Entrevista imaginada: o Climáximo e os primórdios da Revolução – Ana Mourão

Manifestação Marcha Mundial do Clima a 29 de Abril de 2017. Fotografia retirada do website do Climáximo.

Entrevistámos um membro do Climáximo, que partilhou connosco o foco e caminho do movimento na sua criação em 2015 e nos primeiros anos de luta, há exatamente 40 anos atrás — anos que viram o mundo mudar de forma tão profunda e estrutural.

Entrevistador do Futuro (E): Quando começaram já sabiam que íamos conseguir chegar à revolução mundial?

Membro do Climáximo (C): Bom, no início era um desejo forte, e também a visão ideológica que orientava o nosso rumo enquanto grupo: porque não era uma questão só de sensibilizar, mas queríamos acima de tudo mobilizar pessoas para mudar as coisas. Mobilizar implica ultrapassar o plano da palavra, do debate de ideias, da informação. Mobilizar para a ação! Depois a certa altura, com o curso que os acontecimentos tomaram, com a inflamação e agitação social por todo o lado, tornou-se uma esperança direta, e até uma suspeita. Mas não, posso dizer que não “sabíamos” desde o início, no sentido em que não tínhamos claro a certeza.

“Não era uma questão só de sensibilizar, mas queríamos acima de tudo mobilizar pessoas para mudar as coisas.”

E: Como é que se organizaram para chegar até aqui?

C: O Climáximo começou com quatro pessoas. [Ri-se] Agora parece difícil de acreditar! Mas essas quatro pessoas tinham a convicção de que para um movimento crescer, no mínimo — no mínimo! — teria de ter reuniões semanais. Então começámos a reunir todas as semanas, não sei porquê mas manteve-se sempre à terça-feira. Na altura era em casa de membros, mais tarde às vezes no GAIA ou no Mob, e sobretudo no CIDAC em Picoas. Estas eram organizações que tinham espaço próprio e acolhiam as nossas reuniões. Isto sempre em pós-laboral! Porque no Climáximo sempre fomos todos voluntários, e vários trabalhávamos. Então reuníamos semanalmente, as nossas reuniões eram abertas, e anunciávamos no site que qualquer pessoa era bem-vinda e podia participar. Não só as reuniões eram abertas, mas a forma como funcionavam também tentava ser aberta ao máximo: funcionávamos de forma horizontal, sem qualquer estrutura hierárquica ou posições, em cada reunião íamos rodando quem facilitava e fazia as atas por exemplo. Tomávamos as decisões por consenso, qualquer pessoa podia propor ideias ou ações, e depois víamos se havia interesse em levá-las para a frente. Numa lógica de “quem propõe, faz”. Não tínhamos qualquer financiamento, o financiamento éramos nós [ri-se]: contributos dos membros, ou jantares de angariação que fazíamos. Já agora, o Climáximo nunca teve existência formal como associação ou ONG. Éramos um coletivo informal, mas munidos de muita convicção e vontade de mudar o mundo.

“Tomávamos as decisões por consenso, qualquer pessoa podia propor ideias ou ações, e depois víamos se havia interesse em levá-las para a frente. Numa lógica de “quem propõe, faz”.”

E: E como é que munidas apenas dessa vontade, e em horário pós-laboral, puseram um movimento a funcionar? O que é que fizeram nos primeiros anos para pôr o movimento no mapa?

C: Olha, fizemos muitas coisas diferentes. Experimentámos bastante. O Climáximo surgiu no início de 2015 no contexto da COP-21 que ia acontecer mais tarde esse ano, e onde acabou por ser assinado o bastante irrelevante Acordo de Paris. Por isso quando surgimos a prioridade era essa: aproveitar que o tema estava na agenda pública para mobilizar gente. Então fazíamos desde conversas sobre ciência climática e aquecimento global, formações de ativismo climático, jantares populares, eventos públicos com oradores convidados, a cerca altura até fizemos um jogo para escolas, e uma oficina de ilustração. Quer dizer, tentámos de tudo! Tentámos até logo no primeiro ano organizar uma manifestação. Enfim, muita coisa. No final desse ano, conseguimos organizar uma marcha pela justiça climática em Portugal, e ao mesmo tempo levar uns 10 ativistas a Paris para as mobilizações anti-COP, onde entrámos na ação massiva de desobediência civil das linhas vermelhas. Quinze mil pessoas a inundar as ruas de Paris de vermelho. Foi grandioso!

Foi também aí que começámos a participar em reuniões e eventos internacionais como os da Climate Justice Action por exemplo. A partir desse primeiro ano, decidimos focar-nos em dois temas estratégicos: um foi a exploração dos combustíveis fósseis em Portugal, na altura chegou a haver 15 concessões para explorar petróleo e gás em Portugal: a costa inteira pejada de contratos. O outro foco foi a campanha dos Empregos para o Clima, que exigia a criação de milhares de empregos para fazer a transição justa para uma sociedade pós-carbono. Aí as coisas aqueceram mais: organizámos sessões de esclarecimento sobre petróleo por todo o país, de onde surgiram vários novos movimentos antiextrativismo. Também colaborámos muito com outros movimentos, chegámos a organizar um acampamento anti-fóssil no Algarve, várias marchas do clima em Lisboa, começámos a contactar sindicatos e outros grupos e organizámos uma quinzena de ação nacional contra a precariedade social e ambiental. A certa altura em 2017 fizemos uma campanha antes das eleições autárquicas sobre autarquias livres de petróleo e gás, para os candidatos declararem publicamente se eram contra ou a favor da exploração de combustíveis fósseis no seu município. Depois construímos um mapa online com as respostas. Fizemos também um relatório técnico sobre como fazer e financiar a transição. Estivemos muito ativ@s. Tudo isto fez o movimento crescer e pôs o ativismo climático no mapa português.

E: Podes explicar melhor o vosso foco nos “Empregos para o Clima” e no que chamaste uma “transição justa”?

C: Sim. Os empregos para o clima eram uma campanha que tinha surgido no Reino Unido uns anos antes, e já existia em vários países. Nós convidámos os representante britânico da campanha para vir falar dela em Portugal, e decidimos que essa era a direção certa. A campanha basicamente defendia que para travar as alterações climáticas e mudar a sociedade de uma forma justa — ou seja, de uma forma que não sejam as pessoas a pagar e as empresas a arrecadar mais dinheiro com isso — é preciso muito trabalho. Trabalho para cortar as emissões de gases com efeito de estufa que causam o aquecimento global. Estou a falar de trabalho concreto: mudar toda a produção energia de fontes fósseis para renováveis, tirar as pessoas do trânsito automóvel e pô-las em transportes públicos elétricos movidos a renováveis, e que realmente cheguem a todo o lado, transformar as casas para serem termicamente eficientes, transformar as práticas agrícolas para serem sustentáveis, gerir melhor as florestas. E fazer isto tudo em tempo limite, porque a ciência já na altura nos dizia que isto tinha que acontecer em poucas décadas. Nada disto era estranho. Estas medidas eram mais do que conhecidas. O que faltava era fazê-las. E para isso era preciso empregar muitas horas de trabalho humano. Mas o contexto social e político era totalmente avesso a isto. Andávamos em tempo de retóricas de austeridade, contenção orçamental, e precariedade instalada. Ou seja, as pessoas sentiam ataques de todos os lados, e onde lhes tocava mais de perto era nos salários e nas condições de trabalho. Por isso a ideia desta campanha fez muito sentido na altura.

Logotipo do colectivo Climáximo.

Esta era uma campanha que cruzava os dois eixos de luta e combatia as duas crises ao mesmo tempo: a crise da austeridade e precariedade, e a crise climática. Por isso tinha um potencial tão grande de apoio e mobilização popular. A campanha em Portugal defendia basicamente que deviam ser criados cem milhares de empregos em sectores-chave que cortassem diretamente nas emissões nacionais: energia, transportes, construção, agricultura, floresta. Ou seja, empregos por exemplo a instalar painéis solares, ou a fabricar turbinas eólicas, ou a vigiar a floresta, ou a isolar edifícios, ou a requalificar trabalhadores. E a campanha defendia que estes empregos tinham de ser criados com condições de trabalho dignas, e assegurar emprego a quem o perdia nas petrolíferas, etc.. E um dos pontos-chave da campanha era que isto tudo tinha de ser feito numa ótica de serviço público: não pelos mercados e as empresas, mas pela administração pública. Não com o objetivo de fazer lucro, mas de garantir a segurança e a proteção das populações contra as alterações climáticas. Porque só assim se conseguia coordenar os empregos necessários ao nível nacional, garantir que acontecia, que os cortes de emissões eram reais e não um exercício contabilístico das empresas, e que tudo era feito no tempo necessário. Ah, e já agora também que o resultado deste processo estava ao serviço das pessoas. Por isso falávamos em “transição justa”, e também em “democracia energética”. Porque havia uma componente importante de justiça e controlo popular: a liderança e gestão deste processo devia ser pública, para garantir que as pessoas não perdiam acesso a recursos básicos como energia, transportes, aquecimento, comida ou água, fosse por preços altos ou fecho de serviços por exemplo — mesmo que assegurar isso não gerasse lucro direto. A ótica era de serviço público e de justiça social.

