sobreviver, ao mesmo tempo que a sociedade num todo depende de si própria para a sua manutenção.

Entretanto, a sociedade foi desintegrada do seu ambiente natural. A cidade foi separada do campo. A produção e o consumo foram dramaticamente separados em tempo e espaço. Deu-se uma ruptura metabólica entre seres humanos e natureza.12

§8. Alienação da Natureza:

A natureza é o corpo inorgânico do homem; quer isso dizer a natureza excluindo o próprio corpo humano. Dizer que o homem vive da natureza significa que a natureza é o corpo dele, com o qual deve se manter em contínuo intercâmbio a fim de não morrer. A afirmação de que a vida física e mental do homem e a natureza são interdependentes, simplesmente significa ser a natureza interdependente consigo mesma, pois o homem é parte dela.13

A natureza extractivista do capitalismo (ver §3.) está em conflito directo com uma relação natural dos seres humanos com a natureza. A lógica linear do capitalismo e a sua redução de tudo à acumulação de valor é incompatível com os ciclos e sistemas complexos da natureza.

A resposta capitalista à crise climática é, consequentemente, também ela reducionista, conduzindo necessariamente a falsas soluções.

3. A resposta capitalista

§9. Voltemos agora aos limites históricos e às fronteiras planetárias, tendo em conta os antagonismos do capitalismo.

§10. A resposta capitalista aos seus limites históricos: A atitude geral do capitalismo face aos seus limites históricos foi condicionada pela sua mono-dimensionalidade: fazer mais do mesmo, exactamente da mesma maneira, e esperar que o problema se resolva.

Para começar, inventaram-se necessidades desnecessárias, como carros cada vez maiores (para andar em média a 15km/h nas grandes cidades), ou todo o tipo de materiais descartáveis. Depois, inventaram-se empregos desnecessários, como a protecção de copyright14 e a publicidade em massa. Depois, a obsolescência programada promoveu o “descartável” a “tem-de-ser-descartado”.15 Na frente ideológica, isto é acompanhado pela mercantilização de tudo, pela redução dos ecosistemas aos “bens e serviços ambientais” (assim quantificados em termos de valor do mercado, e assim inseridos numa análise de custo-benefício16), e pelas privatizações.

A maioria destas medidas funcionou com sucesso para gerar lucro, e nada mais do que isso.

§11. A resposta capitalista aos problemas ambientais: A resposta imediata das corporações à crise climática foi encontrar, fundar e/ou financiar ONGs que serviriam para “sensibilizar” em relação à crise criada pelas próprias corporações, concentrando-se em soluções individuais e desviando a atenção dos problemas sistémicos de fundo. As respostas mais sofisticadas incluíram ainda mais financeirização, como mercados de carbono, mecanismos de REDD+ e as compensações do carbono. Esta última resposta foi muito além das distopias, onde alguém é alegremente convidado a comprar para ser boa pessoa, pagando um valor consideravelmente mais alto por um produto para que uma percentagem minúscula do lucro financie a compensação de alguns dos efeitos negativos desse mesmo produto.

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§12. A resposta capitalista aos grupos de justiça ambiental: Quando as preocupações em relação à sustentabilidade entraram em conflito directo com a maximização do lucro, a resposta imediata foi oprimir globalmente os grupos da advocacia. Alguns exemplos dos países menos anti-democráticos são as reacções do estado às lutas contra o gasoduto no Dakota do Norte, à ZAD de Notre-Dame-des-Landes, ao movimento “No New Runways” em Heathrow, entre muitos outros, dos quais dispomos geralmente de pouca documentação.17

Quando a opressão falha, o passo seguinte é a negociação, para deixar o status quo inabalado. A dimensão enorme da crise climática exigiu um processo de negociação e de sofisticação mais complexo. Cimeiras atrás de conferências atrás de cimeiras. Mais e mais relatórios optimistas foram aparecendo.18 Fez-se muito barulho. Muitas “vitórias” foram declaradas (sendo as mais emblemáticas Quito e, recentemente, Paris). Contudo, as emissões de gases com efeito de estufa continuaram a aumentar e o aquecimento global continuou a acelerar, ultrapassando limiares sucessivos.

4. As respostas socialistas até agora

§13. As experiências socialistas até agora reivindicaram a abolição dos antagonismos do socialismo, enquanto a destruição ecológica continuou. Por outras palavras, uma condição necessária para um futuro sustentável (confrontar o sistema capitalista) não resulta numa condição suficiente para ele. As experiências anteriores merecem, portanto, um olhar crítico no nosso contexto.19

§14. A experiência Soviética: A União Soviética, a primeira experiência socialista na história mundial, nasceu com dois constrangimentos estruturais para a construção de uma nova civilização. O primeiro foi o falhanço da revolução europeia que se esperava a seguir, o que isolou a revolução de uma sociedade maioritariamente camponesa com baixo nível de industrialização. O segundo constrangimento foi ver-se entalada entre a necessidade imediata de uma reconstrução massiva depois da desastrosa 1.ª Guerra Mundial e a necessidade urgente de preparar a indústria e a sociedade para confrontar o exército Nazi na 2.ª Guerra Mundial. Estes dois constrangimentos levantaram o problema premente da rápida industrialização e expansão da economia Soviética.

§15. Dognat’ i Peregnat’: A solução política que os líderes Soviéticos encontraram foi “alcançar e superar” as economias capitalistas. Os modelos Tayloristas foram implementados nas fábricas, as experiências de auto-gestão foram descartadas. A curto prazo, esta fórmula política parecia funcionar: a produção aumentou, a economia Soviética “saltou por cima”, literalmente, da Grande Depressão (deixando perplexos os líderes políticos do mundo inteiro e tornando mainstream a economia planificada até nos centros capitalistas), e a URSS conseguiu resistir e expulsar a tentativa de ocupação Nazi que se seguiu poucas décadas depois.

§16. A longo prazo, no entanto, estas escolhas reproduziram a alienação dos trabalhadores tanto em relação aos seus produtos como ao seu acto de produção. Como não havia questionamento posterior destas escolhas, o modo de produção da União Soviética tornou-se capitalista na forma (reproduzindo a alienação), com conteúdo socialista (a mais-valia colectivizada). Esta abordagem anti-dialética resolveu-se a si própria gradualmente, com a forma a ditar o conteúdo. A forma e o conteúdo foram reconciliadas com Glasnost e Perestroika.

A alienação capitalista reproduzida tinha ainda implicado a alienação da natureza, cujos exemplos mais drásticos são patentes no colapso completo do lago Aral, no desastre nuclear de Chernobyl, e na pesada militarização da economia e da sociedade Soviética.

§17. Outras experiências socialistas: Algumas destas políticas Soviéticas foram depois postas em causa em Cuba (após a dissolução da União Soviética e da crise do petróleo que se seguiu), mas continuaram praticamente intactas noutros exemplos até bem recentemente (particularmente na China). Mais recentemente, os governos da Bolívia e do Equador desenvolveram abordagens radicalmente diferentes, ao incluir os direitos da natureza na Constituição dos seus países. Estas últimas experiências têm as suas próprias contradições latentes, especialmente ao terem lugar em economias completamente inseridas no sistema capitalista.

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5. Marxismo e Ecologia

§18. Críticas anti-comunistas: As críticas ecológicas anti-comunistas às experiências socialistas incidem essencialmente na reprodução da lógica de produção capitalista. No entanto, estas críticas omitem, muito convenientemente, este lado das suas análises, lavando na verdade a imagem da ideologia capitalista.

Se quisermos resolver a crise climática, continuará a ser necessário atacar os antagonismos internos do capitalismo. A experiência Soviética mostra que este “ataque” tem de ser muito mais profundo do que se pensava ao princípio.

