A Caminho da Greve Feminista Internacional | 8 de março de 2019

O QUE É?

A Greve Feminista é uma proposta feita pelo movimento feminista internacional, que convoca uma greve de mulheres como forma de protesto e revolta face às situações de precariedade e violência que invadem as nossas vidas. É o maior movimento mundial de mulheres de paralisação social das últimas décadas, acontece no dia 8 de Março, Dia Internacional da Mulher.

Convoca-se uma greve que transcende o sentido tradicional – a greve laboral -, para estendê-la ao âmbito da reprodução social, a esfera dos cuidados domésticos e familiares, assim como à vida estudantil e à sociedade de consumo. A Greve Feminista Internacional pretende unir as mulheres de todas as partes do mundo construindo redes de solidariedade, de apoio e de aprendizagem transnacionais.

PORQUE É QUE FAZEMOS GREVE?

• Porque em Portugal a violência machista mata, em média, duas de nós a cada mês;
• Porque somos 80% das vítimas de violência doméstica e 90.7% das de crimes sexuais;
• Porque não acreditam em nós quando denunciamos, e nos atribuem a responsabilidade das violências que sofremos;8mar01
• Porque somos as que vivem em alerta permanente, pelo assédio a que estamos sujeitas no espaço público e no local de trabalho;
• Porque é a nós que nos é exigida a conciliação entre a atividade profissional, a maternidade e avida familiar;
• Porque somos as mais pobres na sociedade;
• Porque somos as mais precárias no mercado de trabalho;
• Porque a desigualdade salarial faz com que trabalhemos 58 dias por ano sem receber;
• Porque o trabalho doméstico e de cuidados que sustenta a vida não é partilhado entre homens e mulheres e recai sobretudo em nós, é invisibilizado e desvalorizado;
• Porque a contratação de serviços domésticos reproduz muitas vezes várias desigualdades raciais, de género e de classe, porque é um trabalho frequentemente desenvolvido por mulheres migrantes e racializadas, sem contrato e sem direitos;
• Porque a educação que temos não é economicamente acessível a toda a população e ela
reproduz narrativas hegemónicas, coloniais e capitalistas e reforça as discriminações raciais, sexistas, de classe, de orientação sexual e de identidade de género;
• Porque rejeitamos a sociedade de consumo, que nos condiciona a liberdade e nos transforma em meras consumidoras;
• Porque recusamos a exploração dos nossos corpos e das nossas identidades, os estereótipos que ditam medidas-padrão, ideais de beleza formatados, gostos, comportamentos e promovem estigmas e discriminações;
• Porque estamos comprometidas com as lutas contra as alterações climáticas, contra a
dependência de energias fósseis e em defesa da soberania alimentar;
• Porque rejeitamos as guerras e a produção de armamento. Porque as guerras originam milhões de pessoas refugiadas, entre as quais muitas mulheres e crianças, vítimas de redes de tráfico humano e sexual, da pobreza e da destruição;

PARA QUE FAZEMOS GREVE?

• Para que a o fim violência machista seja uma prioridade da sociedade. Para que não nos matem, para que não nos violem; por uma vida livre de violências machistas;8mar02
• Para conseguir que os trabalhos mais necessários para a sobrevivência e bem-estar das pessoas e sustentabilidade do planeta se situem no centro e substituam aqueles que o destroem;
• Para que a igualdade salarial entre homens e mulheres seja uma realidade;
• Pela redução do horário de trabalho e igualdade nos tempos de descanso e de lazer;
• Para exigir responsabilidade social em relação ao trabalho dos cuidados, o que implica a corresponsabilidade dos homens e do Estado;
• Para que haja respostas públicas de socialização de tarefas domésticas e de cuidados como creches, residências assistidas e de cuidados continuados;
• Pelo direito a uma educação pública e gratuita em todos os seus níveis;
• Por uma educação afetivo-sexual livre de preconceitos sexistas e de livre de agressões machistas e lesbitransfóbicas;
• Para que os produtos de higiene, não poluentes e sem químicos, relacionados com o ciclo menstrual sejam gratuitos;
• Para que se altere a lei da nacionalidade. No mundo ninguém é ilegal! Quem nasce em Portugal é português/portuguesa!
• Para denunciar os efeitos das políticas de encerramento das fronteiras, das fronteiras que levantam muros e cavam valas comuns.

