Quem vai parar o furo, e como? – Sinan Eden

§1. Existe um consenso dentro da classe dominante sobre o furo de petróleo ao largo de Aljezur, marcado para setembro pelo consórcio ENI/GALP. Nas últimas duas semanas (por ordem crescente de poder político), o presidente da Agência Portuguesa do Ambiente, o Ministro do Ambiente, o Secretário de Estado da Energia, o Ministro da Economia, o Ministro dos Negócios Estrangeiros, o Primeiro Ministro, o Presidente da República e a ENI/GALP afirmaram que ia acontecer o furo este setembro.

Nos últimos meses, aliás, anos, não só os movimentos cívicos por um Portugal livre de petróleo mas também os autarcas, as assembleias municipais, populações locais, regiões de turismo, vários partidos políticos no Parlamento, empresas hoteleiras, surfistas, escolas, pescadores, académicos, artistas, estudantes … quase toda a gente se pronunciou contra este furo.marcha06

§2. Quem ficou revoltado com esta situação está no lado certo da história. Mas quem fica surpreendido com esta situação se calhar ainda não compreendeu o tamanho do desafio com que nos defrontamos.

Grande parte desta desilusão baseia-se na opinião de que estes governantes estão a falhar em representar-nos. Isto é um erro. Eles estão a fazer um excelente trabalho em representar os interesses dos capitalistas que pretendem representar.

§3. O governo representa quem representa. O Ministro dos Negócios Estrangeiros chegou a dizer que pretendem “honrar compromissos contratuais”. Enquanto eles honram as corporações e o capitalismo, nós devemos honrar o planeta.

O essencial é uma questão de perspetiva. Quem vai parar o furo?

§4. Se toda a gente estiver sensibilizada sobre o tema e se mostrarmos aos governantes que ninguém quer este furo, o furo vai avançar.

Na verdade, tudo isso já aconteceu (ver §1.) e o furo avançou.

O problema não é o(s) governo(s) ainda não ter(em) entendido que a população não quer este furo. O problema é o(s) governo(s) ter(em) entendido muito bem que as empresas querem este furo.

§5. A perspetiva que o movimento pela justiça climática teve sobre a farsa do Acordo de Paris é a certa: Somos nós aqueles de quem estávamos à espera.

Ninguém vai salvar o planeta em nosso nome; nós temos que tomar o assunto nas nossas mãos. Nós não vamos convencê-los pela Razão de que se deve parar o furo. A única hipótese que temos é forçá-los a fazer um compromisso tático (como fizeram com os outros contratos) a fim de manterem a legitimidade social para mandar.41509663764_a5cf381c34_o

§6. A única hipótese que temos é aceitar a declaração de guerra deles, e responder com a devida diligência.

As palavras-chave aqui são rotina (business-as-usual) e rutura (disruption).

O que está a queimar o planeta não são decisões excecionalmente catastróficas. O que está a empurrar-nos para o abismo do caos climático são decisões super-normais do capitalismo. Eles não estão a fazer nada de diferente com este furo agora, estão a simplesmente a continuar a rotina do negócio. O que aqui está em causa é todo o sistema socioeconómico.

§7. Todos os processos habituais para a manutenção e reprodução do sistema são alvos para ação direta. Conferências, reuniões, debates, eventos públicos, tudo que normalmente aconteceria de forma suave pode ser interrompido por descontentamento social. Todos os lugares por que estes ministros e estas empresas passem devem ser alvos de contestação popular.

Nós somos o risco de investimento. Nós somos o risco para o status quo. Sem ilusões sobre como o capitalismo e a sua democracia funcionam.

Nós podemos parar o furo. Junta-te à luta, precisamos de ti para um planeta habitável.palestra5

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Qual é a resposta para a crise do clima? – Sinan Eden

1. Limites e fronteiras

§1. Limites planetários: Talvez o mais importante dos desenvolvimentos recentes na ciência ecológica seja o conceito de “limites planetários”.1 Os cientistas apontaram nove limites/fronteiras críticas relativamente às condições ambientais que existiram durante os últimos doze mil anos (o período do Holoceno). Estes limites dizem respeito a: (1) alterações climáticas; (2) acidificação dos oceanos; (3) depleção do ozono estratoesférico; (4) limite dos fluxos biogeoquímicos (ciclos do fósforo e do nitrogénio; (5) utilização global de água doce; (6) mudança dos sistemas de utilização do solo; (7) perda de biodiversidade; (8) acumulação de aerossóis na atmosfera; (9) poluição química.2

O sistema da Terra que mantivesse as condições físicas necessárias para o desenvolvimento da civilização humana seria essencialmente alterado para lá destes limites.

Um estudo recente mostra que quatro dos nove limites planetários foram já ultrapassados graças à acção humana: alterações climáticas, perda de integridade da biosfera, mudança dos sistemas de utilização do solo, e os ciclos do fósforo e do nitrogénio.3

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Como foi explicado num artigo anterior, a crise climática é especialmente perigosa por causa da sua natureza irreversível.4 Focaremos, portanto, a nossa atenção nas alterações climáticas, ainda que a maior parte da argumentação possa ser aplicada à crise ecológica no geral.

A ultrapassagem dos limites planetários põe toda a civilização humana em risco de colapso. No entanto, para perceber a razão pela qual estes limites estão a ser ultrapassados hoje e não noutro momento qualquer (e, consequentemente, perceber como prevenir o possível colapso), temos de fazer uma análise do ponto de vista histórico e não do ponto de vista moral.

§2. Limites históricos a empurrar as fronteiras planetárias: Do ponto de vista teórico, a ultrapassagem das fronteiras planetárias é apenas mais uma manifestação de que o capitalismo atinge os seus limites históricos. A estagnação secular que se começou a manifestar nos anos 70 coincide (e não por acaso) com a pegada ecológica global a ultrapassar o limiar de um-planeta.5 6

Depois de a “idade do ouro” que se seguiu à II Guerra Mundial, a lei da queda tendencial da taxa de lucro tornara-se o factor dominante nas economias mundiais, e nem mesmo a dissolução da União Soviética (e a consequente “transição” das suas economias para o capitalismo global) foi suficiente para aliviar a ânsia neoliberal pela apropriação imediata de valor.

A forma como o capitalismo e os capitalistas responderam aos limites históricos forçou e empurrou os limites planetários de várias maneiras, que analisaremos mais adiante. Mas primeiro vamos deter-nos sobre a razão pela qual o modo de produção capitalista intrinsecamente ignora, causa e intensifica os desastres ecológicos.

2. Antagonismos do Capitalismo

§3. Valor de uso vs valor de troca:7 Todas as mercadorias têm um valor de uso e um valor de troca. O valor de uso é uma forma de valor qualitativo, que depende das necessidades e das prioridades de cada pessoa. O valor de troca, por outro lado, é calculado através do tempo de trabalho socialmente necessário para a produção dessa mercadoria. No que diz respeito à circulação de mercadorias, o valor de troca é a forma de valor mais relevante.8

O dinheiro é a mercadoria cujo valor de uso é ser a medida de todos os valores de troca. Enquanto outras mercadorias são compradas para uso pessoal, o dinheiro é adquirido porque oferece o acesso universal a todas as mercadorias. O dinheiro representa, portanto, o poder universal.