§19. Críticas anti-Marxistas: Um pré-requisito universal para qualquer discurso anti-Marxista é nunca ter lido Marx. O mesmo se aplica na área da ecologia. No pior dos casos, os críticos anti-Marxistas desconhecem conceitos-chave da análise de Marx, tais como o da “ruptura metabólica”20, o da “alienação dos trabalhadores, a “eliminação gradual da diferença entre cidade e campo, por uma distribuição mais justa da população pelo país”21, etc, e lêem Marx com os seus próprios olhos positivistas e mecânicos. No melhor dos casos, parecem culpar Marx e Engels pelo seu optimismo revolucionário: de facto, estes revolucionários julgavam que o capitalismo seria derrotado muito antes de os problemas ecológicos se agudizarem desta forma.

§20. Em qualquer dos casos, abandonar a análise marxista da História deu lugar a um entendimento estático da crise climática. Um subproduto importante desta confusão ideológica da política ecológica é que, uma vez removida da análise a luta de classes como motor da História, o movimento pela justiça ambiental acaba com um problema de agência. Isto levou a abordagens moralistas e muitas vezes despolitizadas.

§21. Marxismo e Ecologia: Ao longo das últimas décadas, surgiram dentro do Marxismo duas correntes que integraram a perspectiva ecológica nas suas análises. Uma é a escola de Ecologia Marxista (encabeçada pela revista Monthly Review) e a outra é a Rede Eco-socialista (por exemplo, na coligação System Change Not Climate Change).22 Estas correntes dão ênfase à unidade orgânica dos seres humanos com a natureza (contra a dicotomia natureza versus seres humanos), politizando o discurso das “necessidades”,23 questionando a produção industrial enquanto única forma de criar valor (isso seria capitalismo), e reintroduzindo ferramentas políticas essenciais como o tempo livre e a racionalização e planificação da economia. Do ponto de vista teórico, identificam também os elementos da super-estrutura que reproduzem as relações de produção capitalistas.

6. Ecologia revolucionária ou barbárie

§22. O caldeirão das lutas ambientalistas e anti-capitalistas: A crise climática, com a sua componente de urgência, torna visível duas limitações com que se depararam os ambientalistas até agora.

Em primeiro lugar, a transformação radical necessária, do ponto de vista social, económico e ecológico, para travar o aquecimento global exclui automaticamente qualquer solução “dentro do sistema”. Os únicos caminhos realistas apontam para $1,1 biliões de activos abandonados na próxima década e é tecnicamente impossível fazer isto de uma forma economicamente suave.24 Em segundo lugar, é cada vez mais evidente que não se pode ganhar a luta climática sem ganhar “tudo”. As soluções passam por transformações profundas dos métodos de produção, de distribuição e de consumo, a todos os níveis. Por seu lado, isto implica confrontar as maiores empresas do mundo (a maior parte das quais está directamente ligada aos combustíveis fósseis). Por outras palavras, ou transformamos nós próprios as nossas sociedades em todos os seus aspectos (energia, transporte, alimentação, etc), ou as alterações climáticas transformarão tudo por nós (secas, tempestades, falhas de infraestrutura, refugiados climáticos, etc).25 Em resumo, começa a ser impossível ser-se ambientalista sem se ser também anti-capitalista.

Do outro lado do espelho, aparece uma imagem simétrica, com duas limitações com que se deparam os anti-capitalistas. Primeiro, a potencial irreversibilidade das alterações climáticas serve de alerta para todos os revolucionários, estabelecendo um prazo máximo para ganhar a luta. Em segundo lugar, a revolução não pode ser uma revolução qualquer – tem de responder directamente à crise climática. Os anti-capitalistas têm de ter propostas concretas (e urgentes) que respondam simultaneamente às injustiças climáticas e sociais.

Resumindo, a crise climática serve como caldeirão onde se devem misturar os ambientalistas e os anti-capitalistas, fazendo de todos revolucionários – exactamente o que precisamos nestes tempos.

§23. Soluções verdadeiras e soluções falsas: As soluções verdadeiras para a crise climática têm de, pelo menos, confrontar as tendências capitalistas de comercialização e maximização do lucro. Na verdade, isto pode ser usado como teste decisivo para distinguir as soluções reais das soluções fáceis. Seguem-se alguns exemplos que apontam direcções ideológicas opostas.

A campanha “Keep It In the Ground” exige o abandono imediato de todos os novos projectos de combustíveis fósseis, enquanto o discurso do crescimento verde se concentra num “aumento da parte dos renováveis”, ignorando o argumento físico que mostra que, para reduzir emissões, temos de substituir as infraestruturas dos combustíveis fósseis e não apenas acrescentar mais recursos renováveis à oferta energética.

Muitas campanhas de não-produção sublinham outros valores que não os de mercado, como as lutas contra os mega-projectos, de que são exemplo a ZAD, Heathrow, a revolta de Gezi e a Defesa das Florestas do Norte de Istambul. Do lado contrário, as companhias de aviação vendem recibos de compensações do carbono para supostamente plantar árvores algures, continuando assim a emitir dióxido de carbono.

As campanhas pelos transportes públicos concentram-se na equidade e no acesso à cidade, reduzindo ao mesmo tempo o consumo e as emissões, enquanto outras campanhas confiam num boom na indústria dos carros eléctricos, que se baseia nas mesmas práticas extractivistas.

As campanhas pelos Empregos para o Clima exigem empregos decentes para centenas de milhares de pessoas, protegendo ao mesmo tempo os trabalhadores que perderiam os seus postos de trabalho com a transição energética. A abordagem da economia verde, no entanto, ainda não produziu senão alguns subsídios para alguns sectores, como incentivo para mais lucro, e não para uma transição energética.

Alguns sectores dentro do movimento de decrescimento viram a sua atenção às necessidades estruturais do capitalismo, tais como as guerras, a publicidade, e a obsolescência programada. (No melhor dos casos, estas indústrias não produzem nada para as pessoas; no pior dos casos, destroem o que foi produzido.) Pelo contrário, as propostas tecno-fixas vão desde a instalação de espelhos na atmosfera para relectir os raios de sol até tecnologias de geração de nuvens artificiais. Evidentemente, estas “soluções” raramente passam do papel, uma vez que não há procura no mercado para elas. Ainda assim, fizeram barulho suficiente para criar ilusões bastantes dento do movimento climático.

Mais em geral, a abordagem da transição justa exige justiça social e climática, enquanto uma grande parte das ONGs ambientalistas continua a propor uma espécie de “austeridade ambiental”, fazendo as pessoas pagar, uma vez mais, os custos criados pelos capitalistas.

§24. Temos de nos lembrar sempre de que a crise climática é uma crise social.

O planeta não precisa de seres humanos, nem é a biodiversidade um bem em si mesmo. Os seres humanos precisam de manter os sistemas da terra dentro das fronteiras planetárias, para a sua própria sobrevivência como seres naturais. A solução para a crise social é uma mudança de sociedade, e não umas quantas alterações sectoriais.

O slogan “Muda o Sistema, Não o Clima” aponta o caminho para um planeta justo e habitável.

scncc


* Artigo originalmente publicado no Praxis a dia 10 de janeiro de 2018.


1 Fred Magdoff, John Bellamy Foster, What Every Environmentalist Needs to Know About Capitalism, Monthly Review, Volume 61, Número 10 (Março 2010).

2 Johan Rockström, et al., “A Safe Operating Space for Humanity,” Nature, 461 (24 de Septembro, 2009), 472-75.

3 Danger zone: Earth crosses four planetary boundaries, Climate & Capitalism, 15/01/2015.

5 Hans G. Despain, Secular Stagnation: Mainstream Versus Marxian Traditions, Monthly Review, Volume 67, Número 04 (Septembro 2015).

6 Fred Magdoff, John Bellamy Foster, Stagnation and Financialization: The Nature of the Contradiction. Monthly Review, Volume 66, Número 01 (Maio 2014).

7 Este parágrafo padece de erros teóricos e falhas devidas à simplificação excessiva e a omissões que escolhi fazer de forma a sublinhar alguns aspectos da teoria marxista relevantes para o nosso contexto.

