Tirar a floresta das mãos do eucalipto – João Camargo

Estavam 40ºC ao fim da tarde em Lisboa. Em Santarém, o termómetro batia nos 45ºC. Ao mesmo tempo, em Pedrógão Grande, estavam 41ºC, e ventos fortes e irregulares. Parece que os incêndios entre o Norte do Alentejo e Coimbra tinham começado muito mais cedo, provocados por invulgares trovoadas secas. A Sul do país e em Lisboa tinha mesmo chovido, e, com um calor infernal e gotas grossas caindo, poderia dizer-se que estávamos bastante a sul, num clima tropical. No site do Instituto Português do Mar e da Atmosfera dizia “Estamos fora do período crítico até 30 de Junho” em relação ao risco de incêndio, o que é o velho “normal”. No ano passado, na Madeira, em Agosto, com um clima bem mais húmido mas não menos quente, os incêndios florestais chegaram à noite à cidade do Funchal e também colheram vidas à sua passagem. Qual será o “novo normal” do clima onde vivemos? Ainda estamos a descobrir.

Mas, e o velho clima? Por que é que Portugal arde tanto mais que os restantes países mediterrânicos? O clima da zona mediterrânica é, de facto, propício à ocorrência de incêndios florestais no verão, fenómeno natural e ao qual a nossa flora e fauna (incluindo a humana) estavam adaptados. Ora, as últimas décadas viram um aumento da ocorrência de incêndios florestais, de área ardida e de ignições em Portugal. Um aumento que não foi acompanhado pelos nossos vizinhos de clima: Espanha, Grécia, Itália, Marrocos, Argélia. Em 1980, Portugal teve um registo de 2349 ocorrências de incêndios florestais e uma área ardida de 44 mil hectares. Em 2016, ano de baixas ocorrências, Portugal teve um registo de 13.079 e uma área ardida de 160 mil hectares. Em média passámos de 73 mil hectares de área ardida por ano na década de 80 para 150 mil hectares de área ardida por ano na década de 2000. O que mudou?

Além do clima, mudou o abandono rural e florestal, que explodiu e foi alimentado e explorado pela expansão descontrolada das plantações industriais de eucalipto e pela pequena plantação desordenada de eucalipto e pinheiro. Com o abandono, Portugal passou a ter uma floresta de matos, acácias, mimosas e eucaliptos para abastecer as fábricas da agora Navigator Company (ex-Portucel), da Altri, da Europac&Kraft e da Renova. E querem mais, como nos recordaram há menos de um ano atrás, que “Portugal devia estar orgulhoso de ter o eucalipto”. Nunca referem que somos o país com a maior área relativa do planeta. Nem Austrália, nem China, nem Brasil, mas Portugal. Mais de 9% de toda a área do país.thumbs.web.sapo.io

Não é uma novidade que o clima vai ficar mais quente. Além disso vai ficar menos húmido, o que significa que as condições para a existência de tragédias como Pedrógão Grande não só se repetirão nos próximos verões: repetir-se-ão ainda este verão. E os verões, que fruto das alterações climáticas podem perfeitamente começar em Maio e terminar em Outubro, farão com que o “período crítico” de incêndios passe de três meses a seis. Aliás, só entre 1 de Janeiro e 12 de Abril deste ano, Portugal já tinha registado 2900 incêndios florestais. A natureza do Eucalyptus globulus é que não vai mudar, o facto de ser altamente inflamável, de se incendiar rapidamente e de projectar cascas incandescentes a mais de dois quilómetros de distância também não.

Artigo originalmente publicado no Público.

Clima e Acordo de Paris: Trump empurra-nos para a acção – João Camargo

Comecemos pelo início. Não pelo aparecimento da espécie há 200 mil anos, nem pelo fim da era glaciar há 20 mil anos, nem mesmo pela revolução industrial e pela explosão de emissões de gases com efeito de estufa pela queima de carvão, de petróleo e de gás. Comecemos pela campanha eleitoral, onde Donald Trump disse, preto no branco, que se fosse eleito Presidente tiraria os Estados Unidos do Acordo de Paris. No dia 1 de Junho de 2017, cumpriu a sua promessa eleitoral.

O discurso de Trump foi absolutamente revelador. Há anos que o mesmo diz que não acredita em alterações climáticas e alimenta ideias estúpidas, como a de que os Estados Unidos produzem “carvão limpo” e que o aquecimento global é uma invenção da China para baixar as exportações americanas. Desta vez não foi assim: Trump não falou nas alterações climáticas quando afirmou a sua decisão de tirar os Estados Unidos do Acordo de Paris sobre Alterações Climáticas. Não pôs em causa o consenso científico à volta das alterações climáticas nem a relação directa entre a queima de combustíveis fósseis e o aumento inequívoco de temperatura registado nas últimas décadas. O presidente dos EUA foi direto ao ponto: o Acordo de Paris prejudica os interesses das empresas americanas e é desvantajoso em termos de comércio internacional.

O negacionismo das alterações climáticas ancora-se em duas rochas: a ignorância das ciências naturais e os interesses da mais violenta e poderosa indústria do mundo, a dos combustíveis fósseis. Trump já não se camufla na sua ignorância: é para o benefício das indústrias do carvão, do petróleo e do gás que os Estados Unidos abandonarão o Acordo de Paris e se posicionam como um novo estado falhado no palco internacional.trump happy

Se o planeta aumentar de temperatura 4ºC (um pouco acima do que ocorreria se o Acordo de Paris fosse cumprido, que garantiria um aumento de temperatura entre os 2,7ºC e os 3,7ºC), a maior parte dos territórios hoje habitados pelas populações humanas serão amplamente inabitáveis, incapazes de produzir alimentos e acossados por grandes secas e/ou grandes cheias, e fenómenos climáticos extremos. As zonas mais baixas ficarão debaixo de água, o que inclui a maior parte das cidades do planeta. A maior parte do que é hoje o território dos EUA estará nesta situação. Se se cumprir o Acordo de Paris, o impacto será menor, mas ainda assim monumental. Se houver consumo irrestrito de combustíveis fósseis, incluindo nova exploração e aumento de emissões nas próximas décadas, apontamos para os 6,8ºC até ao fim deste século. O caminho da inviabilização da civilização.

Donald Trump recordou-nos que esta questão está longe de acabada e que os vilões de ontem, amplificados pelas alterações climáticas, tornam-se em monstros. Mas empurra-nos para a acção. As lágrimas de crocodilo vertidas em Portugal não podem servir para desligar as proclamações do concreto. Os políticos portugueses que condenam publicamente a decisão de Trump não podem permitir-se continuar a apoiar a prospecção e exploração de petróleo em Portugal. Comecemos a partir daí a construir tudo o resto que falta.

