Carta Aberta de Cientistas pelo Clima

Combustíveis fósseis e alterações climáticas: resposta a uma preocupação científica e social

Pensamos no mundo global em que vivemos como um sistema vivo e social, um sistema com que nos preocupamos e que temos a responsabilidade de transmitir às gerações vindouras.

As Cimeiras do Clima têm provocado debates mundiais sobre as alterações climáticas. Cientistas têm sublinhado a insuficiência das medidas tomadas até agora pelos poderes públicos nacionais e internacionais. A isto junta-se o desrespeito das metas acordadas por muitas empresas da energia e das maiores consumidoras, organizadas global e localmente em redes de dominação.

Hoje existe acordo entre a maioria das e dos cientistas quanto à urgência de pôr fim às emissões de gases de efeito de estufa. O conhecimento já existente permite abandonar os combustíveis fósseis em favor de energias limpas, as inovações nesta área são constantes. As alterações climáticas provocadas por ação humana são um problema da sociedade a que a ciência pode e tem vindo a responder. Queremos trabalhar em soluções e fazer parte delas, assumindo um compromisso com o planeta Terra e as vidas que humanas e não-humanas que dele dependem.

A relação entre poderes globais e nacionais está a reconfigurar-se após a eleição de Trump, a aliança com Putin e a ascensão da extrema direita na Europa, o que agrava a situação de forma preocupante. Para os povos, as ameaças à paz, à permanência no território, à saúde, à alimentação, à educação, aumentam a cada dia. Acresce ainda a insuficiência do investimento científico, em muitos países, o que ameaça o trabalho de cientistas e o isola mais, socialmente, das soluções justas para os grandes problemas que requerem a intervenção das várias ciências.

A exploração de combustíveis fósseis em Portugal é, justamente, um dos grandes problemas que temos de enfrentar do ponto de vista da cidadania e das ciências que fazemos. Como cientistas sabemos que a persistência de uma economia predadora do carbono inviabiliza os compromissos políticos nacionais assumidos nas Cimeiras do Clima e defrauda as expectativas das populações. Sabemos que destrói os territórios, mares e rios, a atmosfera, formas e cadeias de vida insubstituíveis, aproximando-nos aceleradamente de um ponto de não retorno. Sabemos que, com essa exploração, as populações não ganham nem trabalho, nem saúde, nem lugar para viver. E sabemos que há alternativas.

As comunidades científicas movimentam-se a nível internacional e preparam manifestações públicas para exprimir a sua condenação desta situação em abril, em vários países do mundo, incluindo Portugal. Este é, pois, o momento para manifestarmos a nossa oposição, socialmente responsável e com base no melhor conhecimento científico, aos furos de prospeção e exploração de petróleo e gás na costa e no mar portugueses, desde o Algarve até ao Porto.

Vimos afirmar que é preciso que cessem, desde já, todos os contratos em vigor e que se recusem novas emissões de licenças, de forma a evitar danos irreparáveis para a economia, o meio ambiente e as suas comunidades.

22 de abril de 2017

Alda Sousa; Ana Delicado; Ana Teresa Luís; Anabela Ferro; André Pedro do Couto; André Silveira; António Bracinha Vieira; António Pedro Dores; Armando Alves; Britta Baumgarten; Claudio E. Sunkel; Eduardo Ferreira; Elísio Estanque; Eugénia Pires; Filipe Duarte Santos; Francisco Louçã; Gil Fesch; Gil Penha-Lopes; Helena Freitas; Henrique de Barros; Inês Farias; João Arriscado Nunes; João Camargo; João Ferrão; João Guerra; João Lavinha; João Teixeira Lopes; João Veloso; Jorge Paiva; Jorge Sequeiros; José Lima Santos; José Manuel Pureza; José Maria Castro Caldas; Júlia Seixas; Lanka Horstink; Luís Ribeiro; Luísa Schmidt; Manuel Carvalho da Silva; Manuel Sarmento; Margarida Cancela de Abreu; Margarida Silva; Miguel Centeno Brito; Miguel Heleno; Nuno Almeida Alves; Nuno Santos Carneiro; Otávio Raposo; Patrícia Maciel; Patrícia Vieira; Paula Guerra; Paula Sequeiros; Paula Silva; Paulo Raposo; Paulo Talhadas Santos; Pedro Bacelar de Vasconcelos; Pedro Matos Soares; Pedro Pereira Leite; Ricardo Paes Mamede; Rita Ferreira; Rui Bebiano; Rui Gil da Costa; Rui Vitorino; Sandro Mendonça; Sinan Eden; Stefania Barca; Tatiana Moutinho; Teresa Summavielle; Violeta Ferreira; Viriato Soromenho-Marques.

Sessão Caótico-Climática no Espaço Santa Catarina

[Integrada na exposição ISHTAR, corrida dos opostos]

Os factos são bem conhecidos e consensuais: o aquecimento global antropogénico é uma realidade; é imperativo manter o aumento de temperatura abaixo dos 2ºC; é preciso para isso manter 80% das reservas fósseis no subsolo, ou em 40 anos teremos 150 MILHÕES de refugiados climáticos – cento e cinquenta milhões, um 15 com seis zeros à frente…

Sabemos ler. E contar. Mas espera… sabemos compreender?

Difícil. O que significa uma massa humana de 150 milhões ser forçada por catástrofes metereológicas, pragas, secas, inundações a deixar tudo e rumar sem posses ao desconhecido?

Fenómeno psicológico interessante: sabemos os factos, aceitamos os factos. Mas não chegamos a entendê-los.

Assim, esta sessão não vai focar-se nos factos, mas na experiência, no exercício imaginativo: o que os factos significam. Abre a mente e a imaginação e vem participar numa experiência caótico-climática.

Sabemos que vai valer a pena.

Espaço Santa Catarina
Largo Dr. António de Sousa Macedo 7D, Lisboa

Dia 6 de abril, 17h00

Dúvidas acerca das alterações climáticas? – João Camargo

Ninguém tem de ser especialista para perceber um assunto tão relevante como o clima. É um sistema complexo, com muitas interacções e retroacções, mas não é indecifrável. Hoje é consensual entre a comunidade científica que estuda este tema que as alterações climáticas não só existem como que têm como origem a actividade humana. Esse consenso atraiu alguns sectores para o lado da desconfiança e o negacionismo. Os discursos e as ferramentas desenhadas pelas petrolíferas para impedir a acção no combate às alterações climáticas continuam a fazer caminho, mas o esclarecimento é possível.

Há poucos dias foi revelado um vídeo da Shell, uma das maiores petrolíferas do mundo. Em 1991 esta empresa divulgava aquilo que era o resultado da investigação dos seus cientistas, um vídeo chamado “Clima de Preocupação” divulgava o aquecimento global e as alterações climáticas: eventos climáticos extremos, cheias, fomes e refugiados climáticos resultantes da queima de combustíveis fósseis. O filme chamava já atenção ao grande consenso que existia entre os cientistas em 1990! Muito antes disso, já em 1968, a Exxon, hoje a maior empresa petrolífera privada do mundo, publicava artigos revelando a ligação directa entre as emissões de gases com efeito de estufa e a mudança do clima, com os gravíssimos riscos que tal acarretava. Por isso há uma importante acção legal contra a ExxonMobil nos Estados Unidos, exactamente porque a empresa sabia da existência das alterações climáticas e tudo fez para escondê-las do grande público. Agora, com a eleição um presidente Trump negacionista e a escolha do presidente da ExxonMobil para ministro dos Negócios Estrangeiros e de outro negacionista como Procurador-Geral da República, veremos como seguirá. As petrolíferas selaram um pacto e nos anos 80 e 90, passaram a dedicar o seu dinheiro ao financiamento do negacionismo climático e à procura da desinformação e da dissensão. Para essa importante tarefa de descredibilizar a ciência e os cientistas, as petrolíferas foram buscar os maiores peritos mundiais no assunto: os propagandistas da indústria do tabaco, os famosos “mercadores de dúvidas“, muitos dos quais já tinham trabalhado na indústria do petróleo para negar os problemas associados à poluição.doubt