8 A força de trabalho também é uma mercadoria. Um proletário é alguém que vende a sua força de trabalho para sobreviver. No entanto, o tempo de trabalho necessário para produzir os bens de necessidade diária de um trabalhador é menor do que o seu número de horas de trabalho diário. A diferença, ou seja, a mais-valia gerada pelo trabalhador, é apropriada pelo capitalista que comprou a sua força de trabalho.

9 Karl Marx, The Economic and Philosophic Manuscripts of 1844, Tradução inglesa de Martin Milligan, International Publishers, New York, 1964, p.167.

10 Karl Marx, Capital Volume 1, Marxist Internet Archive, http://www.marxists.org/archive/marx/works/download/pdf/Capital-Volume-I.pdf , p.104-105.

11 Uma nota fundamental: uma tendência comum é deduzir, desta análise, que “M – D – M é bom, D – M – D é mau” (este é também o principal argumento ético contra as políticas neoliberais). Esta dedução está errada. Não há aqui dois ciclos. A dinâmica do mundo das mercadorias é … M – D – M – D – M – D… . Esta dinâmica engloba a circulação de mercadorias e a circulação de capital. Os resultados deste parágrafo são, portanto, as consequências analíticas de uma estrutura sócio-económica em que as pessoas se relacionam umas com as outras enquanto proprietários de mercadorias.

12 John Bellamy Foster, Marxism and Ecology: Common Fonts of a Great Transition, Monthly Review, Volume 67, Número 7 (Dezembro 2015).

13 Karl Marx, The Economic and Philosophic Manuscripts of 1844, Translated by Martin Milligan, International Publishers, New York, 1964, p.112.

14 Isto tem uma importância particular. O famoso motivo da competição, que é suposto ajudar a produzir cada vez mais bens, causa o mair constrangimento possível ao acesso aos bens já produzidos.

15 Ver Story of Stuff. http://storyofstuff.org/

16 Ver: Robin Hahnel, Green Economics: Confronting the Ecological Crisis, Taylor & Francis, 2010, 288 páginas.

17 Sinan Eden, A huge case study of resistances and victories: Turkey, Climáximo blog, https://climaximo.wordpress.com/2015/11/01/a-huge-case-study-of-resistances-and-victories-turkey/

18 Sean Sweeney e John Treat, Energy Transition: Are We Winning?, Trade Unions for Energy Democracy Working Paper No. 9, Janeiro de 2017.

19 Para ser claro, não vou usar nenhuma definição categórica do socialismo neste capítulo. Vou brevemente rever algumas das experiências auto-declaradas como socialistas. Uma análise mais aprofundada, que inclui outros estudos de caso (particularmente os exemplos autênticos do Sul Global) exigiria um artigo separado.

20 John Bellamy Foster, Marx and the Rift in the Universal Metabolism of Nature, Monthly Review, Volume 65, Issue 07 (Dezembro 2013)

21 Karl Marx e Friedrich Engels, Communist Manifesto, tradução disponível online no Marxist Internet Archive, https://www.marxists.org/archive/marx/works/1848/communist-manifesto/

23 Ege M. Diren, Who Needs Our “Needs”, Out for Beyond, 23/10/2011. https://network23.org/outforbeyond/2011/10/23/who-needs-our-needs/

24 Jess Worth, Ending the Oil Age, The New Internationalist, Novembro 2014, Número 477.

25 Naomi Klein, This Changes Everything: Capitalism versus The Climate, Siman & Schuster, 2014.

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Ativismo: é melhor do que falecer – Sinan Eden

§0. Quando falamos sobre alterações climáticas, muitas pessoas me perguntam: “Mas o que posso eu fazer no dia-a-dia?” A minha resposta é: torna-te um/a ativista polític@ no teu dia-a-dia. Organiza ação coletiva contra os criminosos do clima. Isto não só é mais divertido, mas também muito mais eficaz. E quando digo mais eficaz, quero dizer muuuuuuuuuuuito mais eficaz.

§1. As emissões de gases com efeito de estufa em Portugal são 7 toneladas per capita por ano. Ou seja, uma pessoa média em Portugal emite o equivalente a 7 toneladas de CO2 durante um ano.* Ora, os níveis sustentáveis que temos de atingir mundialmente são 2 toneladas per capita por ano.

Vamos ver então as nossas opções.

A) Podes consumir menos.

§2. Se calhar és um franciscano ecológico. Assim i) partilhas a tua casa com mais três pessoas, ii) nunca usas aquecimento, iii) usas eletricidade só para as necessidades básicas, iv) nunca viajas entre cidades, v) usas só transportes públicos e isso também só para ir ao trabalho, vi) nunca comes carne, vii) compras só alimentos locais, viii) nunca compras roupa, ix) evitas produtos com embalagens, e x) nunca vais ao cinema ou ao teatro.

bosch-hellEntão as tuas emissões são 3.4 toneladas por ano. **

§3. Vejamos. Produzes 7 toneladas de emissões. Tens de chegar a 2 toneladas. Mas se fizeres tudo tudo tudo o que podes fazer no teu dia-a-dia, nem sequer consegues descer até às 3 toneladas.

Isto porque vivemos num sistema socioeconómico em que as nossas escolhas como consumidores/as são predefinidas pela linha de produção.

§4. Então, austeridade ecológica não resultou.

B) Podes suicidar-te.

§5. Assim reduzirias as tuas emissões a zero.

§6. Mas as emissões do mundo continuariam. Portanto, se te suicidasses e te encontrasses com @(s) teu/tua(s) deus(e/as) ecológic@(s), ele/a(s) mandar-te-iam para o inferno ecológico (para seres queimado/a como biocombustível com zero emissões líquidas, para aquecer o paraíso ecológico) porque poderias ter convencido outras pessoas a suicidarem-se contigo e não o fizeste.

Portugal tem de cortar as suas emissões nacionais em 60-70% em 15 anos. Isto quer dizer que terias de convencer mais de metade de população a suicidar-se, e terias 15 anos para fazer isto.

§7. Na verdade, os países desenvolvidos como Portugal têm já um longo passado de emissões de gases com efeito de estufa, e estes têm vindo já a causar catástrofes noutros países, nomeadamente no Sul Global. Por isso, para uma distribuição justa das responsabilidades históricas, Portugal deveria cortar também as emissões de outros países, para além das suas emissões nacionais. (Por outras palavras, devemos cortar 60-70% das emissões nacionais. Depois, devemos cortar, em outros países, emissões equivalentes a 40-50% das nossas emissões.)

Ou seja, as emissões de um/a habitante de Portugal devem tornar-se negativas em 15 anos, algo que não podes atingir ao morrer. E nem seria suficiente matares outros/as portugueses/as. Terias de matar estrangeiro/as também, e especialmente crianças.

§8. Bolas! Se a única solução individual para um planeta habitável é matar pessoas em massa, porquê fazê-lo? Combatemos as alterações climáticas exatamente para isto não acontecer. Será que existe outra solução?

C) Podes participar em ativismo climático.

§9. Em maio de 2016, dentro da quinzena de ação global “Liberta-te dos combustíveis fósseis”, mais de 30 mil ativistas em 6 continentes participarem em 20 ações de desobediência civil em massa em sítios-chave, bloqueando minas, portos, centrais a carvão, zonas de fracking e mais.

§10. Na Lusitânia, Alemanha, ocorreu a ação Ende Gelände. 3500 ativistas ocuparam a maior mina de carvão na Europa durante uns dias, fisicamente bloqueando 24 547 toneladas de emissões de dióxido carbono.

Isto perfaz 7 toneladas por pessoa.

§11. Então, podes passar três dias do teu ano a participar numa ação direta contra a indústria dos combustíveis fósseis. E se és uma pessoa média e se participaste na Ende Gelände nesse ano, as tuas emissões anuais foram: ZERO!