Trump declara guerra à Humanidade, contra-atacamos? – João Camargo

Donald Trump cumpriu a sua promessa de campanha eleitoral e retirou os Estados Unidos do Acordo de Paris. A sua corte de bajuladores e sicofantas aplaudia enquanto o milionário anunciava a retirada do primeiro acordo de combate às alterações climáticas assinado pelos Estados Unidos, o país historicamente mais responsável pelo aquecimento do planeta.

Não podemos nem devemos criar nenhum fetiche à volta do Acordo de Paris: é um acordo insuficiente, fraco, não vinculativo e apesar de estar escrito no preâmbulo que quer manter o aumento da temperatura abaixo dos 1,5ºC até 2100, a verdade é que a soma das propostas individuais dos países faria essa temperatura escalar até aos 3,7ºC. Ele é um acordo fraco em grande medida por causa dos Estados Unidos e dos lobbys que estão e estiveram ilegitimamente presentes nas negociações climáticas desde 1995. A indústria petrolífera não deixa os seus créditos por mãos alheias: se promoveu guerras no Médio Oriente, em África e na América do Sul nos últimos 50 anos, não haveria de conseguir enrolar algumas centenas de cientistas e especialmente diplomatas e eleitos que precisam dinheiro para ser reeleitos? 

Barack Obama, presidente pelos democratas, jamais travou os poderosos petro-interesses nacionais mas ainda assim permitiu que fosse dado algum sinal económico ao mundo de que as coisas iriam mudar e que a acção climática tornar-se-ia uma realidade. Na verdade, só desde o anúncio do Acordo de Paris em 2015 que o investimento em energias renováveis explodiu, em detrimento do investimento em combustíveis fósseis. Pode-se aliás dizer com confiança que, se os países (não apenas os Estados Unidos, mas um pouco por todo o mundo) tivessem deixado de dar dinheiros públicos em apoio às energias fósseis (numa proporção de 4 para 1, quando comparadas com as energias renováveis), hoje já estaríamos numa mudança energética de alta escala e os fósseis estariam em muito maiores dificuldades.

Mas Donald Trump, envolvido até ao pescoço em ligações com interesses da oleogarquia russa, decidiu ontem avançar com a saída do Acordo de Paris. Esta saída é uma declaração de guerra à Humanidade, mas não tem apenas que ver com o acordo. Trump já tinha começado esta caminho antes, ao transferir Rex Tillerson directamente da presidência da Exxon-Mobil, a maior petrolífera do mundo, para a Secretaria de Estado, provavelmente o cargo “ministerial” mais alto da administração americana, e ao colocar na presidência da Agência de Protecção Ambiental Scott Pruitt, um negacionista das alterações climáticas que fez carreira a atacar quaisquer regulamentações relacionadas com emissões ou Saúde. Trump fez questão de, no dia da sua tomada de posse, fazer desaparecer a página das alterações climáticas do site da Casa Branca. Depois, paulatinamente, fez desaparecer dos vários sites do governo qualquer referência às alterações climáticas. Trump e as várias organizações que representa tentam fazer desaparecer a realidade à força, mesmo que essa realidade se manifeste por todo o mundo e já seja hoje responsável por mortes e refugiados em gigantesca escala. O cientista e filósofo norte-americano Noam Chomsky não usa meios termos, dizendo que “O Partido Republicano é organização mais perigosa da história da espécie humana“, e que o mundo nunca viu uma organização tão empenhada em destruir o planeta Terra. A base política desta organização representa uma mistura de algumas das piores características das civilizações humanas: preconceito, elogio da ignorância e da estratificação, egocentrismo, culto da violência e do armamento, fundamentalismo religioso e culto à personalidade. A sua base material compõe o ramalhete: em 2016 a indústria petrolífera deu 4,3 mil milhões de dólares em contribuições de campanha para o Partido Republicano nas últimas eleições presidenciais, para o Senado e para a Câmara dos Representantes. Desde 1990 as petrolíferas contribuíram “oficialmente” com 40 mil milhões de dólares para o Partido Republicano. É esta aliança que entrona Donald Trump e lhe pede: programa máximo, acaba com tudo, vamos furar até acabar!

Costuma-se dizer que aqueles que combatem as petrolíferas e outras indústrias extractivas estão a “salvar o planeta”. Ora, o planeta não precisa ser salvo, estava cá muito antes de nós e provavelmente excederá amplamente a vida da espécie humana. O que estamos a tentar fazer é salvar a Humanidade. Dos humanos, principalmente. Parar com a destruição, com a queima e as emissões que nos fazem correr desalmadamente para o caos climático e o precipício da Humanidade. Mas também humanizar os humanos, retirá-los à indigência intelectual e moral da ideia do Homo economicus, que apenas se guia pelo seu interesse próprio e imediato. Retirá-los ainda dessa aliança letal do Homo economicus com o conservadorismo bacoco e a ignorância orgulhosa. 

Donald Trump é hoje uma etapa doente do capitalismo, o capitalismo que já se quer comer a si mesmo e ao mundo inteiro. A declaração de guerra de ontem é diferente. Trump não fez menos do que exibir uma cabeça decapitada perante as câmaras no jardim da Casa Branca ao anunciar que vai atrasar ainda mais o fim da indústria petrolífera e pôr seriamente em risco a capacidade de garantirmos estabilidade climática ainda este século. Declarou guerra ao mundo inteiro.

Contra-ataquemos. Contra Trump e contra todos aqueles que nos tentam enganar ao dizer que temos tempo e que isto tem de ser feito devagar que é para não prejudicar os negócios. Contra as petrolíferas, americanas e outras, que sabem que o seu negócio é o negócio de destruir um ambiente em que possamos viver (e já o sabem há muito mais tempo do que o público em geral) e ainda assim continuam a querer expandir, a querer rebentar os subsolos e as águas subterrâneas com fracking para extrair um gás que polui ainda mais que o próprio petróleo, a levantar florestas milenares para tirar areais betuminosas, a querer furar os fundos dos nossos mares à procura de gás, de petróleo, de outros minérios. Contra a minas de carvão e a agro-pecuária intensiva que se recusa a mudar. Contra as línguas que se retorcem à nossa frente para dizer loucuras como “produção petrolífera sustentável”, “exploração limpa”, “carvão limpo” ou “gás, combustível de transição”. Contra os governos e os partidos políticos que continuam a apoiar projectos de carvão, de petróleo e de gás, apesar de se dizerem apoiantes do Acordo de Paris, apesar de se indignarem com as palavras e acções de Donald Trump. Contra a apatia que acha que isto há de ser resolvido em negociações internacionais, com tecnologias maravilha ou com a colonização de Marte. Contra-ataquemos.