Num primeiro momento o ângulo de ataque foi descredibilizar o aquecimento do planeta, afirmando o contrário daquilo que os dados meteorológicos todos apontavam: a subida reiterada das temperaturas médias globais, em terra e no mar. Face à gigantesca subida de temperatura nas últimas décadas – o ano mais quente desde que há registos é 2016, que bateu o recorde de 2015, que bateu o recorde de 2014, e que são seguidos em escala descendente de ano mais quente por 2010, 2013, 2005, 2009, 1998, 2012 e 2007 – os “mercadores das dúvidas” abriram outros ângulos de ataque, nomeadamente tentando descredibilizar primeiro os cientistas, depois dados, os modelos de projecção e seguindo para a origem humana e a própria origem desse aquecimento.doubt-is-our-product

Ora, não há dúvidas que há vários factores que afectam o clima – localmente, regionalmente e globalmente. Quando falamos na escala global, factores como a circulação atmosférica e as correntes marítimas, o ângulo de incidência do sol, a actividade do sol, a reflexão da radiação solar para o espaço, o vulcanismo, a oscilação do eixo da Terra e a concentração de gases com efeito de estufa são todos muito importantes. Porquê, então, nos focamos na concentração de gases com efeito de estufa, e em particular no dióxido de carbono? Porque é o único fenómeno com a escala necessária para explicar as alterações que ocorreram a nível da temperatura desde a Revolução Industrial. E porque são a alteração de fundo que a espécie humana criou na Terra, razão pela qual há já vários cientistas que apelidam a nossa era como “Antropoceno”, a Idade do Homem. Esta responsabilidade não é, no entanto, partilhada igualmente por todos os seres humanos, já que os países mais ricos são muito mais responsáveis pela situação do que os países mais pobres.

Se não houve nos últimos 200 anos a erupção de um mega-vulcão que pudesse mudar a composição atmosfera aumentando as poeiras no ar e criando um inverno de alguns anos (o vulcão Tambora, em 1815, só provocou o “Ano sem Verão” em 1816), se o ângulo de incidência do sol se mantém para as latitudes porque a oscilação do eixo da Terra ocorre muito lentamente, num ciclo que demora 25800 anos, se a intensidade da radiação solar se manteve estável nos últimos séculos, se não se produziram até agora grandes modificações na circulação atmosférica e nas correntes marítimas e se só agora, com o derretimento acelerado do gelo quer no Ártico quer na Antártida, começa a diminuir a reflexão de radiação solar de volta para o espaço, que outro grande fenómeno pode explicar uma subida totalmente inequívoca da temperatura média do planeta? A industrialização e a utilização massiva de combustíveis fósseis.

IPCC AR5 Fig. SPM3
IPCC AR5 Fig. SPM3

Não é ciência aeroespacial, mas importa rever alguns factos básicos: os combustíveis fósseis são o resultado da degradação da matéria orgânica, principalmente microrganismos no mar e florestas na terra, de eras como o Carbonífero, muito mais quentes e em que a concentração de dióxido de carbono na atmosfera era muito superior à actual. Para todos os efeitos práticos, a Terra é um sistema fechado, isto é, quase não troca materiais com o espaço. A excepção a isto é a energia solar, sob a forma de radiação. Os seres vivos que deram origem aos combustíveis fósseis utilizaram, principalmente através da fotossíntese, a radiação solar e o carbono atmosférico para constituir as suas estruturas físicas, nomeadamente raízes, caules e folhas. O dióxido de carbono hoje libertado pela combustão de hidrocarbonetos fósseis são as florestas e as algas do passado, que tinham capturado da atmosfera o dióxido de carbono e mudado lentamente a concentração de CO2 e o clima do passado, baixando a temperatura. Os combustíveis fósseis provêm de antigos seres vivos que morreram e, mediante determinadas condições de pressão, temperatura e presença ou não de oxigénio, se degradaram parcial ou totalmente, dando origem a hidrocarbonetos, compostos de carbono, oxigénio e hidrogénio. Os produtos da decomposição desses seres vivos são o petróleo, o gás e o carvão e os movimentos das placas tectónicas, a separação dos continentes e as subidas e descidas do nível médio do mar dividiram as reservas, um pouco por todo o mundo. Milhões de anos mais tarde, em terra e no mar, descobriram-se jazidas, de fácil extracção, que foram utilizadas para criar a economia de carbono. Esta economia produziu uma aceleração económica sem paralelo, que fez ainda disparar outras fontes de gases com efeito de estufa, como o metano, cujas emissões a partir de fontes como a agroindústria e a pecuária intensiva, produzem hoje um efeito tão importante para as alterações climáticas como todos os transportes terrestres.

Hoje fazemos modelos climáticos e projecções para as próximas décadas e até séculos, porque conhecemos muito melhor as interacções do clima, os seus controlos e tampões (sendo o mais importante os oceanos, que têm absorvido a maior parte do calor em excesso resultante do aquecimento global). Os modelos não só prevêm o futuro com base nos seus vários factores de influência, como o dióxido de carbono, o metano e outros, como são testáveis, podendo nós correr os modelos com os dados do passado. Temos dados climáticos directos fiáveis de vários pontos do planeta desde pelo menos o início do século XIX. Em termos de dados indirectos, conseguimos recuar até centenas de milhares e até milhões de anos atrás, através da leitura de perfis de gelo, pólens fossilizados, corais, sedimentos e anéis de árvores, por exemplo. Estes dados permitem-nos reconstituir o que foi o clima do planeta com elevada precisão, e saber, por exemplo, que a concentração de dióxido de carbono hoje existente na atmosfera é inédita nos últimos 800 mil anos. Com certeza que há um certo nível de incerteza. Na vida humana, na sociedade e até nas ciências exactas há sempre incerteza, mas a qualidade dos modelos está a ser permanentemente testada, pelo facto dos mesmos poderem ser comparados com os fenómenos climáticos existentes nas últimas décadas e terem um poder explicativo elevadíssimo. Pode haver erros de décimas, não erros diametralmente opostos. Se o erro for entre um aumento de temperatura de 4,1ºC ou 4,3ºC até 2050, o problema é exactamente o mesmo. Não há sequer comparação, por exemplo, com os modelos económicos que são utilizados para guiar as políticas públicas nas sociedades de todo o mundo, cuja nível de imprecisão e de falta de capacidade de previsão tantas vezes se revela total.

A única vantagem decorrente do negacionismo climático expressa-se no lucro das empresas petrolíferas e em outros sectores altamente emissores. A sociedade e os povos precisam preparar-se para o novo clima que já existe hoje, com temperaturas mais elevadas, fenómenos climáticos extremos muito mais extremos e mais frequentes, com mais pobreza, mais escassez e uma desigualdade que cavalgará cada vez mais e concorrerá para empurrar a Humanidade para a barbárie. A maior parte das pessoas que tem dúvidas sobre as alterações climáticas não concorda seguramente com estas propostas de futuro, mas não deve cavar trincheiras do lado errado por falta de esclarecimento e de informação, nem deve ceder ao cinismo que é aceitar que todas as notícias são “fake news”. Precisamos falar.encontro

No próximo fim-de-semana realizar-se-á em Lisboa um encontro, dinamizado por várias organizações, cujo objectivo é não só esclarecer sobre as alterações climáticas, mas também interpretá-las política e socialmente. Precisamos criar não apenas a consciência acerca da ciência do clima, como da acção necessária para combater a degradação ambiental sem precedentes associada a essa mudança de fundo no planeta. O Encontro Nacional pela Justiça Climática, domingo na Faculdade das Ciências Sociais e Humanas, é aberto e gratuito.

2º Encontro Nacional pela Justiça Climática – programa detalhado

programa-final

 

10h30 – 12h00 Alterações Climáticas, Desigualdades e Justiça Social

climate-emergencyA Ciência das Alterações Climáticas evoluiu nos últimos anos de forma muito acelerada. O aquecimento do planeta devido à explosão das emissões de gases com efeito de estufa de origem humana é hoje o maior consenso da História da Ciência. Mas como surgiu esta enorme desregulação do sistema climático e da biosfera? E o que vai acontecer a Portugal daqui a 50 e daqui a 100 anos? Uma abordagem que começa pela Ciência do Clima mas que avança até aos gigantescos impactos sociais e políticos do Antropoceno.