E se prestaste um pouco de atenção às escolhas do teu estilo de vida, se calhar até tiveste emissões negativas!

§12. Claro que se curtiste estar do lado certo da história, se os sentimentos de solidariedade, unidade e justiça te fizeram mais feliz, então podes fazer mais do que uma ação por ano – se calhar menos confrontativa.

O que tudo isto significa

§13. Como é óbvio, o objetivo destas contas não é desvalorizar os esforços envolvidos na organização, preparação e divulgação duma ação deste género. Muitos autocarros foram organizados a partir de dezenas de cidades europeias. Houve treinos de ação. Houve um acampamento. Houve enorme trabalho para montar equipas médicas e apoio legal. Podes ajudar em cada uma destas tarefas e assim seremos mais fortes da próxima vez. Uma ação direta de 3 dias não acontece espontaneamente, ela precisa de trabalho de preparação que demora meses.

§14. O objetivo também não é sobrevalorizar as ações só por si. A quinzena “Liberta-te / Break Free” foi parte das campanhas locais já existentes e serviu para aeg3limentar estas lutas, que noutros momentos usam táticas diversas para parar estes projetos poluentes, como comunicação direta, sessões de esclarecimento, ações criativas e manifestações. Podes ajudar em tudo isto, e quem sabe, se calhar um dia destes uma campanha diversificada fa uma das maiores empresas privadas de carvão falhar. Espera, mas isto já aconteceu em abril de 2016! Em qualquer caso, as maiores empresas do mundo continuam a ser os maiores poluidores e temos um caminho longo pela frente.

§15. Para além disso, a justiça climática não pode ser reduzida às emissões. Justiça climática tem também a ver com pobreza energética, racismo, habitação, captura do poder pelas empresas via tratados de comércio livre, e – se calhar o mais importante – com paz. Tenho a certeza de que podes encontrar a área que mais te toca e envolver-te em ativismo nesta área. Todas estas lutas são lutas pela justiça climática.

§16. Finalmente, a luta entre as narrativas individuais e narrativas coletivas é uma luta ideológica.

Os neoliberais querem isolar-nos, querem tornar-nos meros “consumidores” atomizados, querem reduzir o nosso poder e a nossa capacidade financeira.Tokelau-canoe-launched-pacific

3500 pessoas separadas e isoladas não poderiam parar mina alguma. Juntas e organizadas, conseguiram fazê-lo. E é certamente este o pesadelo das elites económicas.

§17. As escolhas individuais consistentes com o mundo que queremos construir são eticamente relevantes, mas não são politicamente eficazes. Os números dizem-nos que, se queremos evitar um colapso civilizacional, temos de rapidamente nos organizar e mobilizar.

Junta-te à luta, ajuda nas campanhas existentes, traz novas ideias, faz parte desta oportunidade histórica para mudar tudo, antes que o clima o faça.

***

Notas:

* Emitimos também metano, etc., por isso usamos a unidade CO2e, que é “equivalente de CO2”. Ou seja, nestas contas, todos os gases com efeito de estufa estão incluídos.

** Existem várias formas de calcular a tua pegada de carbono. Usei os números daqui porque chegam a um valor pequeno: http://www.carbonindependent.org/ . Depois, há também este calculador http://www.carbonfootprint.com/ e este outro: http://footprint.wwf.org.uk/home/calculator_complete . O último é só para o Reino Unido, e o resultado da mesma conta seria 6.7 toneladas. Ou seja, um franciscano ecológico inglês conseguiria chegar aos valores médios dum/a habitante normal de Portugal.

§18. Depois destas minhas contas, o Luís Fazendeiro fez outras contas para uma outra formação do Climáximo:

  • Ele assume que a média de emissões per capita em Portugal são 6 toneladas de CO2e por ano. (Na verdade, são 6.6 mas alguns anos são ligeiramente melhores e outros ligeiramente piores.)

  • Ele considera 1000 pessoas, ou seja todas as pessoas que nós podemos influenciar diretamente. Estas pessoas vivem uma média de 80 anos. Assim, emitem uma média de 480 mil toneladas de CO2e em toda a sua vida.

  • Ora, o Luís diz que se elas vivessem um estilo de vida “espartano”, eventualmente poderiam chegar a 1-2 toneladas de CO2e por ano. Isto quer dizer que com um estilo de vida “espartano” estas 1000 pessoas poderiam poupar um total de 400 mil toneladas de emissões em 80 anos. (Eu não vi os cálculos para chegar a este valor, mas confio nas contas dele. Imagino que ele assume uma pessoa desempregada que vive numa aldeia com os seus pais. Na cidade e com emprego, penso ser impossível chegar a estes valores.)

  • Contudo, a central termoelétrica de Sines emite ~6 milhões de toneladas de CO2e num só ano.

  • A conclusão do Luís é que se estas mil pessoas lutassem durante 80 anos com convicção e a única vitória delas fosse conseguirem fechar a central de Sines um ano antes do plano do governo, isto seria uma luta 15 vezes mais eficaz.

O governo anunciou o seu plano de ação climática, e é ainda pior do que pensávamos. – Sinan Eden

No dia 11 de outubro, na Culturgest, o Primeiro-Ministro, o Ministro do Ambiente e o Presidente da Câmara de Lisboa convidaram centenas de empresários, jornalistas e representantes de ONGs para a apresentação do “Roteiro para a Neutralidade Carbónica 2050”, que pretende resumir toda a política do governo do PS em relação às alterações climáticas.

Ainda sabemos pouco sobre os detalhes, mas António Costa fez a seguinte declaração, a única informação concreta que saiu na comunicação social: “Estabelecemos metas para 2030 com ambição: reduzir as emissões entre 30%-40% em relação a 2005 …”

Vamos ver o que isto quer dizer.

Em 2005, as emissões foram de 86 Mt de CO2e (equivalente a 86 milhões de toneladas de CO2). Em 2015, foram de 68 Mt de CO2e. Esta informação é oficial e pública, no site da APA assim como nos ficheiros da UNFCCC.*

PT emissions timeline

Agora, o PS quer fazer reduções entre 30 e 40%. Por outras palavras, alcançar 60 a 70% das 86 Mt de CO2e. Ou seja, ou governo propõe emitirmos 52 a 60 Mt de CO2e em 2030.

Começando hoje, o governo quer cortar entre 8 e 16 Mt de emissões. Logo, o governo quer cortar as emissões atuais entre 11 e 24%.

Depois de esclarecermos esta manobra de contabilidade criativa, podemos voltar à realidade climática e ao realismo climático.

Há vários modelos que explicam o que deve ser feito para conseguirmos ficar abaixo de 2ºC de aquecimento global em relação a níveis pré-industriais. Usemos o modelo mais consensual, que toma em conta as responsabilidades históricas e a capacidade tecnológica de cada país. Na verdade, este modelo também inclui a dívida ecológica que o Norte Global contraiu aos países do Sul Global, mas vamos para já ignorar esta parte e focar-nos só nas emissões domésticas.

Para termos um planeta habitável e para evitar um ponto sem retorno na crise climática, Portugal deveria reduzir as suas emissões para 24 Mt de CO2e até 2030. Isto significa cortar as emissões atuais por 64% (e não entre 11 e 24% como o PS gostaria).

Figura 3

Queria sublinhar aqui que estes valores são linhas vermelhas para um planeta habitável, para uma probabilidade razoável de evitarmos a catástrofe climática irreversível. Ao mesmo tempo, são contas para ficar abaixo de 2ºC e não de 1.5ºC de aquecimento global. Contudo, a partir de 1.5ºC, vários países no Oceano Pacífico desaparecerão. Por outras palavras: reduzir as emissões em 64% em Portugal é cientificamente o mínimo que temos de fazer para garantirmos a existência de (qualquer) civilização humana no fim deste século. A física não faz negociações. Realismo climático implica compreender a realidade física em vez de fazer acrobacias contabilísticas para enganar o planeta.

