1,5ºC: O mundo vs. O capitalismo – João Camargo

A meta de 1,5ºC de aumento de temperatura até ao final do século é uma meta difícil, diz-nos o mais recente relatório do painel que reúne cientistas e governos de todo o mundo, o Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC). Se esta não for atingida, avançamos para o descalabro dos 2ºC. Este relatório, mais contundente do que é costume, diz-nos uma parte importante do que é preciso fazer, apresentando desafios aos quais o sistema capitalista terá enormes dificuldades de responder. Será mais fácil imaginar o fim do Mundo ou o fim do actual sistema económico?

logo_des_ipcc_0

A divulgação do mais recente relatório do IPCC, aprovado na Coreia do Sul, confirma aquilo que vinha sendo registado pelos termómetros globais e pelas medições atmosféricas por todo o mundo: o aumento da temperatura continua inabalado, acompanhando o aumento também inabalado de emissões de gases com efeito de estufa. Isto depois do Protocolo de Quioto, do Acordo de Paris, depois do consenso científico à volta da existência das alterações climáticas e da origem humana das mesmas.

Se demorámos quase 200 anos a atingir um aumento de temperatura de 1ºC em relação à era pré-industrial, o relatório (num cálculo cauteloso) indica-nos que na década de 2040 chegaremos ao aumento dos 0,5ºC seguintes (com um aumento de 0,2ºC por década). Os trajectos de emissões que os países entregaram para o Acordo de Paris (INDC) farão com que a capacidade de travar o aumento de temperatura nos 1,5ºC se esgote já em 2030 (em vez de 2100, como dizia o preâmbulo do acordo). Essas emissões chegariam a um nível de 52-58 gigatoneladas de CO2 equivalente em 2030.

Para conseguir atingir o objectivo de aumento de 1,5ºC em 2100, o relatório diz que é preciso cortar radicalmente as emissões, a única maneira credível de travar as alterações climáticas, indicando a necessidade de um corte de 45% das emissões globais de dióxido de carbono até 2030 e de atingir a neutralidade carbónica em 2050. Os governos não estão a fazer nada sequer remotamente próximo do necessário (as emissões globais continuaram a aumentar depois de Paris). Para amenizar de algum modo estes cortes, o IPCC introduz alguns passes de fé e mágica: em todos os cenários, o IPCC apresenta cortes de emissões associados a tecnologias que não funcionam, como a captura e armazenamento de carbono, e truques de contabilidade, como a produção massiva de energia a partir de biomassa, principalmente florestal (BECCS). A influência dos Estados Unidos e da Arábia Saudita para evitar acções climáticas concretas faz-se sentir, pressionando para aligeirar a radicalidade do que é necessário fazer e reduzir o alarme do que ocorrerá se não for feito muito mais do que aquilo que foram até agora os compromissos dos governos à escala mundial (mesmo depois de Trump ter anunciado a saída dos EUA do Acordo de Paris).sr15_cover_IPCC

Para se conseguir alcançar estes cortes, será necessária uma mobilização de recursos financeiros e pessoais da magnitude daqueles que foram usados na 2.ª Guerra Mundial, criando dezenas de milhões de empregos (seguramente muitos mais do que aqueles destruídos). Será necessário mobilizar todos os recursos possíveis para um corte radical de emissões, ainda superior àquele que vem no relatório, porque a captura e armazenamento de carbono não funciona. Isso significa mobilizar capital e lucros não para a reprodução de capital e lucros mas para salvar a civilização humana. Negar a própria natureza do capitalismo.

Por outro lado, nas últimas semanas a OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) diz que as emissões vão continuar a aumentar drasticamente nas próximas décadas (2,2% ao ano até 2040) para responder à procura das companhias aéreas e dos carros, que se prevê que venham a duplicar até 2040 (dos actuais 1,1 mil milhões até 2,4 mil milhões). Em Julho, a administração Trump mandou desmantelar os regulamentos para emissões dos veículos, usando como argumento para tal que o aumento da temperatura até 2100 será de 4ºC, pelo que por isso não vale a pena prejudicar a competitividade da indústria automóvel americana. Estes dizem-nos que nos sentemos na pira enquanto o mundo arde. Se aceitarmos as projecções de Trumps e quejandos, não nos resta mais do que o niilismo.

Conseguir travar o aumento de temperatura nos 1,5ºC não é garantir que tudo fica bem. O clima já está muito diferente daquele que existia há três décadas (e mais ainda na era pré-industrial). Com um aumento de 1,5ºC, em algumas regiões do globo, significará um aumento de 4,5ºC. As ondas de calor e as temperaturas extremas aumentarão. No Mediterrâneo, haverá um aumento acentuado de stress hídrico. Haverá mais tempestades tropicais, ciclones, furacões e tufões. A química dos oceanos sofrerá modificações fundamentais, com alterações na biodiversidade e nas cadeias alimentares, com inequívocos impactos nos serviços dos oceanos e disponibilidade de alimento. As falhas nas colheitas agrícolas em muitos locais diferentes do planeta aumentarão. A quantidade de refugiados ambientais e climáticos disparará.