  • João Camargo (investigador em alterações climáticas e ativista do Climáximo)
  • Ana Mourão (ativista do Climáximo)
  • Moderadora: Paula Sequeiros (Coletivo Clima)

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10h30 – 12h00 Gás natural: energia de transição?
Why gas stinks and is not the answer to an energy transition

midcatO gás natural é desde há muito considerado um combustível de transição para uma economia de baixo carbono. Nos seus relatórios oficiais, o governo português considera também que o gás natural é uma fonte de energia mais limpa.

Qual é a origem desta preferência pelo gás? O que significam para a transição energética os “Projetos de Interesse Comum” (Projects of Common Interest) e a “União da Energia” (Energy Union)?

Para além de debatermos estes assuntos, iremos ainda falar sobre a luta contra o projecto Midcat, o mega-gasoduto que ligará a Argélia à França, atravessando a Península Ibérica.

  • amigos-de-la-tierra

    Hector Pistache (Amigos da Terra Espanha, responsável da campanha Clima e Energia)

  • Mari Ver (ativista do Stop Midcat)

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12h30 – 13h30 Portugal 100% Renovável

fontes-de-energia1-696x355Portugal em tido nos últimos anos um aumento consistente da energia renovável na produção de energia elétrica. Nesta sessão propomos debater os desafios que Portugal enfrenta para dar o salto para 100% de energia renovável no setor elétrico antes de 2050. Neste cenário, queremos o papel que as cooperativas de energia podem ter na promoção da produção descentralizada e auto-consumo.

  • Transição para 100% RES, Ana Rita Antunes, ZERO (www.zero.ong)
  • Cooperativas de energias renováveis. O exemplo da Coopérnico. António Eloy, Coopérnico (www.coopernico.org)

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12h30 – 13h30 Petróleo e Gás em Portugal: a luta dos cidadãos

salvar1Em Portugal atribuíram-se entre 2007 e 2015 quinze concessões de prospeção e exploração de petróleo e gás, em terra e no mar. A resistência cidadã à exploração de combustíveis fósseis revelou-se desde então como a maior luta ambiental em Portugal desde o combate ao nuclear em Ferrel. Vamos partilhar as experiências do Algarve, do Alentejo e da zona Oeste (com a Plataforma Algarve Livre de Petróleo, com o Alentejo Litoral pelo Ambiente e com o Peniche Livre de Petróleo).

  • Inês Ferro (PALP – Plataforma Algarve Livre de Petróleo)
  • Eugénia Santa Barbara (ALA – Alentejo Litoral pelo Ambiente)
  • Ricardo Vicente (Peniche Livre de Petróleo)

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15h00 – 16h00 100 mil Empregos para o Clima

Podemos criar 100.000 novos empregos em Portugal e cortar as emissões de gases de efeito de estufa entre 60 e 70% em 15 anos. Estas são as estimativas preliminares de um estudo em curso no âmbito da campanha Empregos para o Clima em Portugal, que avalia como levar a cabo a transição nacional para uma economia de baixo carbono, através da criação de emprego público em setores-chave. Nesta sessão, com intervenções pela CGTP-IN, os Precários Inflexíveis e um dos coordenadores do estudo em curso, será abordado em detalhe o grave problema da precariedade em Portugal, e a sua articulação com a campanha Empregos para o Clima.logo_epc_azul-on-background

Oradores:

  • Ana Pires (CGTP-IN)
  • Carla Prino (Precários Inflexíveis)
  • Sinan Eden (Empregos para o Clima)
  • Moderador: Rafael Tormenta (SPN)

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15h00 – 16h00 Tratados de Comércio Livre e o Clima

Pelo seu enorme impacto em importantes áreas da nossa vida social e económica, o tratado CETA entre o Canadá e a UE deveria ter sido objeto de um profundo escrutínio por parte de todos os sectores da sociedade civil. Lamentavelmente nada disso aconteceu entre nós.ttip-ceta

Recentemente aprovado no Parlamento Europeu, o tratado vai baixar aos parlamentos nacionais para uma ratificação definitiva, onde os deputados decidirão se ficam do lado dos cidadãos ou das grandes corporações, as grandes beneficiárias do acordo.

Neste sessão vamos ter um ponto da situação sobre o CETA e sobre as negociações de livre comércio.

  • José Oliveira (Plataforma Não aos Tratados Transatlânticos)
  • Margarida Silva (Corporate Europe Observatory)

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16h30 – 17h30 Desobediência Civil pela Justiça Climática: Experiências internacionais
  • Mari Ver (ativista de Ende Gelände)
  • Juan Ignacio Garnacho (ativista da Greenpeace-Espanha)
  • Sarah Reader (activista do Climate Justice Now)gelande
  • Margarida Silva (activista do Corporate Europe Observatory)
  • Moderação: Rui Gil da Costa (Colectivo Clima)

Quando alcançamos um ponto de viragem nas alterações climáticas de causa humana, ativistas de todo o mundo põe a vida em risco para travar projetos destruidores. Nesta sessão ouviremos as histórias de ativistas que participaram em ações de desobediência civil contra os acordos de comércio livre, contra minas de carvão, projetos de extração de petróleo ou contra a industria da guerra.
A nossa pergunta: “O que te levou a dizer ‘basta!’? O que te fez decidir confrontar diretamente as ações criminosas da indústria e dos seus representantes?”
Aguardamos com curiosidade as suas respostas.

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17h30 – 18h00 Conferência Final: conclusões do encontro

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Bancas
Tecer Linha Vermelhatecer-linha-vermelha

“A “Linha Vermelha” é uma campanha nacional desenvolvida pela Academia Cidadã e pelo Climáximo para gerar alerta e informação sobre a exploração petrolífera e de gás nas costas portuguesas. Corremos o risco de ver destruídos para sempre os nossos ecossistemas marítimos e terrestres, além de sérios problemas para a nossa saúde, da nossa família, e dos milhares de turistas que todos os anos nos visitam.  

Vamos pedir à nossa população que se junte a nós para tecer ou tricotar a maior linha vermelha do mundo!  Vamos bater o recorde do Guiness de 52 quilómetros e mostrar aos nossos governantes que não queremos as nossas praias destruídas!

A campanha irá decorrer durante este ano de 2017 e estamos neste momento a criar grupos de tricot por todo o país. Queremos juntar famílias, idosos, artistas, pessoal do DYI, hipsters, surfistas, crianças, cães e gatos. Queremos gente do norte, do centro, do interior e das ilhas.

A Campanha pelas Sementes Livressementeslivres

A Campanha pelas Sementes Livres, apoiada por uma rede de organizações e colectivos da sociedade civil em Portugal, insere-se num movimento global que defende a soberania alimentar, as práticas agro-ecológicas, e a manutenção dos recursos vitais para a nossa alimentação no domínio público. Os seus defensores opõem-se às patentes sobre sementes e alimentos que encarecem e empobrecem a nossa comida, às sementes geneticamente modificadas que contaminam os nossos campos, e às leis e acordos internacionais injustos e imorais que entregam o controlo da nossa cadeia alimentar a uma dúzia de corporações e governos mais poderosos. Apelam a que se volte a guardar e a partilhar as sementes dos nossos campos.
página web: https://gaia.org.pt/campanha-pelas-sementes-livres/
movimento global: http://www.seedfreedom.info

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Evento no Facebook: https://www.facebook.com/events/1019667388135156/

encontro

2º Encontro Nacional pela Justiça Climática

encontro
No momento em que sob as costas litorais de Portugal pende uma ameaça concreta de prospecção de petróleo, no momento em que Donald Trump tenta apagar as alterações climáticas da agenda internacional para relançar as petrolíferas em conjunto com Putin, reunimo-nos para discutir e preparar o combate às alterações climáticas e pela justiça social – combate à prospecção e exploração de combustíveis fósseis em Portugal; projectos de gás natural no país; empregos climáticos e transição energética; experiências internacionais de vários activistas desse mundo fora, juntos em Lisboa para reafirmar a justiça climática como objectivo essencial do nosso tempo. Esperamos por ti!

