2018: furo de petróleo em Peniche – João Camargo

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CETA: um acordo político contra a democracia – João Camargo

Veio de mansinho. Palavrinha aqui, palavrinha ali, pouco barulho, pouco alarido. Mais um acordo de comércio, que diferença é que faz? Nós queremos é comércio, que é como quem diz, queremos progresso. Desenvolvimento. Crescimento económico. Acabar com os obstáculos comerciais, tarifas, entre a Europa e o Canadá, vejam lá, tão amigos que nós já somos. 

Os do Canadá são os norte-americanos menos malucos, né? E a barulheira, a chinfrineira que por aí se faz. STOP TTIP e CETA? Mas o que é isso, código-morse? Mnemónicas, acrónimos? O comércio internacional é a razão pela qual há tanta tecnologia, pela qual podemos comer tanta fruta boa e barata, vejam lá que é mais barata a dos outros países que a produzida cá, que estranho, né? Então de que é que se queixam, porquê tanta reclamação, tanto barulho, petições, protestos, manifestações. Que aborrecimento.

Mas vão votar um tratado de comércio internacional no Parlamento? E não é assim mesmo? Não delegámos? Não vivemos na democracia re-pre-sen-ta-ti-va? Ah, ninguém nos falou disso? Mas é só comércio internacional, mais produtos do Canadá para cá e de cá pró Canadá, não é?

Não? Então é sobre o quê? Tribunais privados? Cooperação regulatória? Retirada de restrições desnecessárias? Mas há alguém aqui que possa falar português? 

Diz que o comércio livre internacional não pode ter obstáculos. Nenhuns. E por isso as leis de um país que faz um tratado de comércio livre com o outro podem deixar de valer se as leis do segundo forem menos restritivas. Hã? – Então, no Canadá eles exploram petróleo e gás através de uma técnica chamada fracturação hidráulica – fracking – uma técnica altamente destrutiva que transforma a água subterrânea numa espécie de lama combustível e provoca terramotos. Além disso, por lá eles ainda arrancaram florestas ancestrais para abrirem gigantescos buracos no chão e tirar de lá uma mistura de lama com petróleo, as chamadas Tar Sands, areias betuminosas. Estes são os “norte-americanos menos malucos”. Quando temos um tratado de livre comércio, isso significa que um governo de um país onde não haja essas loucuras pode vir a ser obrigado a aceitar essas duas barbaridades. Mas o que é que isso tem a ver com comércio? Pois. Parece que temos um problema: o clima está a rebentar pelas costuras por causa da queima de petróleo, gás e carvão. Mas com estes tratados de comércio livre, o que interessa isso?

Para a coisa aparentar mais “legal”, dizem que quando houver essas questões, tipo lá poder-se injectar ácido acético ou hormonas em vacas para consumo humano, e cá não, ou cá (em Portugal) haver um serviço privado de correios e lá não (e que belo negócio que é, as cartas chegam a conta-gotas, mas eles ficam com uma rede bancária), isto vai tudo pra tribunal. Mas para um ICS (mais um monte de letras, sim, mas antes ainda eram mais – ISDS), não é um tribunal qualquer, é um tribunal privado. Um “tribunal” com muitas aspas. Não tem juízes profissionais, mas apenas pessoas com algum conhecimento jurídico, advogados ou juristas, sem qualquer obstáculo contra os conflitos de interesses. Podem trabalhar para uma empresa e depois julgar um caso dessa empresa. E lá vão todos contentes, como partes iguais, o Estado acusado por um lado, o investidor privado pelo outro, e um senhor (ou senhora), que pode bem ser um avençado ou ex-avençado dessa empresa ou de outra amiga, decidir numa salita qualquer que leis um país pode ou não ter. E depois não podem recorrer ao Supremo Tribunal Europeu, aos tribunais constitucionais nacionais, ao Tribunal Europeu de Justiça, o Supremo Tribunal do Canadá… Aí é que está a maravilha. 

Este tratado permite que um investidor privado de uma das partes (Canadá ou União Europeia) processe a outra se achar que sofreu perdas financeiras devido às leis da outra parte (sejam que leis forem: ambientais, de Saúde, protecção dos consumidores, estabilidade do sistema financeiro, serviços públicos, Estado Social…). Então, as empresas privadas têm o direito de processar os Estados por eles terem leis em vigor ou por proporem novas leis. E no fim, deixa de ser a lei menos restritiva, fica só o bar aberto para as empresas privadas processarem os Estados pelas leis que estes têm. 

E as pessoas, que direitos terão no meio disto? O direito a votar? 

O nosso Parlamento vai votar no dia 20 de Setembro se aceita abdicar do seu poder de fazer leis, se elas forem contrárias aos interesses de investidores estrangeiros. Que as leis em vigor podem cair se houver investidores canadianos ou de outros países mas que tenham sede fiscal no Canadá que achem que as mesmas põe em causa os seus lucros. Já se está a perceber porque é que isto veio tão de mansinho. Ainda poderíamos achar que tínhamos o direito de votar sobre isto. Entre o video-árbitro e as eleições autárquicas, pode ser que ninguém repare.

Dia 18 começará no Parlamento Português o debate acerca da entrada em vigor do CETA, Tratado de Comércio Internacional entre a União Europeia e o Canadá. Dois dias depois, a 20 de Setembro, será votado no Parlamento se o Estado Português aceita ratificar o CETA. Este acordo terá potencialmente um enorme impacto a nível da legislação ambiental, laboral, de Saúde e, principalmente, acerca do processo democrático como o conhecemos. Não é um Acordo Integral de Económico e de Comércio, é um acordo político que solidifica a ideia de que a democracia é apenas um acessório e que apenas pode ser efectiva quando não se oponha aos interesses privados e comerciais. Precisamos responder.

Artigo originalmente publicado na Sabado.pt

Que reforma para uma floresta 2ºC mais quente? – João Camargo

Desde a tragédia em Pedrógão que o debate acerca do futuro das florestas tem sido intenso e, com a aproximação da data assumida de 19 de julho para fechar uma reforma florestal, é importante perceber o que se prepara o Governo para fazer. De entre as várias propostas em cima da mesa, que tocam nas questões da estrutura da propriedade, do combate aos incêndios, do banco nacional de terras, cadastro florestal e fogos controlados, há uma a destacar: a alteração ao regime jurídico de arborização e rearborização (que se tornou conhecido como lei do eucalipto). Sob a lei do anterior Governo, a floresta em Portugal continuou um processo de eucaliptização e perda de floresta, contribuindo, em conjunto com uma situação de abandono generalizado, para a continuação de anos de incêndios catastróficos.