“Esta era uma campanha que cruzava os dois eixos de luta e combatia as duas crises ao mesmo tempo: a crise da austeridade e precariedade, e a crise climática.”

E: Vocês desde o início criaram no vosso site uma secção chamada “A Mesma Luta”. Queres explicar?

C: Isto corresponde basicamente à visão ideológica do Climáximo. Desde o início nos definimos como anti-capitalistas, e tentámos agir na direção da mudança sistémica (em vez por exemplo da mudança de hábitos individuais). Como anti-capitalistas, sempre frisámos que todas as lutas contra as dinâmicas de extração, exploração e alienação do sistema eram lutas irmãs, fosse no contexto de uma luta pelos serviços públicos ou o direito básico à habitação, pelos direitos dos trabalhadores, pela abolição das fronteiras, ou contra os acordos de comércio livre. Todas estas lutas reconheciam e se opunham à injustiça inerente a um sistema económico de expansão infinita, que traduzia todos os valores, necessidades e prioridades humanas em mercadorias, e que em nome do lucro explorava pessoas, animais, e recursos planetários, presentes e futuros sem qualquer limite. Todas estas lutas confrontavam um sistema que viam como ilegítimo, em nome da justiça social e ambiental. Neste sentido, eram a mesma luta. E aliás, percebemos agora, em retrospetiva, o quão crucial foi a tomada de consciência desta união fundamental das lutas, para conseguirmos construir junt@s o caminho para a revolução.

“Sempre frisámos que todas as lutas contra as dinâmicas de extração, exploração e alienação do sistema eram lutas irmãs.”

E: Agora parece muito óbvio, mas na altura, no panorama português, era pouco usual falar-se em “desobediência civil”…

C: De facto. Olhando para a história, é fácil perceber que muitas das nossas conquistas mais básicas se conseguiram desobedecendo a leis e normas injustas: fosse pelo fim da escravatura, pelos direitos das mulheres, pela igualdade racial ou os direitos civis. Em Portugal, aprendíamos na escola sobre as lutas pelo fim da monarquia e do fascismo, e as conquistas de direitos para os trabalhadores. Mas de facto os movimentos em geral não agiam com base nesta sabedoria. Se calhar porque a revolução de 1974 tinha deixado espaço para os movimentos que antes eram contra o sistema ganhassem um lugar legítimo dentro do próprio sistema. Na altura as maiores manifestações em Portugal eram autorizadas e enquadradas no calendário oficial, e aconteciam todos os anos: as marchas do 25 de abril e do 1º de maio. E mesmo assim, com milhares de pessoas nas ruas todos os anos, os trabalhadores queixavam-se que iam perdendo direitos. Ora como é que se podem ganhar vitórias importantes quando a grande força de oposição ao sistema deixou de causar qualquer desconforto ou fricção no próprio sistema? É difícil… A partir dos exemplos da história, e do próprio movimento internacional de ativismo climático (a começar nas mobilizações anti-COP), percebemos que era fulcral tornar mais normal e legítimo desobedecer às regras, confrontar as autoridades, ir contra o poder, sempre que ele estivesse do lado errado, da injustiça e da exploração.

“Como é que se podem ganhar vitórias importantes quando a grande força de oposição ao sistema deixou de causar qualquer desconforto ou fricção no próprio sistema?”

E: Um dos lemas do movimento internacional era “we are the ones we’ve been waiting for — nós somos aqueles de quem temos estado à espera”. O que significa exatamente?

C: Estávamos a ver o planeta a resvalar. A rotina do sistema e a inação estavam a trancar-nos numa rota para cada vez mais destruição, para além dum ponto sem retorno. Havia sensibilização a rodos. Pouca gente no Norte global nunca teria ouvido falar em aquecimento global. Lembro-me na altura de tomarmos conhecimento de um inquérito que apontava em Portugal para 90 e tal por cento de gente “preocupada” ou “muito preocupada” com as alterações climáticas. Mas parecia que estava toda a gente à espera que alguém interviesse para os salvar: os governos, ou as Nações Unidas, ou as empresas de tecnologia. Certamente se fosse um problema importante e perigoso alguém iria salvá-los! Nós sabíamos que isto não ia acontecer. Há várias décadas acompanhávamos as negociações mundiais sobre o clima, e víamos fiasco atrás de fiasco, a conivência entre as petrolíferas e os dirigentes políticos, o silêncio da comunicação social. Sempre que acontecia alguma coisa grande e grave que matava pessoas ou as deixava sem nada (um grande incêndio, umas grandes cheias, uma seca violenta), as petrolíferas e a indústria automóvel nunca eram apontadas como responsáveis. Em vez disso, a culpa era sempre projetada para alguma coisa inofensiva: ou foi o sistema de alarme que falhou, ou a água municipal que foi desperdiçada a regar jardins, ou o sistema de drenagem que estava mal preparado para a chuva… Portanto nós não esperávamos que a salvação viesse dos governos ou das empresas. Aliás, eles eram uma parte grande do problema. Sempre soubemos que seriam as pessoas, os movimentos e mobilizações de bases, a mudar as coisas. Sempre foi assim. O super-herói da história somos nós. Fomos nós aqueles de quem estivemos à espera.

“Parecia que estava toda a gente à espera que alguém interviesse para os salvar: os governos, ou as Nações Unidas, ou as empresas de tecnologia. Certamente se fosse um problema importante e perigoso alguém iria salvá-los!”

E: No final, como sabiam que iam conseguir?

C: Para ser franca, acho que não sabíamos. Não com certeza, como já disse. Mas a verdade é que a alternativa era demasiado atroz. Não havia um plano B para se as coisas falhassem. Aliás, melhor dizendo, não havia um planeta B! Por isso a responsabilidade e a esperança era o que nos movia. Qual era a alternativa? Nessa altura já não eram só os nossos filhos e netos que iam sofrer com o problema, nós já começávamos a morrer, a perder as nossas casas e a ter de abandonar os sítios onde vivíamos. Já havia algumas pessoas a morrer em incêndios e em ondas de calor. E já não eram só os doentes e os velhinhos. Já se tinha tornado frequente ultrapassarmos 45 graus de temperatura. No verão, havia famílias a ficar sem casa. No inverno, às vezes os transportes falhavam, as esplanadas e os caixotes do lixo eram varridas pela chuva e o vento. As secas começaram a matar o gado e as colheitas, a secar os rios, e o preço da comida a subir. Começou a ser mais frequente cancelar voos e interromper comboios por causa do mau tempo ou dos incêndios. Lembro-me de ver estações de comboio e metro em Lisboa inundadas por causa de uma chuva de granizo! E com isto tudo, as pessoas foram ficando muito zangadas. Acho que se sentiram traídas. Na altura em que as grandes mobilizações começaram, tornou-se fácil acreditar que íamos conseguir. Tudo o que os movimentos tinham construído durante anos ajudou a canalizar a fúria e a raiva das pessoas na direção certa: greves e ocupações prolongadas, permanência nas ruas, e todo o resto da história da revolução que bem conhecemos, e que nos conduziu até hoje. Tivemos muita sorte na altura em evitar que as coisas ficassem fora do nosso controlo e o aquecimento não pudesse ser travado. Estávamos mesmo a ficar sem tempo. Foi por um triz… Mas conseguimos.

“Nessa altura já não eram só os nossos filhos e netos que iam sofrer com o problema, nós já começávamos a morrer, a perder as nossas casas e a ter de abandonar os sítios onde vivíamos.”

Alterações climáticas e capitalismo – Filipe Carvalho

Historicamente, o ser humano começou a emitir gases de efeito de estufa de forma massiva a partir da Revolução Industrial, altura em que o capitalismo enquanto sistema económico começou a tomar a sua forma atual. A utilização do vapor de água como meio de transformação de calor em movimento — através da máquina a vapor — permitiu ao ser humano aproveitar a energia potencial dos combustíveis fósseis para muito mais do que apenas aquecer ou cozinhar.