Relato do dia

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Programa detalhado, com as descrições das sessões

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Oleogarquia – a aliança Trump-Putin explicada – João Camargo

oiligarchyO jogo chama-se Oleogarquia – Oiligarchy em inglês – e pode ser jogado online aqui. É um jogo de 2008, simples e realista: é-se o presidente de uma empresa petrolífera americana no final da 2ª Guerra Mundial e o objectivo é o mais simples de todos: fazer dinheiro através da exploração de petróleo. Há no início 5 locais para possível prospecção e extracção: o Texas sem qualquer restrição, o Iraque que é um país independente e onde portanto não se pode extrair, o Alasca, zona protegida onde é proibido extrair em terra e no mar, a Venezuela em que, apesar de ser um país independente, é possível extrair em terra e no offshore, e a Nigéria onde, também sendo um país independente, é possível explorar petróleo em terra. O tempo vai passando e a cada 10 anos há eleições presidenciais nos Estados Unidos. A escolha de um candidato de entre Democratas e Republicanos, a quem “apoiar” financeiramente (ou aos dois candidatos, não há problema), dá acesso a legislação para abrir a exploração de petróleo (nomeadamente no Alasca, onde para dar emprego aos caribus pode-se abrir a zona Ártica), a legislação para expandir autoestradas, automóveis, aviões, para tornar a economia mais e mais dependente de petróleo. No fim de cada eleição fica-se a saber se o presidente é ou não “oleado”. Para tal basta apenas dar dinheiro às duas campanhas. Ter um presidente “oleado” significa também acesso à política externa dos Estados Unidos. Como é preciso expandir a produção, o melhor é apoiar o Kuwait no desafio ao Iraque e começar uma guerra para invadir o país. Uma vez ganha a mesma, podemos instalar plataformas petrolíferas. A instabilidade no país manter-se-á, mas com o apoio contínuo do exército americano e com a protecção de mercenários, tudo se resolverá. Apesar de se poder explorar petróleo na Venezuela, mais cedo ou mais tarde as populações vão reivindicar uma fatia do mesmo, por isso é importante apoiar golpes de Estado no país, que instalem no poder regimes abertos ao “investimento estrangeiro”. Já na Nigéria não está à disposição esta mudança de regime, pelo que é importante que a empresa intervenha directamente: a destruição que a exploração de petróleo fará no país levará à contestação popular. Podemos começar devagar, pagando ao governo para retirar a protecção ambiental, mas mais cedo ou mais tarde será necessária uma intervenção mais “musculada”, como matar alguns líderes camponeses. Mas fica tudo barato comparado com o lucro que a extracção produz. Depois, só é preciso ir fazendo a manutenção durante as décadas seguintes em que o aquecimento do planeta vai tornando a vida impossível: ir subornando as milícias que entretanto surgirão na Nigéria, enviar mais e mais soldados para o Iraque, de maneira a evitar os ataques às plataformas, e ir substituindo os mercenários mortos. Em Washington, a contestação far-se-á sentir, seguramente, mas nada como instalar a paranóia securitária com a facilitação de alguns atentados em solo americano e garantir no Congresso a equiparação dos manifestantes a terroristas, assim como infiltrar os grupos sociais mais activos para manter o dinheiro a entrar na caixa. Quando o petróleo acabar, entra a tecnologia de transformar pessoas em petróleo, que pode ser instalada em todo o lado e que permite manter o lucro durante mais umas décadas. O jogo só pode acabar de duas maneiras: ou com o fim do mundo, geralmente através de uma guerra nuclear pela disputa dos últimos recursos, ou com o despedimento pelos accionistas porque o lucro não está a chegar com a velocidade exigida.

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Sendo este jogo uma excelente maneira de analisar aquilo que foram os últimos 60 anos da história dos EUA (simplificadamente, claro), nunca a noção de presidente “oleado” foi tão evidente como hoje. Nem George W. Bush e Dick Cheney, cujas escandalosas ligações ao petróleo e à invasão de países com o recurso, que certamente inspiraram o Oleogarquia, são comparáveis a Donald Trump. O governo de Trump é uma mistura de grandes administradores das petrolíferas, do banco de investimento Goldman Sachs e de negacionistas das alterações climáticas:

– O Secretário da Energia é Rick Perry, ex-governador do Texas, homem do petróleo e negacionista das alterações climáticas;pruitt-to-epa

– O líder da protecção ambiental é Scott Pruitt, negacionista das alterações climáticas e violento defensor das petrolíferas contra a protecção do ambiente;

– O Secretário do Interior é Ryan Zinke, fortemente a favor da exploração de petróleo e gás em terrenos públicos;

– Jeff Sessions é o Procurador Geral da República e opõe-se directamente a qualquer regulação sobre o sector petrolífero há durante anos;

– A Secretária dos Transportes, Elaine Chao, será responsável por expandir uma gigantesca infraestrutura de combustíveis fósseis, tendo atacado qualquer legislação sobre eficiência dos combustíveis quando os transportes são o maior emissor de gases com efeito de estufa do país;

– O Secretário do Comércio, Wilbur Ross, foi proprietário de minas de carvão e fundador de uma organização patronal de exploração de carbono, líder de várias associações automóveis e tem milhares de milhões de dólares investidos em projectos de petróleo e gás;

– O Secretário da Saúde, Tom Price, é um negacionista das alterações climáticas;

– O Secretário da Defesa James “Mad Dog” (cão danado, sim) Mattis é um ex-general que participou na Guerra do Golfo, na Invasão do Afeganistão e do Iraque;

– Michael Flynn, Conselheiro de Segurança Nacional, é um ex-lobista da indústria petrolífera;

– Larry Kudlow, chefe do Conselho Económico, é negacionista das alterações climáticas e trabalhou para os tubarões do petróleo, os irmãos Koch;

– A Secretária da Educação, a multimilionária Betsy DeVos, cuja família foi a principal financiadora da campanha de Trump, é irmã do fundador da empresa de mercenários Blackwater, está intimamente relacionada com os irmãos Koch e tem grandes investimentos em petróleo e gás em África.

– O regulador da Bolsa de Wall Street será Jay Clayton, advogado da Goldman Sachs;

– O Secretário do Tesouro será Steve Mnuchin, ex-sócio da Goldman Sachs;

– O conselheiro principal para a Economia será Gary Cohn, um dos presidentes da Goldman Sachs.

Como corolário desta galeria de grandes especuladores financeiros e oleogarcas, de longe o governo mais multimilionário da História dos Estados Unidos da América, o Secretário de Estado (equivalente ao Ministro dos Negócios Estrangeiros) será Rex Tillerson, o presidente do Conselho de Administração da ExxonMobil, a maior petrolífera do mundo. Numa altura de colapso climático, em que é imprescindível travar a fundo a utilização do petróleo, do gás e do carvão, é a Oleogarquia que toma conta do governo do país que produz mais combustíveis fósseis no mundo, os Estados Unidos.

Esta tomada de poder não se faz alterando apenas a política energética e externa, mas também mudando alianças. A cada vez mais fria Guerra Fria entre Estados Unidos e Rússia, com actual epicentro na Síria, tem os dias contados. Na Síria lutam as facções apoiadas por um lado pelos Estados Unidos e pela União Europeia, e pelo outro lado pela Rússia, num conflito que tem origem numa degradação climática sem precedentes, em intervenção externa, em repressão brutal, mas também responde em muito à proposta da construção de mais um gasoduto para trazer gás para a Europa em alternativa ao gás russo. Numa altura em que sabemos da necessidade inequívoca de travar a exploração de combustíveis fósseis, eles ainda alimentam os maiores conflitos armados. É unânime nos serviços de informação dos Estados Unidos que a Rússia interferiu nas eleições dos Estados Unidos (e quão irónico não é ver a CIA a queixar-se da intervenção em eleições por parte de um governo externo), o que está a criar um grande problema institucional quando o presidente eleito – e principal beneficiado por essa interferência – diz que não confia nos serviços secretos do seu país. Putin apenas aguarda pacientemente a saída de Barack Obama, com mais ou menos sanções, com mais ou menos expulsões de diplomatas, para iniciar um novo capítulo das relações russo-americanas. O Ártico será um dos eixos principais da nova cooperação, razão pela qual Barack Obama interditou (com que eficácia é algo que se descobrirá quando Trump tomar posse) a exploração de petróleo e gás no Pólo Norte em degelo. Putin é o principal beneficiado desta aliança por um lado, com as petrolíferas americanas pelo outro: a Rússia é um petro-estado, sendo o principal exportador de gás do mundo e o segundo exportador de petróleo do mundo. Os Estados Unidos são o maior produtor mundial de combustíveis fósseis do planeta. Nas 10 maiores empresas petrolíferas do mundo, duas são americanas (a ExxonMobil e a Chevron), enquanto três são russas (a Gazprom, a Rosneft e a Lukoil).