O ministro Capoulas Santos anunciou recentemente que “não haverá mais um único hectare de eucalipto em Portugal”, afirmação audaz mas que foi imediatamente corrigida, ao afirmar que “vamos permitir é a transferência de áreas de produção de eucalipto, de locais com maior risco de incêndio e menos produtivas, para outras mais produtivas”. O que quererá isto dizer, exactamente?

O novo projeto de lei do Governo, que pretende substituir a lei do eucalipto, diz que não são permitidas acções de arborização (novas plantações) com eucaliptos e que são apenas permitidas rearborizações (voltar a plantar em áreas previamente plantadas) de eucalipto quando a área já tinha previamente eucaliptos. Com uma excepção: quando “resultem de projetos de compensação, relativos à eliminação de povoamentos de eucalipto de igual área, localizados designadamente em zonas marginais e de baixa produtividade, com preparação de terreno que permita uso agrícola, pecuário ou florestal, neste caso, desde que com outras espécies que não do género Eucalyptus spp.”. Traduzindo, o Governo introduz uma suspensão teórica da área plantada por eucalipto e ao mesmo tempo um sistema de permutas que permite trocar-se áreas eucaliptizadas e pouco produtivas por áreas não eucaliptizadas em terrenos mais produtivos. É dizer que não haverá mais um único hectare de eucalipto em Portugal, quando na verdade existirão dezenas de milhares de novos hectares de eucalipto em Portugal, e nas zonas mais produtivas do país.

O Governo propõe uma troca às celuloses: elas deixam o osso, as zonas menos produtivas do país, em troca do lombo, que é concretamente a zona litoral centro-norte do país, aquela que tem as melhores capacidades de continuar a sustentar uma floresta biodiversa, com os solos mais ricos, maior disponibilidade de água e temperatura mais moderada. Por esses motivos, também é a zona mais rentável para uma monocultura intensiva. Isso não tem nada a ver com combate a incêndios, tem que ver com a contínua entrega do território. Aliás, a mortalidade do eucalipto, como de outras espécies, está a aumentar e continuará, com o aumento da temperatura e redução da precipitação, em particular no interior. Por isso é que no Governo anterior tanto se insistiu no regadio público para o eucalipto. Estamos a falar do futuro e de uma floresta em que, na melhor das hipóteses, a temperatura estará 2ºC mais quente e a precipitação 4% a 9% menor.

As alterações climáticas tendem a degradar as áreas florestais, em particular as que já são vulneráveis, modificando o comportamento dos incêndios, que se tornarão mais violentos e quentes, provavelmente aumentando o número de fogos de copas em relação aos fogos sob o coberto. O aumento da temperatura de 2ºC é um aumento médio, isto é, haverá dias muito mais quentes, como aqueles em que ocorreu a tragédia de Pedrógão Grande, e as noites tropicais (acima dos 20ºC) aumentarão, dificultando ainda mais o combate e dificultando o sucesso de várias espécies florestais. Mas as florestas têm um enorme potencial de ajudar-nos no combate às alterações climáticas, quer servindo como sumidouros de carbono (o que acontece quando não ardem), quer contribuindo para conservar solos e água num território que tenderá a perdê-los. O enorme serviço que a floresta pode prestar ao país no futuro depende de várias das escolhas que fazemos hoje: ela servirá para proteger o território, se conseguirmos moldá-la nesse sentido, habitá-la e voltá-la para os seus serviços naturais, muito mais do que para o rendimento imediato e o mercado da exportação. A importância dada à biodiversidade, à resiliência e à aposta em espécies autóctones (que têm de ser muito bem geridas para se desenvolverem num clima muito mais adverso) definirá muito da habitabilidade futura do nosso território. A proposta do Governo, abrindo às celuloses a porta das áreas com maior potencial do território nacional, faz o contrário.

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Artigo originalmente publicado no Publico.pt a dia 8 de julho de 2017.

Eucalipto: a monocultura das mentes – João Camargo

Tem sido repetida peremptoriamente na última semana a afirmação, em relação aos incêndios florestais, de que “o eucalipto arde tanto como qualquer outra árvore ou arbusto da nossa geografia”. O objectivo desta declaração é dizer que a composição das espécies na área florestal não tem impacto nos incêndios e que, portanto, não há nenhum motivo para introduzir qualquer restrição à expansão da área de eucaliptal em Portugal.

O objectivo da primeira afirmação é levar a um raciocínio do tipo “nós sabemos que uma grande parte do território não tem eucalipto e que o eucalipto é o que menos arde, portanto, o problema não é do eucalipto”. Há um problema grave no entanto, quer com a primeira afirmação, quer com a segunda: não são verdade. O eucalipto não arde tanto quanto outra árvore ou arbusto da nossa geografia: arde mais. E o eucalipto ocupa cerca de 30% da área florestal. Portanto, uma grande parte do território tem eucalipto.

A afirmação inicial fala principalmente das ignições e combustibilidade do eucalipto, do pinheiro-bravo e dos matos, para a partir daí dizer que o eucalipto arde menos do que o pinheiro-bravo e que os matos. Ora, há vários problemas nessa afirmação:

  • Compara uma espécie em regressão de área (o pinheiro-bravo, com provavelmente menos de 700 mil hectares), com uma espécie em expansão de área (o eucalipto, com mais de 900 mil hectares);
  • Compara espécies espontâneas e não plantadas (matos) com uma espécie plantada, subsidiada e absolutamente dominadora nas áreas florestais em Portugal (o eucalipto, com mais de 9% da área do território nacional);
  • Aparentemente apenas há três possibilidades nas áreas florestais na nossa geografia: eucaliptos, pinheiros-bravos ou matos.

Assim, todas as outras possibilidades de espécies florestais – carvalho roble, negral, sobreiro, vidoeiro, castanheiro, figueira, aveleira, alfarrobeira, azereiro, loureiro, azevinho, medronheiro, pereira-brava, oliveira, aveleira, amoreira, entre outras, e/ou combinações das mesmas – não são comparadas com o eucalipto, porque aparentemente nem são uma possibilidade real? Todos os estudos produzido nas últimas décadas, que atestam a maior combustibilidade e ignições do eucalipto em relação a outros tipos de espécies florestais em Portugal – folhosas, coníferas não-especificadas, montado de sobro, florestas de castanheiros, de azinheiras, de pinheiros-mansos – aparentemente são irrelevantes.

A afirmação “o eucalipto arde tanto como qualquer outra árvore ou arbusto da nossa geografia” não tem direito a recurso nem apelo. É a velha teoria do “não há alternativa” aplicada à floresta. A monocultura das mentes. Uma floresta só serve para produzir lenho, a biodiversidade, a conservação de solos e água, os outros usos são utopias.