No meio desta discussão, a impotência de governos como o português – ou a sua simples recusa da realidade – alimenta o caminho do colapso. A restante realidade política e social nacional não o confronta muito por isso. Poucos assuntos andarão mais longe do discurso público e mediático em Portugal do que a revolução necessária para salvar o clima e para manter a civilização humana. Por isso passa sem questionamento um novo aeroporto para aumentar o tráfego aéreo, a abertura das fronteiras marinhas para a exploração de petróleo, gás e hidratos de metano, a expansão da rede de gás, a manutenção de centrais a carvão em funcionamento e de concessões petrolíferas absurdas. Para o Governo português, o assunto das alterações climáticas só serve para abrir novas áreas de negócio.

Um programa popular e social para atingir os 1,5ºC, tão radical quanto a Ciência nos aconselha hoje, é a melhor ferramenta política para o futuro – imediato e longínquo. A compatibilização com o “business as usual” do capitalismo, impossível.

Advertisements

Relatório: Lutar para vencer | Report: Fight to win

Lutar para Vencer capaO novo relatório “Lutar para vencer: o impacto no clima do movimento português anti-petróleo” do Climáximo mostra que as recentes vitórias do movimento contra a prospeção e exploração de petróleo e gás em Portugal conseguiram prevenir emissões de gases com efeito de estufa. Os autores concluem que ativismo pode ser a forma mais eficaz de os cidadãos reduzirem os seus impactos climáticos.

*

O movimento anti-petróleo em Portugal preveniu já as emissões de aproximadamente 10 mil toneladas de CO2 nos últimos dois anos, graças ao cancelamento e adiamentos de contratos de exploração de gás e petróleo. O movimento conseguiu pressionar o governo para cancelar, ou não renovar, dois terços dos contratos existentes no início da legislativa e ainda conseguiu fazer adiar o furo de Aljezur do consórcio ENI/GALP, inicialmente marcado para 2016.

As conclusões do estudo são duas: (1) Os movimentos sociais são capazes de produzir resultados incríveis. (2) Participar em movimentos sociais será, possivelmente, a estratégia individual mais eficiente para redução de emissões: as emissões evitadas chegam, por ativista, aos 75% das emissões anuais médias de uma pessoa portuguesa, uma redução muito mais elevada do que em qualquer outra estratégia.

Todas as vitórias são temporárias e parciais, mas os impactos da crise climática não o são. Neste relatório, os autores, Sinan Eden (ativista do Climáximo) e Luís Fazendeiro (ativista da Plataforma Algarve Livre de Petróleo e investigador em transição energética) pretendem celebrar as vitórias do movimento até hoje e apelar à população portuguesa para que se junte a esta luta.

O relatório está disponível em inglês e em português:

Lutar para Vencer

Fight to Win


Fight to Win coverThe new report “Fight to Win: the climate impact of the Portuguese fossil-free movement” by Climáximo shows that the recent victories of the movement against oil and gas projects in Portugal succeeded in preventing a significant amount of greenhouse gas emissions. The authors conclude that activism can be the most efficient way for ordinary people to reduce their climate impact.

*

The fossil-free movement in Portugal prevented approximately 10 thousand tons of CO2 emissions in the last two years, thanks to cancellations and postponements of oil and gas contracts. The movement successfully pressured the government to cancel or not renew two-thirds of the contracts which were valid in the beginning of its mandate, and further forced the Aljezur drill by ENI/GALP -originally set for 2016- to be postponed.

The report has two main conclusions: (1) Social movements are able to produce incredible results. (2) Participating in social movement is arguably the most efficient strategy for each individual in Portugal to reduce her/his greenhouse gas emissions: the avoided emissions reach 75% of annual emissions per activist, a value much higher than any other strategy.

All victories are temporary and partial, yet the impacts of climate crisis are not. In this report, the authors Sinan Eden (Climáximo activist) and Luís Fazendeiro (Plataforma Algarve Livre de Petróleo activist and energy transition researcher) intend to celebrate the victories of the movement until today and invite the Portuguese population to join the fight.

The report is available in English and Portuguese.

Lutar para Vencer

Fight to Win

Lançamento do relatório: “Empregos para o Clima” em Portugal

A Campanha internacional “Empregos para o Clima” existe em Portugal desde 2015 e conta com o apoio de várias organizações cívicas, sindicais e ambientais.

Ao longo do último ano a campanha contou com a colaboração de vários académicos e ativistas para elaborar um relatório sobre os empregos necessários para a transição energética em Portugal.

Que empregos? Em que setores? Com que custos? Que transição? A publicação foca-se nestas e outras questões, avançando a estimativa global de 100 000 novos empregos para reduzir as emissões poluentes de Portugal em 60-70%, em 15 anos.

O lançamento do relatório “Empregos para o Clima” terá lugar no dia 19 de outubro (quinta-feira) pelas 19h no auditório do CES- Lisboa (Picoas Plaza), e contará com a presença de:

Manuel Carvalho da Silva – CES-Lisboa (comentador)
Ana Delicado – Instituto de Ciências Sociais, UL (oradora)
Américo Monteiro – CGTP-IN (orador)
Ana Mourão – Climáximo (moderadora)