Nos próprios Estados Unidos já houve 68 presidentes de câmara, incluindo algumas das maiores cidades do país – Los Angeles, Boston, Nova Iorque, Houston, Chicago, Seattle, Atlante, Denver, Miami Beach, Nova Orleães, Portland – que se comprometeram, enquanto municípios, a manter-se no Acordo de Paris, a combaterem as alterações climáticas já. Os Governadores dos Estados da Califórnia, de Nova Iorque e de Washington já declararam a sua intenção de aderirem formalmente ao acordo. 71% dos americanos acha que o país devia manter-se no Acordo de Paris. O tempo da delegação em outrem das acções concretas que podem salvar a Humanidade acabou, algo que devemos à violência de um Donald Trump. Foi a nós que calhou viver neste tempo. Não está na mão de outros resolver este assunto, está na nossa. Contra-atacamos.

Artigo originalmente publicado na Sábado.pt.

Há homens que só querem ver o mundo arder – João Camargo

As notícias acerca de uma tomada de decisão do Presidente Donald Trump sobre o Acordo de Paris, não sendo uma novidade, dão uma machadada no fraco acordo. Os EUA persistem em impedir um acordo global para travar as alterações climáticas, o que indica outros caminhos de acção multilateral e deve despertar as populações para a realidade inultrapassável de que a grande concertação internacional à volta das alterações climáticas foi sempre minada pelos interesses das empresas petrolíferas e das grandes energéticas, que aceitam ver o mundo a arder, desde que tal garanta mais duas ou três décadas de dinheiro a entrar nos cofres.bill-nye-has-a-great-response-to-trumps-outrageous-statements-about-climate-change

Donald Trump é o líder adequado para um petroestado: profundamente ignorante do funcionamento do mundo, alienado de qualquer conhecimento científico e focado numa narrativa medieval do excepcionalismo estado-unidense, cuja principal característica é a do “líder forte”. A sua única acção presidencial com nível de aceitação acima dos 50% foi bombardear outro país. Isto também explica a sua ligação a Vladimir Putin, líder do petroestado russo. Estes dois países são os maiores produtores combinados de petróleo e gás, e a acção concertada para desmantelar nacionalmente as restrições internas às emissões poluentes e internacionalmente o Acordo de Paris confirmam a intenção de serem a tábua de salvação da indústria do petróleo e do gás. Para tal, Trump assumiu uma agenda militante de negacionismo das alterações climáticas, mandando as agências públicas apagar referências nos seus sites à maior questão dos nossos tempos.

Mas no que diz respeito às petrolíferas, Trump não está assim tão distante dos seus antecessores. Foi durante o mandato de Obama que os EUA se tornaram os maiores produtores de petróleo e gás por fracking, suplantando a Arábia Saudita. Mesmo antes disso, os EUA sabotaram sistematicamente qualquer acordo internacional: desde a COP-1 em 1995, as petrolíferas estiveram representadas pelos EUA e forçaram o Protocolo de Kyoto em vez de uma taxa global sobre as emissões. Depois, os EUA recusaram-se a ratificar o protocolo que impuseram. O próprio Acordo de Paris só é um “acordo”, porque se fosse “tratado” e vinculativo Obama não o teria conseguido aprovar na Câmara dos Representantes dominada pelo Partido Republicano. Paris é apenas o último compromisso internacional sobre alterações climáticas destruído pela indústria petrolífera e pelos EUA.

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Artigo originalmente publicado no Público.

É a energia estúpida – João Camargo

Na semana passada, o professor catedrático do Instituto Superior Técnico Amílcar Soares assinou um artigo no Expresso, intitulado “Petróleo e gás no ‘offshore’ nacional: é a energia, estúpido!”, onde qualificou uma carta assinada por mais de 60 cientistas de várias áreas do conhecimento e regiões do país contra a prospecção de petróleo e gás em Portugal de abaixo-assinado “de valor científico baixo ou nulo”, de teor “populista e demagógico absolutamente risível”, “exibição pública de ignorância e demagogia”, afirmando que “não há uma só evidência científica dos impactes ambientais, no turismo, riscos tecnológicos, etc., resultantes da actividade de prospecção no offshore”.

A carta, intitulada “Combustíveis fósseis e alterações climáticas: resposta a uma preocupação científica e social” foi publicada mais de dois anos depois de ter começado uma importante luta social que teve epicentro no Algarve mas que já se expandiu ao Alentejo e à Bacia de Peniche. O movimento contra o petróleo e gás em Portugal tem conseguido felizmente trazer este assunto para cima da mesa e questionado não só a opacidade do processo de atribuição do litoral português para exploração de petróleo e gás sem qualquer avaliação de impacto ambiental, como a necessidade de cortarmos emissões de gases com efeito de estufa em resposta à crise das alterações climáticas. Recentemente foram canceladas seis das quinze concessões de petróleo e gás no país e o Tribunal Administrativo de Lisboa aceitou uma providência cautelar para travar o furo de prospecção no mar de Aljezur, da GALP e da ENI. Restam no entanto nove concessões em vigor: duas em terra na Batalha e Pombal, sete no mar do Alentejo até à Bacia do Douro.

Para argumentar a sua posição, Amílcar Soares socorreu-se de um recente relatório da Agência Internacional de Energia (IEA) e da Agência Internacional de Energias Renováveis (IRENA), “Perspectivas para a Transição Energética. Necessidades de Investimentos Necessários para um Sistema Energético de Baixo Carbono“, de 2017. Soares cita que “seriam necessários novos desenvolvimentos / projectos de prospecção para aumentar cerca de 350 mil milhões de barris de novas reservas de petróleo e 115 biliões de metros cúbicos de novas reservas de gás”, utilizando esta justificação para apoiar a prospecção e exploração de petróleo e gás em Portugal, atacando os seus oponentes. O relatório também fala em triplicar o nuclear, outra gigantesca irresponsabilidade cuidadosamente não citada.

O relatório é assinado por cientistas, nomeadamente da BP, da BMW, da ENEL, da Federação da Indústria Motora, da Fundação Kuwait e da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP). Os cenários de energia são baseados nos relatórios da IEA, que por sua vez utiliza os dados da Exxon-Mobil, da Shell, da Chevron, da BP, da Total e da Statoil. Cronicamente, ao longo das últimas décadas, as petrolíferas e, consequentemente, a IEA sobrevalorizaram o futuro consumo de combustíveis fósseis e subvalorizaram o desenvolvimento as energias renováveis. Em 2010 a agência previa que só em 2024 se atingiriam 180 GW de capacidade de energia solar PV, valor que foi atingido em 2015. A potência de energia eólica prevista em 2002 para 2030 foi atingida em 2010. Perante o mais baixo nível de investimentos em combustíveis fósseis em 60 anos (acompanhando um investimento recorde em renováveis), a IEA apelou em 2016 a um reforço do investimento em fósseis. 

Portanto, os dados utilizados são dados que projectam um contínuo crescimento económico da indústria petrolífera, o que não bate com a realidade e, mais do que uma avaliação imparcial, fornece uma lista de desejos (das petrolíferas). Se adicionarmos que as petrolíferas como a Exxon-Mobil, a Texaco e a Shell sabiam desde os anos 70 do século passado da ameaça das alterações climáticas causadas pela queima de petróleo, gás e carvão, e que passaram os últimos 20 anos a pagar a negacionistas para evitar acção climática, ficamos mais tranquilos em relação à credibilidade.