Em conjunto com a China, os Estados Unidos ratificaram o Acordo de Paris, para limitar a subida da temperatura em 2ºC até 2100. Trump ameaça rasgar o acordo ou sair mesmo da Convenção-Quadro das Nações Unidas para as Alterações Climáticas. A Rússia nem sequer ratificou o acordo. Por ter algumas das maiores empresas petrolíferas do mundo, e por essas mesmas empresas terem um peso tão grande na economia (muito mais que nos Estados Unidos) a Rússia vive numa bolha: a possibilidade de no curto-médio prazo se deixar de explorar combustíveis fósseis seria terrível para o país (embora essencial para a espécie humana), em particular porque o mesmo não se preparou nem prepara para um novo clima e para uma nova energia. Os campos petrolíferos do Ártico russo só valem alguma coisa – e teoricamente valem 500 mil milhões de dólares – se os investidores não desinvestirem do petróleo e do gás (a tendência global é claramente para o desinvestimento).

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Para se garantir que nos próximos anos se mantêm e até regressam os investimentos em petróleo e gás (a Goldman Sachs será uma das ferramentas para isso), será necessário atacar a questão das alterações climáticas. É isso que a Oleogarquia está a fazer: além das nomeações e do abandono dos tratados internacionais, pôs Trump a ameaçar cortar todo o investimento em investigação científica em alterações climáticas (em particular da NASA) e inclusivamente retirar os satélites que fazem recolha de dados, a atacar as empresas de baixo carbono (contra as eólicas é notório), a manter os subsídios públicos às energias fósseis, retirando os incentivos às renováveis, e apostar no poder mais anti-democrático possível, com instabilidade política e agressividade, garantindo ainda um grande investimento em infraestruturas para fósseis, nomeadamente oleodutos e gasodutos para difundir os produtos e garantir aquilo que se chama um lock-in de investimento que impede a transição para as renováveis, com o dinheiro dos impostos a garantir os retornos dos investimentos (aqui uma vez mais a Goldman Sachs terá um papel relevante).

Esta aliança oleogarca com um presidente verdadeiramente oleado nos Estados Unidos (e foram todos, sejamos sinceros, mas havia pela primeira vez uma pressão muito maior nestas eleições) é a última barricada da indústria petrolífera para conseguir travar o ímpeto da mudança energética no sentido das renováveis. O novo eixo oleogarca russo-americano é hoje a maior ameaça que já existiu para a espécie humana. E o jogo continua a ter apenas dois finais possíveis: o fim das petrolíferas ou o fim da civilização como ao conhecemos.

[artigo publicado no jornal Sábado no dia 6 de janeiro de 2017]

Alterações climáticas: a maior tarefa alguma vez colocada à esquerda anticapitalista – João Camargo

O fracasso das negociações de Marraquexe para implementar o Acordo de Paris, representando apenas a última desilusão de um processo com 22 anos sem avanços na travagem do aquecimento global, é o momento-chave para definir os campos de batalha pelo clima: em cada novo projecto de combustíveis fósseis pelo planeta luta-se contra a catástrofe. Mas o combate ao capitalismo suicida conta ainda com demasiado poucos militantes.solutions-we-have

Em 22 anos, a Convenção-Quadro das Nações Unidas nunca conseguiu fazer com que as emissões de gases com efeito de estufa se reduzissem. O Protocolo de Kyoto, forçado pelos Estados Unidos para evitar a imposição um imposto sobre as emissões de carbono, não foi ratificado por três países: o Sudão, o Afeganistão… e os Estados Unidos, o maior emissor de gases com efeito de estufa à data. Mesmo sem este país, o Protocolo não conseguiu reduzir as emissões nos restantes. O único período nos últimos 22 anos em que as emissões se reduziram foi durante a crise financeira de 2007-2008. No ano seguinte, retomaram a sua ascensão, que continuou até 2015, primeiro ano em que tiveram crescimento zero. Em 2016, as emissões retomaram um modesto crescimento ascendente. Estamos neste momento no terceiro ano consecutivo em que se bate o recorde de temperaturas médias globais. 2016 será o ano mais quente desde que há registos. Entretanto os Estados Unidos foram ultrapassados pela China em emissões (largamente devidas à indústria que alimenta o resto do planeta de tecnologia e outros produtos), embora ocupem o primeiro lugar na produção de combustíveis fósseis, muito à custa da “revolução” do fracking, técnica da fractura hidráulica que envolve a destruição do subsolo com mais de seis centenas de químicos diferentes, contaminando solos, águas, subsolo e atmosfera para obter gás e petróleo de difícil extracção. Para o Acordo de Paris, uma vez mais os países do mundo adaptaram as negociações para Barack Obama conseguir ultrapassar a Câmara dos Representantes, e por isso o acordo não é vinculativo. Um ano depois, a vitória de Trump ameaça tornar um acordo impotente num acordo inexistente. A ascensão da China como “líder” no processo de transição para as energias renováveis demonstra como de facto a vanguarda do capitalismo industrial se deslocou definitivamente para esse país onde se coordena a produção com uma mão-de-obra massiva e basicamente escrava. A China posiciona-se na frente de uma nova revolução industrial que mudará a produção energética, respondendo à sua própria falta de recursos como o petróleo e o gás e baseando-se no carvão, no nuclear, no vento e no solar. Os Estados Unidos sob Trump terão dificuldades em conseguir responder e uma aliança com a Federação Russa de Vladimir Putin pode ser a grande coligação final em defesa dos combustíveis fósseis.

Paradoxalmente, é hoje o “mercado” que lidera a transição energética, com o investimento privado em energias renováveis a ultrapassar o investimento privado em fósseis no ano de 2015. As empresas fósseis dependem dos estados para sobreviver, com o investimento público, os subsídios e os perdões fiscais em fósseis a suplantarem as renováveis numa escala de 4 para 1. O capitalismo de Estado, tal como preconizado na visão eleitoral proto-fascista protecionista de Donald Trump, é a única possibilidade de sobrevivência das indústrias do carvão, do petróleo e do gás.

Hoje, os conflitos ambientais contra a exploração de fósseis e demais formas de extractivismo não são apenas lutas locais pelo ambiente, senão conflitos abertos pelos bens comuns, pela água, pelo ar, pelos solos e pela terra. Os conflitos anti-fracking no Brasil, em Inglaterra, em Itália, no Estado Espanhol, na Argélia, na Roménia e em muitos outros locais são os principais campos de batalha contra as alterações climáticas. Os conflitos contra as infraestruturas de transporte e armazenamento de fósseis, contra a construção de oleodutos e gasodutos nos Estados Unidos como o Keystone XL ou Standing Rock no Dakota do Norte, como Kinder Morgan no Canadá, como o MedCat na Catalunha, a central de armazenamento de gás no Parque de Doñana ou o gigantesco Transadriátrico do Azerbeijão até Itália, são e serão os campos de batalha contra as alterações climáticas. Perante a necessidade de manter-se o aumento da temperatura na ordem dos 2ºC quando comparado com a era pré-industrial até 2100, o orçamento de carbono exige que 80% das reservas conhecidas de combustíveis fósseis não podem ser exploradas, isto é, que nenhum novo projecto de exploração de fósseis pode avançar. Significa também que nos próximos 15 a 20 anos o planeta tem de entrar num declínio vertiginoso do consumo de combustíveis fósseis. Nada menos do que uma revolução (social, económica, produtiva, energética, alimentar, de transportes e comércio) alcançará isto.