Para o capitalismo, estes avanços significaram que a produtividade do trabalho podia ir muito para lá das limitações físicas dos trabalhadores humanos e animais de carga. Máquinas cada vez mais complexas e poderosas multiplicaram a quantidade de produtos que cada trabalhador podia produzir num dado intervalo de tempo, tornando-os cada vez mais lucrativos para o empregador.

Este processo foi acompanhado pela utilização cada vez mais intensiva de combustíveis fósseis, necessários para alimentar o número crescente de máquinas e fábricas. A queima destes combustíveis liberta gases de efeito de estufa (GEE) como o dióxido de carbono para a atmosfera. Estas emissões disturbem o equilíbrio climático que possibilitou o desenvolvimento da civilização humana e no qual esta assenta. Alterações às condições climáticas existentes requerem, no melhor caso, uma adaptação das sociedades à nova realidade e, no pior caso, inviabilizam a existência das ditas tal como as conhecemos.

crisis

Alterações climáticas

A ciência diz-nos que para termos um planeta com condições habitáveis, precisamos de limitar o aquecimento global a menos de 2°C relativamente aos valores pré-Revolução Industrial. Exceder este limite implica uma muito forte possibilidade de mecanismos naturais entrarem em ação, acelerando ainda mais, de forma incontrolável, as alterações climáticas. Isto implica que temos um orçamento de emissões: podemos emitir no total cerca de um bilião de toneladas de GEE, até atingirmos o referido limite. Este número pode parecer grande, mas em 2011 já tínhamos esgotado mais de metade do plafond. Se nada for feito, excederemos este limite já em 2045, o que quer dizer que os próximos 20 anos são decisivos: ou reduzimos eficazmente as emissões de GEE, ou entraremos num período histórico muito difícil. Para Portugal, por exemplo, isto implica reduzir as suas emissões domésticas entre 60% e 70% nas duas próximas décadas.

Este problema será resolvido de uma forma ou outra: ou transformamos as sociedades atuais para sociedades de baixas emissões e adaptamo-las às condições climáticas que entretanto se instalam, fruto das emissões presentes e passadas, ou as alterações climáticas transformam as sociedades atuais da forma que for, sem que o ser humano tenha controlo sobre esse processo. É importante por isso refletir sobre o sistema social atual — a sociedade capitalista — e as soluções que apresenta para responder à questão das alterações climáticas.

O sistema capitalista

O mecanismo que move o capitalismo enquanto sistema económico é a acumulação de capital, ou seja, o objetivo primário da classe capitalista é a acumulação de riqueza — ninguém investe para não ter lucros. Daqui resulta que a ação individual e coletiva dos membros da classe capitalista vai no sentido de maximização dos seus lucros.

Isto é uma necessidade sistémica. Na Natureza existe seleção natural, em que as criaturas bem adaptadas ao meio em que existem sobrevivem e reproduzem-se, e as mal adaptadas perecem. Analogamente, no capitalismo enquanto sistema, também existe uma “seleção natural”: as empresas (capitalistas) bem adaptadas, isto é, lucrativas, sobrevivem e crescem; as mal adaptadas perecem, declaram insolvência. Isto significa que as empresas que não tomem a maximização do lucro como objetivo principal são reprimidas pelo próprio sistema: só atinge e mantém-se na classe capitalista quem tenha como prioridade enriquecer. Pode-se por isso tomar a “ganância” da classe capitalista como uma característica selecionada e promovida pelo próprio sistema.

Maximizar os lucros implica maximizar as vendas e as margens de lucro de cada venda, o que implica maximizar a produção e a produtividade. Tudo o que não vá ao encontro disto é reprimido, como referido. Portanto condutas consideradas moralmente corretas ou a sustentabilidade no sentido não económico nunca são nem podem ser prioridades da classe capitalista. São restrições, que quando impostas por forças “exteriores” aos mercados, condicionam o sistema. As Constituições dos países democráticos são bons exemplos de restrições ao capitalismo, porque impedem a maximização possível do lucro ao abolirem a escravatura, o trabalho infantil ou condições de trabalho desumanas. Claro que existem formas de tornear certas restrições (por exemplo transladar uma atividade económica para países com menor proteção dos direitos humanos) e isso de facto acontece, porque a motivação central do capitalismo não desaparece com a conquista de direitos.

O sistema capitalista é, por isso, inerentemente extrativista[1]: para poder assimilar a realidade, esta tem de ser traduzida, quantificada, em fatores que o sistema reconhece: custos, rendimentos, oferta, procura, lucros… A Natureza é vista como um conjunto de “recursos naturais” e os seres humanos são vistos como “recursos humanos”, meras fontes de riqueza. Isto significa que o capitalismo não vê a Natureza e a sociedade de uma forma objetiva ou científica — só consegue ver uma realidade mercantilizada. Tudo o que o capitalismo reconhece é visto como um negócio ou mercado; tudo aquilo que não pode ser visto como um mercado é invisível para este sistema.

endanger

Uma vez que o capitalismo reduz as interações sociais e físicas a interações económicas, questões ambientais ou sociais só podem ser assimiladas se forem igualmente traduzidas em termos económicos. Insatisfação social só é de facto reconhecida quando se organizam greves, bloqueios ou boicotes que afetam a sociedade na sua dimensão económica; da mesma forma, problemas ambientais só são realmente reconhecidos quando afetam a atividade económica (frequentemente devido à má imagem que um desastre ambiental traz ao negócio que o criou).

Soluções do capitalismo face às alterações climáticas

Dentro da lógica capitalista, reduzir as emissões tem de passar pela criação de mais riqueza e de novos mercados. É esta também a premissa básica do capitalismo verde, que se apresenta como a solução mainstream às questões ambientais e que toma o mercado livre como o principal mecanismo de transição. Se for utilizada menor quantidade de matéria-prima num determinado produto em relação a um outro homólogo, o primeiro torna-se mais barato em relação ao segundo e vai ser preferido pelo consumidor. Um veículo que consuma menos combustível torna-se economicamente mais atrativo. Por outro lado, veículos elétricos são ainda raros, o que significa que existe potencial de mercado para esta nova geração de veículos. Campanhas de sensibilização à população são levadas a cabo, tornando as pessoas mais seletivas no seu consumo, dando preferência a produtos “verdes”, como os referidos veículos elétricos. O mercado tende assim para a maximização do lucro e do ambientalismo.

Em relação à utilização de combustíveis fósseis, o sistema capitalista requer que a sua utilização seja reduzida gradualmente. O gás natural aparece como alternativa ao petróleo e ao carvão como sendo a “energia de transição”, por libertar menos emissões quando queimado. Outra fonte de energia alternativa ao petróleo e carvão proposta pelo capitalismo verde, é a utilização de biocombustíveis. A ideia desta solução é a de que o dióxido de carbono emitido pela combustão seja capturado pelas plantas que são cultivadas para o fabrico do combustível, tornando o processo neutro em termos de emissões.

Outros mecanismos de combate às alterações climáticas incluem a criação de taxas sobre produtos considerados “não-verdes” ou sobre as próprias emissões de GEE. Este último abre portas aos mercados de emissões, onde emissões de GEE podem ser compradas por quem queira emitir acima do seu limite e vendidas por quem não consegue emitir o suficiente, criando toda uma nova área de negócio que promete reduzir a sua própria mercadoria.

Ao nível social, não são apresentadas muitas soluções que não passem por alterar comportamentos individuais, frequentemente ligados ao consumo. As principais soluções de cariz social que são levadas a cabo, não relacionadas com o comportamento individual dos cidadãos, tomam a forma de cimeiras e eventos de cooperação internacional, que resultam em tratados como o Protocolo de Quioto ou o Acordo de Paris, em que governos de todo o mundo comprometem-se a reduzir as suas emissões domésticas, “guiando” os mercados nesse sentido.

Finalmente, a geoengenharia apresenta-se como uma solução emergente (de alto risco) para a crise climática. Consiste em manipular certos parâmetros da Terra como o seu albedo (a capacidade de refletir a luz do Sol) ou em remover artificialmente GEE da atmosfera. De um ponto de vista de mercado, estas soluções não são propriamente atrativas por não trazerem retorno monetário imediato, mas diminuem a necessidade de se reduzir as emissões, concedendo aos mercados tempo para se ajustarem da melhor forma (mais lucrativa) à transição para sociedades de baixas emissões. Por enquanto ainda são encaradas como “soluções de último recurso” a serem implementadas quando os seus riscos forem compensados pelos riscos das próprias alterações climáticas.

