Autarquias Livre de Petróleo e Gás: campanha lançada

Dezenas de organizações locais e nacionais que têm estado envolvidas no combate às concessões de prospeção e exploração de petróleo e gás em território nacional lançaram no dia 22 de junho a Campanha “Autarquias Livres de Petróleo e Gás”. A cerimónia de lançamento da campanha contou com a presença de vários candidatos a presidente de Câmara de diferentes regiões do país.

Depois de anos em que dezenas de organizações estiveram envolvidas no combate às concessões para a exploração de petróleo e gás em quase todo o litoral do país, a realização das eleições autárquicas será um novo momento chave para o futuro destas concessões. A campanha “Autarquias Livres de Petróleo e Gás” irá, durante o período pré-eleitoral, abordar todas as candidaturas de mais de 50 municípios afetados pelas concessões pelo seu posicionamento geográfico, e construirá um mapa nacional, informando os eleitores do posicionamento de cada uma das candidaturas no seu município.

Autarquias Livres de Petróleo e Gás from Climaximo on Vimeo.

No lançamento da campanha estiveram presentes candidatos à presidência da Câmara de Lisboa, Inês Sousa Real, à presidência da Câmara Municipal de Sines, José Ferreira Costa e à Câmara Municipal de Pombal, Gonçalo Pessa.

#tiraralimpo

Mais informação: http://autarquiaslivresdepetroleo.pt/
https://www.facebook.com/tiraralimpo/

Tirar a floresta das mãos do eucalipto – João Camargo

Estavam 40ºC ao fim da tarde em Lisboa. Em Santarém, o termómetro batia nos 45ºC. Ao mesmo tempo, em Pedrógão Grande, estavam 41ºC, e ventos fortes e irregulares. Parece que os incêndios entre o Norte do Alentejo e Coimbra tinham começado muito mais cedo, provocados por invulgares trovoadas secas. A Sul do país e em Lisboa tinha mesmo chovido, e, com um calor infernal e gotas grossas caindo, poderia dizer-se que estávamos bastante a sul, num clima tropical. No site do Instituto Português do Mar e da Atmosfera dizia “Estamos fora do período crítico até 30 de Junho” em relação ao risco de incêndio, o que é o velho “normal”. No ano passado, na Madeira, em Agosto, com um clima bem mais húmido mas não menos quente, os incêndios florestais chegaram à noite à cidade do Funchal e também colheram vidas à sua passagem. Qual será o “novo normal” do clima onde vivemos? Ainda estamos a descobrir.

Mas, e o velho clima? Por que é que Portugal arde tanto mais que os restantes países mediterrânicos? O clima da zona mediterrânica é, de facto, propício à ocorrência de incêndios florestais no verão, fenómeno natural e ao qual a nossa flora e fauna (incluindo a humana) estavam adaptados. Ora, as últimas décadas viram um aumento da ocorrência de incêndios florestais, de área ardida e de ignições em Portugal. Um aumento que não foi acompanhado pelos nossos vizinhos de clima: Espanha, Grécia, Itália, Marrocos, Argélia. Em 1980, Portugal teve um registo de 2349 ocorrências de incêndios florestais e uma área ardida de 44 mil hectares. Em 2016, ano de baixas ocorrências, Portugal teve um registo de 13.079 e uma área ardida de 160 mil hectares. Em média passámos de 73 mil hectares de área ardida por ano na década de 80 para 150 mil hectares de área ardida por ano na década de 2000. O que mudou?

Além do clima, mudou o abandono rural e florestal, que explodiu e foi alimentado e explorado pela expansão descontrolada das plantações industriais de eucalipto e pela pequena plantação desordenada de eucalipto e pinheiro. Com o abandono, Portugal passou a ter uma floresta de matos, acácias, mimosas e eucaliptos para abastecer as fábricas da agora Navigator Company (ex-Portucel), da Altri, da Europac&Kraft e da Renova. E querem mais, como nos recordaram há menos de um ano atrás, que “Portugal devia estar orgulhoso de ter o eucalipto”. Nunca referem que somos o país com a maior área relativa do planeta. Nem Austrália, nem China, nem Brasil, mas Portugal. Mais de 9% de toda a área do país.thumbs.web.sapo.io