Em Portugal, as 15 concessões de prospecção e exploração de gás e petróleo são o primeiro campo de batalha no combate às alterações climáticas. Aljezur, Tavira, Batalha, Pombal e todos os municípios do litoral, desde Vila Real de Santo António até ao Porto são os mais evidentes locais onde este combate tem de se intensificar. Isto significa pouco menos do que todo o país. Intensificar este combate significa também levá-lo às suas consequências óbvias: se não podemos obter a nossa energia a partir de combustíveis fósseis, como fá-lo-emos? Em Portugal a inexistência de cooperativas de produção energética local (com excepção da Coopérnico) dificulta passos decididos nesta direcção. A nacionalização da EDP e da REN em favor do Estado Chinês é um monstro contra uma mudança democrática na produção energética e porventura um dos maiores crimes perpetrados pelo anterior governo PSD-CDS, mas facilita escolhas que poderiam ser espinhosas: não será a partir de gigantescas fontes concentradas de energia, quer barragens, quer centrais eléctricas de ciclo combinado (o gás “natural” emite tantos ou mais gases com efeito de estufa do que o carvão), quer gigantescas instalações de energia solar ou energia eólica que se poderá fazer esta transição, mas sim a partir de uma deslocalização da produção. Não nos enganemos: a tecnologia para esta transição energética existe, mas também tem impactos ambientais. A questão é que neste momento não existe nenhuma dúvida que o corte de emissões de gases com efeito de estufa é a prioridade absoluta. Concorremos neste campo com uma panóplia de enganos: carros eléctricos, biocombustíveis, gás natural como “energia de transição”. O capitalismo verde não está preocupado em cortar emissões, está preocupado, como sempre, em obter lucro. A criação de campanhas massivas de desinformação e da ideia de transições suaves num clima em convulsão é apenas mais uma fraude: a redução de consumos energéticos e a conservação de solos e águas é imprescindível. Dirão que isso significa “viver nas cavernas”. O business as usual, ou mesmo a “transição suave” do capitalismo verde (que não corta as emissões e em muitos casos até as aumenta enquanto massaja o cérebro descontraído de quem não aceita mudar de vida) significarão muito literalmente viver nas cavernas: a falência em grande escala de colheitas, os fenómenos climáticos extremos, cheias e secas em escala sem precedentes, com as consequentes migrações em massa, em fuga da escassez e dos inevitáveis conflitos derivados da mesma, atirarão a Humanidade para uma situação desconhecida em que, mais do que nunca, o “Socialismo ou Barbárie” será a questão.

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Em Marraquexe, António Costa declarou que Portugal será “carbono neutro” até 2050. A formulação “carbono neutro” não equivale a não ter emissões, mas sim a que o balanço entre emissores e sumidouros de carbono se anule. Em Portugal alimenta-se a fábula de que a floresta é um sumidouro de carbono, isto é, que retém dióxido de carbono, como se de três em três anos não ardessem mais de 100 mil hectares, o que torna a floresta um dos maiores emissores de gases com efeito de estufa no país nesse ano. Mas esta declaração significa que nos próximos 34 anos (excedendo o tempo de acção efectiva para travar o caos climático) tudo, desde a produção energética, os transportes, as habitações, a agricultura, a floresta, terá de mudar. E obviamente que a questão das concessões de petróleo e de gás terá de ser definitivamente encerrada. A tarefa hoje é repensar estas questões a partir de uma perspectiva de justiça climática, combatendo simultaneamente as alterações climáticas a partir da mitigação e adaptação, e a partir da justiça social, socialista, internacionalista e revolucionária. A disputa, organizativa e em termos de perspectiva, prende-se com quem liderará este processo: aqueles que veem as alterações climáticas como apenas mais uma nova oportunidade de negócio e que estarão sempre disponíveis para negociar a extensão das emissões e a morte de milhões de pessoas pelo planeta em troca da continuação do lucro (e que mais cedo abdicarão de salvar a espécie humana ou de abandonar-se à resignação, do que de derrubar o capitalismo), ou uma esquerda radical e ecossocialista, criando e apoiando no terreno as linhas da frente no combate aos fósseis ao mesmo tempo que pensa e materializa a produção e a economia que possam cumprir a gigantesca tarefa da justiça climática. Não há nada de abstracto e de longínquo nisto, os efeitos das alterações climáticas já estão a sentir-se amplamente e magnificarão todas as desigualdades: de classe, género, etnia, orientação sexual, religião e cultura. Esta é a maior tarefa que alguma vez poderíamos imaginar, e não é um compromisso vago: tem uma data de validade, o que significa que a maioria dos militantes que hoje se envolvem nesta luta saberão em poucas décadas se sucederam ou não. Não há outra luta final que não seja esta.

[Artigo originalmente publicado na revista Anticapitalista #1 Jan/Fev 2017]

2016, o ano mais quente de sempre que já não é notícia – João Camargo

[Artigo originalmente publicado na Esquerda.net, no dia 30 de dezembro de 2016.]
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O ano que termina, 2016, é o ano mais quente desde que há registos, embora isso dificilmente seja já novidade, já que os dois anos anteriores bateram exactamente esse mesmo recorde. As alterações climáticas são a constante mais evidente num tempo de instabilidade social, económica e política fortemente associadas à crescente degradação material do planeta. Em 2016 terminou ainda uma sequência sem precedentes de meses consecutivos de recordes históricos de temperaturas: entre Maio de 2015 e Agosto de 2016 todos os meses foram os mais quentes alguma vez registados, com o último a ser o mês mais quente de sempre. Dos 17 anos mais quentes desde que há registos, só um – 1998 – não pertenceu ao século XXI.

As consequências físicas e climáticas deste pico de temperatura sentem-se um pouco por todo o planeta:

  • Na Austrália ocorreu o maior branqueamento de corais alguma vez observado, com 93% da Grande Barreira de Coral na Austrália a aproximar-se da morte no verão no Hemisfério Sul, devido às variações da temperatura do Oceano Pacífico;
  • Nos Estados Unidos quadruplicou o número e a duração de clusters de tornados e o aumento do número de tornados por cluster, isto é, há mais tornados, estão mais concentrados e duram mais tempo,
  • Houve uma quebra acentuada das chuvas em África e em particular na África Subsahariana: na Etiópia há 10 milhões ameaçados pela fome e mesmo no Lesoto, país em altitude e com precipitação acentuada, a seca ameaça 700 mil pessoas.

Um dos sinais mais preocupantes do agravamento das alterações climáticas é a degradação das zonas polares: no mês passado, a extensão de gelo no Ártico foi a mais pequena desde que se começaram a registar as imagens por satélite em 1979. A perda de gelo no Ártico é de cerca de 40% quando comparado com o final da década de 70 e o início dos anos 80. Em resposta a esta perda de gelo, os ecossistemas oceânicos próximos estão a sofrer importantes impactos, nomeadamente na produção de algas, que está 50% acima do que era em 1997, o que altera toda a cadeia alimentar do Ártico. Pela segunda vez, abriu-se a Passagem do Nordeste no Pólo Norte, e o cruzeiro de luxo Crystal Serenity atravessou-a. Em Dezembro a onda de calor no Pólo Norte colocou as temperaturas 20 a 30ºC acima daquilo que deveria estar nesta altura do ano (quando não há sol a incidir sobre o Pólo), o que faz com que mesmo no inverno o gelo continue a derreter.

Ultrapassando-se todas as projecções prévias, 12% do gelo da Gronelândia está a derreter, com a projecção de um impacto ainda superior sobre a subida do nível médio do mar.

O elefante escondido das alterações climáticas, a Antártida, registou em Dezembro uma perda de 3,84 milhões de quilómetros quadrados comparados com a média dos 30 anos entre 1981 e 2010. Perdeu um área de gelo do tamanho da Índia.

2016 foi o primeiro ano passado todo acima das 400 partes por milhão de dióxido de carbono na atmosfera, concentração nunca registada nos últimos 800 mil anos. Além disso, em Fevereiro e Março a temperatura média ultrapassou a subida de 1,5ºC prevista no acordo de Paris. Com o efeito combinado das alterações climáticas e do El Niño, em Fevereiro a temperatura média esteve 1,63ºC acima da era pré-industrial e em Março a temperatura média esteve 1,54ºC acima da era pré-industrial.