Crítica às soluções do capitalismo face às alterações climáticas

As abordagens do atual sistema, baseadas no mercado livre, claramente não estão a funcionar, nem irão funcionar. Por exemplo, simplesmente alterar as fontes de produção de energia útil, que hoje ainda são maioritariamente os combustíveis fósseis, para fontes de energia renovável, é um processo que engloba muitos custos, mas basicamente o mesmo rendimento, o que não é nada atrativo para a sociedade capitalista. Para além disso, o simples facto de que a tecnologia baseada em combustíveis fósseis requer que estes sejam minados ou extraídos, tratados e refinados, transportados e, finalmente, consumidos, faz com que estes sejam excelentes contribuidores para uma economia privatizada, já que a matéria-prima é privada e requer transformação. Em contraste, a luz solar e correntes de ar ou água não são privatizáveis (pelo menos da mesma forma), não requerem refinação ou qualquer tipo de transformação e não podem ser empacotadas nem vendidas. Como a energia renovável não baseada em combustíveis tem uma natureza muito pouco mercantil, o capitalismo tem mais dificuldade em utilizá-la e desenvolvê-la comparativamente à energia proveniente de combustíveis — sejam eles quais forem.

É por esta razão que o gás natural aparece como uma alternativa: por poder ser apresentado como “menos poluente”, mantendo a mesma natureza económica do petróleo e carvão (requer extração, tratamento e transporte) e sem pôr em causa a atividade levada a cabo pela indústria petrolífera, altamente lucrativa. O mesmo acontece com os biocombustíveis, embora os problemas a estes associados sejam diferentes. No papel, as emissões de dióxido de carbono da combustão de biocombustíveis são balançadas pela absorção deste gás pelas plantas que têm de ser cultivadas para o produzir. No entanto se forem tidos em consideração fatores como as emissões associadas à agricultura e à desflorestação necessária para se produzir combustível em massa, esta neutralidade é posta em causa.

No que toca à redução de processos fisicamente irrelevantes, mas economicamente rentáveis, que contribuem para as emissões, esta não é uma opção viável para o sistema capitalista. Exemplos destes processos incluem a produção de armamento, o fabrico de produtos que rapidamente se tornam obsoletos e são incompatíveis com outros de forma desnecessária, de publicidade em massa cujo objetivo é maximizar vendas e não suprir necessidades, entre outros.

Por outro lado, todas as poupanças (de energia, matéria-prima, etc.) que os mercados incentivam não são poupanças de todo, uma vez que, como o crescimento é uma necessidade do sistema, qualquer poupança é aplicada em aumentar a produção, derrotando o seu propósito. As soluções que implicam poupanças reais não são economicamente apelativas, como por exemplo o desenvolvimento de redes de transporte público massivas e eficientes. O transporte coletivo é muito mais eficiente do que o transporte individual e pode substituir o último como o meio de transporte principal de uma sociedade, mas a produção e venda de automóveis em larga escala contribui mais para o crescimento económico, logo é a opção preferida pelo sistema.

As taxas e impostos sobre produtos “não-verdes” são formas de colocar o esforço de redução de emissões sobre o cidadão comum, sem danificar os lucros da classe capitalista. Os mercados de emissões, em funcionamento desde os anos 90, não contrariaram o aumento de emissões que ainda se verifica, por se centrarem na maximização de lucros e não no suposto objetivo de redução de GEE.

Relativamente à geoengenharia, os riscos associados a várias soluções em estudo são absurdamente elevados. Soluções como aumentar o brilho dos oceanos ou a refletividade das nuvens através de químicos têm potencialmente danos colaterais enormes, impossíveis de prever. Não são por isso soluções que promovam a sustentabilidade ambiental de forma alguma; são a derradeira negação do capitalismo a mudanças sociais que o coloquem em causa.

Em suma: numa lógica capitalista de produção desmesurada e de crescimento económico infinito é impossível lidar com um problema que é gerado e alimentado essencialmente por essa mesma lógica.

____________________________________________

Artigo originalmente publicado na Praxis Mag a dia 28 de julho de 2016.

Stop the climate debate! The murderer is the accountant! – Sinan Eden

I have two friends who recently had their second daughter.

Then, there is this new article and its high pitch repercussions that tell me that the best thing I can do to save the climate is to kill that daughter.

I am confused.

§1. The scientific article is titled “The climate mitigation gap: education and government recommendations miss the most effective individual actions“. Here are some of the media stories covering the article:

  • Want To Slow Global Warming? Researchers Say Answer May Lie In Family Planning
  • Klima-Studie: Warum Babys die größten Klima-Killer sind [Klima-Killer???]
  • Ter menos filhos é a acção mais eficaz contra o aquecimento global
  • 20 BMW schädigen das Klima weniger als ein Baby [in effect, saying it’s better to buy 20 BMWs than having a child]
  • This could be the best way to fight climate change, but you might not like it
  • Fewer babies could be better for the environment
  • Have one fewer child if you want to fight climate change, study says

etc. etc.

I have a few more brilliant ideas on this.

§2. First of all, if having one fewer child saves me emissions, then how about I declare that I consider having 5 babies, then demand compensation (carbon credits!) for not having them? Can I buy my way to the so much desired BMW? (Actually, 20×5=100 of them, isn’t it?)

§3. But more importantly, the items in the list are considered to be “personal choice”, but the science of the article actually never refers to this. I mean, if I myself stop using a car, or if I simply utilize any car as part of the barricades during an anti-G20 protest, the result is the same, I still avoid 1-2 tonnes of CO2 emissions, right? They are not exactly my emissions, but if I can cut them, why not? (Fine, I just have to make sure I burn the car of someone poor enough so that s/he couldn’t simply replace it.)

§4. Even more relevant is that these are personal choices after the fact. The so-called “high impact choices” are, and I am quoting, “live car free”, “avoid one transatlantic flight”, “buy green energy”, “buy more efficient car” etc. This means, if you want to make the biggest cuts in emissions, the first step is to be rich enough to have a transatlantic flight you can cancel. Marvellous news.

§5. Finally, the article is about “educational programmes”. So it’s really about what we should tell other people to do. We are supposed to show this graph to people around us:

impact

What does “have one fewer child” mean? This does not have to be strictly limited to talking people out of having a new child. From a strictly scientific perspective, the article is also telling people to kill their own children, or better, kill all children. (Read the German article about babies being climate-killers. Death to the climate-killers! (?) )

And I mean, the article is correct in its own fashion: if there are no humans, then there is no human-caused climate change. Problem solved.

§6. I am confused.

I haven’t met my friends’ second daughter yet. But I have some little “flirts” with the older one (by flirt I mean the 3-year-old saying my name and me saying her name, in loop… not very cute for others present, but we have our own ways.).

Is the newcomer just another consumer? Just another “greenhouse gas emitter”? A climate killer?

Is it scientifically irrelevant that she could be our long-awaited union leader who reinvents the labour movement? Is it invisible to the emissions accountant that she could be inspiring thousands into acts of civil disobedience for climate justice?

(Just wondering, kid, not putting my own responsibilities onto your shoulders, don’t worry…)

§7. We have to stop the accountants. Immediately. The problem is not with the numbers, but with the system. And this is super-easy to see: In any part of the “developed” world, it is technically impossible for any person to remain below the sustainable emissions threshold via individual choices. Something bigger, much bigger, has to change.

If she would get slightly politicized, she could earn huge “negative emissions” in the accountants’ papers by winning a fight for public transport. If the accountants would get slightly politicized, we would find out what the “government recommendations” actually “miss”.

“The most effective individual actions” are when you get involved and take collective action.

Stop the accountants. Let’s talk politics.

***

A calmer and better articulated analysis of the article and its various interpretations can be found here: The best way to reduce your personal carbon emissions: don’t be rich

My “accounting” for activism versus individual solutions, here: Activism: It’s better than dying . I basically calculated that, to remain within the sustainable per capita emission budget, you would have to commit suicide. I also calculated that direct actions are even more effective than that.

 

Boleia e ativismo climático na HitchFest

HitchFest 2017 * Portugal

2-6 de agosto, Marco de Canaveses

(English below)

Boleia e ativismo climático

(4 de agosto, 14h30, a confirmar: http://www.hitchfest.org/index.php/pt/programa/ )

As evidências são hoje avassaladoras: o capitalismo e o consumismo estão a destruir os ecossistemas e a mudar o clima. Ou agimos agora, ou em breve não sobrará muito por que lutar.