Não é uma novidade que o clima vai ficar mais quente. Além disso vai ficar menos húmido, o que significa que as condições para a existência de tragédias como Pedrógão Grande não só se repetirão nos próximos verões: repetir-se-ão ainda este verão. E os verões, que fruto das alterações climáticas podem perfeitamente começar em Maio e terminar em Outubro, farão com que o “período crítico” de incêndios passe de três meses a seis. Aliás, só entre 1 de Janeiro e 12 de Abril deste ano, Portugal já tinha registado 2900 incêndios florestais. A natureza do Eucalyptus globulus é que não vai mudar, o facto de ser altamente inflamável, de se incendiar rapidamente e de projectar cascas incandescentes a mais de dois quilómetros de distância também não.

Artigo originalmente publicado no Público.

Jantar Benefit e Conversa: Desobediência Civil pela Justiça Climática

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Os factos são simples: Para nos manter num planeta minimamente habitável, temos que limitar o aquecimento global a 2ºC em relação aos níveis pré-industriais.

Num contexto mentalmente são, estaríamos neste momento a discutir os detalhes duma transição energética justa, racionalizando e planeando a produção, a distribuição e o consumo para o benefício das comunidades e dos trabalhadores.

No contexto insano capitalista, andamos ainda a negociar contratos de petróleo e gás, para aumentar ainda mais as emissões.

Neste “realismo político” há um défice de realismo físico e químico. É por isso que nós, as pessoas normais, temos que assumir a responsabilidade e forçar uma mudança radical e sistémica.

Neste jantar benefit, queremos servir (além de comida boa) desobediência civil e ação direta como ferramentas do ativismo pela justiça climática. Vamos ver alguns vídeos das ações (de Portugal e do resto do mundo) e conversar. 🙂

Aparece! 🙂

Dia 16 de junho, sexta-feira
RDA69, Regueirão dos Anjos 69, Lisboa

Ajudar na cozinha: 17h
Jantar: 20h
Conversa: 21h

Clima e Acordo de Paris: Trump empurra-nos para a acção – João Camargo

Comecemos pelo início. Não pelo aparecimento da espécie há 200 mil anos, nem pelo fim da era glaciar há 20 mil anos, nem mesmo pela revolução industrial e pela explosão de emissões de gases com efeito de estufa pela queima de carvão, de petróleo e de gás. Comecemos pela campanha eleitoral, onde Donald Trump disse, preto no branco, que se fosse eleito Presidente tiraria os Estados Unidos do Acordo de Paris. No dia 1 de Junho de 2017, cumpriu a sua promessa eleitoral.

O discurso de Trump foi absolutamente revelador. Há anos que o mesmo diz que não acredita em alterações climáticas e alimenta ideias estúpidas, como a de que os Estados Unidos produzem “carvão limpo” e que o aquecimento global é uma invenção da China para baixar as exportações americanas. Desta vez não foi assim: Trump não falou nas alterações climáticas quando afirmou a sua decisão de tirar os Estados Unidos do Acordo de Paris sobre Alterações Climáticas. Não pôs em causa o consenso científico à volta das alterações climáticas nem a relação directa entre a queima de combustíveis fósseis e o aumento inequívoco de temperatura registado nas últimas décadas. O presidente dos EUA foi direto ao ponto: o Acordo de Paris prejudica os interesses das empresas americanas e é desvantajoso em termos de comércio internacional.