O que existe para mim através do dinheiro – aquilo que posso pagar (ou seja, que o dinheiro pode comprar) – tudo isso sou eu, o possuidor do meu dinheiro. O alcance do poder do dinheiro é o alcance do meu poder. As propriedades do dinheiro são as minhas propriedades e faculdades essenciais – as propriedades e faculdades do seu possuidor. Assim, aquilo que sou e que de que sou capaz não é, de maneira nenhuma, determinado pela minha individualidade. Sou feio, mas posso comprar para mim a mais bela das mulheres. Não sou feio, portanto, porque o efeito da fealdade – o seu poder de dissuasão – é anulado pelo dinheiro.9

De modo geral, observamos a simples circulação de mercadorias, representada assim:

Mercadoria – Dinheiro – Mercadoria,

M – D – M.

O padeiro vende o pão e compra leite com o dinheiro que ganha; o leiteiro usa esse dinheiro para comprar sapatos. O trabalhador vende a sua força de trabalho e paga a conta da electricidade com o seu salário. Isto significa que, de modo geral, vendemos para podermos comprar. Assim, para o cidadão comum, um mecanismo mais racional do que o capitalismo parece inconcebível.

O que os capitalistas vêem, no entanto, é um versão iterada desta circulação. Nós vemos

… M – D – M – D – M …

(pão) (leite) (sapatos)

enquanto eles vêem

… D – M – D – M – D …

Isto é a circulação do capital. Esta é a base de todas as bolsas de valores e mesmo de toda a economia dos dias de hoje. Começa com o dinheiro e acaba com o dinheiro. Ao contrário do nosso senso comum, aqui a motivação maior é comprar para poder vender.

Um padeiro não compra trinta litros de leite só para si; a circulação M – D – M tem limites naturais; o ciclo D – M – D, pelo contrário, é infinito, tendo como motivação principal gerar mais dinheiro.

A simples circulação de mercadorias – vender para comprar – é um meio para atingir um objectivo situado fora dela, isto é, a apropriação de valores de uso, a satisfação de necessidades. A circulação do dinheiro como capital constitui, pelo contrário, o objectivo em si mesma, porque é só por este movimento constantemente renovado que o valor continua a fazer-se valer. A circulação do capital não tem, portanto, limite.10

Até certo ponto, há uma relação entre necessidades humanas reais e o ciclo M – D – M (o padeiro precisa mesmo de leite). No ciclo D – M – D, esta necessidade não existe. A única necessidade existente aqui é obter mais valor de troca. É a isto que normalmente se chama o movito da “maximização do lucro”. A lógica do capital é, portanto, a do crescimento pelo crescimento.11

§4. O valor de troca domina: A integração capitalista é a integração do valor de troca em todas as esferas da vida, e a desintegração de todos os outros valores da vida. O sistema financeiro, onde a “sustentabilidade” das formas monetárias (em vez de objectos reais) é o objectivo principal, é a subordinação final do valor de uso ao valor de troca.

§5. Alienação: O capital não vê nada senão mercadorias. O capital tende a ver mercadorias para onde quer que olhe. O capital reduz as mercadorias a valores de troca. Isso tem dois tipos de impactos.

Primeiro, o capitalismo gera a sua cultura à sua imagem, em que as pessoas têm dificuldade em separar as suas necessidades das necessidades do capital. Isto dá origem a uma alienação dos humanos em relação aos outros humanos, uma vez que vêem os outros apenas como proprietários de mercadorias.

Em segundo lugar, todas as coisas são subjugadas à circulação do capital. Disto resulta a comercialização da natureza, onde os sistemas naturais são reduzidos ao valor de troca que deles pode ser extraído.

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§6. O capital vs. A Natureza: As características do capital e as da natureza são intrinsecamente antagónicas. O capital caracteriza-se pela divisibilidade (a forma monetária pode ser dividida em peças tão pequenas quanto se quiser), pela equivalência (os valores de todos os objectos são comparáveis nos seus preços), e por ser ilimitado (ver §3.). Por outro lado, a natureza compreende-se melhor em temos holísticos, sendo diversa e limitada. Este antagonismo torna o capital incompatível com os sistemas terrestres.

§7. Socialização e individualização: Através da socialização do processo laboral, o capitalismo emancipou os seres humanos dos seus constrangimentos naturais. Criou um metabolismo social onde a interdependência é a característica fundamental, ao mesmo tempo que cada indivíduo está ao abrigo de condições externas: quando estamos doentes, vamos ao hospital; quando precisamos de electricidade, basta acender a luz. Quando precisamos de água, abrimos a torneira. Quando um desastre acontece numa qualquer parte do mundo, acreditamos que cabe aos outros países ajudar. Ninguém no mundo de hoje utiliza apenas os materiais produzidos na sua própria comunidade, etc.

Esta integração criou uma sociedade mundial onde nenhum indivíduo depende de nenhum outro indivíduo em particular para sobreviver, ao mesmo tempo que a sociedade num todo depende de si própria para a sua manutenção.

Entretanto, a sociedade foi desintegrada do seu ambiente natural. A cidade foi separada do campo. A produção e o consumo foram dramaticamente separados em tempo e espaço. Deu-se uma ruptura metabólica entre seres humanos e natureza.12

§8. Alienação da Natureza:

A natureza é o corpo inorgânico do homem; quer isso dizer a natureza excluindo o próprio corpo humano. Dizer que o homem vive da natureza significa que a natureza é o corpo dele, com o qual deve se manter em contínuo intercâmbio a fim de não morrer. A afirmação de que a vida física e mental do homem e a natureza são interdependentes, simplesmente significa ser a natureza interdependente consigo mesma, pois o homem é parte dela.13

A natureza extractivista do capitalismo (ver §3.) está em conflito directo com uma relação natural dos seres humanos com a natureza. A lógica linear do capitalismo e a sua redução de tudo à acumulação de valor é incompatível com os ciclos e sistemas complexos da natureza.

A resposta capitalista à crise climática é, consequentemente, também ela reducionista, conduzindo necessariamente a falsas soluções.

3. A resposta capitalista

§9. Voltemos agora aos limites históricos e às fronteiras planetárias, tendo em conta os antagonismos do capitalismo.

§10. A resposta capitalista aos seus limites históricos: A atitude geral do capitalismo face aos seus limites históricos foi condicionada pela sua mono-dimensionalidade: fazer mais do mesmo, exactamente da mesma maneira, e esperar que o problema se resolva.

Para começar, inventaram-se necessidades desnecessárias, como carros cada vez maiores (para andar em média a 15km/h nas grandes cidades), ou todo o tipo de materiais descartáveis. Depois, inventaram-se empregos desnecessários, como a protecção de copyright14 e a publicidade em massa. Depois, a obsolescência programada promoveu o “descartável” a “tem-de-ser-descartado”.15 Na frente ideológica, isto é acompanhado pela mercantilização de tudo, pela redução dos ecosistemas aos “bens e serviços ambientais” (assim quantificados em termos de valor do mercado, e assim inseridos numa análise de custo-benefício16), e pelas privatizações.