Através do mundo e da história, as pessoas têm-se juntado para lá dos governos e empresas, têm tomado o assunto nas suas próprias mãos. No último ano, brutou no Algarve e por todo o país a maior luta ambiental das últimas décadas, contra os planos de perfurar a terra e o mar para explorar petróleo e gás natural em Portugal.

Optar pela boleia significa viajar sem contribuir para o consumo de combustíveis fósseis. Mas há mais que podemos fazer, coletivamente.

ende

Que ações têm acontecido e vão acontecer à nossa volta? Poderão os viajantes à boleia ser como um exército móvel pela justiça social e climática? Como complementar as escolhas individuais e a organização coletiva por um futuro sustentável para todas?

Para mudar tudo, precisamos de toda a gente!

Apresentação e conversa com Sinan, do Climáximo

*

Hitchhiking and Climate Activism

(August 4th, 14:30, tbc: http://www.hitchfest.org/index.php/en/program/ )

The evidence on how capitalism and consumerism are destroying ecosystems and changing the climate is pretty striking – either we act now, or soon there won’t be much left to fight for.

Throughout the world and history, people have bypassed governments and corporations, and decided to get together and take matters in their own hands. In the Algarve and all over Portugal, people have been rising up against the recent plans to drill for gas and oil.

As hitchhikers, every time we take a lift, we move without adding on the fossil fuels consumption. But there’s different, bigger, collective stuff to be done.

What actions have been and will be happening around us? Can hitchhikers be a sort of mobile army for social and climate justice? How to complement individual choices with collective organizing for a sustainable future for all?

To change everything, we need everyone!

Presentation and talk with Sinan, from Climaximo

HitchFest 2017 * Portugal

hitch

**EN** Presentations * Concerts * Workshops * Therapies

This summer all thumbs point to Portugal!

HitchFest is a festival which will gather hitchhikers and nomad souls from all over the globe.

For four days, we’ll unpack from our backpacks skills and experiences collected on the road and share them with other travelers and all people interested. Four days for sharing about different ways of traveling, different cultures and places of the world, ecology, spirituality and activism. Four days full of music and arts, friendship and diversity. Four days to celebrate life and movement, to promote hitchhiking and the art of travelling!

The festival is donation-based – you name your price.

Be welcome!

Do you want to present a topic, movie, blog or book? Perform with music or theater? Exhibit photos or paintings? Give a workshop? Have a food or handicraft stall? Volunteer ar the festival? Share an idea or contribute in any way? Get in touch! getinvolved@hitchfest.org

http://www.hitchfest.org/
#hitchfest

**PT**
Apresentações * Concertos * Workshops * Terapias

Este verão, todos os polegares apontam para Marco de Canaveses!

A HitchFest – Festa da Boleia é a primeira edição dum festival que junta aventureir@s, viajantes à boleia ou simples curios@s, vindos das mais variadas partes do globo.

Durante quatro dias, vamos tirar da mochila conhecimentos e experiências coleccionados pela estrada fora e partilhá-las com outr@s viajantes e todas as pessoas interessadas. Quatro dias de partilha sobre diferentes formas de viajar, sobre diferentes culturas e lugares do mundo, sobre ecologia, espiritualidade e activismo. Quatro dias cheios de música e arte, amizade e diversidade. Quatro dias para celebrar a vida e a viagem!

Um encontro único e original, para dar a conhecer e fazer crescer esta arte de viajar e filosofia de vida.

Entrada por donativo livre e consciente.

Contamos contigo!

Queres apresentar um tema, filme, blogue ou livro? Actuar com música, teatro, performance…? Dar um workshop? Ter uma banca de comida/bebida ou artesanato? Ser voluntária/o? Contribuir com uma ideia? Contacta-nos! getinvolved@hitchfest.org

http://www.hitchfest.org/
#hitchfest

Que reforma para uma floresta 2ºC mais quente? – João Camargo

Desde a tragédia em Pedrógão que o debate acerca do futuro das florestas tem sido intenso e, com a aproximação da data assumida de 19 de julho para fechar uma reforma florestal, é importante perceber o que se prepara o Governo para fazer. De entre as várias propostas em cima da mesa, que tocam nas questões da estrutura da propriedade, do combate aos incêndios, do banco nacional de terras, cadastro florestal e fogos controlados, há uma a destacar: a alteração ao regime jurídico de arborização e rearborização (que se tornou conhecido como lei do eucalipto). Sob a lei do anterior Governo, a floresta em Portugal continuou um processo de eucaliptização e perda de floresta, contribuindo, em conjunto com uma situação de abandono generalizado, para a continuação de anos de incêndios catastróficos.

O ministro Capoulas Santos anunciou recentemente que “não haverá mais um único hectare de eucalipto em Portugal”, afirmação audaz mas que foi imediatamente corrigida, ao afirmar que “vamos permitir é a transferência de áreas de produção de eucalipto, de locais com maior risco de incêndio e menos produtivas, para outras mais produtivas”. O que quererá isto dizer, exactamente?

O novo projeto de lei do Governo, que pretende substituir a lei do eucalipto, diz que não são permitidas acções de arborização (novas plantações) com eucaliptos e que são apenas permitidas rearborizações (voltar a plantar em áreas previamente plantadas) de eucalipto quando a área já tinha previamente eucaliptos. Com uma excepção: quando “resultem de projetos de compensação, relativos à eliminação de povoamentos de eucalipto de igual área, localizados designadamente em zonas marginais e de baixa produtividade, com preparação de terreno que permita uso agrícola, pecuário ou florestal, neste caso, desde que com outras espécies que não do género Eucalyptus spp.”. Traduzindo, o Governo introduz uma suspensão teórica da área plantada por eucalipto e ao mesmo tempo um sistema de permutas que permite trocar-se áreas eucaliptizadas e pouco produtivas por áreas não eucaliptizadas em terrenos mais produtivos. É dizer que não haverá mais um único hectare de eucalipto em Portugal, quando na verdade existirão dezenas de milhares de novos hectares de eucalipto em Portugal, e nas zonas mais produtivas do país.

O Governo propõe uma troca às celuloses: elas deixam o osso, as zonas menos produtivas do país, em troca do lombo, que é concretamente a zona litoral centro-norte do país, aquela que tem as melhores capacidades de continuar a sustentar uma floresta biodiversa, com os solos mais ricos, maior disponibilidade de água e temperatura mais moderada. Por esses motivos, também é a zona mais rentável para uma monocultura intensiva. Isso não tem nada a ver com combate a incêndios, tem que ver com a contínua entrega do território. Aliás, a mortalidade do eucalipto, como de outras espécies, está a aumentar e continuará, com o aumento da temperatura e redução da precipitação, em particular no interior. Por isso é que no Governo anterior tanto se insistiu no regadio público para o eucalipto. Estamos a falar do futuro e de uma floresta em que, na melhor das hipóteses, a temperatura estará 2ºC mais quente e a precipitação 4% a 9% menor.

As alterações climáticas tendem a degradar as áreas florestais, em particular as que já são vulneráveis, modificando o comportamento dos incêndios, que se tornarão mais violentos e quentes, provavelmente aumentando o número de fogos de copas em relação aos fogos sob o coberto. O aumento da temperatura de 2ºC é um aumento médio, isto é, haverá dias muito mais quentes, como aqueles em que ocorreu a tragédia de Pedrógão Grande, e as noites tropicais (acima dos 20ºC) aumentarão, dificultando ainda mais o combate e dificultando o sucesso de várias espécies florestais. Mas as florestas têm um enorme potencial de ajudar-nos no combate às alterações climáticas, quer servindo como sumidouros de carbono (o que acontece quando não ardem), quer contribuindo para conservar solos e água num território que tenderá a perdê-los. O enorme serviço que a floresta pode prestar ao país no futuro depende de várias das escolhas que fazemos hoje: ela servirá para proteger o território, se conseguirmos moldá-la nesse sentido, habitá-la e voltá-la para os seus serviços naturais, muito mais do que para o rendimento imediato e o mercado da exportação. A importância dada à biodiversidade, à resiliência e à aposta em espécies autóctones (que têm de ser muito bem geridas para se desenvolverem num clima muito mais adverso) definirá muito da habitabilidade futura do nosso território. A proposta do Governo, abrindo às celuloses a porta das áreas com maior potencial do território nacional, faz o contrário.

*

Artigo originalmente publicado no Publico.pt a dia 8 de julho de 2017.