O negacionismo das alterações climáticas ancora-se em duas rochas: a ignorância das ciências naturais e os interesses da mais violenta e poderosa indústria do mundo, a dos combustíveis fósseis. Trump já não se camufla na sua ignorância: é para o benefício das indústrias do carvão, do petróleo e do gás que os Estados Unidos abandonarão o Acordo de Paris e se posicionam como um novo estado falhado no palco internacional.trump happy

Se o planeta aumentar de temperatura 4ºC (um pouco acima do que ocorreria se o Acordo de Paris fosse cumprido, que garantiria um aumento de temperatura entre os 2,7ºC e os 3,7ºC), a maior parte dos territórios hoje habitados pelas populações humanas serão amplamente inabitáveis, incapazes de produzir alimentos e acossados por grandes secas e/ou grandes cheias, e fenómenos climáticos extremos. As zonas mais baixas ficarão debaixo de água, o que inclui a maior parte das cidades do planeta. A maior parte do que é hoje o território dos EUA estará nesta situação. Se se cumprir o Acordo de Paris, o impacto será menor, mas ainda assim monumental. Se houver consumo irrestrito de combustíveis fósseis, incluindo nova exploração e aumento de emissões nas próximas décadas, apontamos para os 6,8ºC até ao fim deste século. O caminho da inviabilização da civilização.

Donald Trump recordou-nos que esta questão está longe de acabada e que os vilões de ontem, amplificados pelas alterações climáticas, tornam-se em monstros. Mas empurra-nos para a acção. As lágrimas de crocodilo vertidas em Portugal não podem servir para desligar as proclamações do concreto. Os políticos portugueses que condenam publicamente a decisão de Trump não podem permitir-se continuar a apoiar a prospecção e exploração de petróleo em Portugal. Comecemos a partir daí a construir tudo o resto que falta.

Trump declara guerra à Humanidade, contra-atacamos? – João Camargo

Donald Trump cumpriu a sua promessa de campanha eleitoral e retirou os Estados Unidos do Acordo de Paris. A sua corte de bajuladores e sicofantas aplaudia enquanto o milionário anunciava a retirada do primeiro acordo de combate às alterações climáticas assinado pelos Estados Unidos, o país historicamente mais responsável pelo aquecimento do planeta.

Não podemos nem devemos criar nenhum fetiche à volta do Acordo de Paris: é um acordo insuficiente, fraco, não vinculativo e apesar de estar escrito no preâmbulo que quer manter o aumento da temperatura abaixo dos 1,5ºC até 2100, a verdade é que a soma das propostas individuais dos países faria essa temperatura escalar até aos 3,7ºC. Ele é um acordo fraco em grande medida por causa dos Estados Unidos e dos lobbys que estão e estiveram ilegitimamente presentes nas negociações climáticas desde 1995. A indústria petrolífera não deixa os seus créditos por mãos alheias: se promoveu guerras no Médio Oriente, em África e na América do Sul nos últimos 50 anos, não haveria de conseguir enrolar algumas centenas de cientistas e especialmente diplomatas e eleitos que precisam dinheiro para ser reeleitos? 

Barack Obama, presidente pelos democratas, jamais travou os poderosos petro-interesses nacionais mas ainda assim permitiu que fosse dado algum sinal económico ao mundo de que as coisas iriam mudar e que a acção climática tornar-se-ia uma realidade. Na verdade, só desde o anúncio do Acordo de Paris em 2015 que o investimento em energias renováveis explodiu, em detrimento do investimento em combustíveis fósseis. Pode-se aliás dizer com confiança que, se os países (não apenas os Estados Unidos, mas um pouco por todo o mundo) tivessem deixado de dar dinheiros públicos em apoio às energias fósseis (numa proporção de 4 para 1, quando comparadas com as energias renováveis), hoje já estaríamos numa mudança energética de alta escala e os fósseis estariam em muito maiores dificuldades.