No relatório destacado por Soares são basicamente omitidas emissões que não provenham de combustíveis fósseis, nomeadamente as da agro-pecuária, da floresta, do cimento ou das mudanças de usos de solos (segundo o relatório só serão, por milagre, responsáveis por 10% das emissões futuras), deixando convenientemente muito mais espaço aos fósseis no “orçamento de carbono”. Acresce que o relatório dá por adquirido que entrará em pleno funcionamento a tecnologia de Captura e Sequestro de Carbono, um projecto que é até ao momento ficção científica. Se se retirarem estas e outras grosseiras distorções do relatório, chegaremos a uma conclusão tão incómoda para as petrolíferas como para Amílcar Soares: não podem haver novos projectos de exploração de combustíveis (no planeta) para conseguirmos limitar o aumento de temperatura a 2ºC até 2100. Pode até fazer o greenwashing que quiser do gás “natural” como combustível de “transição”, mas são crescentes as evidências das gigantescas emissões na fase de exploração do gás fóssil, que coloca o gás obtido por “fracking” no mesmo patamar de emissões do carvão.

Soares ignora finalmente o capítulo sobre activos improdutivos, nomeadamente a possibilidade do novo investimento em combustíveis fósseis ser perdido perante a deslocação rápida para os combustíveis renováveis (e mais ainda se se atrasar a transição energéticas para daqui a 10 anos). Segundo o relatório, deve ser claro para os investidores que para ter 66% de probabilidade (e isso é que é gostar de jogar à roleta russa) de manter a subida de temperatura abaixo dos 2ºC, haveria poucas razões para que as petrolíferas desenvolvessem novos recursos de petróleo e gás na expectativa de uma trajectória de subida da procura e dos preços.

Perante a afirmação de que não há uma só evidência científica dos impactos ambientais da prospecção offshore, além das inevitáveis e até operacionais perdas de petróleo no mar, pode-se responder facilmente: Blowout no BP Deepwater Horizon no Golfo do México. Ignorar os efeitos das alterações climáticas, mesmo abaixo dos 2ºC, é de valor científico nulo e uma exibição de ignorância pública surpreendente, se não fosse apenas distorção propositada.

Em vez de usarem mensageiros, as petrolíferas devem responder pelos seus interesses económicos. A adjectivação e a invectiva pessoal têm pouco valor, mesmo acompanhadas de título e de cátedra, especialmente quando a única fundamentação dada para responder a uma carta de 66 cientistas preocupados com o futuro é usar os relatórios dos interesses de uma indústria de energia estúpida que, mesmo na queda, teima em levar-nos a todos para o caos climático.

Artigo originalmente publicado no Sábado.pt a dia 9 de maio de 2017.

Uma lei pelo clima é uma lei pela Humanidade – João Camargo

O Bloco de Esquerda e o PAN (Pessoas-Animais-Natureza) apresentaram hoje no parlamento uma proposta de lei cujo objectivo é proibir a exploração de combustíveis fósseis – petróleo, gás e carvão – no território nacional. A partir de uma circunstância muito concreta, a das quinze concessões feita nas costas das populações de todo o país para explorar petróleo e gás, esta proposta propõe algo inédito para a maioria dos países do mundo: tornar os compromissos climáticos e os acordos internacionais para cortar emissões de gases com efeito de estufa em algo palpável e credível. 

Quando se diz que os “ambientalistas” estão a lutar pelo planeta, quando se diz que os “ecologistas” só se preocupam com os animaizinhos e com as árvores, reforça-se a ideia fundamentalmente errada de que há uma oposição entre “economia”, entre “desenvolvimento”, e a existência de condições não degradadas do meio ambiente. A única maneira de “salvar” a Humanidade é salvando o meio ambiente que a sustenta. Nesse sentido, uma proposta sobre o clima e sobre a interdição da exploração de combustíveis fósseis, é uma lei sobre o futuro da Humanidade.

Os vários avanços que existem em outros países – a Alemanha propõe-se proibir os motores de combustão interna até 2030, a Noruega até 2025, e a Irlanda anunciou que o Estado cortaria todos os investimentos em carvão petróleo e gás imediatamente – são importantes, mas mantêm a raíz do problema, nomeadamente a contínua extracção de combustíveis fósseis, sendo a situação da Noruega particularmente hipócrita, já que pretende cortar a utilização de combustíveis fósseis enquanto a empresa pública de hidrocarbonetos, a Statoil, pretende começar a exploração de petróleo no Ártico em degelo. Várias cidades têm avançado na direcção da energia 100% renovável: Aspen, Santa Monica, São Francisco, Estocolmo, Adis Abeba, Reiquejavique e Curitiba estão na linha da frente; enquanto em Paris, Atenas, Madrid e Cidade do México se planeia proibir a circulação de carros a diesel até 2025. 

O processo de contestação à exploração de petróleo e gás em Portugal tem aberto um importante debate na sociedade, que é importante escancarar: se não queremos combustívels fósseis e um modelo energético baseado nos mesmos, o que é que queremos?

Não queremos exploração de combustíveis fósseis por causa do seu impacto ambiental que nos afecta a todos e aos ecossistemas onde habitamos, por causa do seu impacto social, espelho da corrupção generalizada na indústria petrolífera e da necessidade de espoliar o que é de todos para entregá-lo nas mãos de vorazes predadores económicos e financeiros, por causa do seu impacto económico que é a destruição de empregos em sectores que necessitam de ambientes não degradados e o desincentivo directo ao investimento nas energias renováveis e por causa do seu impacto global a nível das alterações climáticas. Então precisamos avançar: Portugal precisa de um modelo energético que se baseie não numa lógica de extrativismo e emissões de gases com efeito de estufa mas sim numa lógica de continuidade, resiliência e emissões nulas. Para isso, precisamos avançar ainda mais. 

Portugal tem uma capacidade instalada de energia solar absolutamente irrisória. A Alemanha, que tem condições muitíssimo menos favoráveis à produção de energia solar (muito menos dias de sol), tem centenas de cooperativas de produção energética que alimentam os próprios produtores (geralmente os habitantes das casas onde se instalaram painéis) e a própria rede nacional, e tem uma percentagem de 5,9% de energia solar na matriz energética do país. Portugal tem menos de 1%. Podemos avançar ainda mais em energia eólica, em energia das ondas, podemos investir seriamente em eficiência energética e apostar na produção local e no autoconsumo, reduzindo os monopólios e cortando as perdas das redes gigantes. Para que isto possa começar a acontecer, há dois factores decisivos: temos deixar de ter um quadro legal que favorece as energias fósseis e prejudica as renováveis e temos de deixar de incentivar o investimento em combustíveis fósseis e incentivar e apoiar o investimento em energias renováveis. O actual quadro legal é declaradamente favorável às energias fósseis, o que significa que está a bloquear a transição energética que precisamos para nos adaptarmos às alterações climáticas e para cortarmos as emissões de gases com efeito de estufa. 