Eucalipto: a monocultura das mentes – João Camargo

Tem sido repetida peremptoriamente na última semana a afirmação, em relação aos incêndios florestais, de que “o eucalipto arde tanto como qualquer outra árvore ou arbusto da nossa geografia”. O objectivo desta declaração é dizer que a composição das espécies na área florestal não tem impacto nos incêndios e que, portanto, não há nenhum motivo para introduzir qualquer restrição à expansão da área de eucaliptal em Portugal.

O objectivo da primeira afirmação é levar a um raciocínio do tipo “nós sabemos que uma grande parte do território não tem eucalipto e que o eucalipto é o que menos arde, portanto, o problema não é do eucalipto”. Há um problema grave no entanto, quer com a primeira afirmação, quer com a segunda: não são verdade. O eucalipto não arde tanto quanto outra árvore ou arbusto da nossa geografia: arde mais. E o eucalipto ocupa cerca de 30% da área florestal. Portanto, uma grande parte do território tem eucalipto.

A afirmação inicial fala principalmente das ignições e combustibilidade do eucalipto, do pinheiro-bravo e dos matos, para a partir daí dizer que o eucalipto arde menos do que o pinheiro-bravo e que os matos. Ora, há vários problemas nessa afirmação:

  • Compara uma espécie em regressão de área (o pinheiro-bravo, com provavelmente menos de 700 mil hectares), com uma espécie em expansão de área (o eucalipto, com mais de 900 mil hectares);
  • Compara espécies espontâneas e não plantadas (matos) com uma espécie plantada, subsidiada e absolutamente dominadora nas áreas florestais em Portugal (o eucalipto, com mais de 9% da área do território nacional);
  • Aparentemente apenas há três possibilidades nas áreas florestais na nossa geografia: eucaliptos, pinheiros-bravos ou matos.

Assim, todas as outras possibilidades de espécies florestais – carvalho roble, negral, sobreiro, vidoeiro, castanheiro, figueira, aveleira, alfarrobeira, azereiro, loureiro, azevinho, medronheiro, pereira-brava, oliveira, aveleira, amoreira, entre outras, e/ou combinações das mesmas – não são comparadas com o eucalipto, porque aparentemente nem são uma possibilidade real? Todos os estudos produzido nas últimas décadas, que atestam a maior combustibilidade e ignições do eucalipto em relação a outros tipos de espécies florestais em Portugal – folhosas, coníferas não-especificadas, montado de sobro, florestas de castanheiros, de azinheiras, de pinheiros-mansos – aparentemente são irrelevantes.

A afirmação “o eucalipto arde tanto como qualquer outra árvore ou arbusto da nossa geografia” não tem direito a recurso nem apelo. É a velha teoria do “não há alternativa” aplicada à floresta. A monocultura das mentes. Uma floresta só serve para produzir lenho, a biodiversidade, a conservação de solos e água, os outros usos são utopias.

Mas a floresta portuguesa perdeu cerca de 10 mil hectares de área por ano nos últimos 25 anos, perfazendo uma regressão de 254 mil hectares. Nesse mesmo período, a área de eucaliptal ter-se-á expandido cerca de 150-170 mil hectares. Temos cada vez menos floresta e cada vez mais eucaliptal. Da Universidade da Tasmânia, na Austrália (origem do Eucalyptus globulus), há também especialistas que nos dizem que o eucalipto evoluiu para arder e queimar a concorrência, expandindo a sua área através dessa estratégia. Os dados empíricos em Portugal parecem confirmar essa teoria.

Felizmente, apesar do soundbyte falso e repetido, há pouca discordância sobre algumas questões: o eucalipto arde rapidamente, produz uma grande quantidade de biomassa altamente combustível (e quanto maior a densidade das árvores, mais biomassa concentrada) e projecta material incandescente a quilómetros de distância. Os únicos locais onde não arde tão violentamente são as áreas bem geridas e protegidas pelas celuloses – menos de 200 mil hectares – mas é nos restantes 700 mil hectares, que fornecem a matéria-prima para a indústria, que se expressam as características mais combustíveis do eucalipto.

A ideia de inevitabilidade de uma área florestal dominada pelas celuloses e pelo eucalipto prende-se com a noção de que é a única espécie rentável. Esta noção de rentabilidade exclui o impacto ambiental do eucalipto sobre o território e sobre as populações, incluindo os próprios proprietários. E se fosse mesmo rentável, teríamos o abandono que hoje existe? E seria “rentável” sem tantos apoios públicos, directos e indirectos? A pergunta não pode ser só se o eucalipto é rentável, tem de ser se o eucalipto, ou quaisquer outras monoculturas, são adequadas a um território que já arde mais do que qualquer outro na Europa e que verá nas próximas décadas a temperatura aumentar e a humidade a reduzir-se.

Artigo originalmente publicado na Sábado.pt a dia 30 de junho de 2017.

FLORESTA: de onde vimos, para onde vamos, o que fazer? – João Camargo

A FLORESTA EM PORTUGAL

Em Portugal, a área florestal actual é de 3 milhões e 180 mil hectares. A história da floresta no território acompanhou vários processos sociais e históricos, desde a regressão de uma floresta maioritariamente de carvalhos com a expansão da agricultura no Neolítico e do pastoreio mais tarde, desde a plantação do Pinhal de Leiria por D. Afonso III para fixar dunas até ao abate em grande escala de carvalhos para construção de naus, até às monoculturas do pinheiro e eucalipto. Com a expansão e o comércio marítimo, a procura por madeira (principalmente carvalho) tornou-se tão importante, e a madeira um bem tão escasso, que passou a haver medidas de regulamentação do abate e protecção de floresta. A Lei das Árvores, de 1565, obrigava à plantação de carvalhos, pinheiros e castanheiros autóctones em zonas incultas e baldios. O acesso a madeiras abundantes em África e no Brasil significou em grande medida que os 300 anos seguintes não tiveram muitos marcos importantes na floresta, que se encontrava restrita a poucas áreas. No séc. XIX a política florestal adoptou uma visão estritamente utilitária, servindo para conter o avanço do litoral, fixar dunas e abastecer a Marinha para a construção de barcos: constituía-se a Administração Geral das Matas, que respondia ao Ministério da Marinha. Em 1875, a área arborizada era de 670.000 ha: 370.000 ha de montados, 210.000 ha de pinhais, 50.000 ha de soutos e carvalhais. Correspondia a menos de 7% do território nacional.

Na Monarquia, as matas públicas cresceram, o que continuou na 1ª República e na maior parte do Estado Novo. O Plano de Povoamento Florestal 1938–1968 previa arborizar 420.000 hectares do território nacional, principalmente com pinheiro bravo, para garantir segurança dos solos, redução do impacto da erosão pela chuva, melhoria da Saúde Pública e emprego. Este plano, destinado principalmente ao Norte do país, foi financiado através do orçamento do Estado. No final deste processo, a área de Matas Nacionais geridas pelos serviços florestais era de cerca de 60 mil hectares. Até 1995, a área florestal portuguesa apresentava uma tendência de aumento. Um dos maiores crescimentos em termos absolutos ocorreu entre 1875 e 1938, em que a área terá aumentado mais de 1 milhão e meio de hectares, com a promoção do montado no Sul e do pinhal no Norte. O Plano Florestal Nacional do Estado Novo, em contraste com a perspetiva florestal governamental anterior (uma estratégia de conservação), começou a voltar-se para a produção. Este plano expandiu a floresta em cerca de 400 mil hectares. Enquanto até 1938 era aos privados que cabia a principal fatia de plantação e orientação estratégica, a partir de então passou a ser o Estado a dominar a plantação, embora a propriedade continuasse a ser avassaladoramente privada (os Serviços Florestais plantavam em terrenos públicos e privados). Até 1989 o Estado foi o principal encarregado das plantações, com parcerias dos Serviços Florestais com a Portucel, na altura uma empresa pública. A área florestal máxima atingida em Portugal ocorreu perto de 1995, a seguir ao pico de área máxima de pinhal. Em 1996 foi aprovada uma Lei de Bases da Floresta, com planos regionais de ordenamento, zonas de intervenção, apoio ao associativismo. Durou pouco e influenciou menos, com o desmantelamento dos serviços florestais a começar, primeiro através da integração nos serviços da agricultura, depois passando a Autoridade Florestal Nacional e finalmente fundindo-se com o Instituto de Conservação da Natureza e Florestas, a impotente mega-estrutura criada por Passos Coelho e Assunção Cristas e que se mantém até hoje. Em 2010, o eucalipto ultrapassou o pinheiro-bravo enquanto primeira espécie florestal em área. Nos últimos 25 anos, Portugal tem vindo a perder anualmente floresta a um ritmo médio de 10.000 hectares/ano, 254 mil hectares segundo a FAO, sendo assinalado como um dos 5 países do mundo que mais perdeu área florestal. Esta desflorestação foi acompanhada por um constante aumento na área de plantações de eucalipto: há mais 321 mil hectares de eucalipto nos últimos 25 anos. A floresta nacional é uma monocultura com baixa biodiversidade, com uma extensão de eucalipto de mais de 900 mil hectares, a maior área de eucaliptal relativo do mundo (mais de 9% do território nacional e mais de 28% da área “florestal”). É a 5ª maior área absoluta de eucaliptal, apenas atrás da China, do Brasil, da Índia e da Austrália. A produção florestal está maioritariamente direccionada para a produção de pasta de papel através da indústria da celulose, dominada pela Navigator Company (ex- PortucelSoporcel), pela Altri (Caima, Celtejo, Celbi e AltriFlorestal) e pela Europac&Kraft (a Renova pertence à CELPA mas tem um consumo marginal de celulose de eucalipto).