Voltemos às contas:

O governo quer cortar 8 a 16 Mt das emissões atuais. Num mundo minimamente não-suicida, deveria cortar 44 Mt. O erro aqui é de 70%!

Imaginando: estão a conversar com uma criança e perguntam-lhe a idade; ela responde “20”, quando na verdade tem 6 anos. Ou pagam um engenheiro para construir um edifício de 10 apartamentos, mas ele acaba a obra com 3 apartamentos. O erro do PS em termos de ciência climática é de uma escala semelhante.

Infelizmente, temos de repetir isto muitas vezes: para mantermos o planeta habitável, Portugal para fazer a sua parte tem de cortar as emissões atuais em 64% até 2030. Ponto final.

Mas a situação é pior. O PS não só faz truques com as contas, como também nos dá uma informação muito importante. Sem rodeios, o governo comprometeu-se ontem a não fazer nada sobre as alterações climáticas durante o seu mandato. Isto porque a UE já tem metas estabelecidas sobre a eficiência energética, de acordo com as quais Portugal já tem planos para reduzir o consumo de energia primária em 25% até 2020 (ver PNAEE/metas). Reduzir o consumo de energia em 25% e reduzir as emissões em 11-24% são metas coerentes (já que 70% das emissões vêm do setor energético). O único senão é que para atingir isto, não é preciso fazer absolutamente nada de novo, porque estas políticas já estão bem encaminhadas.

cartaz_empregos_clima_a4 lightDito tudo isto, será possível cortar as emissões de uma forma compatível com a ciência climática? Sim. De acordo com o relatório da campanha Empregos para o Clima, o governo poderia (em vez de nos atirar areia para os olhos) criar 100 mil novos empregos dignos e seguros no setor público (nas áreas de energia, transportes públicos, eficiência energética, floresta e outras) para realmente atingir o que é necessário: cortes de emissões de 60 a 70% em 15 anos.

Este novo relatório vai ser apresentado no dia 19 de outubro (quinta-feira) às 19h00 no CES-Lisboa.


*Os dados mais atuais disponíveis são de 2015. Há dados provisórios para 2016 mas iremos usar aqui os de 2015 (ainda que os de 2016 tornem o nosso argumento abaixo ainda mais forte).

Reunião Estratégica das Lutas pela Justiça Climática na Europa: um pequeno feedback

No fim de semana passado, 45 ativistas de 15 países europeus juntaram-se em Bruxelas numa reunião estratégica convocada pela 350. Falámos sobre “iconic fights” (lutas inspiradoras contra as infraestruturas de combustíveis fósseis, como a luta contra exploração de petróleo e gás em Portugal), campanhas distribuídas (campanhas que mobilizam as pessoas que não vivem nas linhas de frente e quando não houver uma dinâmica internacional como marchas pelo clima – por exemplo a campanha Empregos para o Clima), e sobre como pôr justiça no centro das nossas lutas.IMG_9031

Particularmente interessante foi a luta anti-fracking no Reino Unido, que tem uns 250 grupos locais(!). Recentemente fizeram ações diretas durante um mês inteiro: cada dia um outro grupo bloqueou um sítio diferente onde existe um (/potencial) furo de fratura hidráulica. Em breve teremos alguns ativistas a visitar-nos cá em Portugal e partilhar as suas experiências.

Também esteve presente o Ende Gelände, o coletivo alemão que organiza ações de desobediência civil com milhares de pessoas, em que ocupam uma mina de carvão simbólica. A próxima ação vai ser durante a COP-23 em Bona, e o Climáximo vai estar lá.

Camaradas da Itália apresentaram a luta popular contra o gasoduto TAP (Trans-Adriatic Pipeline, a última parte dum gasoduto entre Azerbaijão e Itália), e ouvimos também sobre o MidCat na Catalunha. As novas infraestruturas de gás natural é um assunto pouco discutido em Portugal, apesar dos planos de construção de 160 km de gasodutos entre Guarda e Bragança.IMG_9033

Finalmente, as conversas sobre justiça fizeram-nos pensar sobre inclusão. Vamos brevemente experimentar algumas ferramentas que podiam potencialmente ajudar a participação política das pessoas que não conseguem ir às nossas reuniões semanais.

Aproveitamos para convidar toda a gente preocupada com as alterações climáticas às nossas reuniões, terças-feiras às 19h30 no CIDAC.

Stop the climate debate! The murderer is the accountant! – Sinan Eden

I have two friends who recently had their second daughter.

Then, there is this new article and its high pitch repercussions that tell me that the best thing I can do to save the climate is to kill that daughter.

I am confused.

§1. The scientific article is titled “The climate mitigation gap: education and government recommendations miss the most effective individual actions“. Here are some of the media stories covering the article:

  • Want To Slow Global Warming? Researchers Say Answer May Lie In Family Planning
  • Klima-Studie: Warum Babys die größten Klima-Killer sind [Klima-Killer???]
  • Ter menos filhos é a acção mais eficaz contra o aquecimento global
  • 20 BMW schädigen das Klima weniger als ein Baby [in effect, saying it’s better to buy 20 BMWs than having a child]
  • This could be the best way to fight climate change, but you might not like it
  • Fewer babies could be better for the environment
  • Have one fewer child if you want to fight climate change, study says

etc. etc.

I have a few more brilliant ideas on this.

§2. First of all, if having one fewer child saves me emissions, then how about I declare that I consider having 5 babies, then demand compensation (carbon credits!) for not having them? Can I buy my way to the so much desired BMW? (Actually, 20×5=100 of them, isn’t it?)

§3. But more importantly, the items in the list are considered to be “personal choice”, but the science of the article actually never refers to this. I mean, if I myself stop using a car, or if I simply utilize any car as part of the barricades during an anti-G20 protest, the result is the same, I still avoid 1-2 tonnes of CO2 emissions, right? They are not exactly my emissions, but if I can cut them, why not? (Fine, I just have to make sure I burn the car of someone poor enough so that s/he couldn’t simply replace it.)

§4. Even more relevant is that these are personal choices after the fact. The so-called “high impact choices” are, and I am quoting, “live car free”, “avoid one transatlantic flight”, “buy green energy”, “buy more efficient car” etc. This means, if you want to make the biggest cuts in emissions, the first step is to be rich enough to have a transatlantic flight you can cancel. Marvellous news.

§5. Finally, the article is about “educational programmes”. So it’s really about what we should tell other people to do. We are supposed to show this graph to people around us:

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What does “have one fewer child” mean? This does not have to be strictly limited to talking people out of having a new child. From a strictly scientific perspective, the article is also telling people to kill their own children, or better, kill all children. (Read the German article about babies being climate-killers. Death to the climate-killers! (?) )

And I mean, the article is correct in its own fashion: if there are no humans, then there is no human-caused climate change. Problem solved.

§6. I am confused.

I haven’t met my friends’ second daughter yet. But I have some little “flirts” with the older one (by flirt I mean the 3-year-old saying my name and me saying her name, in loop… not very cute for others present, but we have our own ways.).

Is the newcomer just another consumer? Just another “greenhouse gas emitter”? A climate killer?

Is it scientifically irrelevant that she could be our long-awaited union leader who reinvents the labour movement? Is it invisible to the emissions accountant that she could be inspiring thousands into acts of civil disobedience for climate justice?

(Just wondering, kid, not putting my own responsibilities onto your shoulders, don’t worry…)

§7. We have to stop the accountants. Immediately. The problem is not with the numbers, but with the system. And this is super-easy to see: In any part of the “developed” world, it is technically impossible for any person to remain below the sustainable emissions threshold via individual choices. Something bigger, much bigger, has to change.

If she would get slightly politicized, she could earn huge “negative emissions” in the accountants’ papers by winning a fight for public transport. If the accountants would get slightly politicized, we would find out what the “government recommendations” actually “miss”.

“The most effective individual actions” are when you get involved and take collective action.