Mas a floresta portuguesa perdeu cerca de 10 mil hectares de área por ano nos últimos 25 anos, perfazendo uma regressão de 254 mil hectares. Nesse mesmo período, a área de eucaliptal ter-se-á expandido cerca de 150-170 mil hectares. Temos cada vez menos floresta e cada vez mais eucaliptal. Da Universidade da Tasmânia, na Austrália (origem do Eucalyptus globulus), há também especialistas que nos dizem que o eucalipto evoluiu para arder e queimar a concorrência, expandindo a sua área através dessa estratégia. Os dados empíricos em Portugal parecem confirmar essa teoria.

Felizmente, apesar do soundbyte falso e repetido, há pouca discordância sobre algumas questões: o eucalipto arde rapidamente, produz uma grande quantidade de biomassa altamente combustível (e quanto maior a densidade das árvores, mais biomassa concentrada) e projecta material incandescente a quilómetros de distância. Os únicos locais onde não arde tão violentamente são as áreas bem geridas e protegidas pelas celuloses – menos de 200 mil hectares – mas é nos restantes 700 mil hectares, que fornecem a matéria-prima para a indústria, que se expressam as características mais combustíveis do eucalipto.

A ideia de inevitabilidade de uma área florestal dominada pelas celuloses e pelo eucalipto prende-se com a noção de que é a única espécie rentável. Esta noção de rentabilidade exclui o impacto ambiental do eucalipto sobre o território e sobre as populações, incluindo os próprios proprietários. E se fosse mesmo rentável, teríamos o abandono que hoje existe? E seria “rentável” sem tantos apoios públicos, directos e indirectos? A pergunta não pode ser só se o eucalipto é rentável, tem de ser se o eucalipto, ou quaisquer outras monoculturas, são adequadas a um território que já arde mais do que qualquer outro na Europa e que verá nas próximas décadas a temperatura aumentar e a humidade a reduzir-se.

Artigo originalmente publicado na Sábado.pt a dia 30 de junho de 2017.

FLORESTA: de onde vimos, para onde vamos, o que fazer? – João Camargo

A FLORESTA EM PORTUGAL

Em Portugal, a área florestal actual é de 3 milhões e 180 mil hectares. A história da floresta no território acompanhou vários processos sociais e históricos, desde a regressão de uma floresta maioritariamente de carvalhos com a expansão da agricultura no Neolítico e do pastoreio mais tarde, desde a plantação do Pinhal de Leiria por D. Afonso III para fixar dunas até ao abate em grande escala de carvalhos para construção de naus, até às monoculturas do pinheiro e eucalipto. Com a expansão e o comércio marítimo, a procura por madeira (principalmente carvalho) tornou-se tão importante, e a madeira um bem tão escasso, que passou a haver medidas de regulamentação do abate e protecção de floresta. A Lei das Árvores, de 1565, obrigava à plantação de carvalhos, pinheiros e castanheiros autóctones em zonas incultas e baldios. O acesso a madeiras abundantes em África e no Brasil significou em grande medida que os 300 anos seguintes não tiveram muitos marcos importantes na floresta, que se encontrava restrita a poucas áreas. No séc. XIX a política florestal adoptou uma visão estritamente utilitária, servindo para conter o avanço do litoral, fixar dunas e abastecer a Marinha para a construção de barcos: constituía-se a Administração Geral das Matas, que respondia ao Ministério da Marinha. Em 1875, a área arborizada era de 670.000 ha: 370.000 ha de montados, 210.000 ha de pinhais, 50.000 ha de soutos e carvalhais. Correspondia a menos de 7% do território nacional.

Na Monarquia, as matas públicas cresceram, o que continuou na 1ª República e na maior parte do Estado Novo. O Plano de Povoamento Florestal 1938–1968 previa arborizar 420.000 hectares do território nacional, principalmente com pinheiro bravo, para garantir segurança dos solos, redução do impacto da erosão pela chuva, melhoria da Saúde Pública e emprego. Este plano, destinado principalmente ao Norte do país, foi financiado através do orçamento do Estado. No final deste processo, a área de Matas Nacionais geridas pelos serviços florestais era de cerca de 60 mil hectares. Até 1995, a área florestal portuguesa apresentava uma tendência de aumento. Um dos maiores crescimentos em termos absolutos ocorreu entre 1875 e 1938, em que a área terá aumentado mais de 1 milhão e meio de hectares, com a promoção do montado no Sul e do pinhal no Norte. O Plano Florestal Nacional do Estado Novo, em contraste com a perspetiva florestal governamental anterior (uma estratégia de conservação), começou a voltar-se para a produção. Este plano expandiu a floresta em cerca de 400 mil hectares. Enquanto até 1938 era aos privados que cabia a principal fatia de plantação e orientação estratégica, a partir de então passou a ser o Estado a dominar a plantação, embora a propriedade continuasse a ser avassaladoramente privada (os Serviços Florestais plantavam em terrenos públicos e privados). Até 1989 o Estado foi o principal encarregado das plantações, com parcerias dos Serviços Florestais com a Portucel, na altura uma empresa pública. A área florestal máxima atingida em Portugal ocorreu perto de 1995, a seguir ao pico de área máxima de pinhal. Em 1996 foi aprovada uma Lei de Bases da Floresta, com planos regionais de ordenamento, zonas de intervenção, apoio ao associativismo. Durou pouco e influenciou menos, com o desmantelamento dos serviços florestais a começar, primeiro através da integração nos serviços da agricultura, depois passando a Autoridade Florestal Nacional e finalmente fundindo-se com o Instituto de Conservação da Natureza e Florestas, a impotente mega-estrutura criada por Passos Coelho e Assunção Cristas e que se mantém até hoje. Em 2010, o eucalipto ultrapassou o pinheiro-bravo enquanto primeira espécie florestal em área. Nos últimos 25 anos, Portugal tem vindo a perder anualmente floresta a um ritmo médio de 10.000 hectares/ano, 254 mil hectares segundo a FAO, sendo assinalado como um dos 5 países do mundo que mais perdeu área florestal. Esta desflorestação foi acompanhada por um constante aumento na área de plantações de eucalipto: há mais 321 mil hectares de eucalipto nos últimos 25 anos. A floresta nacional é uma monocultura com baixa biodiversidade, com uma extensão de eucalipto de mais de 900 mil hectares, a maior área de eucaliptal relativo do mundo (mais de 9% do território nacional e mais de 28% da área “florestal”). É a 5ª maior área absoluta de eucaliptal, apenas atrás da China, do Brasil, da Índia e da Austrália. A produção florestal está maioritariamente direccionada para a produção de pasta de papel através da indústria da celulose, dominada pela Navigator Company (ex- PortucelSoporcel), pela Altri (Caima, Celtejo, Celbi e AltriFlorestal) e pela Europac&Kraft (a Renova pertence à CELPA mas tem um consumo marginal de celulose de eucalipto).