A maioria destas medidas funcionou com sucesso para gerar lucro, e nada mais do que isso.

§11. A resposta capitalista aos problemas ambientais: A resposta imediata das corporações à crise climática foi encontrar, fundar e/ou financiar ONGs que serviriam para “sensibilizar” em relação à crise criada pelas próprias corporações, concentrando-se em soluções individuais e desviando a atenção dos problemas sistémicos de fundo. As respostas mais sofisticadas incluíram ainda mais financeirização, como mercados de carbono, mecanismos de REDD+ e as compensações do carbono. Esta última resposta foi muito além das distopias, onde alguém é alegremente convidado a comprar para ser boa pessoa, pagando um valor consideravelmente mais alto por um produto para que uma percentagem minúscula do lucro financie a compensação de alguns dos efeitos negativos desse mesmo produto.

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§12. A resposta capitalista aos grupos de justiça ambiental: Quando as preocupações em relação à sustentabilidade entraram em conflito directo com a maximização do lucro, a resposta imediata foi oprimir globalmente os grupos da advocacia. Alguns exemplos dos países menos anti-democráticos são as reacções do estado às lutas contra o gasoduto no Dakota do Norte, à ZAD de Notre-Dame-des-Landes, ao movimento “No New Runways” em Heathrow, entre muitos outros, dos quais dispomos geralmente de pouca documentação.17

Quando a opressão falha, o passo seguinte é a negociação, para deixar o status quo inabalado. A dimensão enorme da crise climática exigiu um processo de negociação e de sofisticação mais complexo. Cimeiras atrás de conferências atrás de cimeiras. Mais e mais relatórios optimistas foram aparecendo.18 Fez-se muito barulho. Muitas “vitórias” foram declaradas (sendo as mais emblemáticas Quito e, recentemente, Paris). Contudo, as emissões de gases com efeito de estufa continuaram a aumentar e o aquecimento global continuou a acelerar, ultrapassando limiares sucessivos.

4. As respostas socialistas até agora

§13. As experiências socialistas até agora reivindicaram a abolição dos antagonismos do socialismo, enquanto a destruição ecológica continuou. Por outras palavras, uma condição necessária para um futuro sustentável (confrontar o sistema capitalista) não resulta numa condição suficiente para ele. As experiências anteriores merecem, portanto, um olhar crítico no nosso contexto.19

§14. A experiência Soviética: A União Soviética, a primeira experiência socialista na história mundial, nasceu com dois constrangimentos estruturais para a construção de uma nova civilização. O primeiro foi o falhanço da revolução europeia que se esperava a seguir, o que isolou a revolução de uma sociedade maioritariamente camponesa com baixo nível de industrialização. O segundo constrangimento foi ver-se entalada entre a necessidade imediata de uma reconstrução massiva depois da desastrosa 1.ª Guerra Mundial e a necessidade urgente de preparar a indústria e a sociedade para confrontar o exército Nazi na 2.ª Guerra Mundial. Estes dois constrangimentos levantaram o problema premente da rápida industrialização e expansão da economia Soviética.

§15. Dognat’ i Peregnat’: A solução política que os líderes Soviéticos encontraram foi “alcançar e superar” as economias capitalistas. Os modelos Tayloristas foram implementados nas fábricas, as experiências de auto-gestão foram descartadas. A curto prazo, esta fórmula política parecia funcionar: a produção aumentou, a economia Soviética “saltou por cima”, literalmente, da Grande Depressão (deixando perplexos os líderes políticos do mundo inteiro e tornando mainstream a economia planificada até nos centros capitalistas), e a URSS conseguiu resistir e expulsar a tentativa de ocupação Nazi que se seguiu poucas décadas depois.

§16. A longo prazo, no entanto, estas escolhas reproduziram a alienação dos trabalhadores tanto em relação aos seus produtos como ao seu acto de produção. Como não havia questionamento posterior destas escolhas, o modo de produção da União Soviética tornou-se capitalista na forma (reproduzindo a alienação), com conteúdo socialista (a mais-valia colectivizada). Esta abordagem anti-dialética resolveu-se a si própria gradualmente, com a forma a ditar o conteúdo. A forma e o conteúdo foram reconciliadas com Glasnost e Perestroika.

A alienação capitalista reproduzida tinha ainda implicado a alienação da natureza, cujos exemplos mais drásticos são patentes no colapso completo do lago Aral, no desastre nuclear de Chernobyl, e na pesada militarização da economia e da sociedade Soviética.

§17. Outras experiências socialistas: Algumas destas políticas Soviéticas foram depois postas em causa em Cuba (após a dissolução da União Soviética e da crise do petróleo que se seguiu), mas continuaram praticamente intactas noutros exemplos até bem recentemente (particularmente na China). Mais recentemente, os governos da Bolívia e do Equador desenvolveram abordagens radicalmente diferentes, ao incluir os direitos da natureza na Constituição dos seus países. Estas últimas experiências têm as suas próprias contradições latentes, especialmente ao terem lugar em economias completamente inseridas no sistema capitalista.

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5. Marxismo e Ecologia

§18. Críticas anti-comunistas: As críticas ecológicas anti-comunistas às experiências socialistas incidem essencialmente na reprodução da lógica de produção capitalista. No entanto, estas críticas omitem, muito convenientemente, este lado das suas análises, lavando na verdade a imagem da ideologia capitalista.

Se quisermos resolver a crise climática, continuará a ser necessário atacar os antagonismos internos do capitalismo. A experiência Soviética mostra que este “ataque” tem de ser muito mais profundo do que se pensava ao princípio.

§19. Críticas anti-Marxistas: Um pré-requisito universal para qualquer discurso anti-Marxista é nunca ter lido Marx. O mesmo se aplica na área da ecologia. No pior dos casos, os críticos anti-Marxistas desconhecem conceitos-chave da análise de Marx, tais como o da “ruptura metabólica”20, o da “alienação dos trabalhadores, a “eliminação gradual da diferença entre cidade e campo, por uma distribuição mais justa da população pelo país”21, etc, e lêem Marx com os seus próprios olhos positivistas e mecânicos. No melhor dos casos, parecem culpar Marx e Engels pelo seu optimismo revolucionário: de facto, estes revolucionários julgavam que o capitalismo seria derrotado muito antes de os problemas ecológicos se agudizarem desta forma.

§20. Em qualquer dos casos, abandonar a análise marxista da História deu lugar a um entendimento estático da crise climática. Um subproduto importante desta confusão ideológica da política ecológica é que, uma vez removida da análise a luta de classes como motor da História, o movimento pela justiça ambiental acaba com um problema de agência. Isto levou a abordagens moralistas e muitas vezes despolitizadas.

§21. Marxismo e Ecologia: Ao longo das últimas décadas, surgiram dentro do Marxismo duas correntes que integraram a perspectiva ecológica nas suas análises. Uma é a escola de Ecologia Marxista (encabeçada pela revista Monthly Review) e a outra é a Rede Eco-socialista (por exemplo, na coligação System Change Not Climate Change).22 Estas correntes dão ênfase à unidade orgânica dos seres humanos com a natureza (contra a dicotomia natureza versus seres humanos), politizando o discurso das “necessidades”,23 questionando a produção industrial enquanto única forma de criar valor (isso seria capitalismo), e reintroduzindo ferramentas políticas essenciais como o tempo livre e a racionalização e planificação da economia. Do ponto de vista teórico, identificam também os elementos da super-estrutura que reproduzem as relações de produção capitalistas.