Mas Donald Trump, envolvido até ao pescoço em ligações com interesses da oleogarquia russa, decidiu ontem avançar com a saída do Acordo de Paris. Esta saída é uma declaração de guerra à Humanidade, mas não tem apenas que ver com o acordo. Trump já tinha começado esta caminho antes, ao transferir Rex Tillerson directamente da presidência da Exxon-Mobil, a maior petrolífera do mundo, para a Secretaria de Estado, provavelmente o cargo “ministerial” mais alto da administração americana, e ao colocar na presidência da Agência de Protecção Ambiental Scott Pruitt, um negacionista das alterações climáticas que fez carreira a atacar quaisquer regulamentações relacionadas com emissões ou Saúde. Trump fez questão de, no dia da sua tomada de posse, fazer desaparecer a página das alterações climáticas do site da Casa Branca. Depois, paulatinamente, fez desaparecer dos vários sites do governo qualquer referência às alterações climáticas. Trump e as várias organizações que representa tentam fazer desaparecer a realidade à força, mesmo que essa realidade se manifeste por todo o mundo e já seja hoje responsável por mortes e refugiados em gigantesca escala. O cientista e filósofo norte-americano Noam Chomsky não usa meios termos, dizendo que “O Partido Republicano é organização mais perigosa da história da espécie humana“, e que o mundo nunca viu uma organização tão empenhada em destruir o planeta Terra. A base política desta organização representa uma mistura de algumas das piores características das civilizações humanas: preconceito, elogio da ignorância e da estratificação, egocentrismo, culto da violência e do armamento, fundamentalismo religioso e culto à personalidade. A sua base material compõe o ramalhete: em 2016 a indústria petrolífera deu 4,3 mil milhões de dólares em contribuições de campanha para o Partido Republicano nas últimas eleições presidenciais, para o Senado e para a Câmara dos Representantes. Desde 1990 as petrolíferas contribuíram “oficialmente” com 40 mil milhões de dólares para o Partido Republicano. É esta aliança que entrona Donald Trump e lhe pede: programa máximo, acaba com tudo, vamos furar até acabar!

Costuma-se dizer que aqueles que combatem as petrolíferas e outras indústrias extractivas estão a “salvar o planeta”. Ora, o planeta não precisa ser salvo, estava cá muito antes de nós e provavelmente excederá amplamente a vida da espécie humana. O que estamos a tentar fazer é salvar a Humanidade. Dos humanos, principalmente. Parar com a destruição, com a queima e as emissões que nos fazem correr desalmadamente para o caos climático e o precipício da Humanidade. Mas também humanizar os humanos, retirá-los à indigência intelectual e moral da ideia do Homo economicus, que apenas se guia pelo seu interesse próprio e imediato. Retirá-los ainda dessa aliança letal do Homo economicus com o conservadorismo bacoco e a ignorância orgulhosa. 

Donald Trump é hoje uma etapa doente do capitalismo, o capitalismo que já se quer comer a si mesmo e ao mundo inteiro. A declaração de guerra de ontem é diferente. Trump não fez menos do que exibir uma cabeça decapitada perante as câmaras no jardim da Casa Branca ao anunciar que vai atrasar ainda mais o fim da indústria petrolífera e pôr seriamente em risco a capacidade de garantirmos estabilidade climática ainda este século. Declarou guerra ao mundo inteiro.

Contra-ataquemos. Contra Trump e contra todos aqueles que nos tentam enganar ao dizer que temos tempo e que isto tem de ser feito devagar que é para não prejudicar os negócios. Contra as petrolíferas, americanas e outras, que sabem que o seu negócio é o negócio de destruir um ambiente em que possamos viver (e já o sabem há muito mais tempo do que o público em geral) e ainda assim continuam a querer expandir, a querer rebentar os subsolos e as águas subterrâneas com fracking para extrair um gás que polui ainda mais que o próprio petróleo, a levantar florestas milenares para tirar areais betuminosas, a querer furar os fundos dos nossos mares à procura de gás, de petróleo, de outros minérios. Contra a minas de carvão e a agro-pecuária intensiva que se recusa a mudar. Contra as línguas que se retorcem à nossa frente para dizer loucuras como “produção petrolífera sustentável”, “exploração limpa”, “carvão limpo” ou “gás, combustível de transição”. Contra os governos e os partidos políticos que continuam a apoiar projectos de carvão, de petróleo e de gás, apesar de se dizerem apoiantes do Acordo de Paris, apesar de se indignarem com as palavras e acções de Donald Trump. Contra a apatia que acha que isto há de ser resolvido em negociações internacionais, com tecnologias maravilha ou com a colonização de Marte. Contra-ataquemos.