O choque entre os interesses das petrolíferas e o interesse da Humanidade tem palco um pouco por todo o mundo. As lutas contra projectos de combustíveis fósseis, de gás, de petróleo, de carvão, as infraestruturas, ocorrem desde a Casa Branca e do Kremlin até às praias de Aljezur. As alterações climáticas são a maior ameaça alguma vez posta à espécie humana e é a queima de combustíveis fósseis – petróleo, gás e carvão – a principal responsável pelas mesmas. O derretimento dos gelos eternos (permafrost) nas altas latitudes, no Alaska, no Canadá, na Sibéria ou na Escandinávia dá-nos hoje sinais claros de que o descontrolo da economia fóssil está a provocar o descontrolo do sistema climático e a acelerar fenómenos extremos e potencialmente catastróficos, enquanto surge no Atlântico uma frota de mais de 450 icebergues à deriva, fruto o degelo do Ártico. Uma subida de temperatura acima dos 1,5ºC, o previsto no Acordo de Paris, afectará as condições de habitabilidade de várias latitudes onde o Homem hoje vive. Os refugiados estarão na ordem das centenas de milhões. Uma subida acima deste valor é entrar em cenários difíceis de descrever. 

Para conseguir parar essa recta ascendente de emissões precisamos parar a exploração e o consumo de combustíveis fósseis. Esta proposta de lei é um bom pontapé de saída e pode contribuir para enterrar definitivamente a saga da hipotética prospecção e produção de petróleo e gás em Portugal. Precisamos olhar e trabalhar para construir um futuro e esse claramente não pode ser um fóssil.

Artigo originalmente publicado no Sábado.pt no dia 12 de abril de 2017.

Petróleo: mais concessões canceladas no Algarve. Faltam nove – João Camargo

Foi na véspera do dia das mentiras, a 31 de Março, que surgiu no site da Entidade Nacional para o Mercado dos Combustíveis um novo mapa das concessões para prospecção e exploração de petróleo e gás no país. As concessões no mar do Algarve, ironicamente chamadas de Lagosta, Lagostim, Caranguejo e Sapateira, entregues ao consórcio Repsol-Partex, desapareceram. Canceladas.

O trabalho desenvolvido nos últimos 2-3 anos pelos movimentos que se opõem à exploração de combustíveis fósseis em terra e no mar, que conseguiram criar uma unanimidade em toda a região do Algarve e que começam a surgir de forma decidida em outras regiões do país, continua a fazer caminho. Depois de no final do ano passado o governo ter anunciado o cancelamento das concessões em terra – Aljezur e Tavira – da Portfuel do senhor Sousa Cintra, desta vez decidiu fazer o processo em silêncio, negando por um lado uma vitória pública aos movimentos e evitando por outro lado um confronto público com as todas-poderosas petrolíferas. Depois de há dois meses ter dado, também às escondidas, uma autorização ilegítima para a realização de um furo de prospecção de petróleo e gás ao largo de Aljezur (ignorando mais de 42 mil oposições numa consulta pública fantoche) parece ter encontrado o seu modus operandi, para o bem e para o mal. É mesmo o modus operandi descrito pela ministra do Mar quando em Setembro de 2016 anunciava nos Estados Unidos que em Portugal se faria o processo de prospecção de petróleo e gás, mas devagar, para não suscitar o protesto popular.Keep it in the ground

Aqui chegados, há lições a tirar, nomeadamente de que a mobilização social a nível do Algarve foi o factor decisivo para determinar o fim, até agora, de seis concessões para prospecção e exploração de petróleo, em terra e no mar, por métodos convencionais e não-convencionais (leia-se fracking, fracturação hidráulica). Mas há mais lições, nomeadamente de que o governo apostará no silêncio como estratégia, não assumindo uma posição política de oposição à prospecção e exploração de petróleo (tendo responsabilidades pelas concessões de petróleo e gás tanto o PSD-CDS como o PS, com a entrega de concessões em 2007, com Sócrates, e em 2011 e 2015, com Passos Coelho), e procurando dar garantias às petrolíferas, como a autorização encapotada para o furo de Aljezur.

Ora, cancelados os contratos cuja nomenclatura era “Algarve” – Lagosta, Lagostim, Caranguejo, Sapateira, Tavira e Aljezur – mantém-se a autorização para furar no mar ao largo de Aljezur, também no sotavento algarvio, algo que se poderá materializar já nos próximos meses. Há condições legais para cancelar o furo e rescindir as três concessões do Alentejo.

Para garantir a derrota das petrolíferas e portanto a vitória das populações do litoral e do interior deste país, é preciso subir a pressão. Das 15 concessões petrolíferas que existiam em vigor no território nacional no final 2015, ainda se mantêm 9 – no mar do litoral alentejano, no litoral de Peniche e zona Oeste, e em terra na Batalha em Pombal. E um furo autorizado. Os novos movimentos no Alentejo, na zona de Peniche e Marinha Grande podem olhar para o Algarve e perceber aquilo que é uma lição para todo o país: é possível travar interesses poderosíssimos com informação, mobilização e persistência. O cancelamento das concessões do Algarve não será aceite como moeda de troca para as restantes concessões e é preciso acabar com o quadro legal que permite contratos de prospecção e exploração de petróleo e gás. Seis já estão, faltam as restantes nove, começando com o furo de Aljezur.

Artigo originalmente publicado no Sabado.pt no dia 5 de abril de 2017.

Petróleo: com as mentiras vamos aprendendo – João Camargo

Foi puro entretenimento assistir à audição da ministra do Mar, Ana Paula Vitorino, na Comissão de Agricultura e Mar, questionada pelo deputado Cristóvão Norte do PSD – Algarve. Foi o debate expectável entre os dois partidos – PS e PSD – que concessionaram o litoral do país pelo preço mais baixo para exploração de petróleo e gás. Mistificações, mentiras e condescendência foram as notas predominantes de um debate que esclareceu que o governo engana e que o PSD tenta tirar dividendos políticos da clivagem social à volta da exploração de petróleo e do furo de petróleo autorizado para Aljezur. Mas no meio dos descuidos aprendemos algo importante: que todos os contratos do Alentejo podem ser anulados.mar

Depois de ir aos Estados Unidos vender a exploração de petróleo offshore como oportunidade de investimento enquanto decorria uma consulta pública que viria a pronunciar-se massivamente contra um furo de Aljezur, desta vez a ministra do Mar foi ao Parlamento dizer que não há contratos de exploração de petróleo em Portugal.