6. Ecologia revolucionária ou barbárie

§22. O caldeirão das lutas ambientalistas e anti-capitalistas: A crise climática, com a sua componente de urgência, torna visível duas limitações com que se depararam os ambientalistas até agora.

Em primeiro lugar, a transformação radical necessária, do ponto de vista social, económico e ecológico, para travar o aquecimento global exclui automaticamente qualquer solução “dentro do sistema”. Os únicos caminhos realistas apontam para $1,1 biliões de activos abandonados na próxima década e é tecnicamente impossível fazer isto de uma forma economicamente suave.24 Em segundo lugar, é cada vez mais evidente que não se pode ganhar a luta climática sem ganhar “tudo”. As soluções passam por transformações profundas dos métodos de produção, de distribuição e de consumo, a todos os níveis. Por seu lado, isto implica confrontar as maiores empresas do mundo (a maior parte das quais está directamente ligada aos combustíveis fósseis). Por outras palavras, ou transformamos nós próprios as nossas sociedades em todos os seus aspectos (energia, transporte, alimentação, etc), ou as alterações climáticas transformarão tudo por nós (secas, tempestades, falhas de infraestrutura, refugiados climáticos, etc).25 Em resumo, começa a ser impossível ser-se ambientalista sem se ser também anti-capitalista.

Do outro lado do espelho, aparece uma imagem simétrica, com duas limitações com que se deparam os anti-capitalistas. Primeiro, a potencial irreversibilidade das alterações climáticas serve de alerta para todos os revolucionários, estabelecendo um prazo máximo para ganhar a luta. Em segundo lugar, a revolução não pode ser uma revolução qualquer – tem de responder directamente à crise climática. Os anti-capitalistas têm de ter propostas concretas (e urgentes) que respondam simultaneamente às injustiças climáticas e sociais.

Resumindo, a crise climática serve como caldeirão onde se devem misturar os ambientalistas e os anti-capitalistas, fazendo de todos revolucionários – exactamente o que precisamos nestes tempos.

§23. Soluções verdadeiras e soluções falsas: As soluções verdadeiras para a crise climática têm de, pelo menos, confrontar as tendências capitalistas de comercialização e maximização do lucro. Na verdade, isto pode ser usado como teste decisivo para distinguir as soluções reais das soluções fáceis. Seguem-se alguns exemplos que apontam direcções ideológicas opostas.

A campanha “Keep It In the Ground” exige o abandono imediato de todos os novos projectos de combustíveis fósseis, enquanto o discurso do crescimento verde se concentra num “aumento da parte dos renováveis”, ignorando o argumento físico que mostra que, para reduzir emissões, temos de substituir as infraestruturas dos combustíveis fósseis e não apenas acrescentar mais recursos renováveis à oferta energética.

Muitas campanhas de não-produção sublinham outros valores que não os de mercado, como as lutas contra os mega-projectos, de que são exemplo a ZAD, Heathrow, a revolta de Gezi e a Defesa das Florestas do Norte de Istambul. Do lado contrário, as companhias de aviação vendem recibos de compensações do carbono para supostamente plantar árvores algures, continuando assim a emitir dióxido de carbono.

As campanhas pelos transportes públicos concentram-se na equidade e no acesso à cidade, reduzindo ao mesmo tempo o consumo e as emissões, enquanto outras campanhas confiam num boom na indústria dos carros eléctricos, que se baseia nas mesmas práticas extractivistas.

As campanhas pelos Empregos para o Clima exigem empregos decentes para centenas de milhares de pessoas, protegendo ao mesmo tempo os trabalhadores que perderiam os seus postos de trabalho com a transição energética. A abordagem da economia verde, no entanto, ainda não produziu senão alguns subsídios para alguns sectores, como incentivo para mais lucro, e não para uma transição energética.

Alguns sectores dentro do movimento de decrescimento viram a sua atenção às necessidades estruturais do capitalismo, tais como as guerras, a publicidade, e a obsolescência programada. (No melhor dos casos, estas indústrias não produzem nada para as pessoas; no pior dos casos, destroem o que foi produzido.) Pelo contrário, as propostas tecno-fixas vão desde a instalação de espelhos na atmosfera para relectir os raios de sol até tecnologias de geração de nuvens artificiais. Evidentemente, estas “soluções” raramente passam do papel, uma vez que não há procura no mercado para elas. Ainda assim, fizeram barulho suficiente para criar ilusões bastantes dento do movimento climático.

Mais em geral, a abordagem da transição justa exige justiça social e climática, enquanto uma grande parte das ONGs ambientalistas continua a propor uma espécie de “austeridade ambiental”, fazendo as pessoas pagar, uma vez mais, os custos criados pelos capitalistas.

§24. Temos de nos lembrar sempre de que a crise climática é uma crise social.

O planeta não precisa de seres humanos, nem é a biodiversidade um bem em si mesmo. Os seres humanos precisam de manter os sistemas da terra dentro das fronteiras planetárias, para a sua própria sobrevivência como seres naturais. A solução para a crise social é uma mudança de sociedade, e não umas quantas alterações sectoriais.

O slogan “Muda o Sistema, Não o Clima” aponta o caminho para um planeta justo e habitável.

scncc


* Artigo originalmente publicado no Praxis a dia 10 de janeiro de 2018.


1 Fred Magdoff, John Bellamy Foster, What Every Environmentalist Needs to Know About Capitalism, Monthly Review, Volume 61, Número 10 (Março 2010).

2 Johan Rockström, et al., “A Safe Operating Space for Humanity,” Nature, 461 (24 de Septembro, 2009), 472-75.

3 Danger zone: Earth crosses four planetary boundaries, Climate & Capitalism, 15/01/2015.

5 Hans G. Despain, Secular Stagnation: Mainstream Versus Marxian Traditions, Monthly Review, Volume 67, Número 04 (Septembro 2015).

6 Fred Magdoff, John Bellamy Foster, Stagnation and Financialization: The Nature of the Contradiction. Monthly Review, Volume 66, Número 01 (Maio 2014).

7 Este parágrafo padece de erros teóricos e falhas devidas à simplificação excessiva e a omissões que escolhi fazer de forma a sublinhar alguns aspectos da teoria marxista relevantes para o nosso contexto.

8 A força de trabalho também é uma mercadoria. Um proletário é alguém que vende a sua força de trabalho para sobreviver. No entanto, o tempo de trabalho necessário para produzir os bens de necessidade diária de um trabalhador é menor do que o seu número de horas de trabalho diário. A diferença, ou seja, a mais-valia gerada pelo trabalhador, é apropriada pelo capitalista que comprou a sua força de trabalho.

9 Karl Marx, The Economic and Philosophic Manuscripts of 1844, Tradução inglesa de Martin Milligan, International Publishers, New York, 1964, p.167.