Stop the accountants. Let’s talk politics.

***

A calmer and better articulated analysis of the article and its various interpretations can be found here: The best way to reduce your personal carbon emissions: don’t be rich

My “accounting” for activism versus individual solutions, here: Activism: It’s better than dying . I basically calculated that, to remain within the sustainable per capita emission budget, you would have to commit suicide. I also calculated that direct actions are even more effective than that.

 

Colonialismo reloaded – Sinan Eden

Eu sei que ainda sou muito “estrangeiro” na cultura portuguesa e que tinha uma experiência particularmente excecional em Portugal (sempre entre pessoas progressistas, humanistas, com pensamento crítico etc. 🙂 ). Mas tinha pensado que sabia algumas coisas sobre Portugal em geral.

Estive enganado.

*

Ontem estive numa sessão pública organizada pelo Ministério do Mar sobre a Extensão da Plataforma Continental Portuguesa. Aqui podes ver o que está sob controlo do estado português, e a extensão que querem.

extensao

Não vou entrar aos detalhes do projeto. Só queria aproveitar esta experiência para tentar escrever a minha primeira nota originalmente escrita em português. (estes blog-posts não se chamam “artigos”, pois não?)

Olha ao cartaz. “Portugal é mar.”

Demorei quinze minutos na conferência para perceber que a referência não era à sardinha, bacalhau, praias, surf etc. Que pollyanna que estive, foi “corrigido” brutalmente durante duas horas.

A Ministra do Mar, quem esteve a vender o mar nos Estados Unidos, abriu o evento. As seguidas intervenções tinham referências diretas a “Alargar Portugal” e ao “Conhecimento, Conhecimento, Conhecimento”. Pensei: pronto, isto me parece século quinze, mas se calhar não percebo bem o que estão a dizer.

Especialistas em geologia mostraram vídeos e fotos dos animais e plantas bonitas. Não percebi bem, mas disseram várias vezes que não eram biólogos (e não houve intervenção de nenhum biólogo). Mas então porque é que estamos tão entusiasmados sobre um dos maiores chocos naquela área, sem saber nada sobre ele? Em fim, finalmente houve um slide que disse: “Para quê?” As repostas foram claras: recursos vivos (para cosmética e medicina) e recursos não-vivos (combustíveis fósseis, fósforo, diamantes, areias, e vários minerais (como níquel, cobre, ouro, zinco e cobalto)).

Num slide foi dito que estão a aproveitar a costa continental para os combustíveis fósseis, e dois slides depois houve a tal foto famosa do Acordo de Paris, porque o slide seguinte era para dizer que para os carros elétricos a gente precisava de baterias (e por isso de níquel). Genial, né?

[Sidenote: Para reforçar a ideia, o orador mostrou fotos da campanha sefosseeu? em que, pelo que percebi, alguns adolescentes foram perguntados o que levariam com eles se fossem um refugiado. Num truque inesperado (que o público achou hilariante), todos tinham smartphone na sua lista; então precisamos de mais baterias; então precisamos de níquel. O orador ou não entende bem o que é ser refugiado, ou entende muito bem e acha piada estar noutro lado do percurso dum refugiado.]

Finalmente chegou a Ministra novamente, para encerrar o evento. No clímax de “Alargar Portugal” ela falou abertamente sobre “este nova caravela de descoberta” e que “não há perguntas sobre se vamos ou não; vamos, mas quero saber quem vem comigo”. Convidou-nos todos: “Embarquem connosco!”

Deprimente.

Sinceramente, não estive preparado para tantas referências diretas ao colonialismo e não estive preparado para um discurso destes ter aplausos de dezenas pessoas, no espaço público.

*

Nota-se uma semelhança interessante entre o colonialismo e o extractivismo moderno, quando estas pessoas olham às “zonas ainda não descobertas” e vejam só coisas (vivas e não-vivas) para extrair e explorar.

Não embarques com eles.

economic growth

Is the world changeable? – Sinan Eden

There is a qualitative difference between the climate crisis and the other problems we are tackling with.

Those who want to change the world assume, generally, that the world is changeable.

This assumption is valid and sound for many problems, but might be wrong in some cases. For instance, however useful it could be, no one leads a struggle for a universe where Maxwell equations don’t hold.

Thus, our initial statement should be reformulated as follows: Those who want to change the world assume, generally, that the world is changeable with respect to the problem they address.

This updated assumption is also sound and valid for many social problems. In fact, we may be led to suppose that the world can be changed with respect to all social problems.

It can be difficult, but not impossible: We can imagine a world without violence against women, and we can get closer to our goal. There can be peace in Middle East, even if it would require decades of sustained efforts.

But, what if a particular social issue involves elements of physics and chemistry? What if natural mechanisms impose restrictions to the essence of the issue? For instance, what if, after a certain stage, this particular issue becomes irreversible, for reasons purely explained by physics and chemistry?

That is, what if those who want to change the world have limited time to do so?

This is where the climate crisis differs from most of the social issues. Earth ecosystems contain “tipping points”, points of no return, when it comes to climate change.

On the other hand, having limited time to solve a problem does not mean anything by itself. We always have limited time. After all, one day the solar system will disappear altogether.

However, climate science tell us that our time frame is not only limited, but also very, very, very little.

This perspective is new. We never worked with “system change on a deadline”. Read the article here:

No such thing as lesser evil in climate.

PS: Yes, I prepared a trailer for an article.

 

No such thing as lesser evil for climate – Sinan Eden

Many people, even some activists, do not seem to yet have understood the main statement climate change has made to humankind. Many seem to treat it as yet another environmental issue, separated from the others with a comma: there is a problem, it’s about the environment, and we need to improve the way things are in order to avoid this problem.

This is depressingly wrong in many ways.

First a parenthesis: I don’t think climate change is an environmental issue; or rather, I don’t think there are any “environmental” issues. The issue is not carbon, methane, species, and so on and so forth. There is an issue, it’s about the future of humankind, and it sometimes manifests itself through what we call the environment. But let me refocus this small text without over-philosophising. Close parenthesis.

I start with an analogy I use to explain climate change:

Situation: Imagine a bus full of people, driving fast on a mountain. The road ends ahead, and if you don’t stop, you would fall off the cliff, destroying the bus itself, everything inside the bus, including the passengers. Some people are arguing about changing the driver.tipping

Options given: If the driver is left alone (he seems drunk), you would fall off the cliff in 20 seconds. There is another driver who says he would step on the gas less than the driver, so you would reach the cliff in 25 seconds. There is another driver who doesn’t even believe in the cliff, so he would just rush you there in 15 seconds.

Of course, when you mention pulling the break, they laugh at you and question where you got your driver’s licence, and if you insist they bring the police.

Now, for this exercise to make sense, please do try to put yourself into the story. I give you 10 seconds to think.

Then answer: What is a rational choice for the passengers?

Let us rewind to climate change, and please be patient with me for a couple of paragraphs because I have to be slightly technical.

The greenhouse gases emitted to the atmosphere remain there for many years, they absorb the heat, making the planet warmer. Without them, most of the energy coming from the sun would radiate away, and planet earth would not be a suitable place for life as we know it, not for our species at least. Having an excess of these gases due to human activities causes what is called anthropogenic global warming. Some of the impacts on ecosystems are: more severe and more frequent droughts, floods and storms, biodiversity loss, water and food scarcity, failures of infrastructure, and social conflicts.

So far, climate change looks like any other environmental issue: It is bad. We should avoid it. And the more we avoid it, the better.

And this is exactly what is wrong in our perception.

The missing piece in the puzzle is due to positive feedback mechanisms:

Inherent to any earth system, there are mechanisms that accelerate it and that slow it down. Think of a small snowball you roll down a hill. It has an initial speed. Then there is gravity, it increases the speed. But there is also friction, which decelerates it. If your initial speed is too low, the snow ball would simply stop. If it is high enough, then you get what is called the “snowball effect”: it speeds up, and more pieces join than those that fall off, etc.