ONDE E COMO FAZEMOS GREVE?

No teu local de trabalho (greve ao trabalho remunerado)

• Se houver pré-aviso de greve do teu sindicato podes não ir trabalhar nesse dia;
• Se no teu trabalho for necessário assegurar serviços mínimos fazer campanhas de
sensibilização, com antecedência, para que estes serviços sejam prestados por homens.
Algumas mulheres não poderão faltar ao trabalho se não lhes são dadas as garantias laborais imprescindíveis, isto é, sem pré-aviso de greve não poderemos faltar ao trabalho mas todas podemos fazer algo:8mar03
• Fazer campanhas com antecedência explicando os motivos da greve no local de trabalho;
• Escrever uma carta ao teu sindicato a apelar a que convoque a greve, a Rede 8 de Março tem uma carta tipo para se enviar aos sindicatos;
• No dia 8 de Março informar sobre a importância da greve feminista e os motivos da greve durante o teu turno.

Em casa (greve ao trabalho doméstico)

• Não levar as crianças à escola
• Não sermos nós, mulheres a lavar a roupa, estender ou passar a ferro;
• Não sermos nós, mulheres as responsáveis por limpar, cozinhar, fazer as camas ou cuidar das crianças ou pessoas idosas.

Sabemos que deixar de cuidar durante um dia não vai provocar grandes mudanças, por isso convidamos a que isto seja o início de uma nova forma de organizar e partilhar os trabalhos de cuidados.

Na escola/faculdade (greve estudantil)

• Organizar previamente acções e debates sobre a greve na tua escola ou faculdade, convida as tuas professoras a participar também.8mar04
• Aprovar a greve feminista junto da associação de estudantes. Lembra-te que em Reunião Geral de Alunxs (RGA) basta haver uma proposta de greve votada e aprovada para vincular a associação de estudantes à greve, não precisas que a ideia parta da associação de estudantes a proposta pode vir das estudantes.
• Não ir às aulas no dia 8 de março.
• Organizar um piquete de greve no dia 8 de março à porta da tua escola/faculdade.

No dia a dia (Greve ao consumo)

Queremos parar de consumir, queremos parar a cidade, mas também queremos criar estratégias de consumo alternativo que respeitem os nossos direitos e as nossas vidas.
• Tentar não comprar nem consumir nenhum produto ou serviço além do imprescindível para a sobrevivência e o activismo nesse dia (electricidade, transporte, alimentos, comunicações, etc);
• Tentar evitar o consumo desnecessário de energia, de água, de papel e de plástico no dia-a-dia e pensar em formas de aproveitamento dos mesmos;
• Diminuir o uso dos aparelhos electrónicos ou investir em aparelhos que consumam menos e que sejam, tanto quanto possível, de produção justa;
• Escolher comércio de proximidade em vez de supermercados;
• Não escolher produtos sobre-embalados e divulgar a ideia de lixo zero (sobretudo com a comida);
• Consciencializar outras mulheres sobre o uso de métodos alternativos aos tampões e mais sustentáveis como o copo menstrual.

