Lutar por uma transição alimentar justa

A crise climática tem impactos graves em todos os ecossistemas naturais e humanos, em todos os continentes e nos oceanos. [IPCC, AR5] Se deixarmos o aquecimento global ultrapassar o ponto sem retorno, estes impactos tornar-se-ão incontroláveis e vão piorar durante séculos.

Aumento das temperaturas médias, eventos extremos (como secas crónicas, tempestades, cheias e ondas de calor) mais frequentes e mais fortes, perda de gelo, subida do nível do mar e acidificação dos oceanos são alguns dos impactos diretos da crise climática. Estes são acompanhados por perda de diversidade (até ao ponto em que vários cientistas falam duma sexta extinção em massa), colapso dos ecossistemas, escassez de água, falhas de infra-estruturas e crise alimentar. Estes por sua vez causam epidemias, migrações em massa* e conflitos sociais.

Tudo isto pode tornar-se irreversível se não limitarmos o aquecimento global a 2ºC em relação aos níveis pré-industriais. Isto implica reduzir as emissões de gases com efeito de estufa em Portugal em 60-70% nos próximos 15 anos. As emissões oriundas da produção de animais (metano, mudança do uso do solo e energia) para consumo humano estão estimadas em 7.1 Gt CO2-eq por ano, representando 14.5% das emissões globais. Isto é mais do que o setor dos transportes por inteiro e por isso os padrões de consumo alimentar têm que ser abordados.

A produção alimentar hoje como é feita dentro da política neoliberal visa apenas o enriquecimento de uma minoria (grandes produtores e políticos) e a grande maioria da população mundial continua a alimentar-se mal (com uma dieta nutricional fraca). Esta forma de agricultura devasta florestas e esgotam os recursos naturais como a água, a terra e o ar, os animais e plantas são retirados do seu habitat natural para ter espaço para pastos aos gados e áreas para a produção de soja (esta destinada por quase a sua totalidade ao consumo do animal de corte, hoje alimentamos 70 bilhões de animais para consumo humano). Produzimos muita comida, mas não alimentamos todos e e a maioria dos que alimentamos é de forma precária.eixo1

Neste momento, os sistemas alimentares (como os sistemas energéticos) estão condicionados pelo contexto capitalista em que a produção, a distribuição, o consumo e a gestão estão estruturadas para maximização do lucro. O capitalismo reduz todos os seres e ecossistemas (incluindo humanos, animais, plantas, rios, montanhas) a recursos monetários. A mercantilização da natureza, acompanhada da recente e crescente financeirização dos ecossistemas, do peso da concentração produção agrícola e do transporte a longas distâncias, não só bloqueia uma transição energética como também agrava a crise climática.

Reivindicamos um planeta habitável como um bem comum e olhamos para o consumo alimentar como derivado da forma como a sociedade se encontra estruturada e como as nossas decisões individuais são condicionadas por decisões políticas. Por isso, recusamos a lógica neoliberal que nos define como meros consumidores.

Nós agimos para vencer. E no caso da crise climática, ou vamos vencer tudo ou vamos perder tudo. O que está em causa é o-mundo-tal-como-o-conhecemos.

Reconhecemos a falta de estratégias para uma transição alimentar justa, em que as pessoas e o planeta estejam acima dos lucros. Abrimos uma discussão sobre possíveis reivindicações que podem construir esta transição, numa ótica de justiça social.

Em primeiro lugar, devemos preencher o enorme vazio entre a necessidade dum descontinuação gradual (phase-out) do consumo de carne e inclusão de opções vegetarianas e veganas nos restaurantes. Com vista a colmatar essa necessidade são aqui apresentadas algumas propostas, em que, com pressão social, as câmaras municipais e as juntas de freguesia poderão ser os agentes intervenientes e facilitadores da transição.

Através de programas de formação gratuita para todos os restaurantes e com visitas informativas aos restaurantes e cafés, em poucos anos pode-se construir o conhecimento suficiente para cozinhar opções vegetarianas e veganas. Depois de garantir acesso para todos as e os cozinheiros a estas formações, as administrações locais podem impor a obrigação de todos os restaurantes disponibilizarem opções vegetarianas e veganas de qualidade, incluindo na linha da tradição alimentar local e preferencialmente preparados com produtos locais.

Livros de receitas simples distribuídos a todos os restaurantes poderão ser uma ação suplementar. Entendemos, inclusive que isto poderia criar centenas de postos de trabalho nas câmaras municipais e juntas de freguesia, desde formadores à administração local, até mesmo a inspetores que realizariam vistorias para aos estabelecimentos para garantir que esta transição estaria a ser implementada conforme as regulamentações.

É do nosso entender também que grande parte da população, mais envelhecida e carenciada, que não possui meios económicos dignos de subsistência e não está, de certa forma, a par de todo este paradigma alimentar. Portanto, é necessário que esta informação seja amplamente distribuída nos canais principais de informação (canais televisivos, jornais). Tomamos como exemplo, à semelhança do minuto verde na RTP1, fazer-se uma rubrica semelhante, mas que aborde sumariamente a problemática atual e quais as opções possíveis. Tem que se desmistificar que comer bem é só para quem pode e tem meios para isso.

Assim, com um plano de transição justa e sem deixar ninguém para atrás, podemos reduzir as emissões originadas pelo consumo alimentar de animais. O que é essencial nesta proposta é não impor condições sem preparar a transição: se obrigarmos os restaurantes hoje mesmo a terem opções vegetarianas, uma cadeia de fast food pode sempre inventar um lixo qualquer sem carne e pode continuar a explorar os trabalhadores e o planeta enquanto um restaurante familiar teria problemas de adaptação a esta nova realidade.