These are “feedback mechanisms”. Pay attention to the fact that it is the dynamical system itself that feeds it. You don’t push the snowball any more, neither do you try stopping it.

Some feedbacks are “positive” because they increase or accelerate the initial situation (like gravity in our example), and some are “negative” (like the friction).

For climate change, there are several positive feedback mechanisms, I’ll give two simple examples: 1) Earth warms up, ice melts into water, water absorbs more energy compared to ice which would reflects sun rays, so earth warms up even more. 2) Earth warms up, frozen soil in Siberia melts, underneath there is trapped methane, this methane is released, meaning more greenhouse effect, hence Earth warms up even more.

Climate scientists predict that a 2C warming would make these positive feedback mechanisms dominate the dynamics, causing a “run-away” climate change.

This is why they talk about “tipping points”.graphic_retina

Now rewind again to the bus story. You remember we had 20 seconds left, with a lesser evil driver promising 25 seconds until the fall and an ambitious one promising 15? Replace “seconds” with “years”, and this is where we are on the climate crisis.

In a nutshell, what this tells us is that there are physical and chemical limits to winning the struggle. And these limits lie within a ten-year span from today. Our struggles, all of our struggles are on a deadline.

Think of something you consider worth fighting for. Then think of another one. Now consider all of them. Climate science tells you that you will have to do all those things you would like to do while reducing emissions by two thirds, and do all of that during your own political lifetime.

For, an egalitarian, emancipated, just society inside a bus rolling down a cliff is not a thing.

I know that we all like to avoid thinking in black-and-white terms. And there are loads of grey zones here too: Maybe the tipping point is not 20 years but in 18, for example. However, the cliff is there, and we have to rapidly and fundamentally change everything in our society.

So these MUST be our red lines: 1) Leave at least 80% of all fossil fuels in the ground. 2) Do not launch any new fossil fuel infrastructure projects. 3) Implement a real and just transition to a fossil-free society, starting now – well, starting 10 years ago would be more realistic, but that’s when green NGOs had told us that the Kyoto Protocol was a first step and so on and so on (wait, that’s what they say now about the Paris agreement too!).

The bus story gives a few key points on why this is a radically different situation:

  • We will either fall off the cliff, or not. All politicians and all political programs that lead us there are part of the “black” scenario (although curiously, those politicians tend to be all “white”). There are no “middle ways”. Discussing whether to jump off a cliff with initial speed 200km/h or 100km/h is plainly irrational: you would be dead either way.systemchangebanner_larger-300x199
  • The status quo, the business-as-usual, is extremely dangerous for the humankind. There is nothing more “extremist” today than killing time with populist reforms.
  • Not contributing to the problem is not enough. “Well, it’s not me who is stepping on the gas. In fact, look, I am creating friction by stretching my arm out of the window.” is silly if not hypocritical. Our historical responsibility is to topple the driver, and nothing less.
  • This is not a one-time thing. We need sustained action in the right direction. Slowing down the bus now to accelerate in ten seconds is out of question. So we need to mobilize and organize.

All these were summarized into a slogan recently: “We are the ones we have been waiting for!”

We need a major leap in our capacity of imagination, and where we see ourselves in history. We need to mobilize and organize. Join in.

hopa

The basis for a just transition: Energy Democracy – Sinan Eden

We need to cut emissions in Portugal by 60-70% in 15 years. Even from a technical viewpoint, this means changing everything: changing the way we produce energy, changing the way we transport, changing the way we distribute and consume products, and changing the way our society function. Either this, or climate will change everything: chronic droughts, floods, extreme weather events, infrastructure failures, food and water crisis, climate refugees, biodiversity collapse, epidemics, social conflicts…

Campaigns for climate justice are based on lessons drawn from 20+ years of negotiations and discussions on energy transition, sustainable development, green economy, and many more terms introduced along these decades.energydemocracyheader

In a nutshell, our proposal is Energy Democracy:

  • use of sustainable and clean energy sources,
  • in public ownership,
  • through community management.

1) Sustainable and Clean Energy

Sustainability for us is a democracy issue.

First of all, the business-as-usual of the fossil fuel industry today is direct investment on catastrophes that future generations will have to face. A 2-degree warming of the global average temperatures would mean desertification, infrastructure failures, stronger and more frequent extreme weather events, and social conflicts. It cannot merely be our decision today that future generations would live like this. And for them to have a say about themselves, we have to sustain the basis for a livable planet.

But climate change is not some future hypothetical scenario, there are millions suffering today due to its impacts. Investing in or maintaining fossil fuel projects today have impacts in the Philippines, in Bangladesh, in sub-Saharan Africa, in South America and many more parts of the world. The Earth system doesn’t recognize the boundaries humans made, the impacts are worldwide and the most vulnerable populations suffer the most. Climate change limits their possibilities and pre-conditions their choices. A transition to a sustainable and clean energy also means that they would have more capacity for self-determination.

2) In Public Ownership

Energy democracy is about transition. Not a transition on paper or on financial reports, but a real transition away from the current socio-economic model, towards a just society. Given the small time-window for action, we need to make sure that private interests do not corrupt good ideas.

We should learn from the 20 years of experience of struggle.

Before Copenhagen UN Climate Summit in 2009, there was a boom in green everything. Multinationals produced a greener image, BP even changing its logo and its motto to Beyond Petroleum. BP then invested in renewable energies, in microscopic values compared to its economic power, but huge in terms of the emerging renewable market. Chevron and Shell did the same. Thus, they blocked entrance for any other players because they had virtual monopoly over the renewable market. Then, when the Copenhagen summit collapsed, all these companies distanced themselves from renewable investments and eventually abandoned most of their celebrated plans, now actively blocking the transition with their established economic power in the sector.maxresdefault

The interest of the corporations in a sustainable or clean future is arbitrary. They are interested in making more and more profit, and sometimes it happens that renewable energy is profitable, and sometimes it is better for their business to block the transition.

Same goes with the public subsidies to green companies. When it comes to money-making, false solutions abound for each corporation to have a greener image – independent of whether it is genuinely sustainable.

A livable planet is too serious to be hoped for as a side effect of business. We have literally one or two decades left to get on track for a true energy transition. This is why this debate should be taken off the zone of profit maximization concerns. This is a decision about our society, our planet, our present and our future.

This is why energy democracy means public ownership of energy.

3) Community Management

While public ownership allows for more public monitoring, regulation and documentation, the governments tend to represent the biggest economic interests, which happen to be in the hands of multinationals rather than people.

Mega projects with little to no public participation will likely cause more conflicts than cohesion – as has been the case with huge dams or giant wind farms. As a basic principle, just transition means that it should not be us the 99% paying for the consequences of it. So far, millions of us are already paying the social costs of the fossil fuel industry when a drought comes to our land or when a storm hits our city. To make the real responsibles pay, we need direct community involvement in the transition.

This can be in various forms: For centralized projects like factories or power-generating facilities, it can be a mixture of workers’ participation and local involvement, balanced with national-scale management. There is also other forms of “public public partnerships”, which can be the case in urban public transport: central government is responsible for the financing of the service, while the management is done in municipal level. Also, micro-scale localized production (of energy, or food for that matter) can be organized in the neighbourhood level, in coordination with the local and central government.

Furthermore, we admit that several private and public facilities will have to shut down rapidly, if we want this transition to take place on time: refineries, coal mines, fossil fuel power plants etc. A just transition means that the workers and the communities in these enterprises are not the ones paying for the transition. We must make sure that they have alternative paths of employment: re-qualification and job guarantees. This can be achieved only through direct involvement of these people: community management once more.

A path for energy democracy: Climate Jobs campaign

We see Climate Jobs as a campaign for united struggle and as a path for energy democracy. Four principles of the campaign are:

  • new jobs (not re-branding of existing jobs)
  • in public sector
  • to cut greenhouse gas emissions (transforming the polluting sectors to clean and sustainable models),
  • while guaranteeing jobs and training for those working the polluting sectors of the economy.