Nos próprios Estados Unidos já houve 68 presidentes de câmara, incluindo algumas das maiores cidades do país – Los Angeles, Boston, Nova Iorque, Houston, Chicago, Seattle, Atlante, Denver, Miami Beach, Nova Orleães, Portland – que se comprometeram, enquanto municípios, a manter-se no Acordo de Paris, a combaterem as alterações climáticas já. Os Governadores dos Estados da Califórnia, de Nova Iorque e de Washington já declararam a sua intenção de aderirem formalmente ao acordo. 71% dos americanos acha que o país devia manter-se no Acordo de Paris. O tempo da delegação em outrem das acções concretas que podem salvar a Humanidade acabou, algo que devemos à violência de um Donald Trump. Foi a nós que calhou viver neste tempo. Não está na mão de outros resolver este assunto, está na nossa. Contra-atacamos.

Artigo originalmente publicado na Sábado.pt.

O clima não começou a ser destruído por Trump e não seria salvo por ele

A decisão anunciada ontem à noite por Donald Trump põe um ponto final na ideia simpática de que ele estaria simplesmente a fazer bluff em relação ao clima. Trump é um negacionista das alterações climáticas na teoria e na prática, e representa a indústria petrolífera, a quem deu as rédeas do país. Mas mais importante do que derramar lágrimas de crocodilo, em Portugal temos algo muito concreto para fazer e que contraria directamente a decisão insana do multimilionário presidente americano: acabar imediatamente com as concessões para prospecção e exploração de petróleo e gás em Portugal.

A decisão de Donald Trump de abandonar o Acordo de Paris foi anunciada repetidamente pelo mesmo e pelo seu partido durante as eleições presidenciais. Ontem, Trump cumpriu essa promessa, depois de nos últimos meses ter destruído muita da legislação de protecção ambiental e de relativo controlo de emissões que havia sido instituída, além de ter mandado retirar qualquer referência a alterações climáticas dos organismos públicos dos EUA. Só quem não esteve atento durante os últimos meses foi apanhado de surpresa.

Esta notícia, mais do que alimentar desânimo ou resignação, deve encorajar os milhões de pessoas que por todo o planeta se têm mobilizado nos últimos anos em defesa da justiça climática, da justiça social e da defesa da Humanidade. Para quem ainda alimentou ilusões acerca dos acordos internacionais – e sendo o Acordo de Paris particularmente fraco – acabam-se as ilusões. É preciso combater este problema na sua fonte: acabar com os combustíveis fósseis e promover uma revolução energética em vez de inventar grandes esquemas minados pela indústria petrolíferas e pelos estados do status quo. Em Portugal não deve haver hipocrisia não escrutinada: é preciso que quem se ofende coma decisão de Trump assuma a posição de acabar com os contratos de prospecção e exploração de petróleo e gás em Portugal e aposte claramente numa transição rápida para uma economia de baixo carbono.trump

O Climáximo reitera este combate e a necessidade de mudar aceleradamente o sistema económico em que vivemos como única forma de garantir um futuro digno para a humanidade. Não podemos esperar pelas negociações internacionais e pelos acordos de bastidores para resolver este assunto. Nós somos aqueles de quem estávamos à espera.

Há homens que só querem ver o mundo arder – João Camargo

As notícias acerca de uma tomada de decisão do Presidente Donald Trump sobre o Acordo de Paris, não sendo uma novidade, dão uma machadada no fraco acordo. Os EUA persistem em impedir um acordo global para travar as alterações climáticas, o que indica outros caminhos de acção multilateral e deve despertar as populações para a realidade inultrapassável de que a grande concertação internacional à volta das alterações climáticas foi sempre minada pelos interesses das empresas petrolíferas e das grandes energéticas, que aceitam ver o mundo a arder, desde que tal garanta mais duas ou três décadas de dinheiro a entrar nos cofres.bill-nye-has-a-great-response-to-trumps-outrageous-statements-about-climate-change

Donald Trump é o líder adequado para um petroestado: profundamente ignorante do funcionamento do mundo, alienado de qualquer conhecimento científico e focado numa narrativa medieval do excepcionalismo estado-unidense, cuja principal característica é a do “líder forte”. A sua única acção presidencial com nível de aceitação acima dos 50% foi bombardear outro país. Isto também explica a sua ligação a Vladimir Putin, líder do petroestado russo. Estes dois países são os maiores produtores combinados de petróleo e gás, e a acção concertada para desmantelar nacionalmente as restrições internas às emissões poluentes e internacionalmente o Acordo de Paris confirmam a intenção de serem a tábua de salvação da indústria do petróleo e do gás. Para tal, Trump assumiu uma agenda militante de negacionismo das alterações climáticas, mandando as agências públicas apagar referências nos seus sites à maior questão dos nossos tempos.