ONDE NOS ENCONTRAMOS NO DIA 8 DE MARÇO DE 2019?
Às 17h30 na Praça do Comércio na manifestação feminista
VIVAS, LIVRES E UNIDAS.
SE AS MULHERES PARAM O MUNDO PÁRA!
Rede 8 de Março

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Todas estamos convocadas: Manifesto Greve Feminista Internacional 8 de Março 2019

Juntas somos mais fortes

A cada 8 de Março celebramos a união entre as mulheres e mobilizamo-nos em defesa dos nossos direitos. Somos herdeiras das lutas feministas e das resistências operárias, anticoloniais e antirracistas. Reclamamos o património das lutas pelo direito ao voto, ao trabalho com salário, a uma sexualidade livre e responsável, à maternidade como escolha, à habitação, à educação e saúde públicas. Por todo o planeta, somos as mais traficadas e as mais sacrificadas pela pobreza. Somos do país onde existem 6576 mulheres e raparigas vítimas de mutilação genital1. Somos as sobreviventes da violência de género, que em Portugal mata, em média, duas de nós a cada mês2, 80% das vítimas de violência doméstica e 90.7% das de crimes sexuais3. Somos as vítimas da justiça machista, quando esta fundamenta as suas decisões em preconceitos, e da cultura da violação, que desacredita a nossa palavra e desvaloriza a nossa experiência, procurando atribuir-nos a responsabilidade das violências que sofremos. Somos as que vivem em alerta permanente, porque o assédio no espaço público e no local de trabalho continua a estar presente. Somos múltiplas e diversas, de todas as cores e lugares, de todas as formas e feitios, com diferentes orientações sexuais e identidades de género, profissões e ocupações. Somos trabalhadoras, estudantes, reformadas, desempregadas e precárias, do litoral e do interior, do continente e das ilhas. Somos as invisíveis, as negras e as ciganas. Somos tu e eu, somos nós, somos tantas e tão diversas. A 8 de Março, mulheres em todo o mundo levantam-se em defesa dos seus direitos e mobilizam-se contra a violência, a desigualdade e os preconceitos. Porque as violências que sofremos são múltiplas, a Greve que convocamos também o é. No dia 8 de Março faremos greve ao trabalho assalariado, ao trabalho doméstico e à prestação de cuidados, ao consumo de bens e serviços e greve estudantil.

Basta de desigualdade no trabalho assalariado!

É a nós que nos é exigida a conciliação entre a atividade profissional e a vida familiar, razão que explica que sejamos as que mais trabalhamos a tempo parcial, o que originará reformas e pensões mais baixas no futuro, reproduzindo o ciclo de pobreza. Somos mais de metade das pessoas que ganham o salário mínimo, o que compromete a nossa autonomia financeira. As profissões em que somos a maioria da força de trabalho são muitas vezes social e salarialmente desvalorizadas. Nelas, as mulheres negras e imigrantes são as trabalhadoras mais exploradas e precarizadas. A diferença salarial é, em média, de 15.8%4, ou seja, para trabalho igual ou equivalente, os nossos salários são inferiores, o que faz com que trabalhemos 58 dias por ano sem receber. Os cargos mais bem pagos são ocupados por homens, embora sejam as mulheres as que mais concluem o ensino superior (60.9%)5. A desigualdade salarial com base no género está presente em todo o lado, nas empresas e instituições privadas e públicas. Exigimos salário igual para trabalho igual ou equivalente e a reposição da contratação coletiva como forma de proteger o trabalho e combater as desigualdades. Temos direito a um projeto de vida digno e autónomo: não somos nós quem tem de se adaptar ao mercado de trabalho, é ele que tem de se adaptar a nós. A gravidez ou os cuidados com descendentes e ascendentes não podem ser o argumento escondido para o despedimento ou a discriminação.

Basta de desigualdade no trabalho doméstico e dos cuidados!