10 Karl Marx, Capital Volume 1, Marxist Internet Archive, http://www.marxists.org/archive/marx/works/download/pdf/Capital-Volume-I.pdf , p.104-105.

11 Uma nota fundamental: uma tendência comum é deduzir, desta análise, que “M – D – M é bom, D – M – D é mau” (este é também o principal argumento ético contra as políticas neoliberais). Esta dedução está errada. Não há aqui dois ciclos. A dinâmica do mundo das mercadorias é … M – D – M – D – M – D… . Esta dinâmica engloba a circulação de mercadorias e a circulação de capital. Os resultados deste parágrafo são, portanto, as consequências analíticas de uma estrutura sócio-económica em que as pessoas se relacionam umas com as outras enquanto proprietários de mercadorias.

12 John Bellamy Foster, Marxism and Ecology: Common Fonts of a Great Transition, Monthly Review, Volume 67, Número 7 (Dezembro 2015).

13 Karl Marx, The Economic and Philosophic Manuscripts of 1844, Translated by Martin Milligan, International Publishers, New York, 1964, p.112.

14 Isto tem uma importância particular. O famoso motivo da competição, que é suposto ajudar a produzir cada vez mais bens, causa o mair constrangimento possível ao acesso aos bens já produzidos.

15 Ver Story of Stuff. http://storyofstuff.org/

16 Ver: Robin Hahnel, Green Economics: Confronting the Ecological Crisis, Taylor & Francis, 2010, 288 páginas.

17 Sinan Eden, A huge case study of resistances and victories: Turkey, Climáximo blog, https://climaximo.wordpress.com/2015/11/01/a-huge-case-study-of-resistances-and-victories-turkey/

18 Sean Sweeney e John Treat, Energy Transition: Are We Winning?, Trade Unions for Energy Democracy Working Paper No. 9, Janeiro de 2017.

19 Para ser claro, não vou usar nenhuma definição categórica do socialismo neste capítulo. Vou brevemente rever algumas das experiências auto-declaradas como socialistas. Uma análise mais aprofundada, que inclui outros estudos de caso (particularmente os exemplos autênticos do Sul Global) exigiria um artigo separado.

20 John Bellamy Foster, Marx and the Rift in the Universal Metabolism of Nature, Monthly Review, Volume 65, Issue 07 (Dezembro 2013)

21 Karl Marx e Friedrich Engels, Communist Manifesto, tradução disponível online no Marxist Internet Archive, https://www.marxists.org/archive/marx/works/1848/communist-manifesto/

23 Ege M. Diren, Who Needs Our “Needs”, Out for Beyond, 23/10/2011. https://network23.org/outforbeyond/2011/10/23/who-needs-our-needs/

24 Jess Worth, Ending the Oil Age, The New Internationalist, Novembro 2014, Número 477.

25 Naomi Klein, This Changes Everything: Capitalism versus The Climate, Siman & Schuster, 2014.

Alterações climáticas e capitalismo – Filipe Carvalho

Historicamente, o ser humano começou a emitir gases de efeito de estufa de forma massiva a partir da Revolução Industrial, altura em que o capitalismo enquanto sistema económico começou a tomar a sua forma atual. A utilização do vapor de água como meio de transformação de calor em movimento — através da máquina a vapor — permitiu ao ser humano aproveitar a energia potencial dos combustíveis fósseis para muito mais do que apenas aquecer ou cozinhar.

Para o capitalismo, estes avanços significaram que a produtividade do trabalho podia ir muito para lá das limitações físicas dos trabalhadores humanos e animais de carga. Máquinas cada vez mais complexas e poderosas multiplicaram a quantidade de produtos que cada trabalhador podia produzir num dado intervalo de tempo, tornando-os cada vez mais lucrativos para o empregador.

Este processo foi acompanhado pela utilização cada vez mais intensiva de combustíveis fósseis, necessários para alimentar o número crescente de máquinas e fábricas. A queima destes combustíveis liberta gases de efeito de estufa (GEE) como o dióxido de carbono para a atmosfera. Estas emissões disturbem o equilíbrio climático que possibilitou o desenvolvimento da civilização humana e no qual esta assenta. Alterações às condições climáticas existentes requerem, no melhor caso, uma adaptação das sociedades à nova realidade e, no pior caso, inviabilizam a existência das ditas tal como as conhecemos.

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Alterações climáticas

A ciência diz-nos que para termos um planeta com condições habitáveis, precisamos de limitar o aquecimento global a menos de 2°C relativamente aos valores pré-Revolução Industrial. Exceder este limite implica uma muito forte possibilidade de mecanismos naturais entrarem em ação, acelerando ainda mais, de forma incontrolável, as alterações climáticas. Isto implica que temos um orçamento de emissões: podemos emitir no total cerca de um bilião de toneladas de GEE, até atingirmos o referido limite. Este número pode parecer grande, mas em 2011 já tínhamos esgotado mais de metade do plafond. Se nada for feito, excederemos este limite já em 2045, o que quer dizer que os próximos 20 anos são decisivos: ou reduzimos eficazmente as emissões de GEE, ou entraremos num período histórico muito difícil. Para Portugal, por exemplo, isto implica reduzir as suas emissões domésticas entre 60% e 70% nas duas próximas décadas.

Este problema será resolvido de uma forma ou outra: ou transformamos as sociedades atuais para sociedades de baixas emissões e adaptamo-las às condições climáticas que entretanto se instalam, fruto das emissões presentes e passadas, ou as alterações climáticas transformam as sociedades atuais da forma que for, sem que o ser humano tenha controlo sobre esse processo. É importante por isso refletir sobre o sistema social atual — a sociedade capitalista — e as soluções que apresenta para responder à questão das alterações climáticas.

O sistema capitalista

O mecanismo que move o capitalismo enquanto sistema económico é a acumulação de capital, ou seja, o objetivo primário da classe capitalista é a acumulação de riqueza — ninguém investe para não ter lucros. Daqui resulta que a ação individual e coletiva dos membros da classe capitalista vai no sentido de maximização dos seus lucros.

Isto é uma necessidade sistémica. Na Natureza existe seleção natural, em que as criaturas bem adaptadas ao meio em que existem sobrevivem e reproduzem-se, e as mal adaptadas perecem. Analogamente, no capitalismo enquanto sistema, também existe uma “seleção natural”: as empresas (capitalistas) bem adaptadas, isto é, lucrativas, sobrevivem e crescem; as mal adaptadas perecem, declaram insolvência. Isto significa que as empresas que não tomem a maximização do lucro como objetivo principal são reprimidas pelo próprio sistema: só atinge e mantém-se na classe capitalista quem tenha como prioridade enriquecer. Pode-se por isso tomar a “ganância” da classe capitalista como uma característica selecionada e promovida pelo próprio sistema.

Maximizar os lucros implica maximizar as vendas e as margens de lucro de cada venda, o que implica maximizar a produção e a produtividade. Tudo o que não vá ao encontro disto é reprimido, como referido. Portanto condutas consideradas moralmente corretas ou a sustentabilidade no sentido não económico nunca são nem podem ser prioridades da classe capitalista. São restrições, que quando impostas por forças “exteriores” aos mercados, condicionam o sistema. As Constituições dos países democráticos são bons exemplos de restrições ao capitalismo, porque impedem a maximização possível do lucro ao abolirem a escravatura, o trabalho infantil ou condições de trabalho desumanas. Claro que existem formas de tornear certas restrições (por exemplo transladar uma atividade económica para países com menor proteção dos direitos humanos) e isso de facto acontece, porque a motivação central do capitalismo não desaparece com a conquista de direitos.