Mais de 85% das propriedades florestais em Portugal têm menos de 5 hectares. No Norte e no Centro do país predominam os proprietários de áreas pequenas (1 a 5 ha) e muito pequenas (menos de 1 ha), nas quais estão plantados sobretudo pinheiros e eucaliptos. Esta dimensão mínima é agravada pelo sistema da propriedade “indivisa” que retalha as propriedades por vários coproprietários. Estima-se que a área do território nacional abandonada e de dono desconhecido seja mais de 2 milhões de hectares, perto de 20% do território nacional e maioritariamente floresta. É na zona de minifúndio do Centro e Norte e no Algarve que se encontra a maioria desta área abandonada.

Em 2013 foi aprovado o Regime Jurídico de Arborizações e Rearborização (DL 96/2013), conhecido como Lei do Eucalipto que, a coberto de melhorar a burocracia nas operações florestais, liberalizou a plantação com eucaliptos ao dar deferimento tácito à plantação de eucaliptos abaixo dos 2 hectares (o que representa 80% das propriedades florestais do país). A responsabilidade desta lei é da ex-Ministra Assunção Cristas e do Secretário de Estado das Florestas Francisco Gomes da Silva, que veio substituir o hesitante Daniel Campelo (que aparentemente não queria aprovar esta lei) e, terminado o processo, saiu do governo. As celuloses gerem uma área pequena do território florestal (150 mil hectares directamente), mas são os principais receptores dos mais de 750 mil hectares de eucalipto plantados por proprietários privados e também plantados em áreas abandonadas.

Incêndios Florestais

Os incêndios florestais na região do Mediterrâneo são uma constante milenar, com adaptações evolutivas das espécies predominantes na floresta autóctone. Portugal acompanhava as tendências de incêndios florestais dos climas que lhe eram comparáveis: Espanha, Itália, Grécia, Sul de França. A partir da década de 90 Portugal disparou em relação aos restantes países, sendo hoje incontestavelmente o país mediterrânico e europeu onde há mais incêndios florestais. Não existe nenhum outro factor com o poder explicativo para esta tendência, excepto a composição da floresta portuguesa, o predomínio do eucaliptal e o gigantesco abandono concreto de milhares de pessoas que abandonaram as zonas rurais e o próprio país. Na década de 80 o número de ignições médio anual era de 7380 e a área ardida anual de 73 mil hectares. Na década de 2000 o número de ignições mais do que triplicou para 24949 por ano e a área ardida para os 150 mil hectares. Entretanto, a subida da temperatura por força do aquecimento global exacerba todas as vulnerabilidades do território e aumenta drasticamente as condições para incêndios rápidos e de grandes dimensões. Cada vez que houver matéria combustível no chão (isto é, cada vez que não tenha havido um incêndio nos dois anos anteriores), cada vez que estejam 40ºC dois dias consecutivos, com vento, em que haja noite tropicais acima dos 20ºC, o número de dias de alerta vermelho não parará de crescer. Com menos precipitação e menos humidade, os incêndios suceder-se-ão. A certeza é que isto irá acontecer, não só pelo clima mediterrânico histórico, mas pelo novo, mais quente e mais seco clima. Está, aliás, já em marcha.

Em 2003 arderam 425 mil hectares e em 2005 arderam 338 mil. Estima-se que desde 1975 tenham ardido cerca de 4,3 milhões de hectares em Portugal. Em 2017, ainda antes da época de fogos começar, a 17 de Junho, com uma anomalia de temperatura 5 a 7ºC acima do que deveria estar no país e 9 a 11ºC acima do que deveria estar no Pinhal Interior, morreram 64 pessoas perto de Pedrógão Grande, queimadas vivas nas suas aldeias e nos seus carros, na tentativa de fuga.

Área ardida em Portugal entre 2006 e 2016. TSF.

A inacção e manutenção do poder da indústria da celulose que prolifera no abandono reforça o ciclo abandono-eucaliptização-incêndio-eucaliptização-abandono, exaurindo simultaneamente solos e águas numa área crescente e aumentando todos os riscos de desertificação e inviabilidade do território português.

Para onde vamos e o que fazer

O centrão político está totalmente dominado pelo sector das celuloses. Basta que lhes acenem com a miragem de 12% das exportações nacionais e contributo de mais de 1% do PIB para lhes ser permitido qualquer crime, para lhes ser entregue mais de 9% do território nacional, para lhes serem dadas isenções fiscais, para lhes serem entregues subsídios públicos nacionais e comunitários, para que a sua acção e inacção seja o pano de fundo para dezenas de mortes e mais de mil milhões de euros de prejuízos para cada ano de incêndios. O PS, mesmo no rescaldo das mortes em Pedrógão Grande, recusa-se a interromper um financiamento com mais de 9 milhões de euros para re-eucaliptização de uma zona ardida… Em Pedrógão Grande. A reforma da floresta, prometida por António Costa e Capoulas Santos, mesmo depois da tragédia, promete ser uma fraude, mantendo estruturalmente intactos os interesses da indústria das celuloses e a estrutura de propriedade e o abandono patente do território.

Mais vinte anos de incêndios florestais e business as usual deverão tornar quase inviável a plantação de eucaliptos, ou de quaisquer outras espécies florestais, na verdade. O agudizar das alterações climáticas numa floresta totalmente artificializada e que, ao invés de conservar águas e solos, os destrói, está destruir a viabilidade do mundo rural na maior parte do território hoje considerado florestal.

Ao exultar a importância das exportações as celuloses e os académicos das principais faculdades fortemente subsidiadas pelo sector — Instituto Superior de Agronomia e Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro — assim como outros avençados, não reconhecem que a floresta de exportação, quer de eucalipto, quer de pinheiro, está efectivamente a retirar água e nutrientes do solos e a metê-los num navio, em matéria-prima ou transformados, para nunca mais voltarem, aumentando a vulnerabilidade à desertificação do território e todos os riscos de incêndio, criando ciclos vegetais cada vez mais frágeis e dependentes de inputs químicos e desvios de água em grande escala, fragilizando outros territórios. Sobre a criação de emprego, é importante referir os números: a celulose emprega menos de 3 mil pessoas.