Mais de 85% das propriedades florestais em Portugal têm menos de 5 hectares. No Norte e no Centro do país predominam os proprietários de áreas pequenas (1 a 5 ha) e muito pequenas (menos de 1 ha), nas quais estão plantados sobretudo pinheiros e eucaliptos. Esta dimensão mínima é agravada pelo sistema da propriedade “indivisa” que retalha as propriedades por vários coproprietários. Estima-se que a área do território nacional abandonada e de dono desconhecido seja mais de 2 milhões de hectares, perto de 20% do território nacional e maioritariamente floresta. É na zona de minifúndio do Centro e Norte e no Algarve que se encontra a maioria desta área abandonada.

Em 2013 foi aprovado o Regime Jurídico de Arborizações e Rearborização (DL 96/2013), conhecido como Lei do Eucalipto que, a coberto de melhorar a burocracia nas operações florestais, liberalizou a plantação com eucaliptos ao dar deferimento tácito à plantação de eucaliptos abaixo dos 2 hectares (o que representa 80% das propriedades florestais do país). A responsabilidade desta lei é da ex-Ministra Assunção Cristas e do Secretário de Estado das Florestas Francisco Gomes da Silva, que veio substituir o hesitante Daniel Campelo (que aparentemente não queria aprovar esta lei) e, terminado o processo, saiu do governo. As celuloses gerem uma área pequena do território florestal (150 mil hectares directamente), mas são os principais receptores dos mais de 750 mil hectares de eucalipto plantados por proprietários privados e também plantados em áreas abandonadas.

Incêndios Florestais

Os incêndios florestais na região do Mediterrâneo são uma constante milenar, com adaptações evolutivas das espécies predominantes na floresta autóctone. Portugal acompanhava as tendências de incêndios florestais dos climas que lhe eram comparáveis: Espanha, Itália, Grécia, Sul de França. A partir da década de 90 Portugal disparou em relação aos restantes países, sendo hoje incontestavelmente o país mediterrânico e europeu onde há mais incêndios florestais. Não existe nenhum outro factor com o poder explicativo para esta tendência, excepto a composição da floresta portuguesa, o predomínio do eucaliptal e o gigantesco abandono concreto de milhares de pessoas que abandonaram as zonas rurais e o próprio país. Na década de 80 o número de ignições médio anual era de 7380 e a área ardida anual de 73 mil hectares. Na década de 2000 o número de ignições mais do que triplicou para 24949 por ano e a área ardida para os 150 mil hectares. Entretanto, a subida da temperatura por força do aquecimento global exacerba todas as vulnerabilidades do território e aumenta drasticamente as condições para incêndios rápidos e de grandes dimensões. Cada vez que houver matéria combustível no chão (isto é, cada vez que não tenha havido um incêndio nos dois anos anteriores), cada vez que estejam 40ºC dois dias consecutivos, com vento, em que haja noite tropicais acima dos 20ºC, o número de dias de alerta vermelho não parará de crescer. Com menos precipitação e menos humidade, os incêndios suceder-se-ão. A certeza é que isto irá acontecer, não só pelo clima mediterrânico histórico, mas pelo novo, mais quente e mais seco clima. Está, aliás, já em marcha.

Em 2003 arderam 425 mil hectares e em 2005 arderam 338 mil. Estima-se que desde 1975 tenham ardido cerca de 4,3 milhões de hectares em Portugal. Em 2017, ainda antes da época de fogos começar, a 17 de Junho, com uma anomalia de temperatura 5 a 7ºC acima do que deveria estar no país e 9 a 11ºC acima do que deveria estar no Pinhal Interior, morreram 64 pessoas perto de Pedrógão Grande, queimadas vivas nas suas aldeias e nos seus carros, na tentativa de fuga.

Área ardida em Portugal entre 2006 e 2016. TSF.

A inacção e manutenção do poder da indústria da celulose que prolifera no abandono reforça o ciclo abandono-eucaliptização-incêndio-eucaliptização-abandono, exaurindo simultaneamente solos e águas numa área crescente e aumentando todos os riscos de desertificação e inviabilidade do território português.

Para onde vamos e o que fazer

O centrão político está totalmente dominado pelo sector das celuloses. Basta que lhes acenem com a miragem de 12% das exportações nacionais e contributo de mais de 1% do PIB para lhes ser permitido qualquer crime, para lhes ser entregue mais de 9% do território nacional, para lhes serem dadas isenções fiscais, para lhes serem entregues subsídios públicos nacionais e comunitários, para que a sua acção e inacção seja o pano de fundo para dezenas de mortes e mais de mil milhões de euros de prejuízos para cada ano de incêndios. O PS, mesmo no rescaldo das mortes em Pedrógão Grande, recusa-se a interromper um financiamento com mais de 9 milhões de euros para re-eucaliptização de uma zona ardida… Em Pedrógão Grande. A reforma da floresta, prometida por António Costa e Capoulas Santos, mesmo depois da tragédia, promete ser uma fraude, mantendo estruturalmente intactos os interesses da indústria das celuloses e a estrutura de propriedade e o abandono patente do território.

Mais vinte anos de incêndios florestais e business as usual deverão tornar quase inviável a plantação de eucaliptos, ou de quaisquer outras espécies florestais, na verdade. O agudizar das alterações climáticas numa floresta totalmente artificializada e que, ao invés de conservar águas e solos, os destrói, está destruir a viabilidade do mundo rural na maior parte do território hoje considerado florestal.

Ao exultar a importância das exportações as celuloses e os académicos das principais faculdades fortemente subsidiadas pelo sector — Instituto Superior de Agronomia e Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro — assim como outros avençados, não reconhecem que a floresta de exportação, quer de eucalipto, quer de pinheiro, está efectivamente a retirar água e nutrientes do solos e a metê-los num navio, em matéria-prima ou transformados, para nunca mais voltarem, aumentando a vulnerabilidade à desertificação do território e todos os riscos de incêndio, criando ciclos vegetais cada vez mais frágeis e dependentes de inputs químicos e desvios de água em grande escala, fragilizando outros territórios. Sobre a criação de emprego, é importante referir os números: a celulose emprega menos de 3 mil pessoas.

Não se conhecem os proprietários da floresta em Portugal, o que só revela quão primitivo é o capitalismo das celuloses: ele depende da ignorância para se manter. 40 anos de governos de centro e direita coincidiram em não fazer um cadastro florestal. É necessário avançar com este cadastro. No final do mesmo, poderemos saber com exactidão que áreas abandonadas florestais há, para começar um processo de emparcelamento e nacionalização. Há uma ideia, representando os interesses de pequenos grupos de proprietários florestais, de que as áreas abandonadas devem ser entregues aos pequenos produtores que estão na floresta. Esta proposta não tem qualquer hipótese de servir um objectivo de uma floresta viável, habitada e de futuro, mas apenas criará uma pequena classe terra-tenente, com a promoção do Estado. Uma vez mais, um corporativismo primitivo. Os últimos 20 anos viram um enorme apoio ao associativismo florestal e o insucesso das Zonas de Intervenção Florestal revela a fragilidade dessa abordagem. Estes sectores juntam-se à direita numa obsessão pela propriedade, mesmo da propriedade e abandonada e perigosa para as populações e ecossistemas. Mesmo países com estados estruturalmente conservadores como o Reino Unido ou estruturalmente liberais como os Estados Unidos da América mantêm mais de 60% das áreas florestais na posse pública, mas em Portugal insiste-se na tese do papão da expropriação. A urgência das alterações climáticas e da salvaguarda de populações e territórios é clara: o Estado deve expandir as suas áreas próprias e impor regras muito concretas: sobre plantações, ordenamento, segurança, espécies. A recriação de Serviços Florestais também será uma tarefa importantíssima: Portugal tem 1/9 dos funcionários públicos em serviços florestais da Grécia. Portugal tem 1/20 avos dos funcionários em serviços florestais da Espanha. 540 pessoas para mais de 3 milhões de hectares. Acresce a necessidade de aumentar em milhares o número de Guardas e Vigilantes da Natureza, outra área devastada por décadas de austeridade e desmantelamento do aparelho do Estado: hoje são 223 pessoas.