O sistema capitalista é, por isso, inerentemente extrativista[1]: para poder assimilar a realidade, esta tem de ser traduzida, quantificada, em fatores que o sistema reconhece: custos, rendimentos, oferta, procura, lucros… A Natureza é vista como um conjunto de “recursos naturais” e os seres humanos são vistos como “recursos humanos”, meras fontes de riqueza. Isto significa que o capitalismo não vê a Natureza e a sociedade de uma forma objetiva ou científica — só consegue ver uma realidade mercantilizada. Tudo o que o capitalismo reconhece é visto como um negócio ou mercado; tudo aquilo que não pode ser visto como um mercado é invisível para este sistema.

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Uma vez que o capitalismo reduz as interações sociais e físicas a interações económicas, questões ambientais ou sociais só podem ser assimiladas se forem igualmente traduzidas em termos económicos. Insatisfação social só é de facto reconhecida quando se organizam greves, bloqueios ou boicotes que afetam a sociedade na sua dimensão económica; da mesma forma, problemas ambientais só são realmente reconhecidos quando afetam a atividade económica (frequentemente devido à má imagem que um desastre ambiental traz ao negócio que o criou).

Soluções do capitalismo face às alterações climáticas

Dentro da lógica capitalista, reduzir as emissões tem de passar pela criação de mais riqueza e de novos mercados. É esta também a premissa básica do capitalismo verde, que se apresenta como a solução mainstream às questões ambientais e que toma o mercado livre como o principal mecanismo de transição. Se for utilizada menor quantidade de matéria-prima num determinado produto em relação a um outro homólogo, o primeiro torna-se mais barato em relação ao segundo e vai ser preferido pelo consumidor. Um veículo que consuma menos combustível torna-se economicamente mais atrativo. Por outro lado, veículos elétricos são ainda raros, o que significa que existe potencial de mercado para esta nova geração de veículos. Campanhas de sensibilização à população são levadas a cabo, tornando as pessoas mais seletivas no seu consumo, dando preferência a produtos “verdes”, como os referidos veículos elétricos. O mercado tende assim para a maximização do lucro e do ambientalismo.

Em relação à utilização de combustíveis fósseis, o sistema capitalista requer que a sua utilização seja reduzida gradualmente. O gás natural aparece como alternativa ao petróleo e ao carvão como sendo a “energia de transição”, por libertar menos emissões quando queimado. Outra fonte de energia alternativa ao petróleo e carvão proposta pelo capitalismo verde, é a utilização de biocombustíveis. A ideia desta solução é a de que o dióxido de carbono emitido pela combustão seja capturado pelas plantas que são cultivadas para o fabrico do combustível, tornando o processo neutro em termos de emissões.

Outros mecanismos de combate às alterações climáticas incluem a criação de taxas sobre produtos considerados “não-verdes” ou sobre as próprias emissões de GEE. Este último abre portas aos mercados de emissões, onde emissões de GEE podem ser compradas por quem queira emitir acima do seu limite e vendidas por quem não consegue emitir o suficiente, criando toda uma nova área de negócio que promete reduzir a sua própria mercadoria.

Ao nível social, não são apresentadas muitas soluções que não passem por alterar comportamentos individuais, frequentemente ligados ao consumo. As principais soluções de cariz social que são levadas a cabo, não relacionadas com o comportamento individual dos cidadãos, tomam a forma de cimeiras e eventos de cooperação internacional, que resultam em tratados como o Protocolo de Quioto ou o Acordo de Paris, em que governos de todo o mundo comprometem-se a reduzir as suas emissões domésticas, “guiando” os mercados nesse sentido.

Finalmente, a geoengenharia apresenta-se como uma solução emergente (de alto risco) para a crise climática. Consiste em manipular certos parâmetros da Terra como o seu albedo (a capacidade de refletir a luz do Sol) ou em remover artificialmente GEE da atmosfera. De um ponto de vista de mercado, estas soluções não são propriamente atrativas por não trazerem retorno monetário imediato, mas diminuem a necessidade de se reduzir as emissões, concedendo aos mercados tempo para se ajustarem da melhor forma (mais lucrativa) à transição para sociedades de baixas emissões. Por enquanto ainda são encaradas como “soluções de último recurso” a serem implementadas quando os seus riscos forem compensados pelos riscos das próprias alterações climáticas.

Crítica às soluções do capitalismo face às alterações climáticas

As abordagens do atual sistema, baseadas no mercado livre, claramente não estão a funcionar, nem irão funcionar. Por exemplo, simplesmente alterar as fontes de produção de energia útil, que hoje ainda são maioritariamente os combustíveis fósseis, para fontes de energia renovável, é um processo que engloba muitos custos, mas basicamente o mesmo rendimento, o que não é nada atrativo para a sociedade capitalista. Para além disso, o simples facto de que a tecnologia baseada em combustíveis fósseis requer que estes sejam minados ou extraídos, tratados e refinados, transportados e, finalmente, consumidos, faz com que estes sejam excelentes contribuidores para uma economia privatizada, já que a matéria-prima é privada e requer transformação. Em contraste, a luz solar e correntes de ar ou água não são privatizáveis (pelo menos da mesma forma), não requerem refinação ou qualquer tipo de transformação e não podem ser empacotadas nem vendidas. Como a energia renovável não baseada em combustíveis tem uma natureza muito pouco mercantil, o capitalismo tem mais dificuldade em utilizá-la e desenvolvê-la comparativamente à energia proveniente de combustíveis — sejam eles quais forem.

É por esta razão que o gás natural aparece como uma alternativa: por poder ser apresentado como “menos poluente”, mantendo a mesma natureza económica do petróleo e carvão (requer extração, tratamento e transporte) e sem pôr em causa a atividade levada a cabo pela indústria petrolífera, altamente lucrativa. O mesmo acontece com os biocombustíveis, embora os problemas a estes associados sejam diferentes. No papel, as emissões de dióxido de carbono da combustão de biocombustíveis são balançadas pela absorção deste gás pelas plantas que têm de ser cultivadas para o produzir. No entanto se forem tidos em consideração fatores como as emissões associadas à agricultura e à desflorestação necessária para se produzir combustível em massa, esta neutralidade é posta em causa.

No que toca à redução de processos fisicamente irrelevantes, mas economicamente rentáveis, que contribuem para as emissões, esta não é uma opção viável para o sistema capitalista. Exemplos destes processos incluem a produção de armamento, o fabrico de produtos que rapidamente se tornam obsoletos e são incompatíveis com outros de forma desnecessária, de publicidade em massa cujo objetivo é maximizar vendas e não suprir necessidades, entre outros.