É preciso ser totalmente claro: quem diz que as empresas petrolíferas estão a fazer prospecção para obter os dados acerca dos recursos geológicos marinhos está a mentir. Seja a ministra do Mar, seja o primeiro-ministro, seja o presidente da Partex Oil & Gas. Não há uma separação entre a prospecção e a produção. Decreto-Lei nº 109/94 passou a definir que há um título único: Contrato de Concessão de  Direitos de Prospecção, Pesquisa, Desenvolvimento e Produção de Petróleo. É tudo claro desde 1994: “Com o presente diploma, pretende o Governo dar um novo impulso às actividades de prospecção e pesquisa de petróleo e, consequentemente, de desenvolvimento e produção.”. Todos os contratos assinados, desde o mar do Porto até Vila Real de Santo António têm a mesma designação e a mesma concessão de direitos. Há quase um ano atrás, no parlamento, o então presidente da Entidade Nacional para o Mercado dos Combustíveis, Paulo Carmona, desfez esta dúvida, respondendo aos deputados e ao país que “não há opção política” entre as fases de prospecção e a fase de exploração, isto é, que nenhuma empresa a quem tenham sido atribuídos direitos de exploração petrolífera pode ser proibida a meio do processo de efectivamente explorar petróleo e gás. Ao insistir inúmeras vezes durante a audição de que não há contratos de produção de petróleo em Portugal, a ministra tentou criar uma cortina de fumo e esconder a realidade à população.

Acrescentou outra camada de fumo ao problema, dizendo que “O Estado é uma pessoa de bem” e que por isso só anula os contratos com problemas jurídicos. Para isso, voltou a esconder que o próprio contrato da ENI/GALP não cumpriu o seu plano de trabalhos e que portanto deveria ser tão anulado como os contratos da Portfuel de Sousa Cintra. A ministra referiu o não cumprimento dos planos de trabalho de Sousa Cintra e disse que no contrato da ENI/GALP para furar em Aljezur não havia qualquer razão para cancelamento. Mas será que não há?galp

Está errada e mente, mas aprendemos com o seu argumento e com o cancelamento das concessões de Sousa Cintra: no contrato da área “Santola“, onde está autorizado o furo de Aljezur, e na sua adenda II, é totalmente explícito que há trabalhos mínimos obrigatórios: “(ARTIGO 2º – Prospecção e Pesquisa) a Concessionária efectuará durante o período inicial pelo menos os seguintes trabalhos de prospecção e pesquisa: Nono ano – uma sondagem de pesquisa.”. Ora, o nono ano do contrato de 2007 é claramente 2016. A GALP/ENI não fez o furo de prospecção e por isso há bases claras para o anulamento do contrato. Aliás, há bases claras para o anulamento não só deste contrato como de todas as concessões de Prospecção, Pesquisa, Desenvolvimento e Produção da Bacia do Alentejo – TODAS as concessões. Em todas concessões de 2007, Santola, Lavagante e Gamba, todas assinadas por Manuel Pinho enquanto ministro da Economia do PS, não existiram em 2016 quaisquer furos de prospecção. Portanto, como no caso de Sousa Cintra, violaram-se os planos de trabalho. E como no caso de Sousa Cintra, podem ser juridicamente canceladas.

deputado do PSD Cristóvão Norte insistiu com a ministra para que se justificasse no seu papel de vendedora ambulante de concessões de petróleo nos Estados Unidos, o que a mesma tentou negar sem o conseguir. No entanto, o deputado acabou por expor a posição do seu próprio partido, ao revelar que a reserva que o PSD colocava não era tanto sobre o passado (onde as suas responsabilidades eram óbvias), mas sobre o futuro, isto é, sobre futuras concessões, criticando a ambiguidade do governo sem esclarecer a posição do principal partido da oposição (que não se opõe aos actuais contratos).

Na atrapalhada tentativa da ministra do Mar de esconder a sua posição de apoio à exploração de hidrocarbonetos ela deu-nos os argumentos para a nulidade de vários contratos: tal como no caso de Sousa Cintra, os contratos da Bacia do Alentejo podem ser cancelados com argumentos jurídicos claros. Se o governo não cancela estes contratos é como se estivesse a assinar novos contratos. Não há como sacudir a água do capote. Não é cobardia política, é apoio encapotado à exploração de petróleo e gás no mares de todo o litoral português.

[Artigo originalmente publicado no Sábado a dia 15 de março de 2017.]

Petróleo: um governo sem máscara – João Camargo

Quinze minutos a ouvir a ministra do Mar, Ana Paula Vitorino, a falar na conferência da Eurasian Energies Futures Initiatives do Conselho Atlântico em Washington em Setembro do ano passado são uma experiência esclarecedora. A ministra mentiu aos potenciais investidores americanos, colocou António Costa como um mentiroso descarado, menosprezou autarcas e movimentos populares do país inteiro, provou ao país que de facto já estava decidido em 2016 que haveria um furo em Aljezur em 2017, independentemente de quaisquer consultas públicas, e também mentiu a si mesma.

Pode ver aqui, se tiver paciência, a partir dos 46 minutos e 53 segs. A transcrição é a seguinte: “É sempre difícil lidar com as organizações populares e as autarquias, a nossa organização política tem um nível nacional e as autarquias. As autarquias não gostam deste tipo de investimento [produção de petróleo e gás], pois acham que a alternativa é o turismo. Eles pensam que este tipo de exploração e produção pode entrar em conflito com as outras atividades económicas, que em Portugal é especialmente o turismo. Por isso estamos a tentar trabalhar na literacia oceânica, até nestas áreas, para explicar os impactos reais deste tipo de actividades, por um lado. Pelo outro lado, melhorámos o nosso enquadramento legal para ser mais exigente, porque temos legislação europeia, mas temos legislação mais exigente em Portugal. Por isso, queremos fazer este tipo de actividades, mas queremos fazê-las em segurança.” Neste primeiro trecho, a ministra do Mar menospreza autarquias e movimento, iletrados em matéria de “oceanidade” e nos impactos reais da exploração petrolífera, e mente aos potenciais investidores, dizendo que Portugal tem legislação mais exigente do que a União Europeia, quando se prepara um furo de petróleo a 2 km de profundidade em qualquer altura do ano e a 50 km da costa de Aljezur, que não teve sequer uma avaliação de impacto ambiental.