Mas no que diz respeito às petrolíferas, Trump não está assim tão distante dos seus antecessores. Foi durante o mandato de Obama que os EUA se tornaram os maiores produtores de petróleo e gás por fracking, suplantando a Arábia Saudita. Mesmo antes disso, os EUA sabotaram sistematicamente qualquer acordo internacional: desde a COP-1 em 1995, as petrolíferas estiveram representadas pelos EUA e forçaram o Protocolo de Kyoto em vez de uma taxa global sobre as emissões. Depois, os EUA recusaram-se a ratificar o protocolo que impuseram. O próprio Acordo de Paris só é um “acordo”, porque se fosse “tratado” e vinculativo Obama não o teria conseguido aprovar na Câmara dos Representantes dominada pelo Partido Republicano. Paris é apenas o último compromisso internacional sobre alterações climáticas destruído pela indústria petrolífera e pelos EUA.

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Artigo originalmente publicado no Público.

Petróleo & Parlamento – a história até agora

O Climáximo considera o mau registo das políticas climáticas da Assembleia da República como um apelo à ação para toda a população. O planeta é demasiado importante para ser deixado aos políticos profissionais.

Na Assembleia da República vigora um ambiente mentalmente confuso, onde a ciência, a causalidade, a lógica, e a realidade fora das suas paredes aparentam não ter lugar.

Estas mesmas paredes viram a Ministra do Mar declarar que não há contratos de exploração de petróleo em Portugal (um facto claramente “alternativo” à realidade) e o ex-Ministro do Ambiente defender estes mesmos contratos (desafiando definições básicas de não-contradição).

A sala dos plenários ouviu o Primeiro Ministro António Costa dizer: “Agora, não podemos, naturalmente, nem pôr em causa contratos que estão em vigor, nem pôr em risco o não aproveitamento de recursos geológicos que possam ser aproveitados pelo país, sem sacrificar outros valores essenciais.”

Nesta mesma sala a assembleia parlamentar chumbou sucessivamente propostas para

– revogar todos os contratos do petróleo e gás (PAN),
– suspender os contratos no Algarve (BE),
– suspender os contratos no Algarve e Costa Alentejana  (PEV),
– revogar o Decreto-Lei nº109/94 que incentiva a exploração de petróleo e gás no país (PAN),
– a proibição da exploração e extração de gases óleos de xisto em todo o país (BE), e mais recentemente
– a proibição da realização de novas concessões para a exploração de hidrocarbonetos no território nacional (PAN & BE) e
– a suspensão da pesquisa e prospeção de hidrocarbonetos ao largo de Aljezur e reavaliação, no plano nacional, dos demais contratos de concessão (PCP).

Estas são todas as propostas para não aumentar as emissões de gases de efeito de estufa.

O ambiente do Parlamento parece conter a sua própria realidade virtual, alheia ao mundo empírico: uma realidade de riqueza sem prosperidade, de crescimento económico sem bem-estar, de negociação sem compreensão, de poder sem liberdade. Esta realidade alternativa compromete ao mais alto nível as capacidades de juízo racional e planeamento consequencial, nutrindo no seu cerne um “realismo” político que se traduz no mais puro surrealismo climático. Para nos manter num planeta minimamente habitável, temos que limitar o aquecimento global a 2ºC em relação aos níveis pré-industriais. Para isso, Portugal tem de cortar as suas emissões de gases de efeito de estufa em cerca de 60-70% até 2030

Num contexto mentalmente são, estaríamos neste momento a discutir os detalhes duma transição energética justa, racionalizando e planeando a produção, a distribuição e o consumo para o benefício das comunidades e dos trabalhadores.