Por outro lado, todas as poupanças (de energia, matéria-prima, etc.) que os mercados incentivam não são poupanças de todo, uma vez que, como o crescimento é uma necessidade do sistema, qualquer poupança é aplicada em aumentar a produção, derrotando o seu propósito. As soluções que implicam poupanças reais não são economicamente apelativas, como por exemplo o desenvolvimento de redes de transporte público massivas e eficientes. O transporte coletivo é muito mais eficiente do que o transporte individual e pode substituir o último como o meio de transporte principal de uma sociedade, mas a produção e venda de automóveis em larga escala contribui mais para o crescimento económico, logo é a opção preferida pelo sistema.

As taxas e impostos sobre produtos “não-verdes” são formas de colocar o esforço de redução de emissões sobre o cidadão comum, sem danificar os lucros da classe capitalista. Os mercados de emissões, em funcionamento desde os anos 90, não contrariaram o aumento de emissões que ainda se verifica, por se centrarem na maximização de lucros e não no suposto objetivo de redução de GEE.

Relativamente à geoengenharia, os riscos associados a várias soluções em estudo são absurdamente elevados. Soluções como aumentar o brilho dos oceanos ou a refletividade das nuvens através de químicos têm potencialmente danos colaterais enormes, impossíveis de prever. Não são por isso soluções que promovam a sustentabilidade ambiental de forma alguma; são a derradeira negação do capitalismo a mudanças sociais que o coloquem em causa.

Em suma: numa lógica capitalista de produção desmesurada e de crescimento económico infinito é impossível lidar com um problema que é gerado e alimentado essencialmente por essa mesma lógica.

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Artigo originalmente publicado na Praxis Mag a dia 28 de julho de 2016.

35 horas já! No público e no privado.

Esta quinta-feira, 2 de junho, vota-se no parlamento o diploma que repõe as 35 horas semanais dos funcionários públicos. A aplicação dessa medida, que deveria entrar em vigor a 1 de julho em todos os serviços, tem sido alvo de alguma polémica, depois do governo propor uma reposição faseada em alguns serviços da administração pública.35

A luta pela redução da carga horária semanal de trabalho é urgente: não só para travar a sobre-exploração da vida humana em função da maximização dos lucros e para melhorar o bem-estar dos trabalhadores e das suas famílias, mas, acima de tudo, para fazer frente à crise climática que hoje enfrentamos! O atual sistema económico capitalista assenta sobre princípios de crescimento infinito, estimulando a sociedade para altos níveis de consumo material, o que justifica as elevadas exigências de produtividade impostas às empresas e aos trabalhadores. As pessoas são aliciadas a trabalhar mais para consumir mais, consumos que vão muito além das suas necessidades básicas (não só fisiológicas) como seres humanos.

Num planeta finito com recursos finitos, não há lugar para um sistema económico que tem o crescimento como um fim em si mesmo! Lutar por um planeta habitável implica travar as alterações climáticas e a sobre-exploração da natureza e dos ecossistemas, adaptando as necessidades axiológicas e existenciais do ser humano às disponibilidades da economia e da natureza e redefinindo o conceito de bem-estar das sociedades capitalistas.selo35h-publiquemja Reformular o modelo económico, retirando da equação o crescimento e o consumo desenfreado, traduzir-se-á em menores exigências de produtividade em determinados sectores da economia, retirando pressão sobre os trabalhadores, sem significar uma diminuição do número de postos de trabalho e a degradação da vida humana. Ao contrário, essa reformulação permite a redução de horas de trabalho, que por sua vez é uma pré-condição para implementar um modelo económico que não visa o crescimento, ao mesmo tempo que permite uma distribuição do trabalho existente, garantindo que todas as pessoas têm um trabalho satisfatório.

Um mundo que tem que “desacelerar” para evitar o colapso dos seus ecossistemas é uma das maiores janelas de oportunidade que a humanidade alguma vez teve – urge-se por uma transição para uma economia que respeita os limites da natureza e coloca as necessidades do ser humano acima do capital. Essa é uma economia que terá novos sectores de atividade, que gerará novos postos de trabalho e que os distribui pela sua população, não obrigando à exploração dos trabalhadores e eliminando a precariedade laboral.climaximo logo small

Assim, o Climáximo está ao lado dos trabalhadores na luta pela reposição das 35 horas de trabalho – alcançar essa redução é um passo a mais na construção do único sistema económico que garantirá a prosperidade da Humanidade e do planeta!

Disrupt – Sinan Eden

This is a short note on climate justice, and is linked to the questions in this article, but you could as well move on without reading that one. I write this note for climate justice activists. So I assume we agree that climate change exists, that it’s human-made, that it’s an urgent problem, and that there is an issue of justice in its core.

Kept short, I start with the following statement: The climate crisis is a matter of life or death.

I want to point out to three aspects of it.

Quite flexibleOld-Fadama-Accra

The first one is that capitalism is flexible. Many monarchs survived bourgeois revolutions, archaic privileges of the Catholic church survived republican revolutions, high-ranking party bureaucrats survived the fall of the Soviet union; and companies survived the long-thought-to-be-impossible minimum wage laws and working-hour laws. It is theoretically possible that at some point of history, corporations give enough compromise that we would decide to focus on other priorities. In a way, green capitalism fans are right to a certain extent; and we have to acknowledge how, after decades of counter-revolutionary strategy building, capitalists learned to give up large chunks of their power in order not to jeopardize the socio-economic system as a whole.

Not so flexiblesyria

However, the second trick is that “enough compromise” in the context of climate crisis means disruption. Physics and chemistry do not negotiate: There are tipping points in the Earth systems that, once passed, would accelerate warming irreversibly. Simply put, if we pass a threshold that probably lives somewhere between 1,5°C and 2°C (relative to pre-industrial levels), we will guarantee a 4-6°C warming due to positive feedback mechanisms. Now, we already reached a 0,85°C warming. This means we have very little time left to cut greenhouse gas emissions. And by “very little”, I mean, for instance, that we must stop building energy-related infrastructures that emit greenhouse gases, by next year, worldwide. Capitalism is reformable all-right, but the nature, amount and speed of reforms necessary are too radical to be implemented smoothly. We need to disrupt the system, declare state of climate emergency, and reclaim the power and Power.

Yet flexible

The third trick is that capitalism can adapt to climate change. Latin American history is an encyclopedic compendium of social disintegration going hand in hand with capitalist integration. Middle East is a living example of collapsed societies and imperialist juggling. And then there is sub-Saharan Africa. The engines of capitalism run quite well in these barbaric cases; as a matter of fact, none of the imperialist powers found inconvenient to extend this to North Africa and Ukraine. I mean, climate crisis in itself is not a survival crisis for capitalism, unless we make it one. Entering Decade Zero, the decade in which we will decide whether to rise up or fall down, there is little to no empirical or analytical evidence to hope for a capitalist transition.CbZxOjYW4AAYO8W

So ehm, I said above that this was a matter of life or death. Maybe now I can articulate better: This is a matter of either life for us and death to capitalism, or life for capitalism and death for us. (Just so you get a glimpse of what I’m talking about: In business-as-usual scenarios, some 200 million climate refugees are expected by 2050 – compare to 4 million Syrian refugees and the political and social consequences of it in Europe.) As profit-obsession poses a threat to the world-as-we-know-it, so should we pose a direct threat to corporations.