Em termos de emissões de dióxido de carbono, 2016 teve um aumento de emissões de 0,2%, voltando a subir em relação a 2015, em que as emissões estiveram estacionárias. É uma redução importante no aumento das emissões, quando comparamos com a subida cavalgante de 3,5% ao ano das emissões na década 2000-2010 e de 1,8% entre 2006 e 2015. Por outro lado houve uma explosão nas emissões de metano, identificada em particular desde 2007 e com acelerações em 2014 e 2015, que põe em perigo os esforços para reduzir as emissões de dióxido de carbono. As emissões de metano para a atmosfera têm fontes variadas, mas um estudo publicado na Nature revela que a indústria dos combustíveis fósseis subavaliou a sua produção de metano entre 60% e 110%.

Cientistas da Universidade de Cornell já tinham feito uma avaliação das perdas de metano para a atmosfera na actividade de produção de gás de xisto por fracking, assim como da produção petrolífera e da produção de carvão e concluíram que houve uma gigantesca omissão por parte das petrolíferas. O boom do gás dos Estados Unidos e do Canadá, assim como a expansão das minas de carvão da China serão dos principais responsáveis pelo boom das emissões de metano, acompanhando a produção pecuária intensiva e a produção de arroz. Em 2016 também se quantificou pela primeira vez a produção de metano a partir de barragens e os números são surpreendentes, colocando um não definitivo ao estatuto da energia hidroeléctrica como “renovável”. A concentração de metano na atmosfera em 2016 é de 1830 partes por bilião (mil milhões), quando na era pré-industrial era de 722 partes por bilião.

A 4 de Novembro entrou em vigor o Acordo de Paris, a dias da realização da COP-22 de Marrakesh e das eleições dos Estados Unidos. Tal foi possível apenas devido ao forte incentivo dado pela ratificação conjunta dos maiores emissores de gases com efeito de estufa do mundo – Estados Unidos e China. A China, seguindo o exemplo de 2015, voltou a reduzir as suas emissões em 2016.

Os Estados Unidos são um país central para a questão das alterações climáticas: são o maior emissor histórico de gases com efeito de estufa, isto é, o país com maior responsabilidade no mundo sobre as alterações climáticas, e são actualmente também o maior produtor mundial de combustíveis fósseis, em particular por causa revolução do fracking. A Rússia é o maior emissor até ao momento a não ter ratificado o Acordo de Paris. Antes mesmo da Cimeira do Clima foi assinado em 2016 um acordo para a redução das emissões de gases com efeito de estufa  do tráfego aéreo internacional (não contemplado, em conjunto com o comércio marítimo e as forças militares no Acordo de Paris), que volta a insistir no falhado comércio de créditos de carbono, e um acordo para eliminar progressivamente as emissões de outro gás com efeito de estufa – os hidrofluorocarbonetos – principalmente presente nos ares condicionados.

Poucos dias depois do início da Cimeira, Donald Trump, assumido negacionista das alterações climáticas, foi eleito presidente dos Estados Unidos. A sua promessa de rasgar o Acordo de Paris, feita durante a campanha eleitoral, passou a ser uma ameaça permanente sobre o diálogo político das alterações climáticas. As dúvidas foram-se dissipando com as escolhas ministeriais do novo presidente dos Estados Unidos: escolheu Myron Ebell, negacionista militante das alterações climáticas como responsável pela transição do Departamento de Protecção Ambiental (EPA), nomeou Rick Perry, outro negacionista e ex-Governador do Texas para liderar o Departamento de Energia (que o mesmo Perry assumiu querer fechar nas presidenciais de 2012) e a cereja no topo do bolo: Rex Tillerson como Secretário de Estado (Ministro dos Negócios Estrangeiros e responsável pela política externa dos EUA).bill-nye-has-a-great-response-to-trumps-outrageous-statements-about-climate-change

Tillerson era até à data o presidente da ExxonMobil, a maior petrolífera privada do mundo. 2016 foi o ano em que vários procuradores de vários estados dos Estados Unidos aceitaram uma queixa colectiva de centenas de cidadãos dos EUA contra a ExxonMobil por ter conhecimento das alterações climáticas pelo menos desde 1969 e por ter financiado directamente grupos negacionistas para desmentirem cientistas e bloquearem as respostas políticas necessárias ao combate às alterações climáticas. A ligação directa de Tillerson a Vladimir Putin, a intervenção russa na campanha eleitoral americana e uma estratégia conjunta EUA -Federação Russa para a exploração hidrocarbonetos no Ártico parecem ser o motivo que levou o presidente cessante Barack Obama (que teve uma acção mais que oportunista sobre a questão das alterações climáticas, incentivando acordos internacionais enquanto expandia a produção de combustíveis fósseis no país) a anunciar a interdição da exploração de gás e petróleo no Ártico.

A vitória temporária dos “protectores da água” – que desde Abril estiveram acampados em Standing Rock para travar o North Dakota Access Pipeline – foi conseguir que Obama recusasse a autorização para uma empresa privada (propriedade em parte de Donald Trump e de Rick Perry) continuar a construção de mais um oleoduto dentro de uma reserva índia. Uma batalha de desobediência civil com poucos precedentes nos últimos anos, protagonizada pelas comunidades indígenas dos Estados Unidos, representou mais um importante avanço no bloqueio de infraestruturas que garantem a continuação do modelo de combustíveis fósseis.

No final de 2015 Obama tinha suspenso a construção de outro oleoduto – o Keystone XL das areias betuminosas do Canadá, atravessando todo o continente americano até chegar ao Golfo do México – que Trump prometeu ressuscitar. Para isso conta com o apoio do muito popular e igualmente oportunista primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau que, apesar de se reivindicar de ser engajado na luta contra as alterações climáticas, apoia vários projectos de combustíveis fósseis relacionados com a catastrófica exploração das areias betuminosas na Alberta. O oleoduto Kinder Morgan, aprovado recentemente pelo primeiro-ministro, será um dos exemplos mais acabados desta política de facto consumado e de instalação durante as próximas décadas da indústria petrolífera, e que maior resistência social irá provocar.

Desde as eleições nos Estados Unidos, a intimidação a cientistas climáticos tornou-se uma constante, com o presidente-eleito a ameaçar fechar o departamento de alterações climáticas da NASA, um dos maiores centros de investigação na matéria no mundo, e a ameaçar deixar de recolher os dados climáticos com os satélites americanos. Mesmo dentro dos Estados Unidos, existem já declarações de insubordinação institucional em relação ao novo presidente. A Califórnia e Nova Iorque já afirmaram que vão manter uma política de cortes de emissões gases com efeito de estufa, independentemente da política federal (que Trump já anunciou que será de revitalização de todas as indústrias mais sujas, com o carvão à cabeça) e o governador da Califórnia, Jerry Brown, já anunciou que se Trump desligar os satélites para recolher os dados climáticos, a Califórnia irá lançar os seus próprios satélites.

Na Europa, a retórica das petrolíferas continua a fazer caminho e a União Energética tenta consolidar o gás como energia futura, impedindo a rápida transição para as renováveis através da construção de infraestruturas, como gasodutos, terminais LNG. Os conflitos militares no Norte de África e no Médio Oriente procuram abrir caminhos para mais combustíveis fósseis importados e espalhados pela Europa, para poder reduzir as importações da Rússia. As emissões desprezadas e escondidas de metano são uma razão mais do que suficiente para abandonar a ideia criminosa que é a transição para o gás.

Paradoxalmente, é a acção dos estados centrais e das organizações regionais como a União Europeia que ainda garante sobrevivência da indústria dos combustíveis fósseis. Em 2016, investidores responsáveis pela gestão de 5,2 biliões de dólares (empresas financeiras, fundos de pensões, governos locais e regionais) concordaram em desinvestir dos combustíveis fósseis. Em 2015 foram investidos 288 mil milhões de euros em novos projectos de renováveis, 70% de todo o dinheiro investido na produção de energia, suplantando o investimento combinado de fósseis e nuclear, o que permitiu instalar em média 500 mil painéis solares por dia.

Mais uma Sessão Caótico-Climática na Faculdade de Letras, 5 dez 16h30

Tempestades, tufões, secas, inundações, refugiados… O que “significa” ao certo para nós o conhecimento de que o clima do planeta está a mudar de forma drástica?

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Através de uma série de exercícios performativos, vamos mais uma vez explorar a distância entre o conhecimento abstrato de um fenómeno e o sentimento visceral dos muitos significados pessoais que ele pode assumir para nós, de forma inconsciente.