Não se conhecem os proprietários da floresta em Portugal, o que só revela quão primitivo é o capitalismo das celuloses: ele depende da ignorância para se manter. 40 anos de governos de centro e direita coincidiram em não fazer um cadastro florestal. É necessário avançar com este cadastro. No final do mesmo, poderemos saber com exactidão que áreas abandonadas florestais há, para começar um processo de emparcelamento e nacionalização. Há uma ideia, representando os interesses de pequenos grupos de proprietários florestais, de que as áreas abandonadas devem ser entregues aos pequenos produtores que estão na floresta. Esta proposta não tem qualquer hipótese de servir um objectivo de uma floresta viável, habitada e de futuro, mas apenas criará uma pequena classe terra-tenente, com a promoção do Estado. Uma vez mais, um corporativismo primitivo. Os últimos 20 anos viram um enorme apoio ao associativismo florestal e o insucesso das Zonas de Intervenção Florestal revela a fragilidade dessa abordagem. Estes sectores juntam-se à direita numa obsessão pela propriedade, mesmo da propriedade e abandonada e perigosa para as populações e ecossistemas. Mesmo países com estados estruturalmente conservadores como o Reino Unido ou estruturalmente liberais como os Estados Unidos da América mantêm mais de 60% das áreas florestais na posse pública, mas em Portugal insiste-se na tese do papão da expropriação. A urgência das alterações climáticas e da salvaguarda de populações e territórios é clara: o Estado deve expandir as suas áreas próprias e impor regras muito concretas: sobre plantações, ordenamento, segurança, espécies. A recriação de Serviços Florestais também será uma tarefa importantíssima: Portugal tem 1/9 dos funcionários públicos em serviços florestais da Grécia. Portugal tem 1/20 avos dos funcionários em serviços florestais da Espanha. 540 pessoas para mais de 3 milhões de hectares. Acresce a necessidade de aumentar em milhares o número de Guardas e Vigilantes da Natureza, outra área devastada por décadas de austeridade e desmantelamento do aparelho do Estado: hoje são 223 pessoas.

Canadair combate um incêndio em Portugal. Lusa.

É necessário um projeto de redução sustentada e acelerada da área de eucaliptal e de pinheiro em monocultura. Esse projeto tem objetivos principais: reduzir incêndios, reduzir a violência e a velocidade dos incêndios e substituir por outras espécies que permitam um efectivo aumento de capacidade de conservação de solos e águas, criando uma floresta multidimensional, que não seja só “cash crops” e que deve ter espécies como carvalhos, sobreiros, castanheiros, vidoeiros, entre outras, em articulação com agricultura extensiva, pastorícia e outras actividades de baixa intensidade. O objectivo deve ser manter a área florestal nos números de hoje, fixar populações mas mudar o perfil produtivo: a viabilidade do território é muitíssimo mais prioritária que a obtenção de rendimento imediato. O final de quaisquer apoios públicos a indústrias como a da celulose é imperativo, e deve ser transferido para apoiar a redução das áreas industriais. A jusante, o reforço do combate aos incêndios florestais deve implicar uma duplicação do número de bombeiros profissionais, de 6400 para 12800, e um reforço importante aos 42500 bombeiros voluntários, preparando o combate aos incêndios durante todo o ano e não apenas durante a época oficial de incêndios, que, já vimos, não é mais válida.

A escolha de para onde vamos e o que fazer é central: a indústria bater-se-á sempre pela sua sobrevivência, que significa a multiplicação dos riscos naturais do território mediterrânico para as populações. Não existirá uma floresta habitada, um meio rural sustentado e um território a travar a sua desertificação enquanto o dinheiro continuar a entrar nos cofres das celuloses. O lucro do capitalismo é inviável nas alterações climáticas e a civilização futura será inviável sob o lucro do capitalismo.

Artigo originalmente publicado na Praxis Magazine a dia 26 de junho de 2017.

Tirar a floresta das mãos do eucalipto – João Camargo

Estavam 40ºC ao fim da tarde em Lisboa. Em Santarém, o termómetro batia nos 45ºC. Ao mesmo tempo, em Pedrógão Grande, estavam 41ºC, e ventos fortes e irregulares. Parece que os incêndios entre o Norte do Alentejo e Coimbra tinham começado muito mais cedo, provocados por invulgares trovoadas secas. A Sul do país e em Lisboa tinha mesmo chovido, e, com um calor infernal e gotas grossas caindo, poderia dizer-se que estávamos bastante a sul, num clima tropical. No site do Instituto Português do Mar e da Atmosfera dizia “Estamos fora do período crítico até 30 de Junho” em relação ao risco de incêndio, o que é o velho “normal”. No ano passado, na Madeira, em Agosto, com um clima bem mais húmido mas não menos quente, os incêndios florestais chegaram à noite à cidade do Funchal e também colheram vidas à sua passagem. Qual será o “novo normal” do clima onde vivemos? Ainda estamos a descobrir.

Mas, e o velho clima? Por que é que Portugal arde tanto mais que os restantes países mediterrânicos? O clima da zona mediterrânica é, de facto, propício à ocorrência de incêndios florestais no verão, fenómeno natural e ao qual a nossa flora e fauna (incluindo a humana) estavam adaptados. Ora, as últimas décadas viram um aumento da ocorrência de incêndios florestais, de área ardida e de ignições em Portugal. Um aumento que não foi acompanhado pelos nossos vizinhos de clima: Espanha, Grécia, Itália, Marrocos, Argélia. Em 1980, Portugal teve um registo de 2349 ocorrências de incêndios florestais e uma área ardida de 44 mil hectares. Em 2016, ano de baixas ocorrências, Portugal teve um registo de 13.079 e uma área ardida de 160 mil hectares. Em média passámos de 73 mil hectares de área ardida por ano na década de 80 para 150 mil hectares de área ardida por ano na década de 2000. O que mudou?

Além do clima, mudou o abandono rural e florestal, que explodiu e foi alimentado e explorado pela expansão descontrolada das plantações industriais de eucalipto e pela pequena plantação desordenada de eucalipto e pinheiro. Com o abandono, Portugal passou a ter uma floresta de matos, acácias, mimosas e eucaliptos para abastecer as fábricas da agora Navigator Company (ex-Portucel), da Altri, da Europac&Kraft e da Renova. E querem mais, como nos recordaram há menos de um ano atrás, que “Portugal devia estar orgulhoso de ter o eucalipto”. Nunca referem que somos o país com a maior área relativa do planeta. Nem Austrália, nem China, nem Brasil, mas Portugal. Mais de 9% de toda a área do país.thumbs.web.sapo.io

Não é uma novidade que o clima vai ficar mais quente. Além disso vai ficar menos húmido, o que significa que as condições para a existência de tragédias como Pedrógão Grande não só se repetirão nos próximos verões: repetir-se-ão ainda este verão. E os verões, que fruto das alterações climáticas podem perfeitamente começar em Maio e terminar em Outubro, farão com que o “período crítico” de incêndios passe de três meses a seis. Aliás, só entre 1 de Janeiro e 12 de Abril deste ano, Portugal já tinha registado 2900 incêndios florestais. A natureza do Eucalyptus globulus é que não vai mudar, o facto de ser altamente inflamável, de se incendiar rapidamente e de projectar cascas incandescentes a mais de dois quilómetros de distância também não.