Canadair combate um incêndio em Portugal. Lusa.

É necessário um projeto de redução sustentada e acelerada da área de eucaliptal e de pinheiro em monocultura. Esse projeto tem objetivos principais: reduzir incêndios, reduzir a violência e a velocidade dos incêndios e substituir por outras espécies que permitam um efectivo aumento de capacidade de conservação de solos e águas, criando uma floresta multidimensional, que não seja só “cash crops” e que deve ter espécies como carvalhos, sobreiros, castanheiros, vidoeiros, entre outras, em articulação com agricultura extensiva, pastorícia e outras actividades de baixa intensidade. O objectivo deve ser manter a área florestal nos números de hoje, fixar populações mas mudar o perfil produtivo: a viabilidade do território é muitíssimo mais prioritária que a obtenção de rendimento imediato. O final de quaisquer apoios públicos a indústrias como a da celulose é imperativo, e deve ser transferido para apoiar a redução das áreas industriais. A jusante, o reforço do combate aos incêndios florestais deve implicar uma duplicação do número de bombeiros profissionais, de 6400 para 12800, e um reforço importante aos 42500 bombeiros voluntários, preparando o combate aos incêndios durante todo o ano e não apenas durante a época oficial de incêndios, que, já vimos, não é mais válida.

A escolha de para onde vamos e o que fazer é central: a indústria bater-se-á sempre pela sua sobrevivência, que significa a multiplicação dos riscos naturais do território mediterrânico para as populações. Não existirá uma floresta habitada, um meio rural sustentado e um território a travar a sua desertificação enquanto o dinheiro continuar a entrar nos cofres das celuloses. O lucro do capitalismo é inviável nas alterações climáticas e a civilização futura será inviável sob o lucro do capitalismo.

Artigo originalmente publicado na Praxis Magazine a dia 26 de junho de 2017.

Autarquias Livre de Petróleo e Gás: campanha lançada

Dezenas de organizações locais e nacionais que têm estado envolvidas no combate às concessões de prospeção e exploração de petróleo e gás em território nacional lançaram no dia 22 de junho a Campanha “Autarquias Livres de Petróleo e Gás”. A cerimónia de lançamento da campanha contou com a presença de vários candidatos a presidente de Câmara de diferentes regiões do país.

Depois de anos em que dezenas de organizações estiveram envolvidas no combate às concessões para a exploração de petróleo e gás em quase todo o litoral do país, a realização das eleições autárquicas será um novo momento chave para o futuro destas concessões. A campanha “Autarquias Livres de Petróleo e Gás” irá, durante o período pré-eleitoral, abordar todas as candidaturas de mais de 50 municípios afetados pelas concessões pelo seu posicionamento geográfico, e construirá um mapa nacional, informando os eleitores do posicionamento de cada uma das candidaturas no seu município.

Autarquias Livres de Petróleo e Gás from Climaximo on Vimeo.

No lançamento da campanha estiveram presentes candidatos à presidência da Câmara de Lisboa, Inês Sousa Real, à presidência da Câmara Municipal de Sines, José Ferreira Costa e à Câmara Municipal de Pombal, Gonçalo Pessa.

#tiraralimpo

Mais informação: http://autarquiaslivresdepetroleo.pt/
https://www.facebook.com/tiraralimpo/

Tirar a floresta das mãos do eucalipto – João Camargo

Estavam 40ºC ao fim da tarde em Lisboa. Em Santarém, o termómetro batia nos 45ºC. Ao mesmo tempo, em Pedrógão Grande, estavam 41ºC, e ventos fortes e irregulares. Parece que os incêndios entre o Norte do Alentejo e Coimbra tinham começado muito mais cedo, provocados por invulgares trovoadas secas. A Sul do país e em Lisboa tinha mesmo chovido, e, com um calor infernal e gotas grossas caindo, poderia dizer-se que estávamos bastante a sul, num clima tropical. No site do Instituto Português do Mar e da Atmosfera dizia “Estamos fora do período crítico até 30 de Junho” em relação ao risco de incêndio, o que é o velho “normal”. No ano passado, na Madeira, em Agosto, com um clima bem mais húmido mas não menos quente, os incêndios florestais chegaram à noite à cidade do Funchal e também colheram vidas à sua passagem. Qual será o “novo normal” do clima onde vivemos? Ainda estamos a descobrir.

Mas, e o velho clima? Por que é que Portugal arde tanto mais que os restantes países mediterrânicos? O clima da zona mediterrânica é, de facto, propício à ocorrência de incêndios florestais no verão, fenómeno natural e ao qual a nossa flora e fauna (incluindo a humana) estavam adaptados. Ora, as últimas décadas viram um aumento da ocorrência de incêndios florestais, de área ardida e de ignições em Portugal. Um aumento que não foi acompanhado pelos nossos vizinhos de clima: Espanha, Grécia, Itália, Marrocos, Argélia. Em 1980, Portugal teve um registo de 2349 ocorrências de incêndios florestais e uma área ardida de 44 mil hectares. Em 2016, ano de baixas ocorrências, Portugal teve um registo de 13.079 e uma área ardida de 160 mil hectares. Em média passámos de 73 mil hectares de área ardida por ano na década de 80 para 150 mil hectares de área ardida por ano na década de 2000. O que mudou?

Além do clima, mudou o abandono rural e florestal, que explodiu e foi alimentado e explorado pela expansão descontrolada das plantações industriais de eucalipto e pela pequena plantação desordenada de eucalipto e pinheiro. Com o abandono, Portugal passou a ter uma floresta de matos, acácias, mimosas e eucaliptos para abastecer as fábricas da agora Navigator Company (ex-Portucel), da Altri, da Europac&Kraft e da Renova. E querem mais, como nos recordaram há menos de um ano atrás, que “Portugal devia estar orgulhoso de ter o eucalipto”. Nunca referem que somos o país com a maior área relativa do planeta. Nem Austrália, nem China, nem Brasil, mas Portugal. Mais de 9% de toda a área do país.thumbs.web.sapo.io

Não é uma novidade que o clima vai ficar mais quente. Além disso vai ficar menos húmido, o que significa que as condições para a existência de tragédias como Pedrógão Grande não só se repetirão nos próximos verões: repetir-se-ão ainda este verão. E os verões, que fruto das alterações climáticas podem perfeitamente começar em Maio e terminar em Outubro, farão com que o “período crítico” de incêndios passe de três meses a seis. Aliás, só entre 1 de Janeiro e 12 de Abril deste ano, Portugal já tinha registado 2900 incêndios florestais. A natureza do Eucalyptus globulus é que não vai mudar, o facto de ser altamente inflamável, de se incendiar rapidamente e de projectar cascas incandescentes a mais de dois quilómetros de distância também não.

Artigo originalmente publicado no Público.

Jantar Benefit e Conversa: Desobediência Civil pela Justiça Climática

Flood-Wall-Street-Polar-Bear-and-Planeteers-A-Jones-CC-ND-Flickr-800x531

Os factos são simples: Para nos manter num planeta minimamente habitável, temos que limitar o aquecimento global a 2ºC em relação aos níveis pré-industriais.

Num contexto mentalmente são, estaríamos neste momento a discutir os detalhes duma transição energética justa, racionalizando e planeando a produção, a distribuição e o consumo para o benefício das comunidades e dos trabalhadores.

No contexto insano capitalista, andamos ainda a negociar contratos de petróleo e gás, para aumentar ainda mais as emissões.

Neste “realismo político” há um défice de realismo físico e químico. É por isso que nós, as pessoas normais, temos que assumir a responsabilidade e forçar uma mudança radical e sistémica.

Neste jantar benefit, queremos servir (além de comida boa) desobediência civil e ação direta como ferramentas do ativismo pela justiça climática. Vamos ver alguns vídeos das ações (de Portugal e do resto do mundo) e conversar. 🙂

Aparece! 🙂

Dia 16 de junho, sexta-feira
RDA69, Regueirão dos Anjos 69, Lisboa

Ajudar na cozinha: 17h
Jantar: 20h
Conversa: 21h