O discurso segue: “E queremos que as populações saibam que o vamos fazer em segurança. Acho que é muito importante estar do lado certo do mundo, no que diz respeito à protecção e conservação dos recursos e dos oceanos. Não temos crescimento e actividade económica independentemente do preço. Queremos ter crescimento e investimento, e actividade económica, mas em caso de dúvida preferimos o planeta e o oceano.”. Aqui, começamos a mistificação de que há alguma espécie de esclarecimento por parte do governo em relação à exploração de combustíveis fósseis: as duas ou três mal-amanhadas sessões dinamizadas pela Entidade Nacional para o Mercado de Combustíveis pautaram-se pela omissão de todos os impactos ambientais e pelas promessas vãs de independência energética, desmentidas pelos contratos de concessão. Acresce que a ENI e a GALP foram até isentas de apresentação de cauções e de seguro de responsabilidade civil no furo de Aljezur. A ministra acaba mentindo a si mesma, ao dizer que em caso de dúvida prefere o planeta. Em vez de dúvidas, há certezas em relação à exploração de petróleo: vai danificar os locais onde for feita a prospecção, quanto mais a exploração.

Culmina: “Por isso é que é tão importante para nós ter um quadro legal tão exigente. É a única maneira da população confiar em nós, de acreditar que estamos a fazer o nosso trabalho. Que estamos a utilizar o enorme potencial que temos no nosso mar, mas que estamos a fazê-lo da maneira correcta. Não é lirismo da minha parte, eu acredito mesmo que temos de fazer isto assim. É por isso que não temos em Portugal movimentos como temos em outros países da Europa contra este tipo de exploração, porque estamos a fazer as coisas silenciosamente. É lento? Ok, é mais lento do que aquilo que gostaríamos, mas é melhor assim porque temos de explicar o que estamos a fazer, o que estamos a fazer para proteger, o que estamos a fazer para preservar o planeta e para preservar o oceano.“. Aqui atingimos o apogeu: a ministra reincide na mentira do quadro legal exigente, e desmente António Costa, que várias vezes veio dizer que o que interessava era conhecer os recursos do país e não explorar, e que Portugal seria carbono neutro em 2050. Termina explicando a estratégia do governo: fazer tudo pela calada, o mais silencioso possível, tentar assim evitar que o movimento anti-petróleo responda.

Antes de todo este discurso a Ministra tinha aberto o jogo ao dizer que “O investimento dos EUA em exploração e produção de hidrocarbonetos em Deep offshore em Portugal era bem-vindo” e anunciando que “O primeiro poço de prospecção vai ser realizado no próximo ano, a 2 kilómetros de profundidade, a 50 km da costa do Alentejo.“. A farsa já exposta do processo de consulta pública que nunca o foi está clara, tendo a ministra anunciado a perfuração já fora do período estabelecido pelo contrato de concessão, quando o governo deveria ter cancelado o contrato da ENI-GALP.

Ficámos a saber muito através desta video da ministra, nomeadamente:

– Que o governo não tem qualquer pretensão de cancelar os contratos de exploração de petróleo em terra e no mar;

– Que o governo está inclusivamente à procura de mais investimento com outras concessões para exploração de petróleo e gás (confirmado por uma apresentação para a Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida em Fevereiro deste ano, com o Ministério do Mar a mentir uma vez mais ao dizer que o governo “está interessado em conhecer os recursos do país“);

– Que o primeiro-ministro mentiu em sucessivas ocasiões;

– Que o silêncio de todo este processo, desde 2007, é uma estratégia partilhada com governos anteriores, para fazer avançar a introdução da exploração e produção de petróleo e gás no país sem contestação social;

– Que as declarações de outro ministro, do Ambiente, de que a exploração de petróleo no mar “é normal” representam o sentimento deste governo.

As conclusões a tirar são relativamente simples: o movimento contra a exploração de petróleo e gás em Portugal terá de subir a parada e tomar por má qualquer promessa deste governo em relação a este assunto. A máscara caiu: será contra a vontade do PS que se travará o caminho para o precipício. Mas a pressão começa a dizer respeito a todos os que sustentam o governo.

Dia 11 de Março, no Cinema São Jorge, em Lisboa, teremos a partir das 15h uma reunião pública de vários movimentos contra a exploração de petróleo e gás em Portugal. Somos muitos mas todos os que ainda não estão também lá fazem falta.

[Artigo originalmente publicado no Sábado.]

Dúvidas acerca das alterações climáticas? – João Camargo

Ninguém tem de ser especialista para perceber um assunto tão relevante como o clima. É um sistema complexo, com muitas interacções e retroacções, mas não é indecifrável. Hoje é consensual entre a comunidade científica que estuda este tema que as alterações climáticas não só existem como que têm como origem a actividade humana. Esse consenso atraiu alguns sectores para o lado da desconfiança e o negacionismo. Os discursos e as ferramentas desenhadas pelas petrolíferas para impedir a acção no combate às alterações climáticas continuam a fazer caminho, mas o esclarecimento é possível.

Há poucos dias foi revelado um vídeo da Shell, uma das maiores petrolíferas do mundo. Em 1991 esta empresa divulgava aquilo que era o resultado da investigação dos seus cientistas, um vídeo chamado “Clima de Preocupação” divulgava o aquecimento global e as alterações climáticas: eventos climáticos extremos, cheias, fomes e refugiados climáticos resultantes da queima de combustíveis fósseis. O filme chamava já atenção ao grande consenso que existia entre os cientistas em 1990! Muito antes disso, já em 1968, a Exxon, hoje a maior empresa petrolífera privada do mundo, publicava artigos revelando a ligação directa entre as emissões de gases com efeito de estufa e a mudança do clima, com os gravíssimos riscos que tal acarretava. Por isso há uma importante acção legal contra a ExxonMobil nos Estados Unidos, exactamente porque a empresa sabia da existência das alterações climáticas e tudo fez para escondê-las do grande público. Agora, com a eleição um presidente Trump negacionista e a escolha do presidente da ExxonMobil para ministro dos Negócios Estrangeiros e de outro negacionista como Procurador-Geral da República, veremos como seguirá. As petrolíferas selaram um pacto e nos anos 80 e 90, passaram a dedicar o seu dinheiro ao financiamento do negacionismo climático e à procura da desinformação e da dissensão. Para essa importante tarefa de descredibilizar a ciência e os cientistas, as petrolíferas foram buscar os maiores peritos mundiais no assunto: os propagandistas da indústria do tabaco, os famosos “mercadores de dúvidas“, muitos dos quais já tinham trabalhado na indústria do petróleo para negar os problemas associados à poluição.doubt

Num primeiro momento o ângulo de ataque foi descredibilizar o aquecimento do planeta, afirmando o contrário daquilo que os dados meteorológicos todos apontavam: a subida reiterada das temperaturas médias globais, em terra e no mar. Face à gigantesca subida de temperatura nas últimas décadas – o ano mais quente desde que há registos é 2016, que bateu o recorde de 2015, que bateu o recorde de 2014, e que são seguidos em escala descendente de ano mais quente por 2010, 2013, 2005, 2009, 1998, 2012 e 2007 – os “mercadores das dúvidas” abriram outros ângulos de ataque, nomeadamente tentando descredibilizar primeiro os cientistas, depois dados, os modelos de projecção e seguindo para a origem humana e a própria origem desse aquecimento.doubt-is-our-product

Ora, não há dúvidas que há vários factores que afectam o clima – localmente, regionalmente e globalmente. Quando falamos na escala global, factores como a circulação atmosférica e as correntes marítimas, o ângulo de incidência do sol, a actividade do sol, a reflexão da radiação solar para o espaço, o vulcanismo, a oscilação do eixo da Terra e a concentração de gases com efeito de estufa são todos muito importantes. Porquê, então, nos focamos na concentração de gases com efeito de estufa, e em particular no dióxido de carbono? Porque é o único fenómeno com a escala necessária para explicar as alterações que ocorreram a nível da temperatura desde a Revolução Industrial. E porque são a alteração de fundo que a espécie humana criou na Terra, razão pela qual há já vários cientistas que apelidam a nossa era como “Antropoceno”, a Idade do Homem. Esta responsabilidade não é, no entanto, partilhada igualmente por todos os seres humanos, já que os países mais ricos são muito mais responsáveis pela situação do que os países mais pobres.