Artigo originalmente publicado no Público.

Clima e Acordo de Paris: Trump empurra-nos para a acção – João Camargo

Comecemos pelo início. Não pelo aparecimento da espécie há 200 mil anos, nem pelo fim da era glaciar há 20 mil anos, nem mesmo pela revolução industrial e pela explosão de emissões de gases com efeito de estufa pela queima de carvão, de petróleo e de gás. Comecemos pela campanha eleitoral, onde Donald Trump disse, preto no branco, que se fosse eleito Presidente tiraria os Estados Unidos do Acordo de Paris. No dia 1 de Junho de 2017, cumpriu a sua promessa eleitoral.

O discurso de Trump foi absolutamente revelador. Há anos que o mesmo diz que não acredita em alterações climáticas e alimenta ideias estúpidas, como a de que os Estados Unidos produzem “carvão limpo” e que o aquecimento global é uma invenção da China para baixar as exportações americanas. Desta vez não foi assim: Trump não falou nas alterações climáticas quando afirmou a sua decisão de tirar os Estados Unidos do Acordo de Paris sobre Alterações Climáticas. Não pôs em causa o consenso científico à volta das alterações climáticas nem a relação directa entre a queima de combustíveis fósseis e o aumento inequívoco de temperatura registado nas últimas décadas. O presidente dos EUA foi direto ao ponto: o Acordo de Paris prejudica os interesses das empresas americanas e é desvantajoso em termos de comércio internacional.

O negacionismo das alterações climáticas ancora-se em duas rochas: a ignorância das ciências naturais e os interesses da mais violenta e poderosa indústria do mundo, a dos combustíveis fósseis. Trump já não se camufla na sua ignorância: é para o benefício das indústrias do carvão, do petróleo e do gás que os Estados Unidos abandonarão o Acordo de Paris e se posicionam como um novo estado falhado no palco internacional.trump happy

Se o planeta aumentar de temperatura 4ºC (um pouco acima do que ocorreria se o Acordo de Paris fosse cumprido, que garantiria um aumento de temperatura entre os 2,7ºC e os 3,7ºC), a maior parte dos territórios hoje habitados pelas populações humanas serão amplamente inabitáveis, incapazes de produzir alimentos e acossados por grandes secas e/ou grandes cheias, e fenómenos climáticos extremos. As zonas mais baixas ficarão debaixo de água, o que inclui a maior parte das cidades do planeta. A maior parte do que é hoje o território dos EUA estará nesta situação. Se se cumprir o Acordo de Paris, o impacto será menor, mas ainda assim monumental. Se houver consumo irrestrito de combustíveis fósseis, incluindo nova exploração e aumento de emissões nas próximas décadas, apontamos para os 6,8ºC até ao fim deste século. O caminho da inviabilização da civilização.

Donald Trump recordou-nos que esta questão está longe de acabada e que os vilões de ontem, amplificados pelas alterações climáticas, tornam-se em monstros. Mas empurra-nos para a acção. As lágrimas de crocodilo vertidas em Portugal não podem servir para desligar as proclamações do concreto. Os políticos portugueses que condenam publicamente a decisão de Trump não podem permitir-se continuar a apoiar a prospecção e exploração de petróleo em Portugal. Comecemos a partir daí a construir tudo o resto que falta.

Trump declara guerra à Humanidade, contra-atacamos? – João Camargo

Donald Trump cumpriu a sua promessa de campanha eleitoral e retirou os Estados Unidos do Acordo de Paris. A sua corte de bajuladores e sicofantas aplaudia enquanto o milionário anunciava a retirada do primeiro acordo de combate às alterações climáticas assinado pelos Estados Unidos, o país historicamente mais responsável pelo aquecimento do planeta.

Não podemos nem devemos criar nenhum fetiche à volta do Acordo de Paris: é um acordo insuficiente, fraco, não vinculativo e apesar de estar escrito no preâmbulo que quer manter o aumento da temperatura abaixo dos 1,5ºC até 2100, a verdade é que a soma das propostas individuais dos países faria essa temperatura escalar até aos 3,7ºC. Ele é um acordo fraco em grande medida por causa dos Estados Unidos e dos lobbys que estão e estiveram ilegitimamente presentes nas negociações climáticas desde 1995. A indústria petrolífera não deixa os seus créditos por mãos alheias: se promoveu guerras no Médio Oriente, em África e na América do Sul nos últimos 50 anos, não haveria de conseguir enrolar algumas centenas de cientistas e especialmente diplomatas e eleitos que precisam dinheiro para ser reeleitos? 

Barack Obama, presidente pelos democratas, jamais travou os poderosos petro-interesses nacionais mas ainda assim permitiu que fosse dado algum sinal económico ao mundo de que as coisas iriam mudar e que a acção climática tornar-se-ia uma realidade. Na verdade, só desde o anúncio do Acordo de Paris em 2015 que o investimento em energias renováveis explodiu, em detrimento do investimento em combustíveis fósseis. Pode-se aliás dizer com confiança que, se os países (não apenas os Estados Unidos, mas um pouco por todo o mundo) tivessem deixado de dar dinheiros públicos em apoio às energias fósseis (numa proporção de 4 para 1, quando comparadas com as energias renováveis), hoje já estaríamos numa mudança energética de alta escala e os fósseis estariam em muito maiores dificuldades.

Mas Donald Trump, envolvido até ao pescoço em ligações com interesses da oleogarquia russa, decidiu ontem avançar com a saída do Acordo de Paris. Esta saída é uma declaração de guerra à Humanidade, mas não tem apenas que ver com o acordo. Trump já tinha começado esta caminho antes, ao transferir Rex Tillerson directamente da presidência da Exxon-Mobil, a maior petrolífera do mundo, para a Secretaria de Estado, provavelmente o cargo “ministerial” mais alto da administração americana, e ao colocar na presidência da Agência de Protecção Ambiental Scott Pruitt, um negacionista das alterações climáticas que fez carreira a atacar quaisquer regulamentações relacionadas com emissões ou Saúde. Trump fez questão de, no dia da sua tomada de posse, fazer desaparecer a página das alterações climáticas do site da Casa Branca. Depois, paulatinamente, fez desaparecer dos vários sites do governo qualquer referência às alterações climáticas. Trump e as várias organizações que representa tentam fazer desaparecer a realidade à força, mesmo que essa realidade se manifeste por todo o mundo e já seja hoje responsável por mortes e refugiados em gigantesca escala. O cientista e filósofo norte-americano Noam Chomsky não usa meios termos, dizendo que “O Partido Republicano é organização mais perigosa da história da espécie humana“, e que o mundo nunca viu uma organização tão empenhada em destruir o planeta Terra. A base política desta organização representa uma mistura de algumas das piores características das civilizações humanas: preconceito, elogio da ignorância e da estratificação, egocentrismo, culto da violência e do armamento, fundamentalismo religioso e culto à personalidade. A sua base material compõe o ramalhete: em 2016 a indústria petrolífera deu 4,3 mil milhões de dólares em contribuições de campanha para o Partido Republicano nas últimas eleições presidenciais, para o Senado e para a Câmara dos Representantes. Desde 1990 as petrolíferas contribuíram “oficialmente” com 40 mil milhões de dólares para o Partido Republicano. É esta aliança que entrona Donald Trump e lhe pede: programa máximo, acaba com tudo, vamos furar até acabar!