This is a huge challenge we are facing. In other words, we live in really exciting times. The old world is being shut down in Ende Gelände, in Plane Stupid, in Cerattepe, in Keystone XL. The new world begins here and now, with Climate Jobs campaigns, with energy democracy, with numerous fights on public transport, food sovereignty and self-management.

We live in really exciting times, and this is just the beginning. It is now time to escalate the movements for social and climate justice. Because we don’t have any more time left.

1.2

Isto Muda Tudo por Avi Lewis, baseado no livro de Naomi Klein

JANTAR POPULAR COM FILME E CONVERSA

TCE jantar cartaz

(Fotos do evento, aqui. 🙂 )

Este evento começa com um jantar popular no GAIA e temos um filme para sobremesa:

Realizado por Avi Lewis e inspirado pelo bestseller internacional de não-ficção “This Changes Everything” de Naomi Klein, o filme apresenta sete retratos poderosos de comunidades nas linhas da frente das alterações climáticas, desde a bacia hidrográfica do rio Powder em Montana, EUA, até às areias betuminosas da Alberta, Canadá, desde a costa sul da Índia até Pequim.

Estas histórias de luta estão entrelaçadas com a narração de Klein, fazendo a ligação entre o dióxido de carbono na atmosfera e o sistema económico que aí o colocou. Ao longo do filme, Klein guia-nos até à sua ideia mais controversa e emocionante: que podemos aproveitar a crise existencial das alterações climáticas para transformar o nosso sistema económico falhado num sistema radicalmente melhor.

Este jantar com cinema faz parte de #ActionsForClimate, juntamente com a nossa formação no dia seguinte. Aparece!

***

O que é o Jantar Popular?

– Um Jantar comunitário vegano, biológico e LIVRE DE OGMs que se realiza no GAIA, Rua da Regueira, n 40, em Alfama.
– Uma iniciativa inteiramente auto-gerida por voluntários.
– Um jantar em que podes colaborar! Para cozinhar e montar a sala basta aparecer a partir das 18h. Jantar “servido” a partir das 20h.
– Um projecto autónomo e auto-sustentável. As receitas do Jantar Popular representam o fundo de maneio do GAIA que mantém assim a sua autonomia.
– Um jantar onde ninguém fica sem comer por não ter moedas e onde quem ajuda não paga. O preço nunca é mais de 3 euros.
– Um exemplo de consumo responsável, com ingredientes que respeitam o ambiente, a economia local e os animais.
– Uma oportunidade para criar redes, trocar conhecimentos e pensar criticamente.

Climate Justice and Where To Look For It – Sinan Eden

For months have I been staring at the two graphs in the recent Oxfam report “Wealth: Having it all and wanting more”. They are outrageous for anyone who cares about ecological justice. To me they also tell another story, a story that many many people seem to have missed. It’s an aspect on how the ecological struggle should be framed. Let us start with the graphs:

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We have no idea about the 1%

First things first: We have no idea about the 1% . What do they eat? How much really is the wealth they control? Where do they live?

We cannot even imagine the significant digits in their mindset. In one of his wonderful presentations, Neil deGrasse Tyson, when explaining big numbers, compares his wealth to Bill Gates’ wealth. (Watch a 2-minute excerpt here.) In short: It is simply unimaginable.

Similarly, during a huge corruption scandal in Turkey, phone calls between the then Prime Minister, now President/Sultan/Dictator Tayyip Erdoğan and his son were leaked. They had cash at home to get rid of due to expected police raids. So they gave them away, $35 million to one, $20 million to another… They carefully planned all the payments. Mind you, these were not the savings in a Swiss bank, nor investments, nor the properties they owned! It was only the cash they had at home!

I tried really hard to visualize how much space that would take. Of course, the banknotes I have seen in my life are of such small value (the biggest was a €100 banknote) that I failed to imagine properly.

The 1% is beyond our reach. We have no contact with them, not even in our imagination can we comprehend the wealth they control. (The SUV drivers you see downtown, the tourists in 5-star hotels, they have a comfortable life alright, but they are not the 1 percent.)

And then of course, we have the richest 80 people, the secular saints of capitalism. The 0,000001%. They have more wealth than 3.5 billion people combined.

Take a second to digest these facts.

The big WE: The 99%

Then there is the 99%, the creators of all the wealth in the world. The big WE. What Oxfam calls “the bottom 99%” in its report. We, in different degrees and in different times, suffer from what 350.org coined as “climate disruption”. We have to leave our land because our country will be under water. We survive food and water scarcities worldwide. We are the “last to rescue in case of emergency,” as was seen in New Orleans, USA, during the Katrina hurricane in 2005.

So when environmentalists talk about human-caused global warming, I rush to ask: Which humans? It’s a rhetorical question, of course, that -hopefully- leads to a discussion on capitalism-caused global warming.

But there is something more curious. Even when we understand that neither responsibilities nor risks are equal, there is a difference between what can be done to tackle it.

To be clear, I am talking about, or rather, against the population-control arguments and consumer-choice arguments within environmentalist discourse.

Which population is consuming what? Which population is it that you want to “control”?

In doubt, refer to the above-mentioned graphs: The economic effect of “controlling” 3.5 billion people is equal to “controlling” 80 people. Get rid of 80 people, you’ll save up an immense ecological footprint. But you have to very careful to cherry-pick the 80 ultra-rich people. Of course, it’s not exactly the 80 individuals in question here, it’s the social status of them, their structural role in the system. Their “seat” would be fille2010-03-29-lifestyle-purityd by the 81st ultra-rich when and if one of them disappears. It’s the seat, it’s the role of these 80 people who control almost all production.

Similarly, we can ask: Which consumers should be “responsible” for choosing this apple instead of that apple?

In doubt, refer to the above-mentioned graphs: If you convince all the 99%, each and every single one of them, you would have the power to affect less than 50% of the economy. It is virtually impossible for us to be economical majority. And every moment we spend in our obsessions on green products is not only insignificant, but also a diversion from actual solutions.

It is indeed comforting to think change is hidden in “responsible” choices within the system: Don’t make a baby. Pay more for products to become an ethical person. (read: “Buy your ethics here! Cheap!”)

But we must be realistic. Climate justice is not about the tiny changes in my carbon footprint. It’s about cutting carbon emissions by 65% in a few decades. It’s about wars, it’s about useless mega projects, it’s about the luxuries of the 1% , it’s about advertisements, it’s about the capitalist system. And the only realistic and responsible choice is to fight against it.

Where to look for climate justice

The path to a realistic solution lies in a correction of a sentence I wrote above: “It is virtually impossible for us to be economical majority.” This sentence is valid only after production. Because we are still the majority, and I’m not referring to numbers here. We are “the 99%, the creators of all the wealth in the world”, we have created all the wealth that the ultra-rich accumulated in their “pockets”, we have been collaborating to reproduce the socio-economic system that leads to these inequalities.

There is no shortcut to climate justice, because there is no shortcut to justice. (What makes climate justice so unique is its urgency, not its kind.) We will either continue deluding ourselves by perpetually congratulating each other for buying a second-hand sweatshirt instead of a new one, or we’ll get our facts right and prepare for struggle.