No contexto insano capitalista, andamos ainda a negociar contratos para aumentar ainda mais as emissões.

No realismo político da AR, há um défice de realismo físico e químico. É por isso que nós – os que somos capazes de ver o céu, sentir a chuva, reconhecer a existência de pássaros, árvores, água, (outras) pessoas, assim como estudos científicos com revisão por pares, e regras básicas de coerência lógica – nós temos que assumir a responsabilidade e forçar uma mudança radical e sistémica.

É por isso que o Climáximo reivindica:

  • o cancelamento imediato de todas as concessões de exploração de hidrocarbonetos;
  • a introdução de políticas que beneficiem ao mesmo tempo as pessoas e o planeta, tais como a expansão dos transportes públicos, eficiência energética, energias renováveis e descentralizadas;
  • e a criação massiva de Empregos para o Clima, para concretizar esta transição justa dentro dos prazos do sistema climático da Terra.

O Climáximo tudo fará para fazer acontecer esta transição rápida, e para romper com a lógica suicida dos combustíveis fósseis, que sustém o capitalismo extrativista, que extrai tudo o que consegue às pessoas e ao planeta.

Somos natureza em auto-defesa.

Climáximo
maio 2017

Fechar Almaraz e todas as outras. 100% renováveis

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A indústria nuclear já manifestou a sua intenção em alargar o funcionamento das centrais nucleares para além dos 40 anos do seu projecto inicial. A ENEL-ENDESA, IBERDROLA e GAS NATURAL –FENOSA ,  irão solicitar a renovação das licenças de exploração entre este ano e o próximo. A Central Nuclear de Almaraz será a primeira a pedir a extensão da sua licença  a partir de 8 de Junho, depois dela será a de Vandellos a 26 de Julho de 2017 e Cofrents  a 20 de Março de 2018. Seguem-se Asco I e II a partir de Outubro de 2018. E a última será Trillo a partir de 17 de Novembro de 2021.

No passado 30 de Novembro (de 2016) foi modificado o regulamento do Conselho de Segurança Nuclear (CSN) para desvincular a autorização da renovação do funcionamento do requisito de revisão técnica das condições de segurança de cada reactor, o que abre a porta a que o governo do Partido Popular possa conceder esta autorização sem uma revisão das condições de segurança.

Face a estas intenções da indústria nuclear o MOVIMENTO IBÉRICO ANTINUCLEAR (MIA) e as organizações subscritoras deste manifesto, vêm recordar que:

A energia nuclear é uma tecnologia que foi desenvolvida por motivos militares, e cujo crescimento só foi possível graças ao apoio económico e político dos governos, sendo um pilar essencial da proliferação nuclear. Uma energia que se converteu desde a sua origem numa fonte de transferência continua de recursos dos cidadãos para as grandes multinacionais e os bancos.

A energia nuclear é cara, suja e perigosa. Os graves acidentes que têm ocorrido ao longo da história, como os de Harrisburgo, Chernobyl ou Fukushima são a evidência do risco que a energia nuclear implica. Um risco sempre presente e que necessita de enormes investimentos económicos em matéria de segurança e que aumentam exponencialmente os custos da energia nuclear. Além disso a produção de milhares de toneladas de resíduos radioactivos que mantêm a sua toxicidade durante milhares de anos, hipoteca a vida das futuras gerações. Tudo isto converte a nuclear numa energia demasiado cara em termos sociais, ambientais e energéticos.

O funcionamento de Centrais Nucleares até aos 60 anos constitui um risco inadmissível já que os acidentes são mais prováveis num parque nuclear envelhecido. E a radioactividade  ignora fronteiras, uma fuga em qualquer dos reactores e sobretudo em Almaraz, por exemplo, afectaria seriamente Portugal.

Este alargamento do período de funcionamente das Centrais Nucleares implicaria também um aumento considerável dos resíduos radioactivos para gerir. E os de alta actividade  ficam activos milhares de anos e para eles não existe forma de gestão aceitável.