Uma segunda proposta é relacionada ao Sistema de Saúde. O governo deve investir em métodos de prevenção ao invés do falido método de tratamento utilizado hoje em todo o mundo. As Câmaras e Juntas devem criar programas para que o sistema de saúde tenha estrutura para junto as comunidades fazerem um trabalho de reeducação alimcolentar, com profissionais preparados para mostrar como deve ser feita a transição a esta alimentação mais saudável e com opções mais acessíveis como por exemplo o consumo direto de produtores locais, com isso num futuro breve já teríamos resultados positivos com pessoas menos doentes e a depender cada vez menos de remédios e planos de saúde (ou instituições hospitalares públicas) e o impacto no meio ambiente seria diretamente proporcional.

Em Portugal (Lisboa e Porto) já existe um programa que auxilia estabelecimentos a incluírem em seus cardápios opções veganas, com o auxilio de profissionais nutricionais durante e depois do processo de inclusão, o governo deve fazer parte destes programas com financiamentos ou parcerias, com isto estaria a garantir uma transição segura e ampla para uma estruturação adequada aos locais de vendas de comida.

Já existe em outros países um programa para implementação de merenda escolar vegana e o governo português pode usa-lo como base (até adaptar, se necessário) nas escolas secundárias do país. Com parcerias com instituições ligadas a saúde, meio ambiente e agricultura é possível ter programas voltadas a ter uma alimentação mais saudável aos alunos, criação de hortas nos colégios para consumo próprio e até vendas a comunidade dos excedentes.

Uma boa parte destas propostas podem dar inspiração para campanhas nas freguesias, nos locais de trabalho, nas universidades e nas escolas. Só com a liderança das populações é que podemos construir propostas concretas e lutas para vencer.

Temos a certeza que as propostas acima mencionadas podem ser melhoradas e concretizadas, e que podemos encontrar muitas mais ideias se trabalharmos juntas e juntos!

Para travar as alterações climáticas, antes que se tornem irreversíveis, temos que agir já! Isto é um compromisso da nossa parte de aprofundar a nossa ação nesta área, mas também um apelo para ti: Junta-te às organizações e aos coletivos pela justiça ambiental e social. Junta-te à luta por uma transição alimentar justa.

Climáximo


* Quando falamos das migrações, é importante referir que para além dos 200 milhões de refugiados climáticos até 2050 no cenário business-as-usual, estamos também a falar de animais: “Muitas espécies terrestres e marinhas têm mudado âmbitos geográficos, atividades sazonais, padrões de abundância e interações entre espécies.” (IPCC AR5 Original: “Many terrestrial, freshwater, and marine species have shifted their geographic ranges, seasonal activities, migration patterns, abundances, and species interactions …”). Aliás, na Rússia, existem florestas inteiras que estão a migrar para o norte – e demasiado lentamente para acompanhar o aumento das temperaturas.

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Climáximo no Veganário 2018

Mudar o consumo para salvar o mundo?

A velocidade da perda de biodiversidade chegou a níveis comparáveis à extinção de massas, porque a humanidade construiu estruturas (sociais e tecnológicas) que destroem ecossistemas inteiros “sem fazer nada de especial” (o chamado business-as-usual).

veganario climáximo

As alterações climáticas são uma das principais razões deste colapso iminente e faltam-nos menos que uma década para travá-las antes de se tornarem irreversíveis (o chamado run-away climate change) e entrarmos num caos climático que muitos cientistas consideram “o fim do mundo como conhecemos”. Isto é o maior desafio que a humanidade alguma vez enfrentou: mudar tudo nas nossas sociedades (da produção até ao consumo, da distribuição até à gestão), e fazer isto nos próximos 5-10 anos.

Para ganhar, temos que confrontar o capitalismo que reduz os ecossistemas às fontes de riqueza monetária e temos de mudar sistemas energéticos e alimentares inteiros.

Como podemos fazer isto acontecer?

Vem conversar connosco no dia 14 de outubro, domingo, às 17h00 no Veganário.

A luta contra a pecuária industrial na luta por uma mudança de sistema

MAM Climaximo

São vários os motivos que conduziram ao estado actual de urgência climática. A indústria pecuária é um dos principais responsáveis. As emissões oriundas da produção de animais para consumo humano estão estimadas em 7.1 gigatoneladas CO2-eq por ano, representando 14.5% das emissões globais derivadas da actividade humana (FAO, 2013)

A pecuária industrial representa um conjunto de práticas que procura essencialmente reduzir os custos de produção ao mínimo absoluto, ignorando sistematicamente a degradação ambiental, as desigualdades sociais, as doenças humanas e o sofrimento animal. Desde a desflorestação para a produção de alimentos para consumo animal, até ao processo digestivo dos animais, estas práticas intensivas emitem grandes quantidades de metano – um gás de efeito de estufa 21 vezes mais potente que o CO2 considerando um período de 100 anos (UNFCCC).

No dia 4 de Junho vai haver em Lisboa, pela primeira vez, uma marcha pela abolição dos matadouros. Esta marcha é organizada pelo Movimento pela Abolição dos Matadouros (MAM), nascido em 2016, que visa contribuir para a erradicação da violência especista, e simultaneamente alertar para os impactos do consumo de animais e dos seus derivados ao nível da saúde humana, da pobreza mundial, e da gestão dos recursos mundiais.

Estamos conscientes que o complexo agropecuário é um dos principais responsáveis pelas alterações climáticas e só com uma mudança dos nossos padrões de produção e consumo, em paralelo com uma acção política concertada com activismo ambiental, poderemos enfrentar o maior desafio que a Humanidade já enfrentou. Assim, parar as alterações climáticas passa também por uma participação concertada na luta contra a indústria agropecuária.

Climáximo