Se não houve nos últimos 200 anos a erupção de um mega-vulcão que pudesse mudar a composição atmosfera aumentando as poeiras no ar e criando um inverno de alguns anos (o vulcão Tambora, em 1815, só provocou o “Ano sem Verão” em 1816), se o ângulo de incidência do sol se mantém para as latitudes porque a oscilação do eixo da Terra ocorre muito lentamente, num ciclo que demora 25800 anos, se a intensidade da radiação solar se manteve estável nos últimos séculos, se não se produziram até agora grandes modificações na circulação atmosférica e nas correntes marítimas e se só agora, com o derretimento acelerado do gelo quer no Ártico quer na Antártida, começa a diminuir a reflexão de radiação solar de volta para o espaço, que outro grande fenómeno pode explicar uma subida totalmente inequívoca da temperatura média do planeta? A industrialização e a utilização massiva de combustíveis fósseis.

IPCC AR5 Fig. SPM3
IPCC AR5 Fig. SPM3

Não é ciência aeroespacial, mas importa rever alguns factos básicos: os combustíveis fósseis são o resultado da degradação da matéria orgânica, principalmente microrganismos no mar e florestas na terra, de eras como o Carbonífero, muito mais quentes e em que a concentração de dióxido de carbono na atmosfera era muito superior à actual. Para todos os efeitos práticos, a Terra é um sistema fechado, isto é, quase não troca materiais com o espaço. A excepção a isto é a energia solar, sob a forma de radiação. Os seres vivos que deram origem aos combustíveis fósseis utilizaram, principalmente através da fotossíntese, a radiação solar e o carbono atmosférico para constituir as suas estruturas físicas, nomeadamente raízes, caules e folhas. O dióxido de carbono hoje libertado pela combustão de hidrocarbonetos fósseis são as florestas e as algas do passado, que tinham capturado da atmosfera o dióxido de carbono e mudado lentamente a concentração de CO2 e o clima do passado, baixando a temperatura. Os combustíveis fósseis provêm de antigos seres vivos que morreram e, mediante determinadas condições de pressão, temperatura e presença ou não de oxigénio, se degradaram parcial ou totalmente, dando origem a hidrocarbonetos, compostos de carbono, oxigénio e hidrogénio. Os produtos da decomposição desses seres vivos são o petróleo, o gás e o carvão e os movimentos das placas tectónicas, a separação dos continentes e as subidas e descidas do nível médio do mar dividiram as reservas, um pouco por todo o mundo. Milhões de anos mais tarde, em terra e no mar, descobriram-se jazidas, de fácil extracção, que foram utilizadas para criar a economia de carbono. Esta economia produziu uma aceleração económica sem paralelo, que fez ainda disparar outras fontes de gases com efeito de estufa, como o metano, cujas emissões a partir de fontes como a agroindústria e a pecuária intensiva, produzem hoje um efeito tão importante para as alterações climáticas como todos os transportes terrestres.

Hoje fazemos modelos climáticos e projecções para as próximas décadas e até séculos, porque conhecemos muito melhor as interacções do clima, os seus controlos e tampões (sendo o mais importante os oceanos, que têm absorvido a maior parte do calor em excesso resultante do aquecimento global). Os modelos não só prevêm o futuro com base nos seus vários factores de influência, como o dióxido de carbono, o metano e outros, como são testáveis, podendo nós correr os modelos com os dados do passado. Temos dados climáticos directos fiáveis de vários pontos do planeta desde pelo menos o início do século XIX. Em termos de dados indirectos, conseguimos recuar até centenas de milhares e até milhões de anos atrás, através da leitura de perfis de gelo, pólens fossilizados, corais, sedimentos e anéis de árvores, por exemplo. Estes dados permitem-nos reconstituir o que foi o clima do planeta com elevada precisão, e saber, por exemplo, que a concentração de dióxido de carbono hoje existente na atmosfera é inédita nos últimos 800 mil anos. Com certeza que há um certo nível de incerteza. Na vida humana, na sociedade e até nas ciências exactas há sempre incerteza, mas a qualidade dos modelos está a ser permanentemente testada, pelo facto dos mesmos poderem ser comparados com os fenómenos climáticos existentes nas últimas décadas e terem um poder explicativo elevadíssimo. Pode haver erros de décimas, não erros diametralmente opostos. Se o erro for entre um aumento de temperatura de 4,1ºC ou 4,3ºC até 2050, o problema é exactamente o mesmo. Não há sequer comparação, por exemplo, com os modelos económicos que são utilizados para guiar as políticas públicas nas sociedades de todo o mundo, cuja nível de imprecisão e de falta de capacidade de previsão tantas vezes se revela total.

A única vantagem decorrente do negacionismo climático expressa-se no lucro das empresas petrolíferas e em outros sectores altamente emissores. A sociedade e os povos precisam preparar-se para o novo clima que já existe hoje, com temperaturas mais elevadas, fenómenos climáticos extremos muito mais extremos e mais frequentes, com mais pobreza, mais escassez e uma desigualdade que cavalgará cada vez mais e concorrerá para empurrar a Humanidade para a barbárie. A maior parte das pessoas que tem dúvidas sobre as alterações climáticas não concorda seguramente com estas propostas de futuro, mas não deve cavar trincheiras do lado errado por falta de esclarecimento e de informação, nem deve ceder ao cinismo que é aceitar que todas as notícias são “fake news”. Precisamos falar.encontro

No próximo fim-de-semana realizar-se-á em Lisboa um encontro, dinamizado por várias organizações, cujo objectivo é não só esclarecer sobre as alterações climáticas, mas também interpretá-las política e socialmente. Precisamos criar não apenas a consciência acerca da ciência do clima, como da acção necessária para combater a degradação ambiental sem precedentes associada a essa mudança de fundo no planeta. O Encontro Nacional pela Justiça Climática, domingo na Faculdade das Ciências Sociais e Humanas, é aberto e gratuito.