These principles are derived from our understanding of Energy Democracy. We clearly defend that this is the politically and morally correct solution to the climate crisis, but we also think that if we actually want this transition to happen in our lifetime, there is no other path technically available for us. Energy Democracy may well be our single shot, and Climate Jobs campaign is leading the way.

A base para uma transição justa: Democracia Energética – Sinan Eden

É preciso cortar as emissões em Portugal em 60-70% nos próximos 15 anos. Mesmo de uma ponto de vista técnico, isto significa mudar tudo: mudar a forma como produzimos energia, mudar os meios de transporte, mudar a forma como distribuímos e consumimos produtos e mudar a forma como funciona a nossa sociedade. Ou isto, ou o clima vai mudar tudo: secas crónicas, inundações, falhas de infraestrutura, crises de alimentação e água, refugiados climáticos, colapso da biodiversidade, epidemias, conflitos sociais…

As campanhas pela justiça climática baseiam-se em lições aprendidas ao longo de mais de 20 anos de negociações sobre transição energética, desenvolvimento sustentável, economia verde e muitos outros termos introduzidos ao longo das décadas.

Resumidamente, a nossa proposta é Democracia Energética:energydemocracyheader

  • utilização de fontes de energia limpas e sustentáveis,
  • sob controlo público,
  • e gestão pelas comunidades.

1) Energia Limpa e Sustentável

Para nós, a sustentabilidade é uma questão de democracia.

Em primeiro lugar, o funcionamento normal da indústria dos combustíveis fósseis de hoje é um investimento direto nas catástrofes do futuro. Uma subida de 2 graus nas temperaturas médias globais significaria desertificação, falhas de infraestrutura, fenómenos meteorológicos extremos mais fortes e mais frequentes, e conflitos sociais. Não podemos ser nós a tomar a decisão de condenar as gerações futuras a esta realidade. Para que estas gerações futuras tenham a possibilidade de decidir, temos de preservar as bases mínimas para um planeta habitável.

Mas as alterações climáticas não são uma espécie de cenário hipotético para o futuro: já há milhões de pessoas a sofrer com os seus impactos nos dias de hoje. O investimento em projetos de combustíveis fósseis e a manutenção dos projetos existentes têm impactos nas Filipinas, no Bangladeche, na África subsahariana, na América do Sul e em muitas outras partes do mundo. O planeta Terra não reconhece as fronteiras criadas pela humanidade, os impactos são mundiais e as populações mais vulneráveis são as que mais sofrem. As alterações climáticas limitam as suas possibilidades e condicionam as suas decisões. Uma transição para energia limpa e sustentável significa também que estas populações teriam maior capacidade de autodeterminação.

2) Controlo Público

Democracia energética é sobre transição. Não uma transição em papel ou em relatórios financeiros, mas uma verdadeira transição, uma saída do atual modelo socioeconómico em direção a uma sociedade justa. Temos pouco tempo para agir, por isso temos de garantir que os interesses privados não corrompem boas ideias.

Temos de aprender com os 20 anos de experiência de luta.

Antes da cimeira das Nações Unidas de 2009 em Copenhaga, queria tudo ser “verde”. As multinacionais apresentaram-se com uma imagem verde e a BP até mudou o seu logótipo e o seu slogan passou a ser Beyond Petrolium (“para além do petróleo”). Depois desta mudança cosmética, a BP investiu em energias renováveis, em valores microscópicos em comparação com o seu poder económico, mas enormes em relação ao volume do mercado emergente das energias renováveis. A Chevron e a Shell fizeram o mesmo. Assim, bloquearam a entrada de quaisquer outros agentes, garantindo praticamente um monopólio sobre o mercado das energias renováveis. Então, quando a cimeira de Copenhaga colapsou, todas estas empresas se distanciaram dos investimentos em energias renováveis e acabaram por abandonar a maior parte dos seus planos. Agora estão ativamente a bloquear a transição, com o seu poder económico estabelecido sobre o sector.maxresdefault

O interesse das empresas privadas num futuro limpo e sustentável é arbitrário. Apenas se interessam em fazer mais e mais lucro e se algumas vezes pode suceder que as energias renováveis sejam lucrativas, outras vezes é melhor para o seu negócio bloquear a transição.

Passa-se o mesmo com os subsídios públicos às empresas verdes. Quando se trata de ganhar dinheiro, há uma abundância de soluções para cada empresa projetar uma imagem mais verde, independentemente se ser ou não genuinamente sustentável.

A habitabilidade do planeta é uma questão demasiado séria para ficar como uma esperança de efeito secundário do funcionamento normal da economia. Temos literalmente apenas uma ou duas décadas para nos encaminharmos para uma verdadeira transição energética. É por isto que o debate deve ser retirado do plano das preocupações com a maximização do lucro. Esta é uma decisão sobre a nossa sociedade, o nosso planeta, o nosso presente e o nosso futuro.

É por isso que democracia energética significa controlo público da energia.

3) Gestão pelas Comunidades

O controlo público permite que haja mais escrutínio público, regulação e documentação, mas ainda assim os governos tendem a representar os maiores interesses económicos, colocando o poder nas mãos de multinacionais e não das pessoas.

Projetos de grande escala com pouca ou nenhuma participação popular têm tendência a gerar mais conflitos do que coesão – como tem acontecido por exemplo nos projetos de construção de grandes barragens e parques eólicos. Por princípio, numa transição justa não devemos ser nós, os 99%, a pagar as consequências. Até agora, milhões de nós pagamos já os custos sociais da indústria dos combustíveis fósseis quando as nossas terras são afetadas por secas ou quando as nossas cidades são atingidas por tempestades. Para fazer com que os verdadeiros responsáveis paguem, precisamos de envolvimento direto das comunidades nesta transição.

Isto pode tomar diversas formas: para projetos centralizados como fábricas ou centrais elétricas, pode ser uma mistura entre participação dos trabalhadores e envolvimento da população local, articulado com gestão a nível nacional. Há também outras formas de “parcerias público-públicas” que podem ser utilizadas nos transportes públicos urbanos: o governo central é responsável pelo financiamento do serviço, enquanto a gestão é feita a nível municipal. Um outro exemplo é a produção localizada em pequena escala (de energia ou de comida, por exemplo), que pode ser organizada dentro de cada bairro, em coordenação com o governo local e nacional.

Admitimos ainda que várias unidades de produção energética públicas e privadas terão de ser rapidamente encerradas, se queremos completar a transição a tempo: refinarias, minas de carvão, centrais elétricas alimentadas com combustíveis fósseis etc. Uma transição justa significa que os trabalhadores destes sectores e mais geralmente as comunidades afetadas pelos encerramentos não terão de sofrer as consequências. Temos de garantir que terão oportunidades de emprego alternativas, com acesso a requalificação e garantia de emprego. Isto só é possível com o envolvimento direto destas pessoas: gestão pelas comunidades, mais uma vez.

Um caminho para a democracia energética: Empregos para o Clima

Vemos os Empregos para o Clima como uma campanha de luta em união e como um caminho para a democracia energética. Os quatro princípios desta campanha são:

  • novos empregos (e não reciclagem/rebranding de empregos existentes)
  • no sector público
  • com o objetivo de cortar as emissões de gases de efeito de estufa (transformando os setores poluentes em modelos limpos e sustentáveis),
  • garantindo empregos e requalificação para os trabalhadores dos setores poluentes.

Estes princípios derivam do nosso conceito de Democracia Energética. Defendemos inequivocamente que esta é a solução política e moralmente correta para a crise climática, mas acreditamos também que se queremos que esta transição ocorra durante as nossas vidas, não há outro caminho possível. A Democracia Energética pode bem ser a nossa única possibilidade, e a campanha dos Empregos para o Clima está a apontar o caminho.

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