Para além do trabalho assalariado, muitas mulheres, sem que a maior parte das vezes isso resulte de uma escolha, têm de desempenhar diversas tarefas domésticas e de prestação de cuidados e assistência à família. Este trabalho gratuito, desvalorizado e invisibilizado ocupa-nos, em média, 1 hora e 45 minutos por dia6, o que corresponde, durante um ano, a 3 meses de trabalho. A contratação de serviços domésticos reproduz muitas vezes várias desigualdades – raciais, de género e de classe, porque é um trabalho frequentemente desenvolvido por mulheres migrantes e racializadas, sem contrato e sem direitos. Reclamamos o reconhecimento do valor social do trabalho doméstico e dos cuidados e a partilha da responsabilidade na sua prestação. Propomos que este tipo de trabalho seja considerado no cálculo das reformas e pensões e defendemos o reconhecimento do estatuto de cuidador/a. Defendemos a redução do horário de trabalho e igualdade nos tempos de descanso e de lazer. Queremos respostas públicas de socialização de tarefas domésticas e de cuidados, das creches às residências assistidas e de cuidados continuados, das cantinas às lavandarias.

Basta de reprodução das desigualdades e do preconceito nas escolas!

Os currículos pelos quais estudamos continuam a contar a história dos vencedores, reproduzindo vieses de género, classe e raça. A praxe académica, onde o poder é exercido por meio da humilhação, reproduz violência machista, lesbitransfóbica e racista, estereótipos e preconceitos de género e objetificação dos nossos corpos. Defendemos o direito a conhecer a nossa história e a das resistências ao machismo e ao colonialismo, as alternativas económicas, culturais e ambientais. Exigimos o direito a uma educação pública e gratuita em todos os seus níveis. Reivindicamos uma escola da diversidade, crítica, sem lugar para preconceitos e invisibilizações, uma escola livre de agressões machistas e lesbitransfóbicas, dentro e fora das salas de aula, uma escola empenhada na educação sexual inclusiva como resposta ao conservadorismo.

Basta de estereótipos e de incentivos ao consumo!

Identificamos nos media, nas redes sociais, na publicidade e na moda a difusão da cultura machista. Rejeitamos a sociedade de consumo, que nos condiciona a liberdade e nos transforma em consumidoras. Não somos mercadoria e, por isso, recusamos a exploração dos nossos corpos e das nossas identidades, os estereótipos que ditam medidas-padrão, ideais de beleza formatados, gostos, comportamentos e promovem estigmas e discriminações. Porque exigimos ser protagonistas das nossas vidas e donas dos nossos corpos, recusamos o negócio em torno da nossa sexualidade e saúde reprodutiva e reclamamos a gratuitidade dos produtos de higiene.

Basta de destruição ambiental!

Recusamos as políticas neoliberais, porque elas são predatórias, destroem a biodiversidade, provocam alterações climáticas e originam milhões de migrantes ambientais, o que dificulta de forma muito particular a vida e a sobrevivência de mulheres, que, em muitas zonas do planeta, são quem se dedica à agricultura e tem a responsabilidade de prover a família de alimentos. Estamos solidárias com as mulheres indígenas que resistem à globalização e estão comprometidas com as lutas contra as alterações climáticas, contra a dependência de energias fósseis e em defesa da soberania alimentar.

Basta de guerra e de perseguição às pessoas migrantes!

Rejeitamos as guerras e a produção de armamento. Para saquear matérias-primas e garantir controlo geopolítico e económico, destroem-se culturas, dizimam-se povos e expulsam-se populações dos seus territórios. As guerras originam milhões de pessoas refugiadas, entre as quais muitas mulheres e crianças, vítimas de redes de tráfico humano e sexual, da pobreza e da destruição. Levantamo-nos pelo fim das guerras, pelo acolhimento das pessoas migrantes e em defesa da alteração da lei da nacionalidade. No mundo ninguém é ilegal! Quem nasce em Portugal é português/portuguesa! Todas estamos convocadas para a Greve Feminista. Todas temos mil e uma razões para protestar, parar, reivindicar. Fazemos Greve porque não nos resignamos perante a desigualdade, a violência machista e o conservadorismo. Fazemos Greve para mostrarmos que as mulheres são a base de sustentação das sociedades.

VIVAS, LIVRES E UNIDAS! SE AS MULHERES PARAM, O MUNDO PÁRA!