Costuma-se dizer que aqueles que combatem as petrolíferas e outras indústrias extractivas estão a “salvar o planeta”. Ora, o planeta não precisa ser salvo, estava cá muito antes de nós e provavelmente excederá amplamente a vida da espécie humana. O que estamos a tentar fazer é salvar a Humanidade. Dos humanos, principalmente. Parar com a destruição, com a queima e as emissões que nos fazem correr desalmadamente para o caos climático e o precipício da Humanidade. Mas também humanizar os humanos, retirá-los à indigência intelectual e moral da ideia do Homo economicus, que apenas se guia pelo seu interesse próprio e imediato. Retirá-los ainda dessa aliança letal do Homo economicus com o conservadorismo bacoco e a ignorância orgulhosa. 

Donald Trump é hoje uma etapa doente do capitalismo, o capitalismo que já se quer comer a si mesmo e ao mundo inteiro. A declaração de guerra de ontem é diferente. Trump não fez menos do que exibir uma cabeça decapitada perante as câmaras no jardim da Casa Branca ao anunciar que vai atrasar ainda mais o fim da indústria petrolífera e pôr seriamente em risco a capacidade de garantirmos estabilidade climática ainda este século. Declarou guerra ao mundo inteiro.

Contra-ataquemos. Contra Trump e contra todos aqueles que nos tentam enganar ao dizer que temos tempo e que isto tem de ser feito devagar que é para não prejudicar os negócios. Contra as petrolíferas, americanas e outras, que sabem que o seu negócio é o negócio de destruir um ambiente em que possamos viver (e já o sabem há muito mais tempo do que o público em geral) e ainda assim continuam a querer expandir, a querer rebentar os subsolos e as águas subterrâneas com fracking para extrair um gás que polui ainda mais que o próprio petróleo, a levantar florestas milenares para tirar areais betuminosas, a querer furar os fundos dos nossos mares à procura de gás, de petróleo, de outros minérios. Contra a minas de carvão e a agro-pecuária intensiva que se recusa a mudar. Contra as línguas que se retorcem à nossa frente para dizer loucuras como “produção petrolífera sustentável”, “exploração limpa”, “carvão limpo” ou “gás, combustível de transição”. Contra os governos e os partidos políticos que continuam a apoiar projectos de carvão, de petróleo e de gás, apesar de se dizerem apoiantes do Acordo de Paris, apesar de se indignarem com as palavras e acções de Donald Trump. Contra a apatia que acha que isto há de ser resolvido em negociações internacionais, com tecnologias maravilha ou com a colonização de Marte. Contra-ataquemos.

Nos próprios Estados Unidos já houve 68 presidentes de câmara, incluindo algumas das maiores cidades do país – Los Angeles, Boston, Nova Iorque, Houston, Chicago, Seattle, Atlante, Denver, Miami Beach, Nova Orleães, Portland – que se comprometeram, enquanto municípios, a manter-se no Acordo de Paris, a combaterem as alterações climáticas já. Os Governadores dos Estados da Califórnia, de Nova Iorque e de Washington já declararam a sua intenção de aderirem formalmente ao acordo. 71% dos americanos acha que o país devia manter-se no Acordo de Paris. O tempo da delegação em outrem das acções concretas que podem salvar a Humanidade acabou, algo que devemos à violência de um Donald Trump. Foi a nós que calhou viver neste tempo. Não está na mão de outros resolver este assunto, está na nossa. Contra-atacamos.

Artigo originalmente publicado na Sábado.pt.

Há homens que só querem ver o mundo arder – João Camargo

As notícias acerca de uma tomada de decisão do Presidente Donald Trump sobre o Acordo de Paris, não sendo uma novidade, dão uma machadada no fraco acordo. Os EUA persistem em impedir um acordo global para travar as alterações climáticas, o que indica outros caminhos de acção multilateral e deve despertar as populações para a realidade inultrapassável de que a grande concertação internacional à volta das alterações climáticas foi sempre minada pelos interesses das empresas petrolíferas e das grandes energéticas, que aceitam ver o mundo a arder, desde que tal garanta mais duas ou três décadas de dinheiro a entrar nos cofres.bill-nye-has-a-great-response-to-trumps-outrageous-statements-about-climate-change

Donald Trump é o líder adequado para um petroestado: profundamente ignorante do funcionamento do mundo, alienado de qualquer conhecimento científico e focado numa narrativa medieval do excepcionalismo estado-unidense, cuja principal característica é a do “líder forte”. A sua única acção presidencial com nível de aceitação acima dos 50% foi bombardear outro país. Isto também explica a sua ligação a Vladimir Putin, líder do petroestado russo. Estes dois países são os maiores produtores combinados de petróleo e gás, e a acção concertada para desmantelar nacionalmente as restrições internas às emissões poluentes e internacionalmente o Acordo de Paris confirmam a intenção de serem a tábua de salvação da indústria do petróleo e do gás. Para tal, Trump assumiu uma agenda militante de negacionismo das alterações climáticas, mandando as agências públicas apagar referências nos seus sites à maior questão dos nossos tempos.

Mas no que diz respeito às petrolíferas, Trump não está assim tão distante dos seus antecessores. Foi durante o mandato de Obama que os EUA se tornaram os maiores produtores de petróleo e gás por fracking, suplantando a Arábia Saudita. Mesmo antes disso, os EUA sabotaram sistematicamente qualquer acordo internacional: desde a COP-1 em 1995, as petrolíferas estiveram representadas pelos EUA e forçaram o Protocolo de Kyoto em vez de uma taxa global sobre as emissões. Depois, os EUA recusaram-se a ratificar o protocolo que impuseram. O próprio Acordo de Paris só é um “acordo”, porque se fosse “tratado” e vinculativo Obama não o teria conseguido aprovar na Câmara dos Representantes dominada pelo Partido Republicano. Paris é apenas o último compromisso internacional sobre alterações climáticas destruído pela indústria petrolífera e pelos EUA.