Deve-se iniciar o desmantelamento da central de Garoña imediatamente, e  não conceder mais nenhuma autorização para alargar o prazo das restantes. Será precisamente a central de Almaraz a primeira que, antes do 10 de Junho, solicitará o seu prolongamento, uma central cujos reactores têm uma potencia equivalente a 5 vezes a de Garoña e que gera grandes lucros para as empresas suas proprietárias, Iberdrola, Gas Natural Fenosa e Endesa, apesar de funcionar com uma segurança degradada.

A única razão para este alargamento nuclear é continuar a obtenção de lucros milionários através da facturação eléctrica e outras subvenções que todos custeamos. A sua mera existência leva a um bloqueio do desenvolvimento das energias renováveis, que são a garantia de um sistema energético 100% renovável e em articulação com a eficiência energética, sustentável. Além de que o seu desmantelamento é uma enorme oportunidade para prever um desenvolvimento alternativo para as regiões das nucleares.

O projecto de construção de um cemitério nuclear em Villar de Cañas (Cuenca) em terrenos inapropriados e com um risco geológico inadmissível é outro dos despropósitos do actual governo e mostra a incapacidade de enfrentar um debate transcendente como é o da gestão destes resíduos altamente perigosos.

Um debate que tem sido ignorado também em Salamanca onde apesar da oposição , da enorme oposição dos vizinhos e da hipoteca que tal significará para toda a zona de Yeltes, os governos de Espanha e de Castela-a-Velha e Leão atribuíram autorizações para a que seria a única mina de urânio a céu aberto da Europa. E sem sequer esperar que todas as tramitações estivessem finalizadas  a multinacional australiana Berkeley (com um longo historial de atentados às terras e aos direitos dos aborígenes australianos!) começou a arrasar o território e a arrancar azinheiras centenárias, para explorar uma jazida cuja única rentabilidade é no mercado financeiro. Estas actividades devem ser paradas.

Face a estas intenções , as organizações, colectivos e activistas anti-nucleares solicitarão no próximo 10 de Junho em Madrid o fim das ampliações e um calendário de encerramento nuclear.

Deverá ser o Parlamento Espanhol a aprovar uma lei que fixe um calendário de encerramento das Centrais Nucleares e que ponha fim à energia nuclear em Espanha e desde logo na Península Ibérica.

Solicitamos ao governo espanhol que não renove nenhuma autorização para a continuação do funcionamento das centrais e proceda ao desmantelamento de Garoña.

Solicitamos ao governo português que se mantenha firme, na linha das posições do Parlamento português e de largas dezenas de autarquias, no empenho pelo encerramento de Almaraz.

Solicitamos que não se esconda da cidadania este debate fundamental para impulsionar um modelo energético justo e sustentável. Um modelo 100% renovável só é possível com o abandono da energia nuclear.

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Mais informações sobre o MIA e sobre os autocarros para a manifestação de 10 de junho em Madrid: https://movimientoibericoantinuclear.com/

EZLN vs. GALP (english)

Crustaceans, Molluscs and Fish Invade the GALP headquartes as counter-attack against oil and gas exploration in Portuguese seas

EZLN vs. GALP from Climaximo on Vimeo.

On May 18th, an EZLN unit (Exército Zoológico de Libertação da Natureza, Zoological Army for the Liberation of Nature) invaded the headquarters of GALP Energia. On the day when unconfirmed news appeared saying GALP gave up the Aljezur drill, we express our total renouncement against the permanent threat of oil and gas exploration in our seas. We opted for an incursion against fossil fuel terrorism, by making it clear once more that we reject fossil fuels in Aljezur and everywhere else!

With this counter-attack, EZLN aims to clarify to GALP Energia and their partner ENI that if they continue with their intentions to explore fossil fuels here or elsewhere, they will have to confront our iron will and the leviathan of our resistance to being exterminated and to seeing our habitats devastated.

If there is an eventual cancellation of the Aljezur drill, this would be a victory for our seas. However, we know very well that there are still many contracts to cancel, and we will always be in the frontwaves until final victory. We leave it loud and clear that any incursion to our seas in Alentejo, Peniche and Douro basin would mean an escalation of hostilities, to which we would give a really tsunamic response.