Na segunda-feira 5 de dezembro, às 16h30 (sala a confirmar), o Climáximo, em conjunto com a Lista M – MELL da Associação de Estudantes, vai organizar mais uma Sessão Caótica-Climática.

Aparece e trás um@ amig@ também! 🙂

COP22: Alterações Climáticas sem luvas na Batalha pela Humanidade – João Camargo

[Artigo publicado em sabado.pt a 11 de novembro de 2016]

inundacoes_luisianaO primeiro prognóstico é simples: arruinámos o clima. Arruinámo-lo para nós, seres humanos, e para a maior parte das espécies animais e vegetais que existem hoje no planeta. Mudámos fundamentalmente a composição da atmosfera e o que herdámos, simplesmente por nascer, como um planeta habitável, com uma temperatura adequada a nele vivermos, capaz de nos alimentar, de nos dar de beber, está certamente ameaçado.

Começámos há anos a falar de manter o aumento da temperatura em 2ºC até 2100 como sinónimo de “segurança climática”. É um exercício mais ou menos teórico. Ninguém sabe o que significa para a espécie humana viver com mais 2ºC. Mas sabe-se o que significa viver com mais 2ºC para os solos, para as plantas, para os animais, para os oceanos, para os ecossistemas: na maior parte dos casos significa morte. Significa seca e desertificação, significa cheia e afundamento, significa colheitas falhadas sucessivamente, significa extinções em massa, significa o fim de ciclos de reciclagem de água e de nutrientes. Daí podemos intuir o que pode significar também para a espécie humana: significa menos alimentos, significa menos água, significa alimentos menos nutritivos, significa muito mais calor, significará, em muitos casos, morte.

Falta também saber o que significa mais 2ºC em termos de atmosfera: significa mais dióxido de carbono e significa mais metano na atmosfera. O dióxido de carbono fica 120 anos na atmosfera, enquanto o metano fica apenas 12 anos, mas com um poder de captura de energia muito maior (72 vezes maior que o dióxido de carbono), o que significa uma atmosfera muito mais energética e mais quente. Isso significa mais fenómenos climáticos extremos: mais e mais longas ondas de calor, mais e maiores furacões, mais e mais fortes tufões, mais tempestades tropicais, mais e maiores tornados. Uma atmosfera em revolta total.

A nível do sistema global, mais 2ºC são considerados o limite máximo para evitar o total descontrolo climático. Isto porque o sistema planetário tem uma série de contrabalanços para manter o equilíbrio: o primeiro são os oceanos, que têm absorvido dióxido de carbono e principalmente a temperatura em excesso, funcionando como tampão do planeta. Ora, a temperatura dos oceanos tem aumentado ao longo da coluna de água, ameaçando todos os seres vivos que aí habitam e também as correntes marinhas que distribuem a energia ao longo dos vários oceanos do planeta; a partir de determinada temperatura, os oceanos perderão a sua capacidade tampão. Outro contrabalanço são as florestas, que capturam dióxido de carbono e emitem oxigénio, criando ecossistemas próprios. Com o aumento da temperatura reduz-se a captura de dióxido de carbono, aumentando também a sua libertação. Em último caso, os incêndios florestais tornam-se cada vez mais frequentes, libertando quantidades massivas de dióxido de carbono capturado nos troncos, raízes e folhas e, em vez de servirem de tampão, passam a ser um agente de desestabilização climática. Os pólos Norte e Sul e a Gronelândia, por serem gigantescas massas brancas de gelo, são um importante factor de reflexão da radiação solar para o espaço, evitando essa acumulação de energia no planeta. Com o aumento da temperatura e o derretimento do gelo, reduz-se a reflexão dessa radiação de volta para o espaço, sendo absorvida pela água do gelo derretido, aumentando a temperatura dos oceanos e contribuindo para a temperatura da atmosfera aumentar ainda mais e levar a um ainda maior derretimento do gelo: isto é o chamado feedback positivo ou retroacção positiva, e representa, a partir de determinado ponto, um total descontrolo que leva ao caos climático. É nesse caminho que estamos. Se ultrapassarmos os 2ºC (o que ameaça ocorrer muito antes de 2100), a atmosfera passa de um comportamento pré-caótico a um comportamento caótico.

A Corrente do Atlântico Norte está a desacelerar. Esta corrente transporta a água quente do Golfo para o Norte do Atlântico, onde arrefecem nas águas profundas e voltam para o Sul. Esta corrente está ligada a outras correntes marinhas e a afecta-as. Esta corrente está ligada com as circulações atmosféricas e ventos sobre o Atlântico. Uma disrupção nesta corrente terá efeito global. Mudará as estações, os climas, mudará o mundo. Para pior, previsivelmente. Para muito pior, provavelmente.

A subida do nível médio do mar, fruto de tantas das consequências anteriormente descritas para as alterações climáticas, levará a que muitas das principais cidades do planeta, que vive no litoral, tenham de ser abandonadas.

O prognóstico é catastrófico. Estamos simplesmente a caminho da extinção nas próximas duas, três gerações de seres humanos, tão rápido quanto isso. E como é fácil hoje falar-se do fim do mundo, não é? Tantos filmes, tantas séries, zombies, vírus, guerras nucleares… Bem, sobre as alterações climáticas e o que elas produzirão sobre a espécie humana, é preciso apenas que se mantenha o business as usual mais 20 anos. O Acordo de Paris, cuja aplicação agora discutimos em Marraquexe na COP-22, é amplamente insuficiente para conseguir manter a temperatura abaixo dos 2ºC. Ainda assim, com a eleição de Donald Trump, até esse mais que magro acordo está ameaçado. É um sinal de alarme total, não porque Obama tenha tido uma magnífica performance a nível de combate às alterações climáticas – pelo contrário, foi sob o último presidente que os Estados Unidos catapultaram a exploração de combustíveis fósseis para o primeiro produtor mundial, principalmente através de fracking, e para segundo emissor mundial de gases com efeito de estufa (descontando obviamente as emissões do fracking), mas porque a ascensão impede uma acção radical contra as alterações climáticas. E é mesmo de acção radical que importa falar, e de nada mais. Mas custa, mesmo, sonhar outro mundo numa era de pesadelo.

É mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do sistema que nos está a matar. O sistema capitalista hoje vive como um parasita na cabeça da maioria da Humanidade, tanto aqueles (poucos) que se beneficiam dele como daqueles (muitos) que são estraçalhados diariamente por ele. As alterações climáticas são filhas do capitalismo global e são uma sentença de morte sobre a Humanidade, porque representam uma mudança absoluta de como a espécie se relaciona com o seu meio, tanto que o ambiente ameaça deixar de ter condições para suster a Humanidade. E como fica claro, caminhando também aqui nos pavilhões da COP-22, o capitalismo não tem nenhuma solução para as alterações climáticas. Pensa como sempre pensou, como foi ensinado a pensar: como é que eu vou fazer negócio com isto? Como é que eu transformo a catástrofe em oportunidade económica? Com carros eléctricos, com tecnologias inúteis de captura de carbono e patentes, com parcerias público-privadas, com novas linhas de financiamento “verde”, com especulação financeira? Com tudo isto e com mais qualquer coisinha que consiga inventar: gás fóssil para fazer uma “transição” energética com mais emissões, relançar o nuclear. O objectivo? Sempre fazer dinheiro. Que as acções e as medidas não sejam suficientes ou estejam sequer próximas de evitar a catástrofe climática é algo irrelevante, o que interessa é lucro o mais rapidamente possível. Se inclusivamente vão agravar a crise é algo que também interessa pouco, desde que dê dinheiro.

Sem luvas. Há muito tempo que me dizem que não se deve apresentar o cenário catastrófico que as alterações climáticas representam. Não vejo que seja possível não fazê-lo. A catástrofe não é o cenário mais longínquo, é o mais provável. Hoje estamos de costas contra a parede. Isso significa que não há outra alternativa que não seja recusar este modelo energético e este modelo social e económico, porque eles representam o fim da espécie humana. Nenhum novo projecto de exploração de hidrocarbonetos é aceitável e tem de ser interpretado como uma batalha contra a Humanidade. Keep it in the ground.