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Artigo originalmente publicado no Público.

É a energia estúpida – João Camargo

Na semana passada, o professor catedrático do Instituto Superior Técnico Amílcar Soares assinou um artigo no Expresso, intitulado “Petróleo e gás no ‘offshore’ nacional: é a energia, estúpido!”, onde qualificou uma carta assinada por mais de 60 cientistas de várias áreas do conhecimento e regiões do país contra a prospecção de petróleo e gás em Portugal de abaixo-assinado “de valor científico baixo ou nulo”, de teor “populista e demagógico absolutamente risível”, “exibição pública de ignorância e demagogia”, afirmando que “não há uma só evidência científica dos impactes ambientais, no turismo, riscos tecnológicos, etc., resultantes da actividade de prospecção no offshore”.

A carta, intitulada “Combustíveis fósseis e alterações climáticas: resposta a uma preocupação científica e social” foi publicada mais de dois anos depois de ter começado uma importante luta social que teve epicentro no Algarve mas que já se expandiu ao Alentejo e à Bacia de Peniche. O movimento contra o petróleo e gás em Portugal tem conseguido felizmente trazer este assunto para cima da mesa e questionado não só a opacidade do processo de atribuição do litoral português para exploração de petróleo e gás sem qualquer avaliação de impacto ambiental, como a necessidade de cortarmos emissões de gases com efeito de estufa em resposta à crise das alterações climáticas. Recentemente foram canceladas seis das quinze concessões de petróleo e gás no país e o Tribunal Administrativo de Lisboa aceitou uma providência cautelar para travar o furo de prospecção no mar de Aljezur, da GALP e da ENI. Restam no entanto nove concessões em vigor: duas em terra na Batalha e Pombal, sete no mar do Alentejo até à Bacia do Douro.

Para argumentar a sua posição, Amílcar Soares socorreu-se de um recente relatório da Agência Internacional de Energia (IEA) e da Agência Internacional de Energias Renováveis (IRENA), “Perspectivas para a Transição Energética. Necessidades de Investimentos Necessários para um Sistema Energético de Baixo Carbono“, de 2017. Soares cita que “seriam necessários novos desenvolvimentos / projectos de prospecção para aumentar cerca de 350 mil milhões de barris de novas reservas de petróleo e 115 biliões de metros cúbicos de novas reservas de gás”, utilizando esta justificação para apoiar a prospecção e exploração de petróleo e gás em Portugal, atacando os seus oponentes. O relatório também fala em triplicar o nuclear, outra gigantesca irresponsabilidade cuidadosamente não citada.

O relatório é assinado por cientistas, nomeadamente da BP, da BMW, da ENEL, da Federação da Indústria Motora, da Fundação Kuwait e da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP). Os cenários de energia são baseados nos relatórios da IEA, que por sua vez utiliza os dados da Exxon-Mobil, da Shell, da Chevron, da BP, da Total e da Statoil. Cronicamente, ao longo das últimas décadas, as petrolíferas e, consequentemente, a IEA sobrevalorizaram o futuro consumo de combustíveis fósseis e subvalorizaram o desenvolvimento as energias renováveis. Em 2010 a agência previa que só em 2024 se atingiriam 180 GW de capacidade de energia solar PV, valor que foi atingido em 2015. A potência de energia eólica prevista em 2002 para 2030 foi atingida em 2010. Perante o mais baixo nível de investimentos em combustíveis fósseis em 60 anos (acompanhando um investimento recorde em renováveis), a IEA apelou em 2016 a um reforço do investimento em fósseis. 

Portanto, os dados utilizados são dados que projectam um contínuo crescimento económico da indústria petrolífera, o que não bate com a realidade e, mais do que uma avaliação imparcial, fornece uma lista de desejos (das petrolíferas). Se adicionarmos que as petrolíferas como a Exxon-Mobil, a Texaco e a Shell sabiam desde os anos 70 do século passado da ameaça das alterações climáticas causadas pela queima de petróleo, gás e carvão, e que passaram os últimos 20 anos a pagar a negacionistas para evitar acção climática, ficamos mais tranquilos em relação à credibilidade.

No relatório destacado por Soares são basicamente omitidas emissões que não provenham de combustíveis fósseis, nomeadamente as da agro-pecuária, da floresta, do cimento ou das mudanças de usos de solos (segundo o relatório só serão, por milagre, responsáveis por 10% das emissões futuras), deixando convenientemente muito mais espaço aos fósseis no “orçamento de carbono”. Acresce que o relatório dá por adquirido que entrará em pleno funcionamento a tecnologia de Captura e Sequestro de Carbono, um projecto que é até ao momento ficção científica. Se se retirarem estas e outras grosseiras distorções do relatório, chegaremos a uma conclusão tão incómoda para as petrolíferas como para Amílcar Soares: não podem haver novos projectos de exploração de combustíveis (no planeta) para conseguirmos limitar o aumento de temperatura a 2ºC até 2100. Pode até fazer o greenwashing que quiser do gás “natural” como combustível de “transição”, mas são crescentes as evidências das gigantescas emissões na fase de exploração do gás fóssil, que coloca o gás obtido por “fracking” no mesmo patamar de emissões do carvão.

Soares ignora finalmente o capítulo sobre activos improdutivos, nomeadamente a possibilidade do novo investimento em combustíveis fósseis ser perdido perante a deslocação rápida para os combustíveis renováveis (e mais ainda se se atrasar a transição energéticas para daqui a 10 anos). Segundo o relatório, deve ser claro para os investidores que para ter 66% de probabilidade (e isso é que é gostar de jogar à roleta russa) de manter a subida de temperatura abaixo dos 2ºC, haveria poucas razões para que as petrolíferas desenvolvessem novos recursos de petróleo e gás na expectativa de uma trajectória de subida da procura e dos preços.

Perante a afirmação de que não há uma só evidência científica dos impactos ambientais da prospecção offshore, além das inevitáveis e até operacionais perdas de petróleo no mar, pode-se responder facilmente: Blowout no BP Deepwater Horizon no Golfo do México. Ignorar os efeitos das alterações climáticas, mesmo abaixo dos 2ºC, é de valor científico nulo e uma exibição de ignorância pública surpreendente, se não fosse apenas distorção propositada.

Em vez de usarem mensageiros, as petrolíferas devem responder pelos seus interesses económicos. A adjectivação e a invectiva pessoal têm pouco valor, mesmo acompanhadas de título e de cátedra, especialmente quando a única fundamentação dada para responder a uma carta de 66 cientistas preocupados com o futuro é usar os relatórios dos interesses de uma indústria de energia estúpida que, mesmo na queda, teima em levar-nos a todos para o caos climático.

Artigo originalmente publicado no Sábado.pt a dia 9 de maio de 2017.